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Quem são essas mulheres?

quinta-feira, junho 30th, 2011

A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos. Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Festa em samba-choro-frevente de uma gente que nasceu para esperar o futuro que parece nunca vai chegar — conclui-se a cada manhã acinzentada de escândalos sem-fim. Gananciosos nos roubam o dinheiro; inescrupulosos nos tiram a esperança; impunes nos riem na cara; ricaços nos escarnecem a ingenuidade.

 

A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Deles nos valemos para sonhar; deles nos vestimos para dançar; deles nos imbuímos para fazer de conta que a encrenca não é com a gente. Ela é nossa, sim; como nossos são os ritmos que nos embalam do berço à tumba.

A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Todos feitos para serem como os homens que de tudo e de todas tomam conta. Farra de virilidade para dar e vender; emprestar e tomar. Assim é a nossa música popular do Brasil de calça e cueca; de paletó e gravata-borboleta; voz grossa e gogó saltado. A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Sem tempo para o feminino, a música brasileira feita de choro, de frevo, de samba; de ritmos masculinos e másculos vocábulos se revela pelo canto de seus homens instrumentistas e cantores e compositores e poetas. Desde sempre assim é.

Faz tempo assim não é mais. Há tempos a mulher invadiu a praia que sempre foi masculina; arrombou a festa dos moços; desandou o bolo do rapaz; talhou o leite do vovô; ajoelhou-se o canto ao seu feminino encanto; carimbou seu ventre de mocinha com o som cheiroso de amor. E o cantador transmutou-se em cantadora; o violeiro rendeu-se à viola sem eira nem beira; o estradeiro comeu poeira ao som da estradeira de viola e cantoria bem posta.

A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Antes, Chico Alves, Sílvio Caldas, Jorge Veiga, Cyro Monteiro, Dorival Caymmi, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Dick Farney, Lúcio Alves, Cauby Peixoto, João Gilberto, Jair Rodrigues, Altemar Dutra… É claro que houve Chiquinha Gonzaga, desbravadora. Mas ela não cantava. É claro que havia, há e haverá Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Dircinha Batista, Edith Veiga, Inezita Barroso, Carmélia Alves, Emilinha Borba, Ângela Maria, Maysa… Mas a voz que prevalecia no ar de nossa terra sempre teve o acento da voz masculina. Os cantores eram das multidões; as cantoras, rainhas, quando tanto.

A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Agora nem tanto mais. Hoje ela é predominantemente feminina. Agora, o samba, o frevo e o choro viraram palavras femininas, ao contrário do que indica o gênero de cada uma dessas palavras. Ao menos na interpretação do som que sai da garganta de mulheres que ora povoam o universo da música popular brasileira, o frevo, o choro e o samba tornaram-se, de fato e de direito, fortes palavras femininas.

A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Femininos ritmos. Fêmeos vocábulos. E quase não surgem mais vozes masculinas. Escafederam-se, como que por encanto, os cantores; foram-se; evaporaram-se nos ares brasileiros por onde viajam, aos quatro ventos, as ondas radiofônicas. Quase não há mais intérpretes homens; não existem mais os cantores, ou ao menos não têm aparecido em número suficiente para que possamos trazê-los abundantemente para ouvi-los em nossas casas, carros, computadores, iPods, celulares, rádios, walkmans, MP3 e 4 e que-tais. Hoje, a sensação é que o fenômeno da feminilidade vocal se multiplica geometricamente a cada mês. A vez agora é delas que cantam com voz suave ou estridente; com doçura ou ferocidade; com ardor e paixão; com lágrima e fogo. Elas é que agora são as figuras carimbadas; o trunfo no carteado; a cereja do bolo; a bola a ser jogada; o truco a ser gritado. E todas chegaram e ainda chegam a bordo da mesma nave que um dia já trouxe para esta terra Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Dóris Monteiro, Alaíde Costa, Elza Soares, Nana Caymmi, Nara Leão, Leny Andrade, Clara Nunes, Elis Regina, Gal Costa, Rita Lee, Maria Bethânia, Beth Carvalho, Alcione, Lucina, Quarteto em Cy, Joyce, Rosa Passos, Zizi Possi, Ná Ozzetti, Alzira e Tetê Espíndola, Jussara Freire, Jussara Silveira, Fátima Guedes, Dorina, Ceumar, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Cássia Eller, Bebel Gilberto, Luciana Souza, Marisa Monte e todo o seu variado universo particular sempre ao nosso redor… É tanta a quantidade e a qualidade que acaba a noção de tempo e espaço, e meninas com vozes de sábias mulheres, como Mariana de Moraes, Teresa Cristina, Virgínia Rodrigues e Mônica Salmaso — o que é aquele Noites de Gala, Samba na Rua (2007), meu Deus do céu? —, logo passam de revelações a referências ancestrais e obrigatórias, inconsciente coletivo.

E chegou a hora de Roberta Sá cantar docemente todo o seu Braseiro (2005), fazendo com que a gente diga: Que Belo Estranho Dia Para Se Ter Alegria (2007)! E chegou o momento de Céu brilhar e pôr o seu disco de estreia na Billboard. E agora é a vez de Maria Rita cantando bonito uma (Maria Rita, 2003), duas (Segundo, 2005), três vezes (Samba Meu, 2007). E chegou o instante de Vanessa da Mata respirar Sim o ar do sucesso absoluto em 2007, depois de Essa Boneca Tem Manual (2004) e Vanessa da Mata (2002). E é chegada a hora de Mariana Aydar e seu Kavita 1 (2006); e a temporada é de Angela Evans cantando Um Pouco de Morro Outro Tanto Cidade Sim (2007) depois de um Marítima (2002) e tanto; e a estação atual é de Adriana Moreira interpretando Batatinha; e a quadra agora pertence às sambistas Nilze Carvalho, Fabiana Cozza e Mart’nália, ao suingue de Paula Lima e Luciana Mello e também a Carol Saboya cantando Ao Vivo Live (2006) junto com seu pai Antonio Adolfo.

O que virá depois delas, só quem viver dirá. Cumpre agora reconhecer o fato e buscar apreciá-lo em todo o seu esplendor. Sim, pois fulguram em nossos ouvidos os timbres femininos que nos remontam a tempos em que as mulheres que nos cuidavam a todos — cada um teve a sua —, sejamos nós homens ou mulheres, entoavam cantigas para nos fazer adormecer em berços esplendidamente plenos de amores carinhosos, igual ao choro; nos entretinham com músicas cobertas por lençóis repletos de encanto, como o frevo; nos declamavam acalantos providos de amores incondicionais, abarrotados de paixão, feito o samba.

Mas o que são elas, essas mulheres que nos invadem a alma com suas cantorias tão diversas e ao mesmo tempo tão próximas entre si? Quem são elas para tomar o lugar que parecia cativo dos homens? O que têm elas em comum? O que as difere umas das outras? Mas, se mulheres cantam hoje aquilo que sempre cantaram, por que só agora a cena se tornou um canto cativo delas? Não há respostas satisfatórias a estas e nem a outras que porventura vierem a ser formuladas. Há apenas hipóteses a serem aventadas.

Há a uni-las o bom-gosto na escolha de um repertório que as representam naquilo tudo que são e naquilo tudo o que sonham em vir a ser. Essas mulheres que tanto nos encantam têm uma trilha sonora especial que sinaliza a vida de cada uma delas. Portanto, fazem o que toda mulher gostaria de fazer cantando músicas belas como elas. Há a juntá-las a busca pela contemporaneidade. E há a torná-las comparsas pela música o jeito que têm de se valerem de seus dotes e dons, sem medos nem inseguranças, valendo-se para isso, só de seu desejo de afastarem o medo e de fazerem prevalecer sua auto-estima acima de suas inseguranças.

Hoje, essas mulheres cantam as músicas que dizem respeito àquilo que sentem e da forma como veem o mundo que as cerca. Cantam suas verdades e suas mentiras; seus amores e dissabores. Cantam aos homens que as veneram e também aos que as maltratam. Cantam sempre… É isto: elas, estas cantoras que dominam a cena musical brasileira atual, cantam porque amam cantar muito. Amam porque cantam a toda hora que podem. Cantam! Seja no palco ou no estúdio; seja enquanto preparam a comida ou fazem movimentações bancárias; seja quando estão no chuveiro ou quando vão ninar suas crias. Cantam! Cantam para amar seus homens e também para conquistar seus objetivos… Cantam para serem felizes! Haja tanta música a ser cantada. Essas cantoras são mulheres que têm prazer em abrir a boca e soltar o verbo, a doçura, a ira, a esperança… a voz.

A diferenciá-las, o timbre, a forma como respiram, o jeito como dividem as frases musicais. A torná-las únicas, o gosto que têm por determinado gênero da música brasileira. Elas são como a música brasileira: diversificadas. Elas têm o que a música brasileira tem de melhor: o refinamento, a sensualidade, a poética. Elas retratam a alma cantante que cada um tem dentro do peito aberto para fora de nós mesmos. Feliz é o povo que tem na música feita por suas músicas o destino de ser feliz concretizado. Ao menos através das vozes destas mulheres, tem-se a impressão de que a vida pode ser um pouco menos insossa do que realmente é, sonorizada que está pela voz de mulheres — moças e senhoras — que se entregam com afinco e musicalidade latentes à arte de lindamente, femininamente cantar o que lhes der na telha.

Aquiles Rique Reis é músico e vocalista do MPB 4. É autor de O Gogó de Aquiles (2004) e crítico musical de diversos jornais, nos quais comenta bons lançamentos da música popular brasileira.

 

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Divina dama brasileira

quinta-feira, abril 28th, 2011

Elisete Cardoso. Enluarada mulher. Divina dama brasileira. Nós somos músicos; você, música. És música pelo sexo. Nasceste mulher para ser a música. Cantaste os sons de canções que, por serem de amor, nunca foram demais. Choraste lamentos que senti como meus. Disseste poemas, puxados pelos mais doces “erresâ€, que embalaram sonhos adolescentes, só meus. Magnífica Elisete. Que saudosa torrente de paixão, que emoção! Diferente de todas.
Eu tinha dez anos quando ouvi Elisete pela primeira vez. “Chega de saudadeâ€. Senti que a voz daquela mulher era o palco iluminado. Deixei, então, que se abrisse o teto da minha alma para que salpicasse de estrelas o meu chão. Não, ainda não podia adivinhar que a maior ventura dessa vida poderia ser uma cabrocha, um luar ou um violão.
Ano de 1966. Músico profissional, fui apresentado à música Elisete Cardoso pelo Ciro Monteiro. Desde então e sempre, acompanhei encantado a espantosa evolução artística da nossa maior cantora, da nossa maior música popular. Nossos poucos encontros, naquela época, foram nos bastidores da TV Record em São Paulo, antes do programa Bossaudade, comandado por Elisete e Ciro Monteiro, ou antes do programa do Chico Buarque, Nara Leão, Zimbo Trio e MPB4, Pra Ver a Banda Passar. Surpreendia-me o tratamento gentil, extremamente delicado, dedicado por Elisete a todos. Mas também, e, especialmente, a nós do MPB4. Eu achava, hoje tenho certeza, que aquela doçura para com os que a cercavam vinha da segurança de quem não tinha mais nada a provar para ninguém. Isso, num meio onde os egos eram e são enormes, quase infantis, me cativou profundamente. Dava-me uma segurança danada quando Elisete estava por perto.
Outubro, ano de 1976, Rio de Janeiro. Convite de Carlos Machado, o “Rei da noiteâ€, para que fizéssemos um musical baseado na obra do compositor João de Barro, o Braguinha, na casa noturna Vivará, no Leblon. Elenco: Quarteto em Cy, Lady Hilda, Sidney Magal, Roberto Azevedo, Marina Marcel, Vera Manhães, bailarinas, ritmistas, grande orquestra e… Elisete Cardoso. O Rio Amanheceu Cantando, esse era o nome do musical. A expectativa de todo o elenco era de um sucesso retumbante. Não foi! Mas como foi bom. Só o orgulho, a honra, de dividir o palco com Elisete Cardoso e todo aquele elenco era mais do que suficiente para garantir semanas imensamente felizes. Pelo menos para mim que, assim que chegava ao Vivará, dava religiosamente uma passadinha no camarim da Elisete, que eu já – vejam a pretensão – sentia como amiga para tomar um conhaque com limão preparado pela fiel “irmã†Lurdes. Aliás, como gostava da Lurdes, a Elisete. Conversávamos por alguns instantes e eu deixava-a só em sua preparação para transformar-se na música que tanto amávamos.

PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.

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