Posts para a tag ‘Paulinho da Viola’

Alex Buck, um compositor da pesada

quarta-feira, dezembro 1st, 2010

Irmãos de Som (Fubá Music) é o segundo CD do baterista Alex Buck. Bateria que, na verdade, é o seu terceiro instrumento, pois, iniciando sua trajetória profissional tocando piano e flauta, aos oito anos, só aos onze, a batera passou a ser seu instrumento de fé.
Hoje, aos 29 anos, o paulistano Alex Buck se dedica também a composição e a orquestração. E pela qualidade demonstrada neste seu mais recente trabalho, ele é um multiinstrumentista forjado nas mais variadas formas de criar música.
Nas nove faixas de Irmãos de Som, todas de sua autoria, percebe-se a capacidade que tem Alex de compor e de escrever arranjos. Sem se prender a ritmos que o situem nessa ou naquela praia musical, sua música é vastamente rica; sem demonstrar pobrezas reducionistas, sua escrita, para formações instrumentais as mais diversas, é cheia de inquietudes e de soluções inesperadas; sem se prender ao instrumento que hoje o caracteriza, vale-se com igual mestria do piano, da percussão, do teclado e da escaleta. O resultado é um grande CD de música instrumental e cantada.
A mixagem, a cargo de Homero Lotito e Gustavo Sandes, é a chave mestra a abrir portas para que delas saiam um som francamente atual e permitam uma percepção clara de cada timbre e de cada momento sonoro do trabalho. A qualidade dos músicos convidados por Alex Buck para tocar suas composições é outro fator que contribui para fazer de Irmãos de Som uma pequena preciosidade musical.
O som instrumental diz presente nas primeiras quatro faixas. A primeira delas, “Sobre as Ondas”, tem uma introdução tão lírica quanto extensa, baseada no som da escaleta (Alex Buck) e do violão (Sandro Haick); vêm o tamborim e o teclado; a escaleta sola a bela melodia; entram a bateria e também o sax tenor (Raphael Ferreira), o trompete (Sidmar Vieira) e o clarinete (Alexandre Ribeiro); o baixo (Thiago Alves) improvisa, enquanto, leve e sutil, a bateria faz a levada nos pratos e nas peles; tem início o belo solo do flugelhorn (Sidmar Vieira), que dá vez ao violão, até que, com nova entrada do naipe de sopros e um novo solo do piano, todos levam a música a um ótimo final.
Para homenagear Paulinho da Viola, Alex Buck compôs “Lamento de Compositor” e convidou Fabiana Cozza para cantá-la. Com seu vozeirão grave, Fabiana começa cantando a capella. Sua voz plena ascende ainda mais com a entrada da cuíca (Pirituba); logo se achegam o surdo e o tamborim (Paulinho Timor), o repique de anel (Kaká Sorriso) e o pandeiro (Dil Bandeco); Alex Buck a tudo colore com seu piano vestido para sambar, enquanto o cavaco (Fabrício Rosil) e o violão de seis cordas (Alessandro Penezzi) tiram onda e dão mais corda ao piano e ao sax alto (Cássio Ferreira). E então, todos juntos, irmãos de som, concluem o sambão homenagem, momento dos mais instigantes do CD de Alex Buck, um multiintrumentista e compositor da pesada. A bateria sintetiza sua musicalidade”.
(*) Aquiles Rique Reis, músico e vocalista o MPB4

PDF Creator    Enviar artigo em PDF   

E não é que ele topou, o Chico! (II)

terça-feira, setembro 21st, 2010

Final do ano de 1985. Mesmo sem conseguir pôr em prática algumas ideias e projetos que havia concebido, não quis me candidatar à reeleição para presidente do Sindicato dos Músicos Profissionais do Município do Rio de Janeiro para um mandato de mais três anos. Nas eleições, em 1986, foi vencedora a chapa que apoiei e ajudei a compor. Procurei-a, então, e sugeri uma das minhas ideias que naquele momento achava mais do que oportuna, considerava-a inadiável. Eu lia nos jornais sobre as chuvas no Nordeste, sobre os desabrigados, os que perderam toda a lavoura, suas casas, seus sonhos e esperanças. A sugestão, uma ideia antiga minha, era usar as agências de um grande banco, espalhadas por todo o Brasil, como ponto de vendas de discos. Nesse caso, não um disco qualquer, mas um disco muito especial.

“Se os caras lá fora compuseram e gravaram “We are the world”, por que não nós aqui?” “Legal!”, disseram os músicos da nova diretoria, “mas quem vai amarrar o guizo no rabo do gato?” “É… Quem toca o projeto?”, questionaram em uníssono. “Vou ligar pro Chico Buarque”, falei. Como diz Paulinho da Viola, fez-se “uma pausa de mil compassos”. “Será que ele vai querer ajudar?”, indagaram. “Vou ligar e tentar”, sentenciei.

E não é que ele topou, o Chico!

Uma semana depois, casa do Chico: “É do gabinete do Presidente da Caixa Econômica Federal? Por favor, eu poderia falar com o Marcos? É, Marcos Freire, o Presidente da Caixa… Diga que é o Chico Buarque.” Fumando sem parar e andando de um lado para o outro enquanto falava ao telefone, Chico me olha… às vezes. “Marcos, tudo bem? Olha, tem uma idéia aqui que me parece um ovo de Colombo… Então tá, depois de amanhã você vem ao Rio e a gente se encontra aqui em casa. Vou ver se o Gil e o Caetano também vêm…”

“Gil, é o Chico…” “Caetano, é o Chico…” “Fagner, é o Chico…” Foi assim, disparando telefonemas, que Chico Buarque montou o grupo que compôs “Chega de Mágoa”. Mais de 150 nomes da MPB gravaram-na, assim como, também, “Seca d’água”, de Patativa do Assaré. A tiragem de 500.000 cópias numeradas do disco (até hoje, a industria fonográfica afirma ser impossível numera-las. Claro que não! Eles não têm interesse em expor números e vêm com desculpas, comprovamos, esfarrapadas) foi vendida nas agências da CEF, em todo o Brasil, em apenas duas semanas. Vale dizer que a venda se deu em dez dias úteis e apenas durante o expediente bancário.

Todo o dinheiro arrecadado foi aplicado no projeto Verde Teto, criado pelo já falecido Marcos Freire, especialmente para esse fim. O Verde Teto previa a criação de agrovilas nas regiões mais afetadas pelas chuvas. Os desabrigados tinham que comprovar que ganhavam no máximo até dois salários mínimos para conseguirem um lote de terra, construírem sua casa e plantarem. A Caixa Econômica financiava e dava apoio através de técnicos e engenheiros da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER). O dinheiro arrecadado com a venda do disco serviu para construir as áreas comunitárias das agrovilas, áreas voltadas para atividades culturais e de ensino. Caramba! “(…) Chega de mágoa, chega de tanto penar (…)”

Meses depois, representando o Sindicato dos Músicos, fui até Catende, zona da mata pernambucana, acompanhar o início das obras de construção do Centro Cultural Vinícius de Moraes, o primeiro a ser construído com o dinheiro resultante da venda do disco. Voltei encantado. Intuí, naquele momento, que poderíamos, sim, ser o mundo.

O Chico não foi até Catende, mas topou… E começou. Isso é generosidade.

E a vida seguiu, pois seguir é com ela mesmo, a vida.

Chega de mágoa

                                               Criação coletiva

 Água,

Dona da vida

Ouve essa prece tão comovida

Chega,

Brinca na fonte

Desce do monte

Vem como amiga

Canto,

O nosso canto

Joga no vento uma semente

Gente,

Olha essa gente

Depois da chuva o sol da manhã

Te quero água pra beber

Um copo d’água

Marola branca da maré

Mulher amada

Te quero orvalho toda manhã

Terra,

Olha essa terra

Raça valente, gente sofrida

Chama,

Tem que ter feira

Tem que ter festa

Vamos pra vida

Te quero terra pra plantar

Te quero verde

Te quero casa pra morar

Te quero rede

Depois da chuva o sol da manhã

Chega de mágoa

Chega de tanto penar

PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.

Ler mais: http://blogs.myspace.com/index.cfm?fuseaction=blog.viewcustom&friendId=474166132&blogId=526484297&swapped=true#ixzz0zVnIMWDb

PDF Creator    Enviar artigo em PDF   

Paulinho do samba

quarta-feira, agosto 18th, 2010

Tradução irretocável da harmonia entre o samba de alma negra dos morros cariocas e o som da classe média branca, da zona sul do Rio de Janeiro. Fusão de opostos, catalisador de diferenças: síntese. Só que síntese com nome, sobrenome, apelido e imagem. A imagem é a de um negro de alta linhagem, elegante e educado. O apelido arrasta a música que carrega na alma. O sobrenome Faria tem a tradição do pai, violonista dos melhores que tivemos e Paulo é nome de bamba desde sempre no mundo do samba.

Paulo César Batista de Faria nasceu para ser ponte entre mundos tão diversos quanto geniais da música brasileira. Paulo César Batista de Faria nasceu em 1942 com a missão de ser Paulinho da Viola.

Desde os Foliões da Rua Anália Franco, de Vila Valqueire, subúrbio do Rio de Janeiro, e do Carijó de Botafogo, bairro de classe-média da zona sul carioca, Paulinho vem exercendo sua missão de cantador e fazedor de samba. Desde 1960, Paulo César Batista de Faria vem cumprindo o seu destino de ser Paulinho da Viola.

Sinais se fecharam em sua vida. Pesadelos atormentaram suas noites. Rios passaram caudalosos arrastando seu coração de poeta. Mas, atento, revelava: “(…) Meu pai sempre me dizia/ Meu filho tome cuidado/ Quando eu penso no futuro/ Não esqueço o meu passado (…). Lição de mestre. Discípulo de Candeia, Casquinha, Monarco, Matraca, Picolino, Ary do Cavaco, Paulo da Portela, Natal, Lino, Alvaiade, Ventura, Cartola, Ismael Silva, Zé Kéti e Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola aprendeu que o bom malandro “durante o nevoeiro, leva o barco devagar”.

Ouviu o preconceito dizer que “sambista não tem valor”. Juntou tudo e cantou para o mundo com voz macia e doce: “(…) Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você? (…)”.

Paulinho da Portela, Paulinho da música brasileira, Paulinho da poesia, Paulinho do cantar bonito, Paulinho do meio de campo do Menopausa, time de futebol do “pessoal da música” nos anos 1970. Embates gloriosos contra o time do “pessoal do cinema” no campo do Madureira F. C. Quanto chope gelado no boteco perto do Teatro Casa Grande, no Leblon, preparativo para encarar o sol dominical do verão carioca no subúrbio de Madureira! Tempos de ilusões românticas. Tempos de “conspirações subversivas” no Teatro Opinião ou no Teatro Casa Grande. Tempos idos de juventude onipotente.

Podíamos tudo àquela época, críamos. O “pessoal da música”, o “pessoal do cinema”, o “pessoal do teatro”, enfim, todo o pessoal que freqüentava a Montenegro, bebia no Jangadeiros, lia O Pasquim e amava as musas de Ipanema, cria e sonhava com um mundo melhor que haveríamos de construir com nossos corações e mentes.

Almas que fervilhavam de emoção ao ouvir Clementina de Jesus cantando no Teatro Jovem, no show Rosa de Ouro, dirigido pelo grande Hermínio Bello de Carvalho. Nesse show surgiram Os Quatro Crioulos e entre eles estava Paulinho da Viola. Lá mesmo, no Teatro Jovem, participávamos de debates sobre música brasileira. Ouvíamos compositores novos que tinham músicas para mostrar.

Discutíamos e brigávamos por um samba melhor, por uma música que representasse o que ia no peito daquela pequena legião de fazedores de música. Verdadeiro exército de Brancaleones vindos de toda parte para levar em frente o desejo de perpetuar em arte o sonho de ser feliz. Entre eles estava Paulinho da Viola cantando: “(…) Porque hoje eu vou fazer/ Ao meu jeito eu vou fazer/ Um samba sobre o infinito.”

Tínhamos o futuro, o infinito em nossas mãos. Acho que éramos felizes, apenas fingíamos não saber.

PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004

PDF Creator    Enviar artigo em PDF   

Quando o samba acabou

quinta-feira, julho 15th, 2010

Domingo à tarde. O rádio está ligado numa rádio qualquer. Acabou de tocar uma dessas músicas chatas que o programador jura que os ouvintes adoram ouvir. Entra o locutor: “Faleceu hoje, no Rio de Janeiro, o compositor e cantor José Flores de Jesus. Zé Keti, como era conhecido nacionalmente, estava internado havia quase um mês e teve falência múltipla dos órgãos. Aos setenta e oito anos, o compositor… O enterro será logo mais às dezesseis horas no cemitério…”

A voz do locutor se misturou com o som da buzina de um carro na rua. Um cachorro latiu. Uma freada se ouviu. Imóvel, senti mais frio. O dia de chuva fina me fez ainda mais triste. Pensei: “Acender as velas já é profissão/ Quando não tem samba, tem desilusão/ É mais um coração, que deixa de bater (…)” Ele, que era o samba, deixou de ser. Um mero e formal anúncio decretou seu fim. Desliguei o rádio, fechei as janelas, as cortinas, bati a porta e saí. O samba acabou.

Fui para o Emenda, bar perto da minha casa, em São Paulo. Afogar mágoas, sentir saudades, cantar e contar histórias desse compositor genial, sambista de linhagem pura, homem inteligente, um dos poucos remanescentes da velha geração que fez da malandragem fonte da mais rica inspiração. Apesar de achar difícil, temi que a turma não estivesse lá. Tremia ao me imaginar sozinho naquela tarde. Ainda na porta pude perceber com alívio que estavam quase todos lá. Vi Silvinha, a doidinha, com os cabelos soltos e olhar vago, linda. Vi o Jorginho D’@lencastro, com os cotovelos apoiados na mesa, triste. Vi Carlos Marques Jr. conversando com Seu Manuel, inconsoláveis os dois.

As garrafas vazias de Brahma denunciavam o propósito da turma de tomar um porre naquele domingo chuvoso. Era tudo o que eu precisava. Entrei. Ao lado do tradicional cartaz pintado com caneta hidrocor vermelha: EMENDA, TEMOS ORGULHO DE SER PIOR QUE O SONETO, lia-se outro, certamente também pintado pela Silvinha, só que com hidrocor azul claro: “SE ALGUÉM PERGUNTAR POR MIM, DIZ QUE FUI POR AÍ, LEVANDO UM VIOLÃO DEBAIXO DO BRAÇO”.

Do outro lado da calçada estava o Soneto, boteco igual ao Emenda, só que próspero. Lá, tudo era indiferença. Isto reforçava ainda mais o orgulho da turma da mesa 4. Eram bares diferentes. Gente diferente.

Jorginho D’@lencastro, o mais experiente e vivido de todos os que estavam no Emenda, assumiu a palavra: “Não acho que o momento seja de chorar. Zé Keti cantou a vida em seus sambas. Lembro dele nos filmes do Nelson Pereira dos Santos: Rio 40 graus e Rio Zona Norte. Lembro dele cantando “A Voz do Morro”, “Opinião”, “Acender as Velas”, “Máscara Negra” e “Diz Que Fui Por Aí”. Lembro dele no show Opinião, ao lado de João do Vale e Nara Leão. Lembro dele no Bip-Bip, do Alfredinho, lá em Copacabana. Lembro tanto da alegria dele ao receber o Prêmio Shell 98, ele, que costumava dizer que nunca havia pedido para entrar no salões bacanas da Zona Sul, muito menos pedido pra sair. Lembro dele lançando, lá no Zicartola, os novatos Elton Medeiros e Paulinho da Viola. Não, hoje, definitivamente, não devemos chorar.”

D’@lencastro prosseguiu com lágrimas nos olhos: “Vamos levantar um brinde ao brasileiro Zé Keti, homem simples e trabalhador, como de resto o são aqueles que sobrevivem com dignidade nessa terra tão injusta e desigual. Vamos cantar os sambas geniais de mais um bamba que nos deixa. Fiquemos com sua memória e canto. O samba não morreu. Seu Manuel, manda mais uma Brahma”.

PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004. Zé Keti se foi no dia 14 de novembro de 1999, um domingo. Saudades…

PDF Creator    Enviar artigo em PDF