Posts para a tag ‘músico e vocalista do MPB4’

Música que vem de Curitiba

quinta-feira, setembro 8th, 2011

Para melhor compreender o que é o Trio Quintina, proponho uma pequena conta: dois mais um é igual a dezesseis. A conta não bate, claro, mas certamente dá uma pista do que é o som dos curitibanos Fabiano Silveira, o Tiziu, e dos irmãos Gabriel e Gustavo Schwartz.

  • Ao gravarem seu quinto álbum, Quintina Orquestra Trio (Sete Sóis), os caras, que também compõem individualmente e em parceria entre eles, resolveram provar como é ser uma mini grande orquestra brasileira. Tiziu toca violão de sete cordas e canta; Gabriel vai de clarinete, bateria, flauta, saxes tenor e alto, pífano, flautim, pandeiro, percussão e canta; já Gustavo se desdobra em guitarra, cavaquinho, piano, percussão, pandeiro e também canta.

    A pegada deles é rock e é samba. É sóbria e é delirante. É moderna e é tradicional. Tudo ao mesmo tempo, agora mesmo, já. Suas composições permitem que desenvolvam um conceito autoral que os identifica e impulsiona. Letras criativas, por vezes sutis, às vezes melancólicas, melodias e harmonias instigantes, e uma performance instrumental que os põe à frente do cenário da música moderna. Aliás, imaginá-los no palco é exercício instigante.

    A exatidão com que tocam, contagia. O suingue é presente. Próximos de serem multiinstrumentistas virtuosos, o jeito que o Quintina tem de se desdobrar em mil facetas faz parecer que já se conhece o que tocam. Ainda que interpretem composições próprias e inéditas, tudo soa com uma familiaridade que, numa primeira audição, até espanta. Mas na medida em que os ouvimos mais, percebemos claramente que tudo neles é baseado numa coletividade solidária, revelada em arranjos de extrema criatividade.

    Quase não há espaço entre as catorze faixas do CD, o que cria a expectativa de como o fim de uma se fundirá com o início da outra. E os sopros, principalmente os saxofones, com desenhos marcantes, são peças fundamentais nas orquestrações.

    A guitarra registra contrapontos embalados pelo pulsar pop da bateria. O sete cordas soa bonito, não deixando sentir falta de um contrabaixo. Assim é em “Cuidadoâ€, samba de Gabriel.

    Há uma bela releitura do clássico “Ãgua de Beber†(Tom e Vinícius), e duas composições instrumentais que servem para o Quintina realçar seu prazer de tocar.

    Mas o talento dos três se desvenda pleno em “Culpa†(Gustavo). Tudo começa lentamente… violão e guitarra. A bateria é delicada. E vem um crescendo. A pulsação aumenta. A guitarra deixa de ser melodiosa e distorce o som. A voz de Gustavo vai atrás da intenção explosiva do arranjo. O piano a tudo interrompe. Agora tudo é calma…

    Não à toa me ocorreu aquela conta fajuta lá no primeiro parágrafo, pois para muito além de desafiar conceitos numéricos, o Quintina ainda mais subverte parâmetros musicais e instrumentais. Ao juntar intenções diversas, mesmo que sob o guarda-chuva de ritmos tradicionais, Gabriel, Tiziu e Gustavo trazem em suas músicas um festivo e saudável ar de enérgica música bem-soante.

     

    Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4.

    Create PDF    Enviar artigo em PDF   

    Pois é… Por quê?

    quarta-feira, maio 18th, 2011

    Por que tinha que ser como foi? Podia ter sido mais suave… Como suas músicas. Aquela timidez colossal punha-o contra a parede. Tentar entrar em sua intimidade antes do primeiro gole era acrobacia para trapezista. Sem rede embaixo. Algumas cervejas depois e suas palavras começavam a surgir. Lúcidas. Poéticas… Como suas canções. Um senso de humor despontava luminoso. Um riso brotava da alma. Vinha com um toque de melancolia mal disfarçada. Uma desesperança precoce e dolorida. O que era para ser doce e fluente parecia adquirir peso desproporcionalmente grande à medida que os dias nasciam ou chegava a noite. O momento da criação era sufocado pela angústia contraída num breve espaço de tempo, como uma febre intermitente. Que faz suar frio. Que traz um delírio de nervos à flor da pele.

    Sidnei Miller viveu trinta e cinco anos. Tentou passar pela vida como se as dores do mundo não tivessem como atingi-lo. Levantou uma cortina de fumaça protetora e acreditou ser o suficiente. Achou que podia viver apenas para o momento sublime da criação. Intuiu que seria o bastante fazer nascerem canções magistrais. Elas trariam a paz que tanto almejava. Nunca poderia imaginar que teria de lutar de forma tão inglória pelo sucesso. Que teria o descaso da mídia. Que não teria o reconhecimento dos críticos à época. Que viveria buscando se sentir querido. Ser aceito, apenas.

    E ele buscou o reconhecimento como qualquer outro, mesmo sendo diferente de outros quaisquer. As opções de mercado? Tentou-as todas. Participou de festivais. Em 1968, fez com Eneida e Paulo Afonso Grisoli, no Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro, um show antológico: Carnavália. No mesmo Casa Grande fez ainda Yes, nós temos Braguinha. Gravou dois LPs na Elenco: o primeiro trazia apenas seu nome, Sidnei Miller. Simplesmente, como ele. O segundo foi Do Guarani ao Guaraná. Em 1974, na Som Livre, gravou Línguas de Fogo. Antes, já havia feito pelo menos duas trilhas sonoras para cinema e musicado outras duas peças de teatro. Fez show com a amiga e grande compositora Sueli Costa. Em 1978, dirigido por Hermínio Bello de Carvalho, gravou um belíssimo especial para a TV Educativa do Rio de Janeiro. Contudo, o que ele mais buscou e não encontrou foi o carinho do reconhecimento do seu talento invulgar.

    Mas será que tinha de ser como foi? Será que, de tanto fazer de conta que tudo o fazia contente e que por nada mais precisaria chorar, o fim teria de ser o que foi? A bebida, eterna companheira como seu violão, destruía-lhe a resistência. Mais que a ditadura e seus censores. Mais que a perda de um emprego qualquer na Funarte. Só não mais que o inconformismo por não ser amado e querido por todas as canções compostas nos únicos momentos de sentir-se pleno. O poder da criação, ensina-nos o poeta, é a possibilidade de ver-nos vivos.

    O jornalista Luís Nassif aponta sua sensibilidade de músico bandolinista para além das questões econômicas, para uma realidade antiga: “Tem gente com ‘estrela’, tem gente sem (…) Chico [Buarque] tinha ‘estrela’, Sidnei não.†As estrelas do Sidnei eram as suas músicas, insuficientes, no entanto, para guiar-lhe os passos rumo à vida.

    E o autor de “Estrada e o Violeiroâ€; “O Circoâ€; “Meu Violãoâ€; “Pois É, Pra Quê?â€; “Menina da Agulhaâ€; “Maria Joanaâ€; “Pede Passagem†e tantas outras desistiu. No dia 16 de julho de 1980 Sidnei Miller se matou. Restamos nós, seus admiradores. Cabe-nos chorar sua ausência e apontar aos nossos filhos, netos e amigos quem foi esse que acreditou que ser genial seria suficiente para emocionar um povo.

    PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.

    PDF Download    Enviar artigo em PDF   

    O jongo no liquidificador

    quinta-feira, março 3rd, 2011

    Em atividade há 12 anos, a banda vocal e instrumental Caixa Preta nasceu sob inspiração do jongo de mestre Darcy, um preservador do elemento da ancestralidade: os tambores do jongo, conhecido como a dança das almas.

    Foi a partir dessa fonte encantada, no morro da Serrinha, que fica entre os subúrbios cariocas de Madureira e Vaz Lobo, que os meninos da Caixa se deixaram impregnar pelo amor ao batuque. Desde então, cuidaram de amalgamar ao jongo diversas manifestações musicais que a ele conferissem modernidade. Começava a germinar ali Jongo Contemporâneo (independente), o segundo CD do grupo, cujo som reflete, a um só tempo, tradição e modernidade.

    A salada de frutas que compõe o repertório do álbum nasceu, basicamente, da concepção musical de Augusto Bapt, vocalista e autor das 11 faixas do disco – sendo quatro em parceria com Rodrigo Braga e uma com Seu Jorge e Gabriel Moura.

    Além do já citado Bapt, são mais quatro os integrantes que fazem o jongo contemporâneo da Caixa Preta: Kátia Preta Nascimento (trombone), Marcos Feijão (bateria e percussão), Robertinho de Paula (guitarra, violão de sete cordas e viola caipira) e Joe Lima (baixo e cavaquinho). Todos atentos à memória e à revitalização da cultura musical brasileira.

    Em Cidadão Comum, um rap marcado pelo baixo e pela percussão, a levada do jongo se mistura com a do samba e a do funk, resultando no suingue contagiante de um reggae. A célula rítmica, somada ao naipe de metais, se encarrega de materializar as síncopes e de dar a elas o ar sadio do presente.

    Baile Funk no Terreiro começa num maculelê (ou seria um funk?), que logo desdobra em samba. Não demora e o jongo chega arrepiando. E o som da Caixa Preta assume sua vocação maior: valer-se desse ritmo para criar uma miscelânea sonora de alta voltagem instrumental, dançante, vibrante.

    As congas iniciam Onde Você Pensa Que Vai. A guitarra marca presença. Os metais soam grave. O jongo está ali, vivo em estado primitivo, mas, ainda assim, contemporâneo.

    Santa Ferveção tem letra que denuncia: Santa ferveção/Da favela à beira- mar/A lei da pólvora está/Atirando flechas de contradição. Para cantá-la e tocá-la, a Caixa não economiza em dramaticidade. Nem na força da pegada pop.

    Fogueira do Brasil é samba que remete a um tempo em que protestar era preciso. O canto soa rascante – assim pede a letra. Os metais e os atabaques se espalham. A seguir, Mangue de Sepetiba tem baixo e o naipe de metais em ebulição. A bateria e a percussão brilham.

    E então o mangue dos subúrbios cariocas se une ao mangue do Capibaribe recifense. A música os faz gêmeos. E Chico Science e Augusto Bapt se tornam uma só voz. É a tradição das músicas carioca e pernambucana servindo ao mesmo propósito: atualizar-se para melhor cantar sua gente.

    Assim como a música pernambucana deve a Chico Science e Nação Zumbi a sua revigorização, o jongo deve a mestre Darcy e à banda Caixa Preta a sua contemporaneidade.

    Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

    PDF Creator    Enviar artigo em PDF   

    Receita para ouvir samba

    segunda-feira, dezembro 20th, 2010

    Samba bom tem de ter ritmistas que criem alvoroço e façam a cabrocha gastar a sola da sandália; tem de ter surdo de marcação, caixa e repinique; tem de ter cavaco, banjo e violão de sete. Certo? Sim, mas não obrigatoriamente.

    Quer confirmar isso? Ouça o CD O samba transcendental de Marcos Ozzellin(foto) (selo JSR). Minimalismo: lá estão presentes em todas as catorze faixas uma percussão leve, um violão seguro e a voz afinada do intérprete. Não há mágicas nos arranjos nem seduções dançantes. Há, sim, um apelo à audição de melodias e de letras que marcaram o repertório do samba brasileiro.

    Com produção e arranjos de Arnaldo Souteiro, a seleção permite a Marcos Ozzellin demonstrar ser um bom sambista. Paulista de São Bernardo do Campo, ele despontou mesmo foi na nova Lapa Carioca, reduto do pessoal que ama o samba, desde o mais tradicional até o que é composto por novos compositores que por ali brotam cheios de qualidade.

    Tudo começa com “Sambou, Sambou†(João Donato e João Mello), uma bela sacada, pois este bom samba andava meio esquecido. O violão suingado de Geraldo Martins e o tamborim de Wilson Chaplin (que parece ser tocado com o dedo, tão leve é sua baqueta) se encarregam de valorizar a melodia e os versos. E a voz agradável de Marcos se sai muito bem. Suas divisões equivalem a uma chave que lhe abre as portas do mundo dos grandes do samba.

    Para tocar “Treze de Ouroâ€, o bem-humorado samba de Herivelto Martins e Marino Pinto, o violão agora está nas mãos de Rodrigo Lima e a percussão continua com a categoria de Wilson Chaplin. A letra, cheia de gracejos da melhor qualidade, serve para o cantor bem dividir os versos e comprovar sua boa dicção.

    E vem um clássico de Dorival Caymmi, “O Dengo Que a Nega Temâ€. Rodrigo continua ao violão e Chaplin na percussão. O canto de Ozzellin sai fácil, bom de ouvir. Só que, ao alterar uma nota da melodia do refrão (“É dengo, é dengo, é dengo, meu bem/ É dengo o que a nega temâ€), ele tira um pouco do sabor da obra do mestre. Não fica claro se tal mudança resulta de desatenção ou é, digamos, uma “licença melódicaâ€. 

    “Deixa†tem o surdo tocado por Souteiro acrescido à percussão. Começa lento, só com o violão dedilhado. Marcos canta suavemente, até que há uma modulação e o ritmo acelera, o que dá ainda mais nuança a esse que é um dos mais belos sambas da dupla Baden e Vinícius.

    Ithamara Koorax participa de “Bocochêâ€, outro grande samba de Baden e Vinícius. O desenho do violão tocado Rodrigo Lima é criativo, o que enseja a Ithamara e a Marcos darem mais emoções aos versos. Uma modulação permite que o encontro deles se torne ainda mais vigoroso.

    José Roberto Bertrami participa com seu teclado em “Como Será o Ano 2000?†(Padeirinho da Mangueira). Outros ótimos sambas vêm. A saideira é com “Saudaçõesâ€, de Egberto Gismonti e Paulo César Pinheiro.

    Finda a audição, aquilo de menos ser mais faz mais do que sentido, torna-se receita alternativa para se ouvir samba.

    Aquiles Rique Reis é músico e vocalista do MPB4

    PDF    Enviar artigo em PDF