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Saudade de Gonzaguinha

quinta-feira, fevereiro 3rd, 2011

 

Quando ele nasceu o São Carlos tremeu. Imbalançou. Veio em frenético galope. O arvoredo, em desalinho, desenhou a figura do menino no topo da copa mais alta. Bem lá em cima o vento uivou um gemido.

A mãe na labuta, né, mãe? Lavar louça é preciso, né, mãe? Navegar não é preciso, tá, mãe? Pega minha mão. Solta não. Tenho medo das manhãs de abril. Meus olhos não deixa ninguém furar, tá, mãe? Não nasci pra ser Assum Preto. Galopar é preciso. Imbalança, mãe.

Ao som do vento que canta ao sol me vou. Eu quero ser feliz, mãe. Vou pro mundo. Correndo desesperadamente atrás da bola de fogo. Mas não vou só. Teu menino nunca estará só, mãe. Tenho companheiros para enfrentar os furacões, traçar os caminhos, escolher os descaminhos. Dar bom-dia à tempestade. Chorar a saudade de ti, mãe. Vem comigo.

Teu menino é forte. Mas ele tem medo. Carrego comigo o cantar da minha gente. Ela precisa de mim, mãe. Vou pra vida a galope. Me dá um cheiro, mãe. Vou descer o São Carlos. Vou voar.

A música é meu ofício. Vou subir o São Francisco. Vou pras terras do meu mundo. Grito. Alerto. Do chão levanto a poeira que há de cegar o carrasco. Canto noite e dia. Beijo bocas. Dou prazeres que não consigo ter. Sinto dores que não suporto sentir. Tenho medo do céu de abril. A florada da mata inunda meus olhos. Uivo à lua cheia meu sonho de liberdade. Tudo é chama. Clamo por justiça, mãe. Germinei a terra fértil. Meu coração bate em outros peitos. Gerei pequenos frutos. Viver é preciso. Imbalança, mãe.

Quando ele cresceu o Brasil muito que aprendeu. Vertigem no galope desenfreado. A floresta segurou e protegeu seu moleque. Lá do alto da mais alta de todas as copas veio o vento. O gemido.

Sou das estradas. Fiz meu ninho lá no alto daquele coqueiro. Meu coração quer sair do corpo a galope. Não tá dando pra segurar. Imbalança. Minhas lembranças querem se apagar na beira daquele mar. Imbalança, imbalançá. Vim a galope, a galope vou voltar. Preciso das Minas. Ar pra respirar. Sinto o peito sufocar. Tenho meu canto. Vou galopar. Imbalança. Meu pai dizia: “Minha vida é andar por esse país”. Eu vou atrás, mãe. É meu destino. Por ele choro e canto. Saudade, mãe. Tua benção, pai.

Manhã de abril. Não consigo ver a beleza das matas. Galopo. Não tô enxergando, mãe. Me pega, pai. Me aperta, mãe. Não vai dar. Imbalança. Não dá pra descansar. Eu quero essa vida mudar. Eia minha gente, imbalança!

Vou a galope. Pra onde, pai? No que eu posso ainda acreditar, mãe? Só sei que minhas crianças, em sua infinita pureza, me ensinaram a beleza. Muito aprendi por aí, com elas. Estou voltando ao começo, pai. Tenho medo. É manhã de um abril qualquer. Não tá dando pra segurar. Meu coração vai explodir, mãe…

Vem, meu moleque, imbalança, imbalançá!

Gonzaguinha morreu num acidente de carro. Era uma manhã de abril de 1991.

PS. Este texto foi inspirado em algumas das canções compostas e cantadas por Luiz Gonzaga do Nascimento Jr. A ele, minha amizade. Saudade.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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O poeta cantador de loucas ficções

terça-feira, novembro 9th, 2010

Roney Giah lançou seu quarto disco Queimando a Moleira (independente). O trabalho, no qual todas as músicas são de sua autoria, demonstra um compositor ampliando sua identidade musical. Compositor e guitarrista, no CD ele toca violão de sete cordas sem, contudo, valer-se das baixarias que a sétima corda propicia.
Roney é também arranjador, cujo grande mérito foi dar asas à inventividade e à sensibilidade de Mario Manga (violoncelo) e de Alexandre Ribeiro (clarinete), que juntos dão amplitude às intenções dos versos e aos intervalos melódicos de onze das dezoito músicas do álbum. Some-se a eles o baixo acústico de Maurício Biazzi e temos uma trinca com enormes recursos, a dar requinte à perspectiva musical desejada pelo autor. Liberdade e criatividade das quais também se valem Toninho Ferragutti e seu acordeom para um espetáculo de rara competência.
Cantor de recursos limitados, sua voz dá conta de revelar imagens e conceitos criados pelo versejador. E a força de sua música vem justamente das palavras que soam como que vindas da imensidão de um delírio, como que fugidas das profundezas do que restou para ainda ser dito.
Suas letras são ora leves, ora estranhas; ora dolentes, ora incandescentes; ora diretas, ora metafóricas… Imprevistas.
Valendo-se do que hoje se rotula como chamber pop (música pop de câmera), na qual a melodia funciona quase como um pano de fundo que busca sonorizar a intenção de cada verso, o cantar resulta num “falar melodioso”, como se todos estivessem a serviço de refletir o pensamento do letrista.
E é aí que brilha, reafirmo sem temor de ser redundante, o talento do Roney Giah arranjador: violão de sete cordas, baixo acústico e piano Fender Rodhes (Nado Silva e Piu) seguram a onda da harmonia e das levadas, permitindo ao clarinete e ao clarone de Alexandre Ribeiro, ao acordeom de Toninho Ferragutti e ao violoncelo de Mario Manga ficarem liberados para flutuar em múltiplos improvisos, com os mais inspirados desenhos melódicos.
“Estamos Seguros Debaixo do Meu Cobertor”, a primeira faixa do CD, começa com o baixo marcando o ritmo. O clarinete dá sinal de vida. Giah inicia o canto. O piano se ajunta ao cello. Logo a voz de Dandara Modesto se junta à de Roney para cantar o refrão que repete o título da música.
“Ãcaro” tem letra que diz: “(…) Parecia ser tão certo, era o sonho ser feliz ou chegar perto/ E ter apenas um motivo pra acordar e desejar a paz/ Mas múltiplos enganos no decorrer da história/ Eu acho tão humano duvidar da vitória/ Conquistas e derrotas são como o mar e a gaivota (…)”. O clarinete boia sobre as águas do canto e da letra. Junto com o violão de sete, o baixo elétrico marca, lembrando as canções folk norte-americanas.
Feito Ãcaro, como um argonauta atarantado, as palavras conclusivas de Roney Giah se confundem com as inconclusivas, abrindo espaço para o absurdo e para a incoerência, tudo findando em músicas cativantes.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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Agora cinqüentão, fazer sucesso continua sendo a sina de Zeca Pagodinho

quinta-feira, outubro 28th, 2010

Desde que foi descoberto por Beth Carvalho em 1981, Zeca Pagodinho é um ótimo compositor e intérprete. Naqueles anos 1980, seus discos vendiam mais do que banana na xepa da feira. Seus shows seduziam multidões. A grana entrava farta. Mas, depois de muito vai e vem, ele experimentou o gosto amargo de um declínio que no caso de muitos foi fatal – pois nunca mais arribaram: foi do céu ao inferno, sem parada nem pro cafezinho.

Hoje, ele sabe que não pode vacilar novamente porque quem muito bobeia é mané e quem repete o vacilo é burro, daqueles de cangalha e tudo. Mas a galera, a que sempre curtiu sua voz e suas músicas, esteve todo o tempo do seu lado, firme e forte.

Mesmo com algumas dúvidas atazanando suas ideias, Zeca demonstrou saber das artimanhas, que indicam a melhor hora para dar um cavalo de pau e “arrecuar os arfes pra evitar a catastreâ€. Afinal, ele, Arlindo Cruz e Beto Sem Braço afirmaram: “Camarão Que Dorme a Onda Levaâ€. E Pagodinho decidiu se tornar um profissional de fato e de direito. A boa maré voltou ainda mais caudalosa.

O sincopado do samba é seu compadre. Sua voz, a parceira fiel que não o abandona por nada. O mundo do samba é a sua vida, o fundo do quintal será sempre o seu porto seguro. Fazer sucesso é a sina de Zeca.

O samba continua e a vida vai junto. Pagodinho, agora cinquentão, segue o dito de cantar para seus males espantar. E continua sendo, hoje e sempre, uma fonte de satisfação para os que curtem a música que sai da sua garganta e da sua alma.

Mas por outro lado, hoje ele é também um valioso “produto†descoberto por televisões e por publicitários que têm a noção exata do quanto sua imagem vale em milhões de cifrões.

Sujeito à superexposição, que já vem de algum tempo (e de bom grado, é bom que se frise), Pagodinho virou “Zeca-Feira†em uma propaganda de cerveja. E tome de vender “loura geladaâ€.

Zeca se transformou num baita levantador de audiência. O programa “x†da TV “y†está mal das pernas? Ora, traz o Zeca que o Ibope sobe. Simples assim. Tudo graças à sua espontaneidade e a uma sabedoria que cala fundo no imaginário de quem a publicidade costuma catalogar em classes B, C e D – além de não fazer feio junto à chamada classe A.

O público que aumenta a receita da cervejaria e vai para a frente da telinha quando ele aparece quer é ouvi-lo cantar, acima de qualquer apelo midiático. Pois o samba está com Zeca Pagodinho. E é nele, o samba, que este grande artista popular apostará para continuar a ser um grande cantor e compositor por muitos e muitos anos. Assim é o Zeca.

Vida longa, propaganda de cerveja– grande Zeca Pagodinho! –, irmão de sangue do samba, este que não agoniza e nem morrerá enquanto houver grandes intérpretes feito você.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

Este texto é uma versão condensada do meu artigo “Zeca Pagodinho completa 50 anos – o samba está com eleâ€, publicado no Livro do Ano 2010, da Enciclopédia Barsa Planeta.

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