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Um virtuoso tocando Tom Jobim

sexta-feira, junho 10th, 2011

Qual instrumentista é mais virtuoso? É o que tira sons limpos, com os dedos revelando-se ágeis e precisos? O que tem mais pegada, fazendo-nos mal respirar, tamanha a excitação provocada por sua apaixonada interpretação? Seria mais virtuoso o que se dedica a criar delicadas belezas a partir de uma leitura especial da obra com a qual se propôs a nos tocar o coração? Ou seria mais talentoso o músico que homenageia os autores, respeitando suas concepções originais?

Se o talento andar de mãos dadas com a sensibilidade, se o instrumento revelar sonoridade e limpeza e o instrumentista possuir boa técnica, se nos emocionar tanto quando sua pegada é suave quando ela é vigorosa, se sua alma musical nos surpreender, dando seu melhor à harmonia e à interpretação, nos fazendo crer que o que toca é algo mais próximo da plenitude, mas sem excessos banais… São todos igualmente virtuosos. Mas há que perceber e valorizar cada uma dessas qualidades, pois uma não desmerece a outra.

Vamos ao CD Tom Jobim para violão – Daniel Murray (Delira Música). Produzido por Paulo Bellinati, é o segundo álbum do violonista e arranjador que agora mergulha no complexo, profundo e instigante oceano musical tomjobiniano.

Parte de uma seleção impecável de catorze temas, nos quais Tom dividiu a criação com diversos parceiros. Bem… Aqui há o senão do trabalho: em nenhum lugar, nem na capa, nem na contracapa, muito menos no release, estão nomeados os que dividiram com Tom Jobim a responsabilidade de criar as canções que desde sempre fazem a música brasileira ser ainda mais rica e diversificada. Voltando… Na seleção musical se destacam algumas das mais belas parcerias do maestro soberano com Vinícius de Moraes: Por Toda Minha Vida, Chora Coração, Estrada Branca, A Felicidade e Luiza.

Há também músicas feitas com Chico Buarque: Imagina e Eu Te Amo. E seis temas apenas de Tom Jobim: Antigua, Tema para Ana, Chanson Pour Michelle, Garoto, Gabriela e Bate-Boca (choro cujo título foi sugerido por Chico Buarque), bem como uma com Aloysio de Oliveira, Eu Preciso de Você.

Para tocá-las, Daniel buscou a concisão e a delicadeza. Suas interpretações abrangem a totalidade das intenções primeiras do autor. Assim, Tom está presente, vivo e desnudado apenas por um violão soberbamente tocado.

Os arranjos expressam todas as ideias instrumentais concebidas pelo talento tomjobiniano. O violão não compete com o conteúdo que expressa; vale-se dele para, pleno de criatividade, ser ainda mais instigante. O ambiente sonoro é de extrema paz. Cada faixa escutada agrega um prazer maior ao ato de se deixar levar por algo tão vibrante e terno.

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim e Daniel Murray se somam para multiplicar por dois o que parecia incomensurável. Ao dividirem seus talentos, autor e intérprete se acrescentam e agregam fortuna ao que parecia nem precisar de tanto mais para ser ainda muito melhor.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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Luiz Meira, um músico em progresso

quarta-feira, janeiro 5th, 2011

Depois de tocar com alguns grandes nomes da música, o catarinense Luiz Meira, além de bamba na guitarra e no violão, demonstra ser também bom cantor e bom letrista. Em seu segundo CD, Te Chamo Felicidade (independente), há cinco letras dele. Em onze faixas, nas quais ele se reveza no violão e na guitarra, Meira confirma ter bom balanço, avivado por divisões rítmicas dignas de um sambista de respeito, e uma voz afinada que trata com carinho os versos que interpreta.

Logo de cara, dois sambas sacudidos chamam a atenção do ouvinte pelo suingue contagiante. Neles, a voz de Meira é agradável surpresa, enquanto sua guitarra e seu violão demonstram, com grande pegada, a energia do instrumentista. Tanto o primeiro, Vestido Novo (Jean Mafra e Luiz Meira), quanto o segundo, Libera o Bicho (Jean Garfunkel e Paulo Garfunkel), trazem a ótima base instrumental que pontificará ao longo do disco: Marco Brito (piano e teclados), Nema Antunes (baixo elétrico), Erivelton Silva (bateria) e Pirulito (percussão).

Então vem nova letra de Meira, Quando Vens (com Jean Mafra). Samba mais lento dos que os que o antecederam, o arranjo abre suave, tendo violão a dialogar com piano, bateria e baixo, todos fazendo cama para a voz de Meira, plena de originalidade, deitar e rolar. O intermezzo é do violão. Logo todos se reencontram.

O ritmo ligeiro volta quando Meira se junta a Zeca Baleiro para cantar Desasado (Jean Garfunkel e Luiz Meira), samba bem-humorado que propicia suingue malandro à dupla de bons cantores.

Chega a primeira das duas faixas instrumentais: Começar de Novo (Ivan Lins e Vitor Martins). Delicadamente o violão dedilha os compassos da introdução. Cabe a ele tocar a melodia, tendo piano, bateria e o baixo acústico de Jorge Helder (que toca ainda em outras duas faixas) a ampará-lo. O teclado faz cortina para um vigoroso improviso de Meira… Ouçam esta, Ivan e Vitor, vocês vão adorar.

Pra Ficar no Ponto (Dudu Falcão e Danilo Caymmi) é um ótimo samba. Ao ouvi-lo, cheio de ginga, torna-se inevitável lembrar de Geraldo Pereira. Estou quase certo de que João Gilberto nunca o ouviu; caso contrário, imagino, o teria gravado.

O clássico Autum Leaves (Joseph Kosma, Jacques Prevent e Johnny Mercer) é outro instrumental em inédita versão de samba. O violão faz uma levada ligeira, com apoio de leve percussão e acompanha a melodia até que a guitarra assume as rédeas e arrasa num inspiradíssimo intermezzo. O baixo apoia. Meu Deus!

A cozinha, agora também contando com a percussão de Alexandre DaMaria, embala os dois sambas finais: o esperto Respeito É Bom (Jean Garfunkel, Tatiana Cobbett e Luiz Meira) e o romântico Você Chegou Pra Ficar (Jean Mafra, Jean Garfunkel e Luiz Meira).

As divisões do sambista se destacam. A genialidade e o bom gosto do instrumentista se superam. Tudo isso através de um músico que não tem barreiras musicais impedindo o progresso contínuo de sua musicalidade.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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