No dia nove de Julho de 1980, um edema pulmonar matou o poeta. Décadas depois, continuamos a chorar sua morte. Odeio a morte. Tenho medo da morte. A morte é fria. A morte leva, impiedosa, os melhores de nós. Nos priva, secamente, dos mais queridos que temos, a morte. Insaciável e ameaçadora, paira agourenta sobre aqueles que nunca deveriam nos deixar, a morte.
VinÃcius de Moraes, poeta da música brasileira. Parceiro de Tom Jobim, Baden Powell, Toquinho, Chico Buarque, Pixinguinha e tantos outros, sua benção. VinÃcius de Moraes autor do hino da UNE (União Nacional dos Estudantes), feito com Carlinhos Lyra, sua benção.
Desde menino, ainda estudante em Niterói, VinÃcius era para mim o maior. Como eu o admirava. Eram dele as canções de que eu mais gostava. Àquela época, 64/65, nós, do MPB4, éramos “macacos de auditório†dos nossos mestres vocais: Os Cariocas. Onde Severino Filho, LuÃs Roberto, Badeco e Quartera cantassem, lá estarÃamos nós, babando. Fosse numa gravação no estúdio da Philips (hoje, Universal) no centro do Rio de Janeiro ou num show no Teatro Santa Rosa, Ipanema-RJ, pegarÃamos a velha Cantareira e lá Ãamos, ávidos por ouvir nossos Ãdolos. Aliás, foi depois de um show do Baden, no mesmo Teatro Santa Rosa (não existe mais o Teatro Santa Rosa, que pena!) que fomos aos camarins e lá estavam, além dele, Os Cariocas e VinÃcius de Moraes. Nós, que tÃnhamos um vastÃssimo repertório de… três músicas, atendendo a pedido do maestro Severino Filho – após termos sido apresentados por ele ao poeta –, cantamos tudo o que sabÃamos. VinÃcius adorou. Elogiou e aplaudiu nossas qualidades vocais, o bom-gosto do repertório e nos incentivou para que não esmorecêssemos. Não… Vem cá, digam a verdade, é mole? Quantos jovens sonham com estÃmulo como esse? E não encontram… Sermos aplaudidos, literalmente, por Baden Powell, Os Cariocas e VinÃcius de Moraes naquele camarim foi uma benção.
Ano de 1966, estávamos na casa do AloÃsio de Oliveira, dono da gravadora Elenco (essa gravadora é um capÃtulo à parte na história da Música Popular Brasileira), na Avenida Epitácio Pessoa, Lagoa, zona sul do Rio de Janeiro. AloÃsio nos convidara para gravar nosso primeiro disco na sua Elenco e então fomos à sua casa acertar alguns detalhes do contrato que seria assinado. De repente, a campainha toca e, glorioso, adentra o gramado: VinÃcius de Moraes. Como diria o nosso grande baterista Wilson das Neves: “Ô sorte!†Se o AloÃsio já gostava do nosso trabalho, que dirá então agora quando o poetinha der sua opinião sobre a gente, pensamos num unÃssono silencioso. Parecia coisa combinada, coisa de filme.
VinÃcius sentou-se numa poltrona à nossa frente, uisquinho na mão. Ouvindo praticamente as mesmas músicas que já havÃamos cantado para ele no camarim do Teatro Santa Rosa, meses atrás. Não sorria, estava diferente, o VinÃcius. Não aplaudiu entusiasmado quando acabamos de cantar “A Fábricaâ€, de Sérgio Ricardo. É… Estava bem diferente naquele dia, o VinÃcius. Vimos quando ele foi pegar outra dose. Na volta, de pé, bem à nossa frente, trovejou: “Vocês são uns merdas… Sérgio Ricardo é uma merda… Esse tal de Chico Buarque, outra merda… Essas músicas são umas merdas… Vocês todos são uns merdas…†Mesmo não sendo gênios, concluÃmos: deu merda! Das grandes!
AloÃsio, que tinha ido levar o poeta até um taxi, voltou com umas pizzas e, gentilmente, não tocou no assunto. Apenas comemos as pizzas. Meses depois gravamos nosso primeiro long-play na Elenco.
Anos após, reencontramos VinÃcius de Moraes na casa dele, em Itapuã, Salvador, Bahia. E rimos, como rimos. Cantamos juntos músicas de Sérgio Ricardo, de Chico Buarque e nos divertimos. Muito. Era assim o poeta. ImprevisÃvel e genial.
PS. Este texto foi publicado, originalmente, em meu livro “O Gogó de Aquiles”, lançado em 2004 pela A Girafa Editora.








