Por que tinha que ser como foi? Podia ter sido mais suave… Como suas músicas. Aquela timidez colossal punha-o contra a parede. Tentar entrar em sua intimidade antes do primeiro gole era acrobacia para trapezista. Sem rede embaixo. Algumas cervejas depois e suas palavras começavam a surgir. Lúcidas. Poéticas… Como suas canções. Um senso de humor despontava luminoso. Um riso brotava da alma. Vinha com um toque de melancolia mal disfarçada. Uma desesperança precoce e dolorida. O que era para ser doce e fluente parecia adquirir peso desproporcionalmente grande à medida que os dias nasciam ou chegava a noite. O momento da criação era sufocado pela angústia contraÃda num breve espaço de tempo, como uma febre intermitente. Que faz suar frio. Que traz um delÃrio de nervos à flor da pele.
Sidnei Miller viveu trinta e cinco anos. Tentou passar pela vida como se as dores do mundo não tivessem como atingi-lo. Levantou uma cortina de fumaça protetora e acreditou ser o suficiente. Achou que podia viver apenas para o momento sublime da criação. Intuiu que seria o bastante fazer nascerem canções magistrais. Elas trariam a paz que tanto almejava. Nunca poderia imaginar que teria de lutar de forma tão inglória pelo sucesso. Que teria o descaso da mÃdia. Que não teria o reconhecimento dos crÃticos à época. Que viveria buscando se sentir querido. Ser aceito, apenas.
E ele buscou o reconhecimento como qualquer outro, mesmo sendo diferente de outros quaisquer. As opções de mercado? Tentou-as todas. Participou de festivais. Em 1968, fez com Eneida e Paulo Afonso Grisoli, no Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro, um show antológico: Carnavália. No mesmo Casa Grande fez ainda Yes, nós temos Braguinha. Gravou dois LPs na Elenco: o primeiro trazia apenas seu nome, Sidnei Miller. Simplesmente, como ele. O segundo foi Do Guarani ao Guaraná. Em 1974, na Som Livre, gravou LÃnguas de Fogo. Antes, já havia feito pelo menos duas trilhas sonoras para cinema e musicado outras duas peças de teatro. Fez show com a amiga e grande compositora Sueli Costa. Em 1978, dirigido por HermÃnio Bello de Carvalho, gravou um belÃssimo especial para a TV Educativa do Rio de Janeiro. Contudo, o que ele mais buscou e não encontrou foi o carinho do reconhecimento do seu talento invulgar.
Mas será que tinha de ser como foi? Será que, de tanto fazer de conta que tudo o fazia contente e que por nada mais precisaria chorar, o fim teria de ser o que foi? A bebida, eterna companheira como seu violão, destruÃa-lhe a resistência. Mais que a ditadura e seus censores. Mais que a perda de um emprego qualquer na Funarte. Só não mais que o inconformismo por não ser amado e querido por todas as canções compostas nos únicos momentos de sentir-se pleno. O poder da criação, ensina-nos o poeta, é a possibilidade de ver-nos vivos.
O jornalista LuÃs Nassif aponta sua sensibilidade de músico bandolinista para além das questões econômicas, para uma realidade antiga: “Tem gente com ‘estrela’, tem gente sem (…) Chico [Buarque] tinha ‘estrela’, Sidnei não.†As estrelas do Sidnei eram as suas músicas, insuficientes, no entanto, para guiar-lhe os passos rumo à vida.
E o autor de “Estrada e o Violeiroâ€; “O Circoâ€; “Meu Violãoâ€; “Pois É, Pra Quê?â€; “Menina da Agulhaâ€; “Maria Joanaâ€; “Pede Passagem†e tantas outras desistiu. No dia 16 de julho de 1980 Sidnei Miller se matou. Restamos nós, seus admiradores. Cabe-nos chorar sua ausência e apontar aos nossos filhos, netos e amigos quem foi esse que acreditou que ser genial seria suficiente para emocionar um povo.
PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.





