“O samba só quem tem gogó pode levar/ Num samba só o sacudir e o segurar/ Sair regendo todos nós/ Com a batuta de uma voz/ que nem alguém que fosse o spalla e o maestro ao mesmo tempo/ Tem que ser bam-bam-bam na roda de bamba/ Mostrar que tem samba no maxilar/ Fazer chover e desfazer pro sol brilhar/ Um levitar com ginga e marcação/ Feito empinar a pipa de uma multidão/ No chão, dispensando o caminhão Ele é a própria anunciação do carnaval da Mangueira/ José, como o pai da santa fé/ Clementino, igual Quelé/ Mãe da gente brasileira/ Ninguém é melhor do que ninguém/ Mas a arte que a gente tem é brincadeira… / Ateia o sonho e a empolgação/ Quem é que não precisa de ilusão? / Então, a alma fica inteira/ Ao vê-lo cantando com tanta paixão/ Mesmo quem não tem amor pela sua bandeira/ Fica tomado de lágrimas por Jamelãoâ€.
Esta é a letra de “A Voz do Samba”, música de Vicente Barreto e Celso Viáfora. Nos versos, o poeta Viáfora traduz a reverência respeitosa que todos nós, brasileiros com um mÃnimo de vergonha na cara, devemos ter com esse que é um dos maiores cantores de ontem, de hoje e sempre: José Bispo Clementino dos Santos, o Jamelão.
O timbre de sua voz é grave. O tom de sua voz é extremamente agudo. Jamelão tem o grave mais agudo da música brasileira. Ele é a emoção mais sincera, o sentido de divisão melódica mais sutil, o repertório impecável. Seu mau humor uma lenda sempre disponÃvel para quem ousar pagar para ver.
Profissional competente, extremamente dedicado, Jamelão é a soma de requisitos para um bom intérprete. Vê-se naquele homem negro como uma figura de Portinari, a conjunção de dons que possibilitam o surgimento de um fenômeno. Ele encarna com naturalidade essa realidade.
Ele encara com simplicidade o fato de ter a força vocal de um jovem principiante para cantar durante o tempo do desfile da Estação Primeira de Mangueira. Passos firmes, voz colocada, a letra do enredo flui nÃtida e forte. A Mangueira desfila bem, a Mangueira desfila mal, mas Jamelão é sempre igual, genial… Não muda nunca o Jamelão, graças a Deus.
Sempre que a diretoria da escola anuncia a intenção de transformá-lo no enredo para um futuro carnaval qualquer, ele, para não perder a fama de mau, desdenha, irrita-se, mas no fundo compreende que a homenagem seria mais do que justa. Ele é a Mangueira, seu enredo permanente e imutável. Ele é criador e criatura. Tudo junto pela música, pelo samba. Todos juntos pela memória de um povo que precisa cantar, dançar e ser feliz.
Jamelão certamente não gostará nem um pouquinho dessa história de ser um pajé da música brasileira. Ficará uma fera, esbravejará, dirá que isso é coisa de quem não tem o que fazer, que isso e que aquilo… Não importa. Como creio que a Mangueira tem a obrigação de torná-lo enredo de um dos próximos carnavais, tenho a certeza de que todos os brasileiros deveriam ler o enredo da vida do mestre. Entendê-lo para ouvi-lo. Conhecê-lo para melhor admirá-lo. Sejamos curiosos com a vida e a obra de Jamelão.
Vamos aos sebos garimpar seus LPs. Vamos à s lojas encomendar seus CDs. Vamos cantar as músicas que ele canta. Vamos saber sobre seu futuro, quais são seus planos para shows, onde poderemos assisti-lo. E… Puxador é a mãe!
PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004. Jamelão se foi algum tempo depois. Saudades…
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Jamelão
quinta-feira, agosto 26th, 2010Paulinho do samba
quarta-feira, agosto 18th, 2010
Tradução irretocável da harmonia entre o samba de alma negra dos morros cariocas e o som da classe média branca, da zona sul do Rio de Janeiro. Fusão de opostos, catalisador de diferenças: sÃntese. Só que sÃntese com nome, sobrenome, apelido e imagem. A imagem é a de um negro de alta linhagem, elegante e educado. O apelido arrasta a música que carrega na alma. O sobrenome Faria tem a tradição do pai, violonista dos melhores que tivemos e Paulo é nome de bamba desde sempre no mundo do samba.
Paulo César Batista de Faria nasceu para ser ponte entre mundos tão diversos quanto geniais da música brasileira. Paulo César Batista de Faria nasceu em 1942 com a missão de ser Paulinho da Viola.
Desde os Foliões da Rua Anália Franco, de Vila Valqueire, subúrbio do Rio de Janeiro, e do Carijó de Botafogo, bairro de classe-média da zona sul carioca, Paulinho vem exercendo sua missão de cantador e fazedor de samba. Desde 1960, Paulo César Batista de Faria vem cumprindo o seu destino de ser Paulinho da Viola.
Sinais se fecharam em sua vida. Pesadelos atormentaram suas noites. Rios passaram caudalosos arrastando seu coração de poeta. Mas, atento, revelava: “(…) Meu pai sempre me dizia/ Meu filho tome cuidado/ Quando eu penso no futuro/ Não esqueço o meu passado (…). Lição de mestre. DiscÃpulo de Candeia, Casquinha, Monarco, Matraca, Picolino, Ary do Cavaco, Paulo da Portela, Natal, Lino, Alvaiade, Ventura, Cartola, Ismael Silva, Zé Kéti e Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola aprendeu que o bom malandro “durante o nevoeiro, leva o barco devagarâ€.
Ouviu o preconceito dizer que “sambista não tem valorâ€. Juntou tudo e cantou para o mundo com voz macia e doce: “(…) Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você? (…)â€.
Paulinho da Portela, Paulinho da música brasileira, Paulinho da poesia, Paulinho do cantar bonito, Paulinho do meio de campo do Menopausa, time de futebol do “pessoal da música†nos anos 1970. Embates gloriosos contra o time do “pessoal do cinema†no campo do Madureira F. C. Quanto chope gelado no boteco perto do Teatro Casa Grande, no Leblon, preparativo para encarar o sol dominical do verão carioca no subúrbio de Madureira! Tempos de ilusões românticas. Tempos de “conspirações subversivas†no Teatro Opinião ou no Teatro Casa Grande. Tempos idos de juventude onipotente.
PodÃamos tudo à quela época, crÃamos. O “pessoal da músicaâ€, o “pessoal do cinemaâ€, o “pessoal do teatroâ€, enfim, todo o pessoal que freqüentava a Montenegro, bebia no Jangadeiros, lia O Pasquim e amava as musas de Ipanema, cria e sonhava com um mundo melhor que haverÃamos de construir com nossos corações e mentes.
Almas que fervilhavam de emoção ao ouvir Clementina de Jesus cantando no Teatro Jovem, no show Rosa de Ouro, dirigido pelo grande HermÃnio Bello de Carvalho. Nesse show surgiram Os Quatro Crioulos e entre eles estava Paulinho da Viola. Lá mesmo, no Teatro Jovem, participávamos de debates sobre música brasileira. OuvÃamos compositores novos que tinham músicas para mostrar.
DiscutÃamos e brigávamos por um samba melhor, por uma música que representasse o que ia no peito daquela pequena legião de fazedores de música. Verdadeiro exército de Brancaleones vindos de toda parte para levar em frente o desejo de perpetuar em arte o sonho de ser feliz. Entre eles estava Paulinho da Viola cantando: “(…) Porque hoje eu vou fazer/ Ao meu jeito eu vou fazer/ Um samba sobre o infinito.â€
TÃnhamos o futuro, o infinito em nossas mãos. Acho que éramos felizes, apenas fingÃamos não saber.
PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004

