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Paulinho do samba

quarta-feira, agosto 18th, 2010

Tradução irretocável da harmonia entre o samba de alma negra dos morros cariocas e o som da classe média branca, da zona sul do Rio de Janeiro. Fusão de opostos, catalisador de diferenças: síntese. Só que síntese com nome, sobrenome, apelido e imagem. A imagem é a de um negro de alta linhagem, elegante e educado. O apelido arrasta a música que carrega na alma. O sobrenome Faria tem a tradição do pai, violonista dos melhores que tivemos e Paulo é nome de bamba desde sempre no mundo do samba.

Paulo César Batista de Faria nasceu para ser ponte entre mundos tão diversos quanto geniais da música brasileira. Paulo César Batista de Faria nasceu em 1942 com a missão de ser Paulinho da Viola.

Desde os Foliões da Rua Anália Franco, de Vila Valqueire, subúrbio do Rio de Janeiro, e do Carijó de Botafogo, bairro de classe-média da zona sul carioca, Paulinho vem exercendo sua missão de cantador e fazedor de samba. Desde 1960, Paulo César Batista de Faria vem cumprindo o seu destino de ser Paulinho da Viola.

Sinais se fecharam em sua vida. Pesadelos atormentaram suas noites. Rios passaram caudalosos arrastando seu coração de poeta. Mas, atento, revelava: “(…) Meu pai sempre me dizia/ Meu filho tome cuidado/ Quando eu penso no futuro/ Não esqueço o meu passado (…). Lição de mestre. Discípulo de Candeia, Casquinha, Monarco, Matraca, Picolino, Ary do Cavaco, Paulo da Portela, Natal, Lino, Alvaiade, Ventura, Cartola, Ismael Silva, Zé Kéti e Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola aprendeu que o bom malandro “durante o nevoeiro, leva o barco devagar”.

Ouviu o preconceito dizer que “sambista não tem valor”. Juntou tudo e cantou para o mundo com voz macia e doce: “(…) Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você? (…)”.

Paulinho da Portela, Paulinho da música brasileira, Paulinho da poesia, Paulinho do cantar bonito, Paulinho do meio de campo do Menopausa, time de futebol do “pessoal da música” nos anos 1970. Embates gloriosos contra o time do “pessoal do cinema” no campo do Madureira F. C. Quanto chope gelado no boteco perto do Teatro Casa Grande, no Leblon, preparativo para encarar o sol dominical do verão carioca no subúrbio de Madureira! Tempos de ilusões românticas. Tempos de “conspirações subversivas” no Teatro Opinião ou no Teatro Casa Grande. Tempos idos de juventude onipotente.

Podíamos tudo àquela época, críamos. O “pessoal da música”, o “pessoal do cinema”, o “pessoal do teatro”, enfim, todo o pessoal que freqüentava a Montenegro, bebia no Jangadeiros, lia O Pasquim e amava as musas de Ipanema, cria e sonhava com um mundo melhor que haveríamos de construir com nossos corações e mentes.

Almas que fervilhavam de emoção ao ouvir Clementina de Jesus cantando no Teatro Jovem, no show Rosa de Ouro, dirigido pelo grande Hermínio Bello de Carvalho. Nesse show surgiram Os Quatro Crioulos e entre eles estava Paulinho da Viola. Lá mesmo, no Teatro Jovem, participávamos de debates sobre música brasileira. Ouvíamos compositores novos que tinham músicas para mostrar.

Discutíamos e brigávamos por um samba melhor, por uma música que representasse o que ia no peito daquela pequena legião de fazedores de música. Verdadeiro exército de Brancaleones vindos de toda parte para levar em frente o desejo de perpetuar em arte o sonho de ser feliz. Entre eles estava Paulinho da Viola cantando: “(…) Porque hoje eu vou fazer/ Ao meu jeito eu vou fazer/ Um samba sobre o infinito.”

Tínhamos o futuro, o infinito em nossas mãos. Acho que éramos felizes, apenas fingíamos não saber.

PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004

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Quando o samba acabou

quinta-feira, julho 15th, 2010

Domingo à tarde. O rádio está ligado numa rádio qualquer. Acabou de tocar uma dessas músicas chatas que o programador jura que os ouvintes adoram ouvir. Entra o locutor: “Faleceu hoje, no Rio de Janeiro, o compositor e cantor José Flores de Jesus. Zé Keti, como era conhecido nacionalmente, estava internado havia quase um mês e teve falência múltipla dos órgãos. Aos setenta e oito anos, o compositor… O enterro será logo mais às dezesseis horas no cemitério…”

A voz do locutor se misturou com o som da buzina de um carro na rua. Um cachorro latiu. Uma freada se ouviu. Imóvel, senti mais frio. O dia de chuva fina me fez ainda mais triste. Pensei: “Acender as velas já é profissão/ Quando não tem samba, tem desilusão/ É mais um coração, que deixa de bater (…)” Ele, que era o samba, deixou de ser. Um mero e formal anúncio decretou seu fim. Desliguei o rádio, fechei as janelas, as cortinas, bati a porta e saí. O samba acabou.

Fui para o Emenda, bar perto da minha casa, em São Paulo. Afogar mágoas, sentir saudades, cantar e contar histórias desse compositor genial, sambista de linhagem pura, homem inteligente, um dos poucos remanescentes da velha geração que fez da malandragem fonte da mais rica inspiração. Apesar de achar difícil, temi que a turma não estivesse lá. Tremia ao me imaginar sozinho naquela tarde. Ainda na porta pude perceber com alívio que estavam quase todos lá. Vi Silvinha, a doidinha, com os cabelos soltos e olhar vago, linda. Vi o Jorginho D’@lencastro, com os cotovelos apoiados na mesa, triste. Vi Carlos Marques Jr. conversando com Seu Manuel, inconsoláveis os dois.

As garrafas vazias de Brahma denunciavam o propósito da turma de tomar um porre naquele domingo chuvoso. Era tudo o que eu precisava. Entrei. Ao lado do tradicional cartaz pintado com caneta hidrocor vermelha: EMENDA, TEMOS ORGULHO DE SER PIOR QUE O SONETO, lia-se outro, certamente também pintado pela Silvinha, só que com hidrocor azul claro: “SE ALGUÉM PERGUNTAR POR MIM, DIZ QUE FUI POR AÍ, LEVANDO UM VIOLÃO DEBAIXO DO BRAÇO”.

Do outro lado da calçada estava o Soneto, boteco igual ao Emenda, só que próspero. Lá, tudo era indiferença. Isto reforçava ainda mais o orgulho da turma da mesa 4. Eram bares diferentes. Gente diferente.

Jorginho D’@lencastro, o mais experiente e vivido de todos os que estavam no Emenda, assumiu a palavra: “Não acho que o momento seja de chorar. Zé Keti cantou a vida em seus sambas. Lembro dele nos filmes do Nelson Pereira dos Santos: Rio 40 graus e Rio Zona Norte. Lembro dele cantando “A Voz do Morro”, “Opinião”, “Acender as Velas”, “Máscara Negra” e “Diz Que Fui Por Aí”. Lembro dele no show Opinião, ao lado de João do Vale e Nara Leão. Lembro dele no Bip-Bip, do Alfredinho, lá em Copacabana. Lembro tanto da alegria dele ao receber o Prêmio Shell 98, ele, que costumava dizer que nunca havia pedido para entrar no salões bacanas da Zona Sul, muito menos pedido pra sair. Lembro dele lançando, lá no Zicartola, os novatos Elton Medeiros e Paulinho da Viola. Não, hoje, definitivamente, não devemos chorar.”

D’@lencastro prosseguiu com lágrimas nos olhos: “Vamos levantar um brinde ao brasileiro Zé Keti, homem simples e trabalhador, como de resto o são aqueles que sobrevivem com dignidade nessa terra tão injusta e desigual. Vamos cantar os sambas geniais de mais um bamba que nos deixa. Fiquemos com sua memória e canto. O samba não morreu. Seu Manuel, manda mais uma Brahma”.

PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004. Zé Keti se foi no dia 14 de novembro de 1999, um domingo. Saudades…

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