Tradução irretocável da harmonia entre o samba de alma negra dos morros cariocas e o som da classe média branca, da zona sul do Rio de Janeiro. Fusão de opostos, catalisador de diferenças: síntese. Só que síntese com nome, sobrenome, apelido e imagem. A imagem é a de um negro de alta linhagem, elegante e educado. O apelido arrasta a música que carrega na alma. O sobrenome Faria tem a tradição do pai, violonista dos melhores que tivemos e Paulo é nome de bamba desde sempre no mundo do samba.
Paulo César Batista de Faria nasceu para ser ponte entre mundos tão diversos quanto geniais da música brasileira. Paulo César Batista de Faria nasceu em 1942 com a missão de ser Paulinho da Viola.
Desde os Foliões da Rua Anália Franco, de Vila Valqueire, subúrbio do Rio de Janeiro, e do Carijó de Botafogo, bairro de classe-média da zona sul carioca, Paulinho vem exercendo sua missão de cantador e fazedor de samba. Desde 1960, Paulo César Batista de Faria vem cumprindo o seu destino de ser Paulinho da Viola.
Sinais se fecharam em sua vida. Pesadelos atormentaram suas noites. Rios passaram caudalosos arrastando seu coração de poeta. Mas, atento, revelava: “(…) Meu pai sempre me dizia/ Meu filho tome cuidado/ Quando eu penso no futuro/ Não esqueço o meu passado (…). Lição de mestre. Discípulo de Candeia, Casquinha, Monarco, Matraca, Picolino, Ary do Cavaco, Paulo da Portela, Natal, Lino, Alvaiade, Ventura, Cartola, Ismael Silva, Zé Kéti e Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola aprendeu que o bom malandro “durante o nevoeiro, leva o barco devagar”.
Ouviu o preconceito dizer que “sambista não tem valor”. Juntou tudo e cantou para o mundo com voz macia e doce: “(…) Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você? (…)”.
Paulinho da Portela, Paulinho da música brasileira, Paulinho da poesia, Paulinho do cantar bonito, Paulinho do meio de campo do Menopausa, time de futebol do “pessoal da música” nos anos 1970. Embates gloriosos contra o time do “pessoal do cinema” no campo do Madureira F. C. Quanto chope gelado no boteco perto do Teatro Casa Grande, no Leblon, preparativo para encarar o sol dominical do verão carioca no subúrbio de Madureira! Tempos de ilusões românticas. Tempos de “conspirações subversivas” no Teatro Opinião ou no Teatro Casa Grande. Tempos idos de juventude onipotente.
Podíamos tudo àquela época, críamos. O “pessoal da música”, o “pessoal do cinema”, o “pessoal do teatro”, enfim, todo o pessoal que freqüentava a Montenegro, bebia no Jangadeiros, lia O Pasquim e amava as musas de Ipanema, cria e sonhava com um mundo melhor que haveríamos de construir com nossos corações e mentes.
Almas que fervilhavam de emoção ao ouvir Clementina de Jesus cantando no Teatro Jovem, no show Rosa de Ouro, dirigido pelo grande Hermínio Bello de Carvalho. Nesse show surgiram Os Quatro Crioulos e entre eles estava Paulinho da Viola. Lá mesmo, no Teatro Jovem, participávamos de debates sobre música brasileira. Ouvíamos compositores novos que tinham músicas para mostrar.
Discutíamos e brigávamos por um samba melhor, por uma música que representasse o que ia no peito daquela pequena legião de fazedores de música. Verdadeiro exército de Brancaleones vindos de toda parte para levar em frente o desejo de perpetuar em arte o sonho de ser feliz. Entre eles estava Paulinho da Viola cantando: “(…) Porque hoje eu vou fazer/ Ao meu jeito eu vou fazer/ Um samba sobre o infinito.”
Tínhamos o futuro, o infinito em nossas mãos. Acho que éramos felizes, apenas fingíamos não saber.
PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004


