Sérgio Ricardo nasceu João Mansur Lutfi em MarÃlia, interior de São Paulo. Péssimo aluno nas matérias convencionais, João Lutfi destacava-se, no entanto, nas aulas do Conservatório de Música Santa CecÃlia. Tornou-se músico.
Fez-se ator. Foi galã das primeiras telenovelas da extinta TV Rio. Na TV Tupi de São Paulo, participou da novela O Corsário. O diretor implicou com o João Lutfi. Nasceu então Sérgio Ricardo.
Compositor, gravou seu primeiro 78 rpm na RGE, em 1958, cantando “Vai Jangadaâ€, de Geraldo Serafim e Nazareno de Brito. Ainda nos anos 1950, Maysa gravou “Buquê de Isabelâ€. Essa gravação fez com que Sérgio fosse descoberto como compositor pelo público. Cantor, gravou seu primeiro sucesso, “Zelãoâ€, tornando-se conhecido nacionalmente.
Cineasta, filmou pelo menos cinco curtas-metragens. O Menino da Calça Branca tirou o segundo lugar no Festival de San Francisco, Califórnia. Pássaro de Aldeia, feito para o governo da SÃria e que não chegou a ser exibido no Brasil, foi filmado nos anos 1960, na aldeia de Sidnaya, onde nasceu Abdala Lutfi, pai de Sérgio. Esse filme representou a SÃria em diversas mostras internacionais de curtas-metragens. Filmou três longas: A Noite do Espantalho, protagonizado por Alceu Valença; Esse Mundo é Meu, laureado no LÃbano e exibido oficialmente na Mostra Retrospectiva do Cinema Brasileiro em Gênova, na Itália e Juliana do Amor Perdido. Ainda no cinema, Sérgio Ricardo fez música para vários filmes de Glauber Rocha, como Barravento, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e compôs sua obra-prima para o genial Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Pintor, em 1991, expôs vinte telas no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo, num projeto que incluÃa a projeção de alguns de seus filmes e um show onde cantava vinte músicas de sua autoria.
Escritor, lançou os livros de poemas Elo : Ela e Elefante Adormecido. Em janeiro de 1992 lançou, no Rio de Janeiro, seu livro de análise e memória Quem Quebrou Meu Violão.
Este é Sérgio Ricardo. Ele é tudo isso e, no entanto, só é lembrado pelo grande público – quando o é – pelo fato de ter quebrado o violão e jogado na platéia. Isso foi em 1967. Tentando cantar “Beto Bom de Bolaâ€, no festival da TV Record, Sérgio é vaiado impiedosamente. Tenta o dialogo. A vaia aumenta. Furioso grita: “… Vocês ganharam! Este é um paÃs subdesenvolvido! Vocês são uns animais!†Quebra e atira o violão contra o público. Momentos de tensão nos bastidores. Chegamos a temer pela possÃvel interferência do tristemente “famoso†delegado Sérgio Paranhos Fleury, à quela época chefe da segurança do Teatro da Record. Felizmente ele não foi acionado. “Violada na Platéiaâ€, essa foi a manchete do jornal Última Hora, de São Paulo, na manhã seguinte.
Esse é Sérgio Ricardo, múltiplo e polêmico. Contramão do business. Avesso à s concessões. Arredio aos apelos da mÃdia pasteurizada. Talentoso e solitário. Auto-exilado no alto do Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. Lá, num estúdio simples como ele, preparou as músicas para o poema sinfônico João, Joana, um cordel de Carlos Drummond de Andrade para comemorar seus cinquenta anos de carreira. Acompanhado da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e pelos amigos Chico Buarque, Alceu Valença e Francis Hime, Sérgio vai mostrar que está vivo.
Se morasse nos Estados Unidos, Sérgio Ricardo estaria milionário. Seria Ãdolo popular. Já aqui… Seria muito bom para nós (re)descobri-lo. Só nos enriqueceria.
PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.


