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Quem quebrou o violão de Sérgio Ricardo

sexta-feira, julho 8th, 2011

Sérgio Ricardo nasceu João Mansur Lutfi em Marília, interior de São Paulo. Péssimo aluno nas matérias convencionais, João Lutfi destacava-se, no entanto, nas aulas do Conservatório de Música Santa Cecília. Tornou-se músico.

Fez-se ator. Foi galã das primeiras telenovelas da extinta TV Rio. Na TV Tupi de São Paulo, participou da novela O Corsário. O diretor implicou com o João Lutfi. Nasceu então Sérgio Ricardo.

Compositor, gravou seu primeiro 78 rpm na RGE, em 1958, cantando “Vai Jangadaâ€, de Geraldo Serafim e Nazareno de Brito. Ainda nos anos 1950, Maysa gravou “Buquê de Isabelâ€. Essa gravação fez com que Sérgio fosse descoberto como compositor pelo público. Cantor, gravou seu primeiro sucesso, “Zelãoâ€, tornando-se conhecido nacionalmente.

Cineasta, filmou pelo menos cinco curtas-metragens. O Menino da Calça Branca tirou o segundo lugar no Festival de San Francisco, Califórnia. Pássaro de Aldeia, feito para o governo da Síria e que não chegou a ser exibido no Brasil, foi filmado nos anos 1960, na aldeia de Sidnaya, onde nasceu Abdala Lutfi, pai de Sérgio. Esse filme representou a Síria em diversas mostras internacionais de curtas-metragens. Filmou três longas: A Noite do Espantalho, protagonizado por Alceu Valença; Esse Mundo é Meu, laureado no Líbano e exibido oficialmente na Mostra Retrospectiva do Cinema Brasileiro em Gênova, na Itália e Juliana do Amor Perdido. Ainda no cinema, Sérgio Ricardo fez música para vários filmes de Glauber Rocha, como Barravento, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e compôs sua obra-prima para o genial Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Pintor, em 1991, expôs vinte telas no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo, num projeto que incluía a projeção de alguns de seus filmes e um show onde cantava vinte músicas de sua autoria.

Escritor, lançou os livros de poemas Elo : Ela e Elefante Adormecido. Em janeiro de 1992 lançou, no Rio de Janeiro, seu livro de análise e memória Quem Quebrou Meu Violão.

Este é Sérgio Ricardo. Ele é tudo isso e, no entanto, só é lembrado pelo grande público – quando o é – pelo fato de ter quebrado o violão e jogado na platéia. Isso foi em 1967. Tentando cantar “Beto Bom de Bolaâ€, no festival da TV Record, Sérgio é vaiado impiedosamente. Tenta o dialogo. A vaia aumenta. Furioso grita: “… Vocês ganharam! Este é um país subdesenvolvido! Vocês são uns animais!†Quebra e atira o violão contra o público. Momentos de tensão nos bastidores. Chegamos a temer pela possível interferência do tristemente “famoso†delegado Sérgio Paranhos Fleury, àquela época chefe da segurança do Teatro da Record. Felizmente ele não foi acionado. “Violada na Platéiaâ€, essa foi a manchete do jornal Última Hora, de São Paulo, na manhã seguinte.

Esse é Sérgio Ricardo, múltiplo e polêmico. Contramão do business. Avesso às concessões. Arredio aos apelos da mídia pasteurizada. Talentoso e solitário. Auto-exilado no alto do Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. Lá, num estúdio simples como ele, preparou as músicas para o poema sinfônico João, Joana, um cordel de Carlos Drummond de Andrade para comemorar seus cinquenta anos de carreira. Acompanhado da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e pelos amigos Chico Buarque, Alceu Valença e Francis Hime, Sérgio vai mostrar que está vivo.

Se morasse nos Estados Unidos, Sérgio Ricardo estaria milionário. Seria ídolo popular. Já aqui… Seria muito bom para nós (re)descobri-lo. Só nos enriqueceria.

PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.

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Simplesmente Ana Martel

terça-feira, outubro 5th, 2010

Ela é Ana, Ana Martel, intérprete e compositora de temas cujos títulos lhe refletem a alma, “Simples Assimâ€. “Seu Lugar†é a Amazônia. Seu “Doce Cantar†voa e diz “Bom Dia, Mariaâ€, a tantas Marias que povoam as terras macapaenses. A “Solução†pode estar no rio que dá água de beber ao “Pássaro Que Passou†fazendo uma sombra que se misturou à dela para alçarem voo juntos. Ana Martel tem olhar atento ao mundo, mas, de vez quando, fica “De Olhos Fechadosâ€, para assim melhor enxergar. Assim é Ana, simples assim, Ana Martel.

Sou Ana – disco independente com patrocínio da Eletrobrás a partir do incentivo da Lei Rouanet – traz, além das sete músicas já mencionadas no parágrafo anterior, “Toque de Caixaâ€, parceria de Ana com Zé Miguel, e também “Sou Ana†(Sérgio Souto e Enrico di Miceli), “Branca no Samba†(Biratan Porto, Paulo Moura e Marcelo Sirotheau) e “Mal de Amor†(Joãozinho Gomes e Val Milhomem).

Ana é macapaense. Por seu canto e por seus versos se pode suspeitar que, ainda menina, ela foi à boca da brenha e gritou: “Prazer, sou Ana!â€. A resposta não tardou: “Prazer, sou a floresta!â€. Desde esse dia as duas se tornaram corda e caçamba, amigas inseparáveis, como se feitas uma para a outra.

Por seu frescor contemporâneo, a música de Ana Martel está impregnada de força amazônica. Sua voz tem a afinação dos passarinhos que cantam e voam sobre a copa das maiores árvores da floresta. Suas boas soluções melódicas vêm límpidas como o vento que abençoa enquanto esparrama benefícios.

A bateria tocada por Edvaldo Anaice encabeça as levadas, enquanto as percussões de Marcio Jardim e o poder dos tambores de marabaixo e de batuque, estimulados pelas mãos de Nena Silva, revelam a pujança rítmica de algumas das músicas de Eu sou Ana. A flauta tocada por Esdras de Souza tem destaque em ao menos cinco delas. O baixo de Príamo Brandão, ora elétrico, ora acústico, acentua a cozinha e dá peso às onze faixas do álbum. Os violões de náilon e de aço, bem como a guitarra de Davi Amorim, agregam riqueza melódica a pelo menos quatro canções.

Os arranjos foram divididos entre o bom pianista, tecladista e organista Jacinto Kahwage (seis) e o igualmente competente pianista, bandolinista, violinista e acordeonista Luiz Pardal (cinco). O resultado é uma agradável combinação de sonoridade e ritmo que propicia intensidade ainda maior aos versos e uma ampla visão da musicalidade amazônica.

Palmas para os compositores macapaenses, parceiros ou não de Ana Martel, eles que verbalizam o viver da gente do extremo norte do Brasil. Palmas para os instrumentistas que tocam seu belo trabalho à margem do que se escuta no restante do país. Palmas para Ana Martel, ela que trata de descrever e cantar a sua gente de Macapá, de Belém e de toda a Amazônia. Ana que parece entoar um colossal grito de “gracias a la vida†(ainda que nada tenha a ver com Mercedes Sosa), ao amor e em louvor à terra, à floresta e à música.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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