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Divina dama brasileira

quinta-feira, abril 28th, 2011

Elisete Cardoso. Enluarada mulher. Divina dama brasileira. Nós somos músicos; você, música. És música pelo sexo. Nasceste mulher para ser a música. Cantaste os sons de canções que, por serem de amor, nunca foram demais. Choraste lamentos que senti como meus. Disseste poemas, puxados pelos mais doces “erres”, que embalaram sonhos adolescentes, só meus. Magnífica Elisete. Que saudosa torrente de paixão, que emoção! Diferente de todas.
Eu tinha dez anos quando ouvi Elisete pela primeira vez. “Chega de saudade”. Senti que a voz daquela mulher era o palco iluminado. Deixei, então, que se abrisse o teto da minha alma para que salpicasse de estrelas o meu chão. Não, ainda não podia adivinhar que a maior ventura dessa vida poderia ser uma cabrocha, um luar ou um violão.
Ano de 1966. Músico profissional, fui apresentado à música Elisete Cardoso pelo Ciro Monteiro. Desde então e sempre, acompanhei encantado a espantosa evolução artística da nossa maior cantora, da nossa maior música popular. Nossos poucos encontros, naquela época, foram nos bastidores da TV Record em São Paulo, antes do programa Bossaudade, comandado por Elisete e Ciro Monteiro, ou antes do programa do Chico Buarque, Nara Leão, Zimbo Trio e MPB4, Pra Ver a Banda Passar. Surpreendia-me o tratamento gentil, extremamente delicado, dedicado por Elisete a todos. Mas também, e, especialmente, a nós do MPB4. Eu achava, hoje tenho certeza, que aquela doçura para com os que a cercavam vinha da segurança de quem não tinha mais nada a provar para ninguém. Isso, num meio onde os egos eram e são enormes, quase infantis, me cativou profundamente. Dava-me uma segurança danada quando Elisete estava por perto.
Outubro, ano de 1976, Rio de Janeiro. Convite de Carlos Machado, o “Rei da noite”, para que fizéssemos um musical baseado na obra do compositor João de Barro, o Braguinha, na casa noturna Vivará, no Leblon. Elenco: Quarteto em Cy, Lady Hilda, Sidney Magal, Roberto Azevedo, Marina Marcel, Vera Manhães, bailarinas, ritmistas, grande orquestra e… Elisete Cardoso. O Rio Amanheceu Cantando, esse era o nome do musical. A expectativa de todo o elenco era de um sucesso retumbante. Não foi! Mas como foi bom. Só o orgulho, a honra, de dividir o palco com Elisete Cardoso e todo aquele elenco era mais do que suficiente para garantir semanas imensamente felizes. Pelo menos para mim que, assim que chegava ao Vivará, dava religiosamente uma passadinha no camarim da Elisete, que eu já – vejam a pretensão – sentia como amiga para tomar um conhaque com limão preparado pela fiel “irmã” Lurdes. Aliás, como gostava da Lurdes, a Elisete. Conversávamos por alguns instantes e eu deixava-a só em sua preparação para transformar-se na música que tanto amávamos.

PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.

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“João Nogueira canta pra viver”

quinta-feira, janeiro 20th, 2011

Eu já conhecia João Nogueira da casa do Hermínio Bello de Carvalho, quando, num estúdio de gravação, ouvi “Espelho”, parceria do João com Paulo Cesar Pinheiro. Aqueles versos, “Num dia de tristeza me faltou o velho/ E falta lhe confesso que ainda hoje faz/ E eu me abracei na bola e pensei ser um dia/ Um craque da pelota ao me tornar rapaz/ Um dia chutei mal e machuquei o dedo/ E sem ter mais o velho prá tirar o medo/ Foi mais uma vontade que ficou prá trás” me emocionaram. Mal conseguia cantar o refrão. Um nó na garganta parecia querer me sufocar naquela gravação em 1977. Quantas vontades eu tinha deixado pra trás. Que falta meu velho fazia e confesso, até hoje faz. Como Paulinho Pinheiro e João Nogueira, eu chorava a solidão da perda.

João Batista Nogueira Júnior nasceu no Méier, subúrbio carioca, no dia 12 de novembro de 1941. Aos cinquenta e oito anos, comemora uma vida feita de cantar e de fazer samba. Idealizador do Clube do Samba, em 1979, deu teto e chão ao ritmo que traduz o espírito do cidadão que vive nesse país.

Seu pai, João Batista Nogueira, violonista e advogado lembrado no samba “Espelho”, devia estar orgulhoso do filho íntegro e decente que fez e entregou pro mundo. O velho devia sorrir ao ver um dos melhores intérpretes que temos, seu filho, superar com a garra de um centro avante goleador o acidente vascular cerebral que o atingiu em abril de 1998. Não se preocupe não, Seu Nogueira, o seu João é guerreiro. Pensou até em fazer guerrilha pelos botequins, armado de caixa de fósforos e apito. Seus cantos de guerra faziam estremecer o chão. Seus hinos à cidadania faziam a dignidade ganhar cores vivas. Sua parceria com a poesia de Paulo Cesar Pinheiro acendia a luz do “Poder da Criação”: “Não, ninguém faz samba só porque prefere/ Força nenhuma no mundo interfere/ Sobre o poder da criação (…)”

Foi a batalha pela sobrevivência, a luta pelo pão nosso de cada dia, o corre-corre atrás do leite das crianças, que fazia o cantor superar seus limites. Após gravar o CD Chico Buarque – Letra & Música pela gravadora Lumiar, em 1995, João Nogueira mostrou que era intérprete de alta linhagem. Entrou pro seleto grupo dos bambas do cantar samba: Roberto Ribeiro, Ciro Monteiro, Clara Nunes, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e Martinho da Vila. As divisões rítmicas para os sambas sincopados do Chico comprovaram o batismo de aceitação.

A voz, por vezes propositalmente arrastada, estava a serviço da malícia que o samba urbano precisa para ser de bamba. Três anos se passaram. 1998. João de Todos os Sambas. Dessa vez pela BMG, o novo CD de João Nogueira tentava o sucesso que o anterior não havia alcançado. Grandes músicas, como sempre, estavam lá. Parcerias com Paulo Cesar Pinheiro e Mário Lago, músicas de Jorge Simas e… Raça Negra! Isso mesmo, uma canção de dois integrantes do grupo Raça Negra. Mas, o que João Nogueira e Raça Negra têm em comum? Nada. A juntá-los apenas a busca maluca do sucesso. Apenas a besteira de juntar o que é para estar para sempre separado. Com certeza João não gravaria esse CD pela “multi” BMG sem esse tal “apelo de mercado”. Ali estaria a “chave do sucesso”, caminho rápido para o milhão de cópias vendidas, devem ter jurado os executivos “geniais” da industria fonográfica. Os “gênios” procuravam um novo “Martinho da Vila” e conquistaram João Nogueira para a aventura. Quebramos a cara. Todos nós, admiradores de João Nogueira e da boa música brasileira e o próprio João, quebramos a cara. Menos, é claro, os “donos da voz”, esses não perdem nunca.

Algum tempo depois deste artigo ter sido escrito, João Nogueira morreu… O espelho se quebrou. Deixou uma saudade imensa.

PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.

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E não é que ele topou, o Chico!”

terça-feira, setembro 14th, 2010

Ultimamente não ando com a memória muito afiada, mal consigo lembrar das últimas doze horas. Mas, engraçado, consigo lembrar com clareza límpida fatos remotos de vinte, trinta anos atrás.

Lembro-me bem. Quando ele nasceu na noite de 24 de Outubro de 1968, Chico, camisa do Fluminense na mão, pulou o portão trancado da maternidade. Passava das onze da noite. O pai, marinheiro de primeira viagem, acabara o estoque de cerveja da lanchonete do primeiro andar daquela clínica no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, e dormia feliz depois de ver seu menino ser amamentado pela primeira vez. Fazia planos para ele, rubro-negro doente seria, sem dúvida. Seria um músico? Talvez, e por que não?

Embriagado de felicidade, despertou com as vozes na porta do quarto: “Mas meu senhor, o horário de visitas já acabou, o senhor não pode entrar aqui desse jeito. A mãe da criança fez cesariana e está sob efeito da anestesia…” Mas quem disse que alguém poderia conter o ímpeto quase juvenil daquele “senhor” de 25 anos? Chico entrou quarto adentro, colocou a camisa tricolor nas mãos rubro-negras do pai atônito e foi-se como entrou, sorrindo, quase correndo.

No dia seguinte a honra flamenguista foi resgatada com a entrega solene, desta vez diretamente nas mãos do recém-nascido, do manto sagrado do Mengão pelo saudoso Ciro Monteiro. Meu menino, juro, sorriu.

E a vida seguiu. Seguir é com ela mesmo, a vida.

Início de 1996. Lembro-me bem. Atendi ao telefone e do outro lado da linha meu menino, já aquela altura com 28 anos, músico profissional (guitarrista, violonista e bandolinista) e rubro-negro doente estava eufórico, mas preocupado. Ele disse: “Fui convidado para participar de um projeto superimportante aqui no Rio. Um show no teatro Dulcina, na Cinelândia, onde cada semana um jovem e iniciante talento se apresenta ao lado de um artista consagrado”. As palavras saiam atropeladas. “Maravilha, parabéns… E quando será o show?”, indaguei. “Será daqui a três semanas, mas… Quem é que eu posso convidar, pai? É… Quem será o artista consagrado que eu posso convidar?” “Liga pro Chico!”, falei. Silêncio ensurdecedor. Do Leblon, no Rio de Janeiro até a Vila Mariana, em São Paulo, creio que todos puderam ouvir o som daquele silêncio retumbante. Finalmente, Pedro fala: “Mas você acha que ele topa?” “Liga e tenta”, sugeri.

E não é que ele topou, o Chico!

11 de Março de 1996. A porta do Dulcina fervilha de gente, muita gente. Na fachada do teatro está lá, para quem quiser ver: “Chico Buarque apresenta Pedro Reis, Thata e Mombaça”, esses dois últimos companheiros do meu filho naquela noite mágica de responsabilidade e reverência ao ídolo que musicalmente os abençoou. Aqueles jovens sentiam isso. Eles tocaram isso aquela noite.

Saí do teatro direto para a última ponte aérea para São Paulo. Embriagado de felicidade telefono: “Chico, mais uma vez você acertou. Pedro merece tudo o que você lhe proporcionou essa noite. Muito mais do que um grande talento musical, você premiou um grande homem.” Eu não vi, mas Chico Buarque sorriu, olhou para o chão e desligou quase correndo. Isso é generosidade!

PS. Este texto foi publicado, originalmente, em meu livro “O Gogó de Aquiles”, lançado pela A Girafa Editora, em 2004.

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