Emilinha Borba, junto com Carmen Costa, Nora Ney, Helena Meirelles, Carmélia Alves e Marlene, têm quase quinhentos anos de vida. Quase um Brasil de existência. São delas as músicas em louvor ao sonho nosso de cada dia, cantadas e tocadas por mulheres calejadas pela poeira da estrada que nos conduz ao futuro.
Cada uma de vocês, minhas matriarcas, desempenha seu ofÃcio com a dignidade e com o sacrifÃcio que lhes é imposto pelo mundo que teima em não as reconhecer como donas de tudo. InÃcio, meio e fim da trajetória de todos nós, seres humanos. Somos filhos de uma grande mulher que se chama música. Em seu útero fomos gerados. De seu ventre fomos paridos. Para a vida fomos lançados. Ela, essa grande mulher que é a música, nos quer assim: prontos para o canto, purificados pelo verso, sujos pela dor, abertos como o verbo e plenos como um recomeço.
Páginas iniciais de um novo caderno, assim as vejo, matriarcas da música brasileira. Levados por mãos de mulheres da nossa gente, seguimos vivendo e cantando a nossa própria vida.
Meados da década de 1940, Emilinha Borba e a Rádio Nacional pareciam uma coisa só: sinônimas. Duas entidades nacionais no auge do sucesso. Aquela rádio que trouxe a possibilidade de comunicação entre nossa gente e a cantora que fez de sua popularidade um marco na história do show business tupiniquim desabrochavam naquele tempo que era do rádio e de Emilinha.
Em seu programa, César de Alencar levava a platéia do auditório ao delÃrio ao anunciar a “nossa favoritaâ€, Emilinha Borba, estrela de sucessos incontáveis. Cantora de baiões, de sambas, de marchas e de rumbas que eram levados para todo o Brasil, fazia com que, de norte a sul, multidões ligassem o rádio para ouvir os programas de auditório, lotassem os cinemas para rirem e se emocionarem com as chanchadas da Atlântida e comprassem os discos de 78 rpm de suas cantoras e cantores favoritos.
Cantora eclética, EmÃlia Savana da Silva Borba, a Emilinha, deve a rumba “Escandalosaâ€, de Djalma Esteves e Moacir Silva, tanto quanto deve à marcha “Chiquita Bacanaâ€, de João de Barro e Alberto Ribeiro, ou ainda ao baião “ParaÃbaâ€, de LuÃs Gonzaga e Humberto Teixeira, o enorme sucesso popular que conquistou. Isso sem falar nos trinta e quatro filmes que fez e que ajudaram a consolidar a fama daquela carioca que passou a infância na Mangueira e que gostava de imitar outro Ãcone nacional, Carmen Miranda.
Em 1964, foi forçada a operar as cordas vocais vitimadas por um edema que lhe tirou o brilho da voz. Aquela voz que animou os carnavais da vida de muitos como eu viu-se abatida pelo esforço de não se deixar calar. Abatida pelo edema adquirido pelo desejo de continuar mostrando o quanto vale a voz de uma mulher que canta, Emilinha seguiu o seu desÃgnio de entregar seu coração à música, de doar sua alma a nós que dependemos de seu cantar.
Somos gratos a você, matriarca da música brasileira. Obrigado por nos ensinar que o mundo é a mulher que toca e canta, e que o futuro é incondicionalmente feminino.
 PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004


