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Emilinha Borba

quinta-feira, setembro 2nd, 2010

Emilinha Borba, junto com Carmen Costa, Nora Ney, Helena Meirelles, Carmélia Alves e Marlene, têm quase quinhentos anos de vida. Quase um Brasil de existência. São delas as músicas em louvor ao sonho nosso de cada dia, cantadas e tocadas por mulheres calejadas pela poeira da estrada que nos conduz ao futuro.

Cada uma de vocês, minhas matriarcas, desempenha seu ofício com a dignidade e com o sacrifício que lhes é imposto pelo mundo que teima em não as reconhecer como donas de tudo. Início, meio e fim da trajetória de todos nós, seres humanos. Somos filhos de uma grande mulher que se chama música. Em seu útero fomos gerados. De seu ventre fomos paridos. Para a vida fomos lançados. Ela, essa grande mulher que é a música, nos quer assim: prontos para o canto, purificados pelo verso, sujos pela dor, abertos como o verbo e plenos como um recomeço.

Páginas iniciais de um novo caderno, assim as vejo, matriarcas da música brasileira. Levados por mãos de mulheres da nossa gente, seguimos vivendo e cantando a nossa própria vida.

Meados da década de 1940, Emilinha Borba e a Rádio Nacional pareciam uma coisa só: sinônimas. Duas entidades nacionais no auge do sucesso. Aquela rádio que trouxe a possibilidade de comunicação entre nossa gente e a cantora que fez de sua popularidade um marco na história do show business tupiniquim desabrochavam naquele tempo que era do rádio e de Emilinha.

Em seu programa, César de Alencar levava a platéia do auditório ao delírio ao anunciar a “nossa favoritaâ€, Emilinha Borba, estrela de sucessos incontáveis. Cantora de baiões, de sambas, de marchas e de rumbas que eram levados para todo o Brasil, fazia com que, de norte a sul, multidões ligassem o rádio para ouvir os programas de auditório, lotassem os cinemas para rirem e se emocionarem com as chanchadas da Atlântida e comprassem os discos de 78 rpm de suas cantoras e cantores favoritos.

Cantora eclética, Emília Savana da Silva Borba, a Emilinha, deve a rumba “Escandalosaâ€, de Djalma Esteves e Moacir Silva, tanto quanto deve à marcha “Chiquita Bacanaâ€, de João de Barro e Alberto Ribeiro, ou ainda ao baião “Paraíbaâ€, de Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, o enorme sucesso popular que conquistou. Isso sem falar nos trinta e quatro filmes que fez e que ajudaram a consolidar a fama daquela carioca que passou a infância na Mangueira e que gostava de imitar outro ícone nacional, Carmen Miranda.

Em 1964, foi forçada a operar as cordas vocais vitimadas por um edema que lhe tirou o brilho da voz. Aquela voz que animou os carnavais da vida de muitos como eu viu-se abatida pelo esforço de não se deixar calar. Abatida pelo edema adquirido pelo desejo de continuar mostrando o quanto vale a voz de uma mulher que canta, Emilinha seguiu o seu desígnio de entregar seu coração à música, de doar sua alma a nós que dependemos de seu cantar.

Somos gratos a você, matriarca da música brasileira. Obrigado por nos ensinar que o mundo é a mulher que toca e canta, e que o futuro é incondicionalmente feminino.

 PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004

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Carmen Costa

segunda-feira, agosto 2nd, 2010

Mulher negra. Perfil de rainha. Voz grave e emocionada. Mulher sensual. Estrela de tantos carnavais. Seu brilho nas telas do cinema brasileiro na década de 1950 deveu-se ao fantástico Carnaval em Marte, de Watson Macedo. Mulher trabalhadora. Seu ofício de cantar vem do tempo em que trabalhava numa casa de família protestante, no município fluminense de Trajano de Moraes, sua terra natal. Lá ouviu e aprendeu os hinos religiosos cantados pelas pessoas da casa.

Sua vida artística começou a mudar quando, por sugestão do compositor Henricão, trocou o nome de batismo, Carmelita Madriaga, pelo pseudônimo Carmen Costa. Do final dos anos 1930 até início da década de 1940, tentou a sorte musical formando uma dupla com Henricão. Alguns discos 78 rpm foram lançados pelos dois sem que conseguissem fazer o sucesso tão almejado. Foi quando Henricão e Rubens Campos resolveram arriscar uma versão da valsa mexicana “Cielito Lindoâ€. Carmen Costa gravou-a – foi sua primeira gravação individual – com o nome “Está Chegando a Horaâ€.

No carnaval seguinte só deu Carmen Costa e seu primeiro e extraordinário sucesso: “Quem parte leva saudade de alguém/ Que fica chorando de dor/ Por isso não quero lembrar/ Quando partiu meu grande amor/ Ai, ai, ai, ai; ai, ai, ai, está chegando a hora/ O dia já vem raiando meu bem/ Eu tenho que ir emboraâ€. A partir daí, outros êxitos foram acontecendo na carreira e na vida dessa cantora de talento. Quem não se lembra de “Cachaça Não é Ãguaâ€, de Mirabeau, Héber Lobato e Lúcio de Castro, ou de “Jarro da Saudadeâ€, de Mirabeau, Geraldo Blota e Daniel Barbosa: “Iaiá, cadê o jarro? / O jarro que eu plantei a flor? / Eu vou te contar um caso/ Eu quebrei o jarro e matei a flor/ Que maldade, que maldade/ Você bem sabia que no jarro de barro eu guardei a saudadeâ€. Outro sucesso foi “Se Eu Morrer Amanhãâ€, de José Garcia: “Se eu morrer amanhã/ Não levo saudade/ Eu fiz o que quis/ Na minha mocidade/ Amei e fui amada/ Beijei a quem eu quis/ Se eu morrer amanhã de manhã/ Morrerei feliz, bem felizâ€.

Os anos 1950 e 1960 foram tempos de sucesso para Carmen Costa. Os carnavais e o cinema deram para nossa matriarca o que ela sempre sonhou: o reconhecimento e o carinho do público.

Pelas ondas do radio e através da tela do cinema conheci Carmen Costa. Minha juventude foi sonorizada por ela.

 PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora, em 2004.

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