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Viva a música instrumental!

quinta-feira, abril 7th, 2011
Integrado por Alex Buck (bateria), Bernardo Ramos (guitarra e violão), Bruno Aguiar (baixo acústico), Josué Lopez (sax tenor) e Vitor Gonçalves (piano e acordeom), o Bamboo lançou seu primeiro disco (Brasilianos), que tem como título o nome do grupo.
Você aí, que está lendo este texto, eu sugiro que busque ouvi-los. Ótimos músicos; bons temas compostos por eles; arranjos inspirados; solos, duos e improvisos plenos de criatividade. Intensos, mas irreverentes, experimentados, tão virtuosos quanto eficientes, eles se juntaram para iniciar um ótimo trabalho instrumental.

“Maracatu no Bambu” (composição e arranjo de Bernardo Ramos) se inicia com o belo sopro do sax. O piano apoia e o maracatu soa esperto, em levada estilizada. O baixo, a bateria e o piano antecedem o improviso do sax. Logo a bateria, precisa, trisca nos pratos. O piano muda a concepção inicial e toca o tema de forma menos formal, mais desprendido da harmonia. Um rufo da bateria leva ao final.

“Sem Início, Sem Fim” (composição e arranjo de Bernardo Ramos) vem com a arguta sonoridade da guitarra. O poderoso baixo acústico se junta ao piano e à bateria. O intermezzo fica a cargo do piano e do baixo. A guitarra assume o improviso, amparada por piano e bateria. O sax volta a solar, também escudado por bateria e piano, este que passa a improvisar. A bateria dá início a um quase solo, posto que a mixagem a coloca no mesmo plano do baixo. E o sax volta, e a guitarra sola… Meu Deus!

“Márcio Bahia” (composição e arranjo de Alex Buck) conta com participação do bandolim de Hamilton de Holanda, que, junto com o sax, começa. Em poucos compassos, o baixo improvisa (!) sobre toques da bateria. Em ritmo alucinado, o acordeom brilha. O bandolim inicia um solo contido, mas logo se solta e arrasa. O acordeom e o sax tocam em duo. Acompanhada de bandolim, acordeom e sax, a bateria sola… Que baita improviso, Deus do céu! Em revezamento, todos tocam para encerrar.

“Gratidão” (composição e arranjo de Bernardo Ramos) é um tema extremamente doce. O violão dá o clima. Cuidadosamente, junto com o baixo, a bateria risca os pratos. O piano improvisa. Baixo e bateria pegam leve. Como se chorasse, o sax sola. A bateria cadencia e logo assume o ritmo de fato. O sax continua. O piano se une ao baixo e à bateria que toca nos pratos. Voltam sax e piano, e logo todos estão juntos novamente. Show!

“Nova Bossa” (composição de Josué Lopez e arranjo de Josué Lopez e Bernardo Ramos) começa com piano, guitarra e bateria. Ao sax cabe o tema. A bossa nova assume sua cara. Para improvisar, a guitarra dispensa o ritmo. Piano e sax desenham. A guitarra volta à bossa nova. O duo agora é de guitarra com o sax, até que este se solta para improvisar. A bateria se agita e reúne todos para o final…

Você pensa que acabou? Não, ainda há muitas mais. O que acabou foi o espaço para continuar a enaltecer um disco que engrandece ainda mais a música instrumental brasileira.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

 

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O poeta cantador de loucas ficções

terça-feira, novembro 9th, 2010

Roney Giah lançou seu quarto disco Queimando a Moleira (independente). O trabalho, no qual todas as músicas são de sua autoria, demonstra um compositor ampliando sua identidade musical. Compositor e guitarrista, no CD ele toca violão de sete cordas sem, contudo, valer-se das baixarias que a sétima corda propicia.
Roney é também arranjador, cujo grande mérito foi dar asas à inventividade e à sensibilidade de Mario Manga (violoncelo) e de Alexandre Ribeiro (clarinete), que juntos dão amplitude às intenções dos versos e aos intervalos melódicos de onze das dezoito músicas do álbum. Some-se a eles o baixo acústico de Maurício Biazzi e temos uma trinca com enormes recursos, a dar requinte à perspectiva musical desejada pelo autor. Liberdade e criatividade das quais também se valem Toninho Ferragutti e seu acordeom para um espetáculo de rara competência.
Cantor de recursos limitados, sua voz dá conta de revelar imagens e conceitos criados pelo versejador. E a força de sua música vem justamente das palavras que soam como que vindas da imensidão de um delírio, como que fugidas das profundezas do que restou para ainda ser dito.
Suas letras são ora leves, ora estranhas; ora dolentes, ora incandescentes; ora diretas, ora metafóricas… Imprevistas.
Valendo-se do que hoje se rotula como chamber pop (música pop de câmera), na qual a melodia funciona quase como um pano de fundo que busca sonorizar a intenção de cada verso, o cantar resulta num “falar melodioso”, como se todos estivessem a serviço de refletir o pensamento do letrista.
E é aí que brilha, reafirmo sem temor de ser redundante, o talento do Roney Giah arranjador: violão de sete cordas, baixo acústico e piano Fender Rodhes (Nado Silva e Piu) seguram a onda da harmonia e das levadas, permitindo ao clarinete e ao clarone de Alexandre Ribeiro, ao acordeom de Toninho Ferragutti e ao violoncelo de Mario Manga ficarem liberados para flutuar em múltiplos improvisos, com os mais inspirados desenhos melódicos.
“Estamos Seguros Debaixo do Meu Cobertor”, a primeira faixa do CD, começa com o baixo marcando o ritmo. O clarinete dá sinal de vida. Giah inicia o canto. O piano se ajunta ao cello. Logo a voz de Dandara Modesto se junta à de Roney para cantar o refrão que repete o título da música.
“Ãcaro” tem letra que diz: “(…) Parecia ser tão certo, era o sonho ser feliz ou chegar perto/ E ter apenas um motivo pra acordar e desejar a paz/ Mas múltiplos enganos no decorrer da história/ Eu acho tão humano duvidar da vitória/ Conquistas e derrotas são como o mar e a gaivota (…)”. O clarinete boia sobre as águas do canto e da letra. Junto com o violão de sete, o baixo elétrico marca, lembrando as canções folk norte-americanas.
Feito Ãcaro, como um argonauta atarantado, as palavras conclusivas de Roney Giah se confundem com as inconclusivas, abrindo espaço para o absurdo e para a incoerência, tudo findando em músicas cativantes.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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