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Música que vem de Curitiba

quinta-feira, setembro 8th, 2011

Para melhor compreender o que é o Trio Quintina, proponho uma pequena conta: dois mais um é igual a dezesseis. A conta não bate, claro, mas certamente dá uma pista do que é o som dos curitibanos Fabiano Silveira, o Tiziu, e dos irmãos Gabriel e Gustavo Schwartz.

  • Ao gravarem seu quinto álbum, Quintina Orquestra Trio (Sete Sóis), os caras, que também compõem individualmente e em parceria entre eles, resolveram provar como é ser uma mini grande orquestra brasileira. Tiziu toca violão de sete cordas e canta; Gabriel vai de clarinete, bateria, flauta, saxes tenor e alto, pífano, flautim, pandeiro, percussão e canta; já Gustavo se desdobra em guitarra, cavaquinho, piano, percussão, pandeiro e também canta.

    A pegada deles é rock e é samba. É sóbria e é delirante. É moderna e é tradicional. Tudo ao mesmo tempo, agora mesmo, já. Suas composições permitem que desenvolvam um conceito autoral que os identifica e impulsiona. Letras criativas, por vezes sutis, às vezes melancólicas, melodias e harmonias instigantes, e uma performance instrumental que os põe à frente do cenário da música moderna. Aliás, imaginá-los no palco é exercício instigante.

    A exatidão com que tocam, contagia. O suingue é presente. Próximos de serem multiinstrumentistas virtuosos, o jeito que o Quintina tem de se desdobrar em mil facetas faz parecer que já se conhece o que tocam. Ainda que interpretem composições próprias e inéditas, tudo soa com uma familiaridade que, numa primeira audição, até espanta. Mas na medida em que os ouvimos mais, percebemos claramente que tudo neles é baseado numa coletividade solidária, revelada em arranjos de extrema criatividade.

    Quase não há espaço entre as catorze faixas do CD, o que cria a expectativa de como o fim de uma se fundirá com o início da outra. E os sopros, principalmente os saxofones, com desenhos marcantes, são peças fundamentais nas orquestrações.

    A guitarra registra contrapontos embalados pelo pulsar pop da bateria. O sete cordas soa bonito, não deixando sentir falta de um contrabaixo. Assim é em “Cuidadoâ€, samba de Gabriel.

    Há uma bela releitura do clássico “Ãgua de Beber†(Tom e Vinícius), e duas composições instrumentais que servem para o Quintina realçar seu prazer de tocar.

    Mas o talento dos três se desvenda pleno em “Culpa†(Gustavo). Tudo começa lentamente… violão e guitarra. A bateria é delicada. E vem um crescendo. A pulsação aumenta. A guitarra deixa de ser melodiosa e distorce o som. A voz de Gustavo vai atrás da intenção explosiva do arranjo. O piano a tudo interrompe. Agora tudo é calma…

    Não à toa me ocorreu aquela conta fajuta lá no primeiro parágrafo, pois para muito além de desafiar conceitos numéricos, o Quintina ainda mais subverte parâmetros musicais e instrumentais. Ao juntar intenções diversas, mesmo que sob o guarda-chuva de ritmos tradicionais, Gabriel, Tiziu e Gustavo trazem em suas músicas um festivo e saudável ar de enérgica música bem-soante.

     

    Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4.

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    Quem são essas mulheres?

    quinta-feira, junho 30th, 2011

    A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos. Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Festa em samba-choro-frevente de uma gente que nasceu para esperar o futuro que parece nunca vai chegar — conclui-se a cada manhã acinzentada de escândalos sem-fim. Gananciosos nos roubam o dinheiro; inescrupulosos nos tiram a esperança; impunes nos riem na cara; ricaços nos escarnecem a ingenuidade.

     

    A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Deles nos valemos para sonhar; deles nos vestimos para dançar; deles nos imbuímos para fazer de conta que a encrenca não é com a gente. Ela é nossa, sim; como nossos são os ritmos que nos embalam do berço à tumba.

    A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Todos feitos para serem como os homens que de tudo e de todas tomam conta. Farra de virilidade para dar e vender; emprestar e tomar. Assim é a nossa música popular do Brasil de calça e cueca; de paletó e gravata-borboleta; voz grossa e gogó saltado. A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Sem tempo para o feminino, a música brasileira feita de choro, de frevo, de samba; de ritmos masculinos e másculos vocábulos se revela pelo canto de seus homens instrumentistas e cantores e compositores e poetas. Desde sempre assim é.

    Faz tempo assim não é mais. Há tempos a mulher invadiu a praia que sempre foi masculina; arrombou a festa dos moços; desandou o bolo do rapaz; talhou o leite do vovô; ajoelhou-se o canto ao seu feminino encanto; carimbou seu ventre de mocinha com o som cheiroso de amor. E o cantador transmutou-se em cantadora; o violeiro rendeu-se à viola sem eira nem beira; o estradeiro comeu poeira ao som da estradeira de viola e cantoria bem posta.

    A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Antes, Chico Alves, Sílvio Caldas, Jorge Veiga, Cyro Monteiro, Dorival Caymmi, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Dick Farney, Lúcio Alves, Cauby Peixoto, João Gilberto, Jair Rodrigues, Altemar Dutra… É claro que houve Chiquinha Gonzaga, desbravadora. Mas ela não cantava. É claro que havia, há e haverá Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Dircinha Batista, Edith Veiga, Inezita Barroso, Carmélia Alves, Emilinha Borba, Ângela Maria, Maysa… Mas a voz que prevalecia no ar de nossa terra sempre teve o acento da voz masculina. Os cantores eram das multidões; as cantoras, rainhas, quando tanto.

    A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Ritmos masculinos. Másculos vocábulos. Agora nem tanto mais. Hoje ela é predominantemente feminina. Agora, o samba, o frevo e o choro viraram palavras femininas, ao contrário do que indica o gênero de cada uma dessas palavras. Ao menos na interpretação do som que sai da garganta de mulheres que ora povoam o universo da música popular brasileira, o frevo, o choro e o samba tornaram-se, de fato e de direito, fortes palavras femininas.

    A música brasileira é feita de choro, de frevo, de samba… Femininos ritmos. Fêmeos vocábulos. E quase não surgem mais vozes masculinas. Escafederam-se, como que por encanto, os cantores; foram-se; evaporaram-se nos ares brasileiros por onde viajam, aos quatro ventos, as ondas radiofônicas. Quase não há mais intérpretes homens; não existem mais os cantores, ou ao menos não têm aparecido em número suficiente para que possamos trazê-los abundantemente para ouvi-los em nossas casas, carros, computadores, iPods, celulares, rádios, walkmans, MP3 e 4 e que-tais. Hoje, a sensação é que o fenômeno da feminilidade vocal se multiplica geometricamente a cada mês. A vez agora é delas que cantam com voz suave ou estridente; com doçura ou ferocidade; com ardor e paixão; com lágrima e fogo. Elas é que agora são as figuras carimbadas; o trunfo no carteado; a cereja do bolo; a bola a ser jogada; o truco a ser gritado. E todas chegaram e ainda chegam a bordo da mesma nave que um dia já trouxe para esta terra Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Dóris Monteiro, Alaíde Costa, Elza Soares, Nana Caymmi, Nara Leão, Leny Andrade, Clara Nunes, Elis Regina, Gal Costa, Rita Lee, Maria Bethânia, Beth Carvalho, Alcione, Lucina, Quarteto em Cy, Joyce, Rosa Passos, Zizi Possi, Ná Ozzetti, Alzira e Tetê Espíndola, Jussara Freire, Jussara Silveira, Fátima Guedes, Dorina, Ceumar, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Cássia Eller, Bebel Gilberto, Luciana Souza, Marisa Monte e todo o seu variado universo particular sempre ao nosso redor… É tanta a quantidade e a qualidade que acaba a noção de tempo e espaço, e meninas com vozes de sábias mulheres, como Mariana de Moraes, Teresa Cristina, Virgínia Rodrigues e Mônica Salmaso — o que é aquele Noites de Gala, Samba na Rua (2007), meu Deus do céu? —, logo passam de revelações a referências ancestrais e obrigatórias, inconsciente coletivo.

    E chegou a hora de Roberta Sá cantar docemente todo o seu Braseiro (2005), fazendo com que a gente diga: Que Belo Estranho Dia Para Se Ter Alegria (2007)! E chegou o momento de Céu brilhar e pôr o seu disco de estreia na Billboard. E agora é a vez de Maria Rita cantando bonito uma (Maria Rita, 2003), duas (Segundo, 2005), três vezes (Samba Meu, 2007). E chegou o instante de Vanessa da Mata respirar Sim o ar do sucesso absoluto em 2007, depois de Essa Boneca Tem Manual (2004) e Vanessa da Mata (2002). E é chegada a hora de Mariana Aydar e seu Kavita 1 (2006); e a temporada é de Angela Evans cantando Um Pouco de Morro Outro Tanto Cidade Sim (2007) depois de um Marítima (2002) e tanto; e a estação atual é de Adriana Moreira interpretando Batatinha; e a quadra agora pertence às sambistas Nilze Carvalho, Fabiana Cozza e Mart’nália, ao suingue de Paula Lima e Luciana Mello e também a Carol Saboya cantando Ao Vivo Live (2006) junto com seu pai Antonio Adolfo.

    O que virá depois delas, só quem viver dirá. Cumpre agora reconhecer o fato e buscar apreciá-lo em todo o seu esplendor. Sim, pois fulguram em nossos ouvidos os timbres femininos que nos remontam a tempos em que as mulheres que nos cuidavam a todos — cada um teve a sua —, sejamos nós homens ou mulheres, entoavam cantigas para nos fazer adormecer em berços esplendidamente plenos de amores carinhosos, igual ao choro; nos entretinham com músicas cobertas por lençóis repletos de encanto, como o frevo; nos declamavam acalantos providos de amores incondicionais, abarrotados de paixão, feito o samba.

    Mas o que são elas, essas mulheres que nos invadem a alma com suas cantorias tão diversas e ao mesmo tempo tão próximas entre si? Quem são elas para tomar o lugar que parecia cativo dos homens? O que têm elas em comum? O que as difere umas das outras? Mas, se mulheres cantam hoje aquilo que sempre cantaram, por que só agora a cena se tornou um canto cativo delas? Não há respostas satisfatórias a estas e nem a outras que porventura vierem a ser formuladas. Há apenas hipóteses a serem aventadas.

    Há a uni-las o bom-gosto na escolha de um repertório que as representam naquilo tudo que são e naquilo tudo o que sonham em vir a ser. Essas mulheres que tanto nos encantam têm uma trilha sonora especial que sinaliza a vida de cada uma delas. Portanto, fazem o que toda mulher gostaria de fazer cantando músicas belas como elas. Há a juntá-las a busca pela contemporaneidade. E há a torná-las comparsas pela música o jeito que têm de se valerem de seus dotes e dons, sem medos nem inseguranças, valendo-se para isso, só de seu desejo de afastarem o medo e de fazerem prevalecer sua auto-estima acima de suas inseguranças.

    Hoje, essas mulheres cantam as músicas que dizem respeito àquilo que sentem e da forma como veem o mundo que as cerca. Cantam suas verdades e suas mentiras; seus amores e dissabores. Cantam aos homens que as veneram e também aos que as maltratam. Cantam sempre… É isto: elas, estas cantoras que dominam a cena musical brasileira atual, cantam porque amam cantar muito. Amam porque cantam a toda hora que podem. Cantam! Seja no palco ou no estúdio; seja enquanto preparam a comida ou fazem movimentações bancárias; seja quando estão no chuveiro ou quando vão ninar suas crias. Cantam! Cantam para amar seus homens e também para conquistar seus objetivos… Cantam para serem felizes! Haja tanta música a ser cantada. Essas cantoras são mulheres que têm prazer em abrir a boca e soltar o verbo, a doçura, a ira, a esperança… a voz.

    A diferenciá-las, o timbre, a forma como respiram, o jeito como dividem as frases musicais. A torná-las únicas, o gosto que têm por determinado gênero da música brasileira. Elas são como a música brasileira: diversificadas. Elas têm o que a música brasileira tem de melhor: o refinamento, a sensualidade, a poética. Elas retratam a alma cantante que cada um tem dentro do peito aberto para fora de nós mesmos. Feliz é o povo que tem na música feita por suas músicas o destino de ser feliz concretizado. Ao menos através das vozes destas mulheres, tem-se a impressão de que a vida pode ser um pouco menos insossa do que realmente é, sonorizada que está pela voz de mulheres — moças e senhoras — que se entregam com afinco e musicalidade latentes à arte de lindamente, femininamente cantar o que lhes der na telha.

    Aquiles Rique Reis é músico e vocalista do MPB 4. É autor de O Gogó de Aquiles (2004) e crítico musical de diversos jornais, nos quais comenta bons lançamentos da música popular brasileira.

     

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    Pois é… Por quê?

    quarta-feira, maio 18th, 2011

    Por que tinha que ser como foi? Podia ter sido mais suave… Como suas músicas. Aquela timidez colossal punha-o contra a parede. Tentar entrar em sua intimidade antes do primeiro gole era acrobacia para trapezista. Sem rede embaixo. Algumas cervejas depois e suas palavras começavam a surgir. Lúcidas. Poéticas… Como suas canções. Um senso de humor despontava luminoso. Um riso brotava da alma. Vinha com um toque de melancolia mal disfarçada. Uma desesperança precoce e dolorida. O que era para ser doce e fluente parecia adquirir peso desproporcionalmente grande à medida que os dias nasciam ou chegava a noite. O momento da criação era sufocado pela angústia contraída num breve espaço de tempo, como uma febre intermitente. Que faz suar frio. Que traz um delírio de nervos à flor da pele.

    Sidnei Miller viveu trinta e cinco anos. Tentou passar pela vida como se as dores do mundo não tivessem como atingi-lo. Levantou uma cortina de fumaça protetora e acreditou ser o suficiente. Achou que podia viver apenas para o momento sublime da criação. Intuiu que seria o bastante fazer nascerem canções magistrais. Elas trariam a paz que tanto almejava. Nunca poderia imaginar que teria de lutar de forma tão inglória pelo sucesso. Que teria o descaso da mídia. Que não teria o reconhecimento dos críticos à época. Que viveria buscando se sentir querido. Ser aceito, apenas.

    E ele buscou o reconhecimento como qualquer outro, mesmo sendo diferente de outros quaisquer. As opções de mercado? Tentou-as todas. Participou de festivais. Em 1968, fez com Eneida e Paulo Afonso Grisoli, no Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro, um show antológico: Carnavália. No mesmo Casa Grande fez ainda Yes, nós temos Braguinha. Gravou dois LPs na Elenco: o primeiro trazia apenas seu nome, Sidnei Miller. Simplesmente, como ele. O segundo foi Do Guarani ao Guaraná. Em 1974, na Som Livre, gravou Línguas de Fogo. Antes, já havia feito pelo menos duas trilhas sonoras para cinema e musicado outras duas peças de teatro. Fez show com a amiga e grande compositora Sueli Costa. Em 1978, dirigido por Hermínio Bello de Carvalho, gravou um belíssimo especial para a TV Educativa do Rio de Janeiro. Contudo, o que ele mais buscou e não encontrou foi o carinho do reconhecimento do seu talento invulgar.

    Mas será que tinha de ser como foi? Será que, de tanto fazer de conta que tudo o fazia contente e que por nada mais precisaria chorar, o fim teria de ser o que foi? A bebida, eterna companheira como seu violão, destruía-lhe a resistência. Mais que a ditadura e seus censores. Mais que a perda de um emprego qualquer na Funarte. Só não mais que o inconformismo por não ser amado e querido por todas as canções compostas nos únicos momentos de sentir-se pleno. O poder da criação, ensina-nos o poeta, é a possibilidade de ver-nos vivos.

    O jornalista Luís Nassif aponta sua sensibilidade de músico bandolinista para além das questões econômicas, para uma realidade antiga: “Tem gente com ‘estrela’, tem gente sem (…) Chico [Buarque] tinha ‘estrela’, Sidnei não.†As estrelas do Sidnei eram as suas músicas, insuficientes, no entanto, para guiar-lhe os passos rumo à vida.

    E o autor de “Estrada e o Violeiroâ€; “O Circoâ€; “Meu Violãoâ€; “Pois É, Pra Quê?â€; “Menina da Agulhaâ€; “Maria Joanaâ€; “Pede Passagem†e tantas outras desistiu. No dia 16 de julho de 1980 Sidnei Miller se matou. Restamos nós, seus admiradores. Cabe-nos chorar sua ausência e apontar aos nossos filhos, netos e amigos quem foi esse que acreditou que ser genial seria suficiente para emocionar um povo.

    PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.

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    Divina dama brasileira

    quinta-feira, abril 28th, 2011

    Elisete Cardoso. Enluarada mulher. Divina dama brasileira. Nós somos músicos; você, música. És música pelo sexo. Nasceste mulher para ser a música. Cantaste os sons de canções que, por serem de amor, nunca foram demais. Choraste lamentos que senti como meus. Disseste poemas, puxados pelos mais doces “erresâ€, que embalaram sonhos adolescentes, só meus. Magnífica Elisete. Que saudosa torrente de paixão, que emoção! Diferente de todas.
    Eu tinha dez anos quando ouvi Elisete pela primeira vez. “Chega de saudadeâ€. Senti que a voz daquela mulher era o palco iluminado. Deixei, então, que se abrisse o teto da minha alma para que salpicasse de estrelas o meu chão. Não, ainda não podia adivinhar que a maior ventura dessa vida poderia ser uma cabrocha, um luar ou um violão.
    Ano de 1966. Músico profissional, fui apresentado à música Elisete Cardoso pelo Ciro Monteiro. Desde então e sempre, acompanhei encantado a espantosa evolução artística da nossa maior cantora, da nossa maior música popular. Nossos poucos encontros, naquela época, foram nos bastidores da TV Record em São Paulo, antes do programa Bossaudade, comandado por Elisete e Ciro Monteiro, ou antes do programa do Chico Buarque, Nara Leão, Zimbo Trio e MPB4, Pra Ver a Banda Passar. Surpreendia-me o tratamento gentil, extremamente delicado, dedicado por Elisete a todos. Mas também, e, especialmente, a nós do MPB4. Eu achava, hoje tenho certeza, que aquela doçura para com os que a cercavam vinha da segurança de quem não tinha mais nada a provar para ninguém. Isso, num meio onde os egos eram e são enormes, quase infantis, me cativou profundamente. Dava-me uma segurança danada quando Elisete estava por perto.
    Outubro, ano de 1976, Rio de Janeiro. Convite de Carlos Machado, o “Rei da noiteâ€, para que fizéssemos um musical baseado na obra do compositor João de Barro, o Braguinha, na casa noturna Vivará, no Leblon. Elenco: Quarteto em Cy, Lady Hilda, Sidney Magal, Roberto Azevedo, Marina Marcel, Vera Manhães, bailarinas, ritmistas, grande orquestra e… Elisete Cardoso. O Rio Amanheceu Cantando, esse era o nome do musical. A expectativa de todo o elenco era de um sucesso retumbante. Não foi! Mas como foi bom. Só o orgulho, a honra, de dividir o palco com Elisete Cardoso e todo aquele elenco era mais do que suficiente para garantir semanas imensamente felizes. Pelo menos para mim que, assim que chegava ao Vivará, dava religiosamente uma passadinha no camarim da Elisete, que eu já – vejam a pretensão – sentia como amiga para tomar um conhaque com limão preparado pela fiel “irmã†Lurdes. Aliás, como gostava da Lurdes, a Elisete. Conversávamos por alguns instantes e eu deixava-a só em sua preparação para transformar-se na música que tanto amávamos.

    PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.

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    O jongo no liquidificador

    quinta-feira, março 3rd, 2011

    Em atividade há 12 anos, a banda vocal e instrumental Caixa Preta nasceu sob inspiração do jongo de mestre Darcy, um preservador do elemento da ancestralidade: os tambores do jongo, conhecido como a dança das almas.

    Foi a partir dessa fonte encantada, no morro da Serrinha, que fica entre os subúrbios cariocas de Madureira e Vaz Lobo, que os meninos da Caixa se deixaram impregnar pelo amor ao batuque. Desde então, cuidaram de amalgamar ao jongo diversas manifestações musicais que a ele conferissem modernidade. Começava a germinar ali Jongo Contemporâneo (independente), o segundo CD do grupo, cujo som reflete, a um só tempo, tradição e modernidade.

    A salada de frutas que compõe o repertório do álbum nasceu, basicamente, da concepção musical de Augusto Bapt, vocalista e autor das 11 faixas do disco – sendo quatro em parceria com Rodrigo Braga e uma com Seu Jorge e Gabriel Moura.

    Além do já citado Bapt, são mais quatro os integrantes que fazem o jongo contemporâneo da Caixa Preta: Kátia Preta Nascimento (trombone), Marcos Feijão (bateria e percussão), Robertinho de Paula (guitarra, violão de sete cordas e viola caipira) e Joe Lima (baixo e cavaquinho). Todos atentos à memória e à revitalização da cultura musical brasileira.

    Em Cidadão Comum, um rap marcado pelo baixo e pela percussão, a levada do jongo se mistura com a do samba e a do funk, resultando no suingue contagiante de um reggae. A célula rítmica, somada ao naipe de metais, se encarrega de materializar as síncopes e de dar a elas o ar sadio do presente.

    Baile Funk no Terreiro começa num maculelê (ou seria um funk?), que logo desdobra em samba. Não demora e o jongo chega arrepiando. E o som da Caixa Preta assume sua vocação maior: valer-se desse ritmo para criar uma miscelânea sonora de alta voltagem instrumental, dançante, vibrante.

    As congas iniciam Onde Você Pensa Que Vai. A guitarra marca presença. Os metais soam grave. O jongo está ali, vivo em estado primitivo, mas, ainda assim, contemporâneo.

    Santa Ferveção tem letra que denuncia: Santa ferveção/Da favela à beira- mar/A lei da pólvora está/Atirando flechas de contradição. Para cantá-la e tocá-la, a Caixa não economiza em dramaticidade. Nem na força da pegada pop.

    Fogueira do Brasil é samba que remete a um tempo em que protestar era preciso. O canto soa rascante – assim pede a letra. Os metais e os atabaques se espalham. A seguir, Mangue de Sepetiba tem baixo e o naipe de metais em ebulição. A bateria e a percussão brilham.

    E então o mangue dos subúrbios cariocas se une ao mangue do Capibaribe recifense. A música os faz gêmeos. E Chico Science e Augusto Bapt se tornam uma só voz. É a tradição das músicas carioca e pernambucana servindo ao mesmo propósito: atualizar-se para melhor cantar sua gente.

    Assim como a música pernambucana deve a Chico Science e Nação Zumbi a sua revigorização, o jongo deve a mestre Darcy e à banda Caixa Preta a sua contemporaneidade.

    Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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    Majestosos vagabundos

    quinta-feira, fevereiro 17th, 2011

    Foi em 1974. Divergências incontornáveis puseram fim ao fenômeno Secos & Molhados. O pesadelo recorrente de Ney Matogrosso parecia que estava por se materializar: “A boca enorme me engolindo”, que ele tanto temia, dessa vez não falharia. O ex-artesão seria tragado para sempre. E Ney livrou-se das camuflagens para viver aventuras ainda mais insurgentes, transbordadas de sons.

    Há que ser corajoso para seguir os caminhos e destinos que são reservados a nós, homens e mulheres. Há que ser forte para enfrentar as dores do incerto e o pânico pelo desconhecido. Há que ser destemido para não sucumbir à insegurança que chega com os primeiros sinais de cada aurora. A poucos é concedida essa dádiva. Só aos melhores dentre nós é dada a honra de passar por essa vida vendo-se íntegro. Ney Matogrosso é um desses seres humanos escolhidos a dedo para viver essa magia, e o faz plenamente.

    E o grande intérprete continuou sua busca por inquietas sonoridades. Como já fizera, ao se aliar musicalmente ao Uakti, ao Aquarela Carioca, a Rafael Rabelo, Ney vislumbrou na percussão de Pedro Luis e A Parede (Plap) uma outra festa que, não podendo parar, segue. Farra da música que busca sempre mais um acorde para fazer de conta que é como a noite: sem fim.

    Devassada noite; alongada música; agoniada vida que vai longe ao som de couros e baquetas. Harmoniosa é a união de quem ama o que faz, porque faz bem aquilo que lhe apraz.

     São alegremente desabusados os meninos do Plap com seu som batido pleno de carioquice. Junto a C. A. Ferrari, Celso Alvim e Sidon Silva e suas percussões, mais o contrabaixo de Mário Moura, Pedro Luis compõe e toca violão. Jovens moços que fazem soar seus ruídos musicais como se pudessem tirá-los de qualquer “algo oco por dentro”; como se criassem “música do sopro do vento”, como diz o poeta Celso Viáfora em sua “À Benção”. Tudo isto para chegar, enfim, a Vagabundo ao Vivo (mais uma parceria das gravadoras Universal e MP,B), o CD/DVD fruto do registro de um show realizado no Olympia, em São Paulo, em 15 de julho de 2005.

    Vagabundo é acima de tudo a escolha muito bem-feita de músicas fortes, belas, percussivas, teatrais. A cara de Ney Matogrosso e do Plap. Para mais impregnarem nelas seu DNA, Ney, Pedro, Sidon, Celsinho e Ferrari se juntaram ao guitarrista Ricardo Silveira (Ney não abre mão de tê-lo a seu lado em shows e discos), Pedro Jóia (violões e alaúde) e Glauco Cerejo (sopros). Os arranjos de Ney e do Plap se fartam de deixar para a cozinha. E ela não nega fogo, corresponde sempre. E o couro come. E a galera delira, enfeitiçada pela pulsação que vem do palco. E a moçada não regateia aplauso nem canto aos que a contagiam, contaminados que são pelo que fazem.

    Algumas músicas se sobressaem. “Fazê o quê” (galope movido a tambores, de Pedro Luis): “(…) Pra que apareça/ Agarrada no seu verso/ Idéia prum Universo/ Mais tranqüilo e mais humano”; “Noite Severina” (baião sacudido, de Lula Queiroga e de Pedro Luis): “A inspiração vem de onde?/ Vem da tristeza, alegria/ Do canto da cotovia (…)” e “Transpiração” (Alzira Espíndola e Itamar Assumpção) esta com um belo diálogo à espanhola das cordas , são três delas.

    Há ainda o mega-sucesso dos Secos & Molhados: “Sangue Latino” (Paulinho Mendonça e João Ricardo), “Balada do Louco” (dos Mutantes Rita Lee e Arnaldo Baptista), além da lendária “Fé Cega, Faca Amolada” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos). Todas escolhidas para permitir que Ney Matogrosso e o Plap, animados e luxuosos vagabundos, se divirtam à grande ao som de suas vozes e tambores; e animem a platéia que a eles só falta pedir suas bênçãos, como que inspirada, ainda, pelos versos de Celso Viáfora: “À Benção quem primeiro conseguiu resumir o sentimento/ na frase musical que pôs no ar (…) Ô… benção quem suou/ Suou pro meu som soar”.

    Aquiles Rique Reis é vocalista do MPB4 e autor de O Gogó de Aquiles

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    Saudade de Gonzaguinha

    quinta-feira, fevereiro 3rd, 2011

     

    Quando ele nasceu o São Carlos tremeu. Imbalançou. Veio em frenético galope. O arvoredo, em desalinho, desenhou a figura do menino no topo da copa mais alta. Bem lá em cima o vento uivou um gemido.

    A mãe na labuta, né, mãe? Lavar louça é preciso, né, mãe? Navegar não é preciso, tá, mãe? Pega minha mão. Solta não. Tenho medo das manhãs de abril. Meus olhos não deixa ninguém furar, tá, mãe? Não nasci pra ser Assum Preto. Galopar é preciso. Imbalança, mãe.

    Ao som do vento que canta ao sol me vou. Eu quero ser feliz, mãe. Vou pro mundo. Correndo desesperadamente atrás da bola de fogo. Mas não vou só. Teu menino nunca estará só, mãe. Tenho companheiros para enfrentar os furacões, traçar os caminhos, escolher os descaminhos. Dar bom-dia à tempestade. Chorar a saudade de ti, mãe. Vem comigo.

    Teu menino é forte. Mas ele tem medo. Carrego comigo o cantar da minha gente. Ela precisa de mim, mãe. Vou pra vida a galope. Me dá um cheiro, mãe. Vou descer o São Carlos. Vou voar.

    A música é meu ofício. Vou subir o São Francisco. Vou pras terras do meu mundo. Grito. Alerto. Do chão levanto a poeira que há de cegar o carrasco. Canto noite e dia. Beijo bocas. Dou prazeres que não consigo ter. Sinto dores que não suporto sentir. Tenho medo do céu de abril. A florada da mata inunda meus olhos. Uivo à lua cheia meu sonho de liberdade. Tudo é chama. Clamo por justiça, mãe. Germinei a terra fértil. Meu coração bate em outros peitos. Gerei pequenos frutos. Viver é preciso. Imbalança, mãe.

    Quando ele cresceu o Brasil muito que aprendeu. Vertigem no galope desenfreado. A floresta segurou e protegeu seu moleque. Lá do alto da mais alta de todas as copas veio o vento. O gemido.

    Sou das estradas. Fiz meu ninho lá no alto daquele coqueiro. Meu coração quer sair do corpo a galope. Não tá dando pra segurar. Imbalança. Minhas lembranças querem se apagar na beira daquele mar. Imbalança, imbalançá. Vim a galope, a galope vou voltar. Preciso das Minas. Ar pra respirar. Sinto o peito sufocar. Tenho meu canto. Vou galopar. Imbalança. Meu pai dizia: “Minha vida é andar por esse país”. Eu vou atrás, mãe. É meu destino. Por ele choro e canto. Saudade, mãe. Tua benção, pai.

    Manhã de abril. Não consigo ver a beleza das matas. Galopo. Não tô enxergando, mãe. Me pega, pai. Me aperta, mãe. Não vai dar. Imbalança. Não dá pra descansar. Eu quero essa vida mudar. Eia minha gente, imbalança!

    Vou a galope. Pra onde, pai? No que eu posso ainda acreditar, mãe? Só sei que minhas crianças, em sua infinita pureza, me ensinaram a beleza. Muito aprendi por aí, com elas. Estou voltando ao começo, pai. Tenho medo. É manhã de um abril qualquer. Não tá dando pra segurar. Meu coração vai explodir, mãe…

    Vem, meu moleque, imbalança, imbalançá!

    Gonzaguinha morreu num acidente de carro. Era uma manhã de abril de 1991.

    PS. Este texto foi inspirado em algumas das canções compostas e cantadas por Luiz Gonzaga do Nascimento Jr. A ele, minha amizade. Saudade.

    Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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    “João Nogueira canta pra viver”

    quinta-feira, janeiro 20th, 2011

    Eu já conhecia João Nogueira da casa do Hermínio Bello de Carvalho, quando, num estúdio de gravação, ouvi “Espelhoâ€, parceria do João com Paulo Cesar Pinheiro. Aqueles versos, “Num dia de tristeza me faltou o velho/ E falta lhe confesso que ainda hoje faz/ E eu me abracei na bola e pensei ser um dia/ Um craque da pelota ao me tornar rapaz/ Um dia chutei mal e machuquei o dedo/ E sem ter mais o velho prá tirar o medo/ Foi mais uma vontade que ficou prá trás†me emocionaram. Mal conseguia cantar o refrão. Um nó na garganta parecia querer me sufocar naquela gravação em 1977. Quantas vontades eu tinha deixado pra trás. Que falta meu velho fazia e confesso, até hoje faz. Como Paulinho Pinheiro e João Nogueira, eu chorava a solidão da perda.

    João Batista Nogueira Júnior nasceu no Méier, subúrbio carioca, no dia 12 de novembro de 1941. Aos cinquenta e oito anos, comemora uma vida feita de cantar e de fazer samba. Idealizador do Clube do Samba, em 1979, deu teto e chão ao ritmo que traduz o espírito do cidadão que vive nesse país.

    Seu pai, João Batista Nogueira, violonista e advogado lembrado no samba “Espelhoâ€, devia estar orgulhoso do filho íntegro e decente que fez e entregou pro mundo. O velho devia sorrir ao ver um dos melhores intérpretes que temos, seu filho, superar com a garra de um centro avante goleador o acidente vascular cerebral que o atingiu em abril de 1998. Não se preocupe não, Seu Nogueira, o seu João é guerreiro. Pensou até em fazer guerrilha pelos botequins, armado de caixa de fósforos e apito. Seus cantos de guerra faziam estremecer o chão. Seus hinos à cidadania faziam a dignidade ganhar cores vivas. Sua parceria com a poesia de Paulo Cesar Pinheiro acendia a luz do “Poder da Criaçãoâ€: “Não, ninguém faz samba só porque prefere/ Força nenhuma no mundo interfere/ Sobre o poder da criação (…)â€

    Foi a batalha pela sobrevivência, a luta pelo pão nosso de cada dia, o corre-corre atrás do leite das crianças, que fazia o cantor superar seus limites. Após gravar o CD Chico Buarque – Letra & Música pela gravadora Lumiar, em 1995, João Nogueira mostrou que era intérprete de alta linhagem. Entrou pro seleto grupo dos bambas do cantar samba: Roberto Ribeiro, Ciro Monteiro, Clara Nunes, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e Martinho da Vila. As divisões rítmicas para os sambas sincopados do Chico comprovaram o batismo de aceitação.

    A voz, por vezes propositalmente arrastada, estava a serviço da malícia que o samba urbano precisa para ser de bamba. Três anos se passaram. 1998. João de Todos os Sambas. Dessa vez pela BMG, o novo CD de João Nogueira tentava o sucesso que o anterior não havia alcançado. Grandes músicas, como sempre, estavam lá. Parcerias com Paulo Cesar Pinheiro e Mário Lago, músicas de Jorge Simas e… Raça Negra! Isso mesmo, uma canção de dois integrantes do grupo Raça Negra. Mas, o que João Nogueira e Raça Negra têm em comum? Nada. A juntá-los apenas a busca maluca do sucesso. Apenas a besteira de juntar o que é para estar para sempre separado. Com certeza João não gravaria esse CD pela “multi†BMG sem esse tal “apelo de mercadoâ€. Ali estaria a “chave do sucessoâ€, caminho rápido para o milhão de cópias vendidas, devem ter jurado os executivos “geniais†da industria fonográfica. Os “gênios†procuravam um novo “Martinho da Vila†e conquistaram João Nogueira para a aventura. Quebramos a cara. Todos nós, admiradores de João Nogueira e da boa música brasileira e o próprio João, quebramos a cara. Menos, é claro, os “donos da vozâ€, esses não perdem nunca.

    Algum tempo depois deste artigo ter sido escrito, João Nogueira morreu… O espelho se quebrou. Deixou uma saudade imensa.

    PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.

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    Luiz Meira, um músico em progresso

    quarta-feira, janeiro 5th, 2011

    Depois de tocar com alguns grandes nomes da música, o catarinense Luiz Meira, além de bamba na guitarra e no violão, demonstra ser também bom cantor e bom letrista. Em seu segundo CD, Te Chamo Felicidade (independente), há cinco letras dele. Em onze faixas, nas quais ele se reveza no violão e na guitarra, Meira confirma ter bom balanço, avivado por divisões rítmicas dignas de um sambista de respeito, e uma voz afinada que trata com carinho os versos que interpreta.

    Logo de cara, dois sambas sacudidos chamam a atenção do ouvinte pelo suingue contagiante. Neles, a voz de Meira é agradável surpresa, enquanto sua guitarra e seu violão demonstram, com grande pegada, a energia do instrumentista. Tanto o primeiro, Vestido Novo (Jean Mafra e Luiz Meira), quanto o segundo, Libera o Bicho (Jean Garfunkel e Paulo Garfunkel), trazem a ótima base instrumental que pontificará ao longo do disco: Marco Brito (piano e teclados), Nema Antunes (baixo elétrico), Erivelton Silva (bateria) e Pirulito (percussão).

    Então vem nova letra de Meira, Quando Vens (com Jean Mafra). Samba mais lento dos que os que o antecederam, o arranjo abre suave, tendo violão a dialogar com piano, bateria e baixo, todos fazendo cama para a voz de Meira, plena de originalidade, deitar e rolar. O intermezzo é do violão. Logo todos se reencontram.

    O ritmo ligeiro volta quando Meira se junta a Zeca Baleiro para cantar Desasado (Jean Garfunkel e Luiz Meira), samba bem-humorado que propicia suingue malandro à dupla de bons cantores.

    Chega a primeira das duas faixas instrumentais: Começar de Novo (Ivan Lins e Vitor Martins). Delicadamente o violão dedilha os compassos da introdução. Cabe a ele tocar a melodia, tendo piano, bateria e o baixo acústico de Jorge Helder (que toca ainda em outras duas faixas) a ampará-lo. O teclado faz cortina para um vigoroso improviso de Meira… Ouçam esta, Ivan e Vitor, vocês vão adorar.

    Pra Ficar no Ponto (Dudu Falcão e Danilo Caymmi) é um ótimo samba. Ao ouvi-lo, cheio de ginga, torna-se inevitável lembrar de Geraldo Pereira. Estou quase certo de que João Gilberto nunca o ouviu; caso contrário, imagino, o teria gravado.

    O clássico Autum Leaves (Joseph Kosma, Jacques Prevent e Johnny Mercer) é outro instrumental em inédita versão de samba. O violão faz uma levada ligeira, com apoio de leve percussão e acompanha a melodia até que a guitarra assume as rédeas e arrasa num inspiradíssimo intermezzo. O baixo apoia. Meu Deus!

    A cozinha, agora também contando com a percussão de Alexandre DaMaria, embala os dois sambas finais: o esperto Respeito É Bom (Jean Garfunkel, Tatiana Cobbett e Luiz Meira) e o romântico Você Chegou Pra Ficar (Jean Mafra, Jean Garfunkel e Luiz Meira).

    As divisões do sambista se destacam. A genialidade e o bom gosto do instrumentista se superam. Tudo isso através de um músico que não tem barreiras musicais impedindo o progresso contínuo de sua musicalidade.

    Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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    Receita para ouvir samba

    segunda-feira, dezembro 20th, 2010

    Samba bom tem de ter ritmistas que criem alvoroço e façam a cabrocha gastar a sola da sandália; tem de ter surdo de marcação, caixa e repinique; tem de ter cavaco, banjo e violão de sete. Certo? Sim, mas não obrigatoriamente.

    Quer confirmar isso? Ouça o CD O samba transcendental de Marcos Ozzellin(foto) (selo JSR). Minimalismo: lá estão presentes em todas as catorze faixas uma percussão leve, um violão seguro e a voz afinada do intérprete. Não há mágicas nos arranjos nem seduções dançantes. Há, sim, um apelo à audição de melodias e de letras que marcaram o repertório do samba brasileiro.

    Com produção e arranjos de Arnaldo Souteiro, a seleção permite a Marcos Ozzellin demonstrar ser um bom sambista. Paulista de São Bernardo do Campo, ele despontou mesmo foi na nova Lapa Carioca, reduto do pessoal que ama o samba, desde o mais tradicional até o que é composto por novos compositores que por ali brotam cheios de qualidade.

    Tudo começa com “Sambou, Sambou†(João Donato e João Mello), uma bela sacada, pois este bom samba andava meio esquecido. O violão suingado de Geraldo Martins e o tamborim de Wilson Chaplin (que parece ser tocado com o dedo, tão leve é sua baqueta) se encarregam de valorizar a melodia e os versos. E a voz agradável de Marcos se sai muito bem. Suas divisões equivalem a uma chave que lhe abre as portas do mundo dos grandes do samba.

    Para tocar “Treze de Ouroâ€, o bem-humorado samba de Herivelto Martins e Marino Pinto, o violão agora está nas mãos de Rodrigo Lima e a percussão continua com a categoria de Wilson Chaplin. A letra, cheia de gracejos da melhor qualidade, serve para o cantor bem dividir os versos e comprovar sua boa dicção.

    E vem um clássico de Dorival Caymmi, “O Dengo Que a Nega Temâ€. Rodrigo continua ao violão e Chaplin na percussão. O canto de Ozzellin sai fácil, bom de ouvir. Só que, ao alterar uma nota da melodia do refrão (“É dengo, é dengo, é dengo, meu bem/ É dengo o que a nega temâ€), ele tira um pouco do sabor da obra do mestre. Não fica claro se tal mudança resulta de desatenção ou é, digamos, uma “licença melódicaâ€. 

    “Deixa†tem o surdo tocado por Souteiro acrescido à percussão. Começa lento, só com o violão dedilhado. Marcos canta suavemente, até que há uma modulação e o ritmo acelera, o que dá ainda mais nuança a esse que é um dos mais belos sambas da dupla Baden e Vinícius.

    Ithamara Koorax participa de “Bocochêâ€, outro grande samba de Baden e Vinícius. O desenho do violão tocado Rodrigo Lima é criativo, o que enseja a Ithamara e a Marcos darem mais emoções aos versos. Uma modulação permite que o encontro deles se torne ainda mais vigoroso.

    José Roberto Bertrami participa com seu teclado em “Como Será o Ano 2000?†(Padeirinho da Mangueira). Outros ótimos sambas vêm. A saideira é com “Saudaçõesâ€, de Egberto Gismonti e Paulo César Pinheiro.

    Finda a audição, aquilo de menos ser mais faz mais do que sentido, torna-se receita alternativa para se ouvir samba.

    Aquiles Rique Reis é músico e vocalista do MPB4

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