E não é que ele topou, o Chico!”
Ultimamente não ando com a memória muito afiada, mal consigo lembrar das últimas doze horas. Mas, engraçado, consigo lembrar com clareza lÃmpida fatos remotos de vinte, trinta anos atrás.
Lembro-me bem. Quando ele nasceu na noite de 24 de Outubro de 1968, Chico, camisa do Fluminense na mão, pulou o portão trancado da maternidade. Passava das onze da noite. O pai, marinheiro de primeira viagem, acabara o estoque de cerveja da lanchonete do primeiro andar daquela clÃnica no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, e dormia feliz depois de ver seu menino ser amamentado pela primeira vez. Fazia planos para ele, rubro-negro doente seria, sem dúvida. Seria um músico? Talvez, e por que não?
Embriagado de felicidade, despertou com as vozes na porta do quarto: “Mas meu senhor, o horário de visitas já acabou, o senhor não pode entrar aqui desse jeito. A mãe da criança fez cesariana e está sob efeito da anestesia…†Mas quem disse que alguém poderia conter o Ãmpeto quase juvenil daquele “senhor†de 25 anos? Chico entrou quarto adentro, colocou a camisa tricolor nas mãos rubro-negras do pai atônito e foi-se como entrou, sorrindo, quase correndo.
No dia seguinte a honra flamenguista foi resgatada com a entrega solene, desta vez diretamente nas mãos do recém-nascido, do manto sagrado do Mengão pelo saudoso Ciro Monteiro. Meu menino, juro, sorriu.
E a vida seguiu. Seguir é com ela mesmo, a vida.
InÃcio de 1996. Lembro-me bem. Atendi ao telefone e do outro lado da linha meu menino, já aquela altura com 28 anos, músico profissional (guitarrista, violonista e bandolinista) e rubro-negro doente estava eufórico, mas preocupado. Ele disse: “Fui convidado para participar de um projeto superimportante aqui no Rio. Um show no teatro Dulcina, na Cinelândia, onde cada semana um jovem e iniciante talento se apresenta ao lado de um artista consagradoâ€. As palavras saiam atropeladas. “Maravilha, parabéns… E quando será o show?â€, indaguei. “Será daqui a três semanas, mas… Quem é que eu posso convidar, pai? É… Quem será o artista consagrado que eu posso convidar?†“Liga pro Chico!â€, falei. Silêncio ensurdecedor. Do Leblon, no Rio de Janeiro até a Vila Mariana, em São Paulo, creio que todos puderam ouvir o som daquele silêncio retumbante. Finalmente, Pedro fala: “Mas você acha que ele topa?†“Liga e tentaâ€, sugeri.
E não é que ele topou, o Chico!
11 de Março de 1996. A porta do Dulcina fervilha de gente, muita gente. Na fachada do teatro está lá, para quem quiser ver: “Chico Buarque apresenta Pedro Reis, Thata e Mombaçaâ€, esses dois últimos companheiros do meu filho naquela noite mágica de responsabilidade e reverência ao Ãdolo que musicalmente os abençoou. Aqueles jovens sentiam isso. Eles tocaram isso aquela noite.
Saà do teatro direto para a última ponte aérea para São Paulo. Embriagado de felicidade telefono: “Chico, mais uma vez você acertou. Pedro merece tudo o que você lhe proporcionou essa noite. Muito mais do que um grande talento musical, você premiou um grande homem.†Eu não vi, mas Chico Buarque sorriu, olhou para o chão e desligou quase correndo. Isso é generosidade!
PS. Este texto foi publicado, originalmente, em meu livro “O Gogó de Aquiles”, lançado pela A Girafa Editora, em 2004.
Emilinha Borba
Emilinha Borba, junto com Carmen Costa, Nora Ney, Helena Meirelles, Carmélia Alves e Marlene, têm quase quinhentos anos de vida. Quase um Brasil de existência. São delas as músicas em louvor ao sonho nosso de cada dia, cantadas e tocadas por mulheres calejadas pela poeira da estrada que nos conduz ao futuro.
Cada uma de vocês, minhas matriarcas, desempenha seu ofÃcio com a dignidade e com o sacrifÃcio que lhes é imposto pelo mundo que teima em não as reconhecer como donas de tudo. InÃcio, meio e fim da trajetória de todos nós, seres humanos. Somos filhos de uma grande mulher que se chama música. Em seu útero fomos gerados. De seu ventre fomos paridos. Para a vida fomos lançados. Ela, essa grande mulher que é a música, nos quer assim: prontos para o canto, purificados pelo verso, sujos pela dor, abertos como o verbo e plenos como um recomeço.
Páginas iniciais de um novo caderno, assim as vejo, matriarcas da música brasileira. Levados por mãos de mulheres da nossa gente, seguimos vivendo e cantando a nossa própria vida.
Meados da década de 1940, Emilinha Borba e a Rádio Nacional pareciam uma coisa só: sinônimas. Duas entidades nacionais no auge do sucesso. Aquela rádio que trouxe a possibilidade de comunicação entre nossa gente e a cantora que fez de sua popularidade um marco na história do show business tupiniquim desabrochavam naquele tempo que era do rádio e de Emilinha.
Em seu programa, César de Alencar levava a platéia do auditório ao delÃrio ao anunciar a “nossa favoritaâ€, Emilinha Borba, estrela de sucessos incontáveis. Cantora de baiões, de sambas, de marchas e de rumbas que eram levados para todo o Brasil, fazia com que, de norte a sul, multidões ligassem o rádio para ouvir os programas de auditório, lotassem os cinemas para rirem e se emocionarem com as chanchadas da Atlântida e comprassem os discos de 78 rpm de suas cantoras e cantores favoritos.
Cantora eclética, EmÃlia Savana da Silva Borba, a Emilinha, deve a rumba “Escandalosaâ€, de Djalma Esteves e Moacir Silva, tanto quanto deve à marcha “Chiquita Bacanaâ€, de João de Barro e Alberto Ribeiro, ou ainda ao baião “ParaÃbaâ€, de LuÃs Gonzaga e Humberto Teixeira, o enorme sucesso popular que conquistou. Isso sem falar nos trinta e quatro filmes que fez e que ajudaram a consolidar a fama daquela carioca que passou a infância na Mangueira e que gostava de imitar outro Ãcone nacional, Carmen Miranda.
Em 1964, foi forçada a operar as cordas vocais vitimadas por um edema que lhe tirou o brilho da voz. Aquela voz que animou os carnavais da vida de muitos como eu viu-se abatida pelo esforço de não se deixar calar. Abatida pelo edema adquirido pelo desejo de continuar mostrando o quanto vale a voz de uma mulher que canta, Emilinha seguiu o seu desÃgnio de entregar seu coração à música, de doar sua alma a nós que dependemos de seu cantar.
Somos gratos a você, matriarca da música brasileira. Obrigado por nos ensinar que o mundo é a mulher que toca e canta, e que o futuro é incondicionalmente feminino.
 PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004
Jamelão
“O samba só quem tem gogó pode levar/ Num samba só o sacudir e o segurar/ Sair regendo todos nós/ Com a batuta de uma voz/ que nem alguém que fosse o spalla e o maestro ao mesmo tempo/ Tem que ser bam-bam-bam na roda de bamba/ Mostrar que tem samba no maxilar/ Fazer chover e desfazer pro sol brilhar/ Um levitar com ginga e marcação/ Feito empinar a pipa de uma multidão/ No chão, dispensando o caminhão Ele é a própria anunciação do carnaval da Mangueira/ José, como o pai da santa fé/ Clementino, igual Quelé/ Mãe da gente brasileira/ Ninguém é melhor do que ninguém/ Mas a arte que a gente tem é brincadeira… / Ateia o sonho e a empolgação/ Quem é que não precisa de ilusão? / Então, a alma fica inteira/ Ao vê-lo cantando com tanta paixão/ Mesmo quem não tem amor pela sua bandeira/ Fica tomado de lágrimas por Jamelãoâ€.
Esta é a letra de “A Voz do Samba”, música de Vicente Barreto e Celso Viáfora. Nos versos, o poeta Viáfora traduz a reverência respeitosa que todos nós, brasileiros com um mÃnimo de vergonha na cara, devemos ter com esse que é um dos maiores cantores de ontem, de hoje e sempre: José Bispo Clementino dos Santos, o Jamelão.
O timbre de sua voz é grave. O tom de sua voz é extremamente agudo. Jamelão tem o grave mais agudo da música brasileira. Ele é a emoção mais sincera, o sentido de divisão melódica mais sutil, o repertório impecável. Seu mau humor uma lenda sempre disponÃvel para quem ousar pagar para ver.
Profissional competente, extremamente dedicado, Jamelão é a soma de requisitos para um bom intérprete. Vê-se naquele homem negro como uma figura de Portinari, a conjunção de dons que possibilitam o surgimento de um fenômeno. Ele encarna com naturalidade essa realidade.
Ele encara com simplicidade o fato de ter a força vocal de um jovem principiante para cantar durante o tempo do desfile da Estação Primeira de Mangueira. Passos firmes, voz colocada, a letra do enredo flui nÃtida e forte. A Mangueira desfila bem, a Mangueira desfila mal, mas Jamelão é sempre igual, genial… Não muda nunca o Jamelão, graças a Deus.
Sempre que a diretoria da escola anuncia a intenção de transformá-lo no enredo para um futuro carnaval qualquer, ele, para não perder a fama de mau, desdenha, irrita-se, mas no fundo compreende que a homenagem seria mais do que justa. Ele é a Mangueira, seu enredo permanente e imutável. Ele é criador e criatura. Tudo junto pela música, pelo samba. Todos juntos pela memória de um povo que precisa cantar, dançar e ser feliz.
Jamelão certamente não gostará nem um pouquinho dessa história de ser um pajé da música brasileira. Ficará uma fera, esbravejará, dirá que isso é coisa de quem não tem o que fazer, que isso e que aquilo… Não importa. Como creio que a Mangueira tem a obrigação de torná-lo enredo de um dos próximos carnavais, tenho a certeza de que todos os brasileiros deveriam ler o enredo da vida do mestre. Entendê-lo para ouvi-lo. Conhecê-lo para melhor admirá-lo. Sejamos curiosos com a vida e a obra de Jamelão.
Vamos aos sebos garimpar seus LPs. Vamos à s lojas encomendar seus CDs. Vamos cantar as músicas que ele canta. Vamos saber sobre seu futuro, quais são seus planos para shows, onde poderemos assisti-lo. E… Puxador é a mãe!
PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004. Jamelão se foi algum tempo depois. Saudades…
Paulinho do samba
Tradução irretocável da harmonia entre o samba de alma negra dos morros cariocas e o som da classe média branca, da zona sul do Rio de Janeiro. Fusão de opostos, catalisador de diferenças: sÃntese. Só que sÃntese com nome, sobrenome, apelido e imagem. A imagem é a de um negro de alta linhagem, elegante e educado. O apelido arrasta a música que carrega na alma. O sobrenome Faria tem a tradição do pai, violonista dos melhores que tivemos e Paulo é nome de bamba desde sempre no mundo do samba.
Paulo César Batista de Faria nasceu para ser ponte entre mundos tão diversos quanto geniais da música brasileira. Paulo César Batista de Faria nasceu em 1942 com a missão de ser Paulinho da Viola.
Desde os Foliões da Rua Anália Franco, de Vila Valqueire, subúrbio do Rio de Janeiro, e do Carijó de Botafogo, bairro de classe-média da zona sul carioca, Paulinho vem exercendo sua missão de cantador e fazedor de samba. Desde 1960, Paulo César Batista de Faria vem cumprindo o seu destino de ser Paulinho da Viola.
Sinais se fecharam em sua vida. Pesadelos atormentaram suas noites. Rios passaram caudalosos arrastando seu coração de poeta. Mas, atento, revelava: “(…) Meu pai sempre me dizia/ Meu filho tome cuidado/ Quando eu penso no futuro/ Não esqueço o meu passado (…). Lição de mestre. DiscÃpulo de Candeia, Casquinha, Monarco, Matraca, Picolino, Ary do Cavaco, Paulo da Portela, Natal, Lino, Alvaiade, Ventura, Cartola, Ismael Silva, Zé Kéti e Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola aprendeu que o bom malandro “durante o nevoeiro, leva o barco devagarâ€.
Ouviu o preconceito dizer que “sambista não tem valorâ€. Juntou tudo e cantou para o mundo com voz macia e doce: “(…) Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você? (…)â€.
Paulinho da Portela, Paulinho da música brasileira, Paulinho da poesia, Paulinho do cantar bonito, Paulinho do meio de campo do Menopausa, time de futebol do “pessoal da música†nos anos 1970. Embates gloriosos contra o time do “pessoal do cinema†no campo do Madureira F. C. Quanto chope gelado no boteco perto do Teatro Casa Grande, no Leblon, preparativo para encarar o sol dominical do verão carioca no subúrbio de Madureira! Tempos de ilusões românticas. Tempos de “conspirações subversivas†no Teatro Opinião ou no Teatro Casa Grande. Tempos idos de juventude onipotente.
PodÃamos tudo à quela época, crÃamos. O “pessoal da músicaâ€, o “pessoal do cinemaâ€, o “pessoal do teatroâ€, enfim, todo o pessoal que freqüentava a Montenegro, bebia no Jangadeiros, lia O Pasquim e amava as musas de Ipanema, cria e sonhava com um mundo melhor que haverÃamos de construir com nossos corações e mentes.
Almas que fervilhavam de emoção ao ouvir Clementina de Jesus cantando no Teatro Jovem, no show Rosa de Ouro, dirigido pelo grande HermÃnio Bello de Carvalho. Nesse show surgiram Os Quatro Crioulos e entre eles estava Paulinho da Viola. Lá mesmo, no Teatro Jovem, participávamos de debates sobre música brasileira. OuvÃamos compositores novos que tinham músicas para mostrar.
DiscutÃamos e brigávamos por um samba melhor, por uma música que representasse o que ia no peito daquela pequena legião de fazedores de música. Verdadeiro exército de Brancaleones vindos de toda parte para levar em frente o desejo de perpetuar em arte o sonho de ser feliz. Entre eles estava Paulinho da Viola cantando: “(…) Porque hoje eu vou fazer/ Ao meu jeito eu vou fazer/ Um samba sobre o infinito.â€
TÃnhamos o futuro, o infinito em nossas mãos. Acho que éramos felizes, apenas fingÃamos não saber.
PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004
Dino Sete Cordas
Sem dúvida, o violão é o instrumento musical mais popular que existe. Em qualquer bairro de cada cidade, alguém conhece alguém que toca violão. Arranhar as cordas mi, lá, ré, sol, si, mi de um violão é passatempo e diversão para pessoas de todas as idades e classes sociais. Fascinam as rodas que se formam para escutar o amigo que tem o dom de dominar o instrumento mais democrático e agregador que conhecemos.
Seja numa serenata em Conservatória, no Rio de Janeiro, ou em São LuÃs do Paraitinga, em São Paulo, numa mesa de boteco, nas comemorações pelo emprego novo, nas festas de fim de ano, na alegria pela conquista de uma nova namorada, na fossa pela perda de um grande amor, em meio ao alarido de um porre memorável que comemora mais um aniversário, em todos os momentos de confraternização é sempre bom ter um violão por perto.
Ao músico amador é concedida a honra de ser o centro das atenções, de ser o alvo do olhar das moças encantadas pelo dedilhar das seis cordas que amarram emoções e libertam sentimentos. É sempre bom conhecer alguém que, ainda que desengonçado, conheça as canções que amamos e consiga dedilhá-las em seu instrumento, remetendo-nos a um mundo de magia, onde as encrencas do dia a dia se amenizam e tornam-se suportáveis.
Feliz de quem tem um amigo que toca violão. Bem-aventurado aquele que pode ter um profissional do violão em suas relações de amizade. Conviver com quem domina as manhas de um instrumento que tem a forma de um corpo de mulher, que dedilha suas cordas e as faz suas servas atenciosas e meigas, é uma dádiva concedida a poucos privilegiados. Horondino José da Silva, o Dino é de uma generosidade grandiosa. Concede sua amizade a uma legião de pessoas. Empresta seu convÃvio a um grupo imenso de pessoas que se delicia ao ouvi-lo tocar e se encanta com seu humor cativante. Ele é o rei da frase de duplo sentido criado por cacófatos divertidÃssimos.
O mestre toca magistralmente desde os catorze anos. Integrante do Regional de Benedito Lacerda, mais tarde Regional do Canhoto, formou ali, junto com Jaime Florense, o Meira, outro mestre do violão, uma dupla insuperável de violonistas. Mas o Mestre Dino não se contentou com as seis cordas do violão. Nos anos 1950, espelhando-se em Tute, outro exÃmio instrumentista, encomendou um violão de sete cordas e passou a tocá-lo. Um violão com uma sétima corda grave afinada em dó permitiu-lhe desenvolver fraseados melódicos geniais, dedilhados no ritmo apressado de chorinhos e sambas compostos pelos bambas de ontem e hoje. O bordão da corda dó brilhou em discos e shows de diversos astros da música brasileira, sempre cumprindo as ordens vindas dos dedos das mãos de Dino Sete Cordas. Virtuoso, ele pode orgulhar-se de ser a história viva do violão brasileiro. Professor brilhante, até hoje pode se gabar de ter ensinado seu ofÃcio a diversos violonistas, dentre eles o exuberante e saudoso Rafael Rabelo.
Sou daqueles privilegiados que conviveram com Dino. Nos bastidores do Teatro Opinião ou nos estúdios de gravação, aprendi a gostar de um instrumento que nas suas mãos ganha uma dimensão misteriosa e deslumbrante. Esse pajé da música brasileira, num dialogo com outro músico num estúdio de gravação, mandava os cacófatos caracterÃsticos do seu humor. Leia com segundas intenções, por favor: “Você, que chegou a pouco de fora e está louco de raiva, fique sabendo que o meu negócio está de pé, agora só fica faltando uma posição sua. Lembranças a quem for da famÃliaâ€.
PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004. Dino nos deixou algum tempo depois. Saudades…
Elza Soares, mulata assanhada
Desde sempre ela foi assim, intensa. Negra tinhosa. Assim é Elza Soares. Nada lhe sai de graça. Tudo sempre lhe foi penoso. Guerreira, cada canção é hino de louvor a batalhas incontáveis. Seu jogo nunca é um a um. O placar, nem sempre favorável, não abate nunca quem sabe, como ela, que os moinhos são mera paisagem. Cada placar favorável parece, no entanto, mentira que deixou saudade e transforma sua história em poemas de rimas ricas.
Ama, canta seu canto negro de força ancestral com voz macia de mãe. Canta, ama seu canto rascante com voz de negra dos cortiços. Canta como o canto que sai da voz do Cacique de Ramos. Canta com voz insaciável de amante indócil. Canta com vozes de muitas numa só. Voz brasileira de mulher sofrida canta, canta, canta mais…
Sofreu, chorou por seu filho morto tão pequeno. Luz negra que cega como veneno atirado na retina. Queima-lhe toda a alma. Era o seu guri, olha aÃ. Só quem caiu pode levantar para cair de novo. Uma queda nunca haverá de ser como a outra. Cada levantar será como um caderno novo em branco, pronto para ser preenchido pela vida.
Só segue na vida quem usa a arma dos apaixonados. O som da incoerência louca é melodia para ensurdecer otário. O cantar suave de um passarinho revela o amor e faz explodir no ar o manto colorido da paixão. Ninguém poderá entender o motivo porque, como o redemoinho ensandecido, todo amor revira as entranhas dos amantes. Com as entranhas abertas ao prazer, nem nenhum tresoitão colocará na poeira do chão o sangue de dois amantes banhados de suor e gozo. Será sempre deles, sempre será só deles a cama de alecrim banhada por gotas de orvalho purificador.
A negra gostosa e o campeão. Nosso Mané, o Garrincha. Nossa Elza, a mulata. Aos dois o amor era proibido por moralistas hipócritas e por marionetes de moral velhaca. Os ventrÃculos de um papo furado fizeram-se árbitros de uma partida que mal começava. Mas o torto genial e a negra gostosona seguiram em frente para outras paradas, novas paragens… Haja mundo para viajar, se refugiar. Mas de que se escondiam Elza Soares e Mané Garrincha? Deles próprios. Da paixão que os assustava mais que os caretas de ocasião. Do calor que consumia suas emoções mais do que a opinião de débeis mentais puritanos de plantão.
O canto segue com Elza Soares. Sua vida continua aos saltos. Sua voz não cala. Sua paixão exala perfumes de mulher madura. Porém, há uma fração de segundo que sempre inebria e causa vertigem. A luz cegou, a vista turvou, e a queda do palco no Metropolitan, Rio de Janeiro, foi inevitável. Por um tempo um colete de aço prendeu a ginga da guerreira. Mas quem bem a conhecia sabia que ela, em fevereiro de 2000, estaria em gloriosa forma sobre um salto 20, no Copacabana Palace, onde foi indicada pela BBC de Londres como representante do Brasil na série de espetáculos Millenium Concerts que aconteceu naquele ano.
Suingue no sangue que segue generoso irrigando o corpo bem conservado de nossa dama negra. Peço aos deuses por você, Elza. E digo: desde menino em Niterói, eu sentia uma alegria imensa – chegava a acreditar que tudo ainda poderia dar certo – quando a ouvia cantar “Se Acaso Você Chegasse†no rádio cheio de válvulas colocado na mesinha de cabeceira. E assim é até hoje quando a ouço cantar emocionada e emocionantemente “Meu Guriâ€, de Chico Buarque. A emoção renovada pela vida que segue em frente, as lembranças fazendo nosso futuro.
PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.
Carmen Costa
Mulher negra. Perfil de rainha. Voz grave e emocionada. Mulher sensual. Estrela de tantos carnavais. Seu brilho nas telas do cinema brasileiro na década de 1950 deveu-se ao fantástico Carnaval em Marte, de Watson Macedo. Mulher trabalhadora. Seu ofÃcio de cantar vem do tempo em que trabalhava numa casa de famÃlia protestante, no municÃpio fluminense de Trajano de Moraes, sua terra natal. Lá ouviu e aprendeu os hinos religiosos cantados pelas pessoas da casa.
Sua vida artÃstica começou a mudar quando, por sugestão do compositor Henricão, trocou o nome de batismo, Carmelita Madriaga, pelo pseudônimo Carmen Costa. Do final dos anos 1930 até inÃcio da década de 1940, tentou a sorte musical formando uma dupla com Henricão. Alguns discos 78 rpm foram lançados pelos dois sem que conseguissem fazer o sucesso tão almejado. Foi quando Henricão e Rubens Campos resolveram arriscar uma versão da valsa mexicana “Cielito Lindoâ€. Carmen Costa gravou-a – foi sua primeira gravação individual – com o nome “Está Chegando a Horaâ€.
No carnaval seguinte só deu Carmen Costa e seu primeiro e extraordinário sucesso: “Quem parte leva saudade de alguém/ Que fica chorando de dor/ Por isso não quero lembrar/ Quando partiu meu grande amor/ Ai, ai, ai, ai; ai, ai, ai, está chegando a hora/ O dia já vem raiando meu bem/ Eu tenho que ir emboraâ€. A partir daÃ, outros êxitos foram acontecendo na carreira e na vida dessa cantora de talento. Quem não se lembra de “Cachaça Não é Ãguaâ€, de Mirabeau, Héber Lobato e Lúcio de Castro, ou de “Jarro da Saudadeâ€, de Mirabeau, Geraldo Blota e Daniel Barbosa: “Iaiá, cadê o jarro? / O jarro que eu plantei a flor? / Eu vou te contar um caso/ Eu quebrei o jarro e matei a flor/ Que maldade, que maldade/ Você bem sabia que no jarro de barro eu guardei a saudadeâ€. Outro sucesso foi “Se Eu Morrer Amanhãâ€, de José Garcia: “Se eu morrer amanhã/ Não levo saudade/ Eu fiz o que quis/ Na minha mocidade/ Amei e fui amada/ Beijei a quem eu quis/ Se eu morrer amanhã de manhã/ Morrerei feliz, bem felizâ€.
Os anos 1950 e 1960 foram tempos de sucesso para Carmen Costa. Os carnavais e o cinema deram para nossa matriarca o que ela sempre sonhou: o reconhecimento e o carinho do público.
Pelas ondas do radio e através da tela do cinema conheci Carmen Costa. Minha juventude foi sonorizada por ela.
 PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora, em 2004.
Patativa do Assaré
Patativa do Assaré era um homem voltado para sentir as palavras. Um sertanejo calejado na luta para traduzir o sentimento do nordestino. Quase cego dos olhos, como o Assum Preto. Com os ouvidos moucos de tanto ouvir a ladainha dos pobres de espÃrito, restava-lhe a poesia. Restavam-lhe as palavras que, juntas, valiam a voz do homem do sertão do Ceará, sua terra natal. Homem brasileiro que se orgulhava de sua gente e fazia versos que eram como uma câmera fotográfica a registrar com crueza a miséria de sua gente. Criador de frases, seu mundo era o mundão dos grotões e das caatingas. Sua voz ecoava pelos quatro cantos do Nordeste tão miserável quanto rico. A mesquinharia de coronéis, senhores feudais e cafetões da seca secular, excluiu um pedaço brasileiro dentro do Brasil. Como uma perna amputada do tronco, o Nordeste teima em se apoiar na voz de seus cantadores. Tenta resistir na ponta do lápis de seus poetas. Tenta não deixar que se apague a chama de vida nascida da terra árida que faz sua música brotar do chão esturricado pelo sol de arder a pele e a alma.
Patativa falava a lÃngua nordestina com o sotaque de seu povo. Sua gente o entendia e idolatrava. Suas palavras formavam um caminho que ligava Assaré ao resto do paÃs. Essa estrada formada por versos batidos em meio à terra seca levava Patativa mundo afora. O poeta fez de suas andanças seu viver e relatava-as à queles que são ávidos por ouvir histórias do homem que traça o seu destino com palavras.
Antônio Gonçalves da Silva disse: “A poesia sempre foi e ainda está sendo a maior distração da minha vida.†Um homem que se divertia chamando seus irmãos à luta. Um poeta que vivia para fazer com que seus versos fossem usados pelos seus conterrâneos para buscarem uma vida mais digna.
Patativa não ouvia e pouco enxergava. Vivia sentado em sua cadeira de balanço, ritmando seus dias ao sabor do nascer e do pôr do sol. Patativa era um de seus personagens, ele e todos os que vivem pelo sertão adentro. Em sua antologia Cante Lá Que Eu Canto Cá, organizada pelo pesquisador Plácido Cidade Nuvens e lançada pela Editora Vozes em 1978, Patativa do Assaré ensina: “Morre aquela criatura, / depois, a pobre coitada, / no rumo da sepultura, / vai numa rede imbruiada. / Um adjunto de gente, / uns atrás, ôtras na frente, / num apressado rojão, / quando um sorta, o ôtro pega: / é assim que se carrega/ morte pobre, no sertão.†Em sua escrita que reproduz o falar do homem nordestino o poeta revelava o que seus olhos já quase não viam, e cantava as cantigas que seus ouvidos já pouco escutavam.
Patativa não costumava ser muito gentil com o monte de polÃticos que, na época de eleição, iam procurá-lo em sua casa, em Assaré – distante quinhentos quilômetros de Fortaleza –, para pedir apoio. Sentado na cadeira de balanço, pitando seu cigarro, aquele homem de um metro e meio de altura tinha versos afiados na ponta da lÃngua, prontos para afrontar os homens que faziam e fazem da seca indústria, da fome comércio e do latifúndio quintal de sua ganância inescrupulosa. O poeta escarrava pro lado e mandava bala na lata do projeto de polÃtico: “Quero um chefe brasileiro/ Fiel, firme e justiceiro/ Capaz de nos proteger, / Que do campo até a rua/ O povo todo possua/ O direito de viver/ Quero paz e liberdade, / Sossego e fraternidade/ Na nossa pátria natal/ Desde a cidade ao deserto/ Quero o operário liberto/ Da exploração patronal (…)â€
Patativa do Assaré, pajé da nossa cultura popular como Braguinha, Dino e Jamelão. Exemplos de criatividade, dignidade e cidadania.
PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004. Jamelão se foi algum tempo depois. Saudades…
Quando o samba acabou
Domingo à tarde. O rádio está ligado numa rádio qualquer. Acabou de tocar uma dessas músicas chatas que o programador jura que os ouvintes adoram ouvir. Entra o locutor: “Faleceu hoje, no Rio de Janeiro, o compositor e cantor José Flores de Jesus. Zé Keti, como era conhecido nacionalmente, estava internado havia quase um mês e teve falência múltipla dos órgãos. Aos setenta e oito anos, o compositor… O enterro será logo mais à s dezesseis horas no cemitério…â€
A voz do locutor se misturou com o som da buzina de um carro na rua. Um cachorro latiu. Uma freada se ouviu. Imóvel, senti mais frio. O dia de chuva fina me fez ainda mais triste. Pensei: “Acender as velas já é profissão/ Quando não tem samba, tem desilusão/ É mais um coração, que deixa de bater (…)†Ele, que era o samba, deixou de ser. Um mero e formal anúncio decretou seu fim. Desliguei o rádio, fechei as janelas, as cortinas, bati a porta e saÃ. O samba acabou.
Fui para o Emenda, bar perto da minha casa, em São Paulo. Afogar mágoas, sentir saudades, cantar e contar histórias desse compositor genial, sambista de linhagem pura, homem inteligente, um dos poucos remanescentes da velha geração que fez da malandragem fonte da mais rica inspiração. Apesar de achar difÃcil, temi que a turma não estivesse lá. Tremia ao me imaginar sozinho naquela tarde. Ainda na porta pude perceber com alÃvio que estavam quase todos lá. Vi Silvinha, a doidinha, com os cabelos soltos e olhar vago, linda. Vi o Jorginho D’@lencastro, com os cotovelos apoiados na mesa, triste. Vi Carlos Marques Jr. conversando com Seu Manuel, inconsoláveis os dois.
As garrafas vazias de Brahma denunciavam o propósito da turma de tomar um porre naquele domingo chuvoso. Era tudo o que eu precisava. Entrei. Ao lado do tradicional cartaz pintado com caneta hidrocor vermelha: EMENDA, TEMOS ORGULHO DE SER PIOR QUE O SONETO, lia-se outro, certamente também pintado pela Silvinha, só que com hidrocor azul claro: “SE ALGUÉM PERGUNTAR POR MIM, DIZ QUE FUI POR AÃ, LEVANDO UM VIOLÃO DEBAIXO DO BRAÇOâ€.
Do outro lado da calçada estava o Soneto, boteco igual ao Emenda, só que próspero. Lá, tudo era indiferença. Isto reforçava ainda mais o orgulho da turma da mesa 4. Eram bares diferentes. Gente diferente.
Jorginho D’@lencastro, o mais experiente e vivido de todos os que estavam no Emenda, assumiu a palavra: “Não acho que o momento seja de chorar. Zé Keti cantou a vida em seus sambas. Lembro dele nos filmes do Nelson Pereira dos Santos: Rio 40 graus e Rio Zona Norte. Lembro dele cantando “A Voz do Morroâ€, “Opiniãoâ€, “Acender as Velasâ€, “Máscara Negra†e “Diz Que Fui Por AÃâ€. Lembro dele no show Opinião, ao lado de João do Vale e Nara Leão. Lembro dele no Bip-Bip, do Alfredinho, lá em Copacabana. Lembro tanto da alegria dele ao receber o Prêmio Shell 98, ele, que costumava dizer que nunca havia pedido para entrar no salões bacanas da Zona Sul, muito menos pedido pra sair. Lembro dele lançando, lá no Zicartola, os novatos Elton Medeiros e Paulinho da Viola. Não, hoje, definitivamente, não devemos chorar.â€
D’@lencastro prosseguiu com lágrimas nos olhos: “Vamos levantar um brinde ao brasileiro Zé Keti, homem simples e trabalhador, como de resto o são aqueles que sobrevivem com dignidade nessa terra tão injusta e desigual. Vamos cantar os sambas geniais de mais um bamba que nos deixa. Fiquemos com sua memória e canto. O samba não morreu. Seu Manuel, manda mais uma Brahmaâ€.
PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004. Zé Keti se foi no dia 14 de novembro de 1999, um domingo. Saudades…




