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O poeta Zé da Feira

segunda-feira, outubro 25th, 2010

José Alves Feitosa, jornalista profissional (repórter fotográfico) e poeta. Nasceu em 29 de março de 1951 na cidade de Paulo Jacinto, Alagoas. Filho do cearense Antonio Alves Barbosa e de Rosa Feitosa Barbosa. O pai “seu” Antonio, trabalhador, passou parte da vida entre Alagoas e o Ceará, mas em 1960 o velho artesão toma uma decisão definitiva na vida: fixou-se em Paulo Jacinto, região serrana no agreste alagoano. Estabelecido na cidade montou uma pequena fábrica de calçados de couro.

A produção da semana era vendida aos sábados nas feiras de Viçosa e aos domingos em Paulo Jacinto. Os chinelos, as alpercatas e os sapatos eram de boa qualidade, rapidamente formou uma boa clientela nas duas cidades. O negócio era pequeno, não dispunha de capital suficiente para comprar matéria prima em quantidade suficiente para obter maior lucro. Mas mesmo assim criou a família com o suor do seu trabalho.

José, o segundo dos filhos, depois de perambular como cigano com o pai entre Alagoas e juazeiro do Ceará, e também após o falecimento da mãe, dona Rosa em 1963, foi estudar em Viçosa, cidade vizinha onde morava o avô paterno “Seu” Camilo. O contato com os cantores, a música popular e a poesia de cordel, abriu uma janela na vida do adolescente que mais tarde se tornaria poeta.

O ambiente de boemia em Viçosa, terra de grandes figuras, como o músico Zé do Cavaquinho, Teotônio Vilela, Octavio Brandão, José Maria de Melo, José Pimentel, José Aloísio Brandão, Alfredo Brandão, Sidney Wanderley, Denis Melo, Eloi Loureiro Brandão, Nelson Almeida e outros. Feitosa, diz sempre que: “Foi em Viçosa que iniciou o aprendizado do jornalismo e de minha profissão de repórter fotográfico.”

Trabalhou como repórter fotográfico em todas as redações de Alagoas, dos extintos Jornal de Alagoas, o mais antigo do Estado, que pertencia a cadeia dos Diários Associados e Jornal de Hoje, até os atuais Gazeta de Alagoas, Tribuna de Alagoas, na primeira fase do jornal, quando foi inaugurado e pertencia ao saudoso senador Teotônio Vilela. Novamente está trabalhando como repórter fotográfico na redação do jornal Gazeta de Alagoas.

O fotógrafo desenvolveu habilidade e apurou a sensibilidade no dia-a-dia: cumprindo pautas, fotografando a seca, a miséria no sertão de Alagoas ou em Maceió, captando cenas cruéis de crianças saciando a fome catando resto de comida no lixo para comer em bairros periféricos. O olho de repórter e a sensibilidade de poeta caminharam juntos, sempre e desse feliz casamento nasceu um grande fotografo e cidadão.

O dia-a-dia na redação de um jornal é, para muitos, enfadonho, sem grandes perspectivas, mas para José Feitosa, essa rotina foi superada com os projetos que desenvolveu. O afastamento temporário das redações aconteceu em vários momentos. Primeiro vieram as campanhas eleitorais, ao ser tratado para cobrir campanhas de candidatos majoritários tanto ao governo de Alagoas como ao senado da República, em 1982 e 1986.

Nas eleições de 1982 entregou-se de corpo e alma, passou a ser fotógrafo e poeta oficial dos candidatos José Costa e José Moura Rocha. O Brasil desde 1966 não elegia os governadores dos estados, a ditadura militar havia acabado com as eleições diretas através do voto popular, os governadores passaram a ser escolhidos pelas assembléias legislativas.

A década de 1980 entrou com esperanças de que o país superaria a ditadura militar. José Feitosa foi eleito dirigente sindical, em diversas oportunidades e para diversos cargos na diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Alagoas. O movimento sindical brasileiro havia crescido, greves eram proibidas, mas os trabalhadores vinham realizando movimentos paredistas em vários estados e categorias, os jornalistas de Alagoas também fizeram a sua em 1979.

A luta contra censura nas redações era uma das principais bandeiras dos jornalistas. Em todos esses momentos esteve presente o jornalista e poeta José Feitosa, o Zé da Feira.

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João do Vale e Miúcha na campanha eleitoral de 1982

sexta-feira, junho 4th, 2010

 A ditadura militar em 1966 havia proibido as eleições para governador. Extinguiu os partidos políticos e continuou cassando direitos e mandatos de parlamentares, aposentando magistrados, prática que se iniciara a partir do dia 1º de abril de 1964, dia em que o presidente João Goulart [1919-1976] foi deposto da presidência do Brasil.

 O ano de 1982 estava se delineando em Alagoas como o ano da virada política. A oposição, liderada legalmente pelo PMDB, apresentava dois grandes nomes para as eleições majoritárias: o advogado José Moura Rocha [1933], ex-preso político, já havia enfrentado os candidatos e o casuísmo da ditadura nas eleições de 1978.

        O outro nome: Teotônio Vilela [1917-1983] − a figura mais importante daquela época na política alagoana e um dos lideres da oposição no país. Mas, infelizmente, Teotônio foi desaconselhado a concorrer à vaga de senador, pois os médicos num exame de rotina haviam identificado um câncer.

         A trágica notícia pegou a todos de surpresa. Não demorou muito e a chapa foi modificada, com a entrada do deputado José Costa [1935] para disputar o governo, sendo José Moura Rocha deslocado para disputar a vaga de senador, em substituição a Teotônio Vilela. O velho menestrel iniciou o tratamento do câncer e permaneceu bravamente peregrinando pelo Brasil afora.

        A presença de Teotônio Vilela na campanha eleitoral em Alagoas foi emocionante. Eram visíveis os efeitos da quimioterapia no corpo do senador; a cada instante os militantes dos partidos políticos clandestinos, do PMDB e os eleitores iam se emocionando, aumentando assim a participação nos comícios e nas caminhadas.

        Os indicativos da vitória vinham das ruas; o povo carregava os candidatos nos braços literalmente. Nos porões eram montadas as armações, as fraudes. O que de fato ocorreu. Os candidatos da oposição foram derrotados pela fraude eleitoral.

        Dinheiro, roubo de urnas, subornos nas cidades do interior de Alagoas. E a pior das coisas: a violência. Assassinatos de políticos, prefeitos, vereadores, candidatos a cargos eletivos – o jornalista Tobias Granja, candidato a deputado estadual, foi assassinado numa das ruas centrais de Maceió.       

O crescimento da campanha oposicionista é uma realidade que passou a incomodar. As manifestações ocorrem de maneira organizada pelas ruas na capital e nas cidades do interior. São multidões que estão indo cada vez mais às ruas. Os artistas se engajam no processo de luta pela redemocratização do Brasil.

        O cantor e compositor maranhense João [Batista] do Vale [1933-1996] e a cantora carioca Heloisa Maria Buarque de Holanda − Miúcha [1937] entram na campanha de vários candidatos pelos estados, até chegarem a Alagoas para participar da reta final da campanha de José Costa [PMDB] a governador e José Moura Rocha [PMDB] para senador. O comício foi o maior até aquele momento, estimado em mais de 60 mil pessoas na praia de Pajuçara.

        O senador Teotônio Vilela, visivelmente abatido pelo câncer, esteve presente e falou para a multidão que o aplaudiu e cantou as músicas da campanha, num grande e afinado coro de milhares de vozes.

        A dupla andou pela cidade. João do Vale já conhecia os meandros da cidade, estivera em diversas oportunidades cantando e bebendo na noite maceioense. O Bar da Jaqueira era um dos pontos preferidos do autor de Carcará, Estrela Miúda, Peba na Pimenta, entre outras muitas músicas.

        João do Vale era militante do PCB. A direção local do Partido procurou o cantor, que declarou: “Se votasse em Alagoas, votaria em Nilson Miranda e Sérgio Moreira para deputado estadual e federal”. Nilson Miranda era um antigo dirigente do PCB, tinha sido vereador e tivera cassados os direitos políticos e o mandato parlamentar em abril de 1964.

        Miúcha, artista com vinculações com a esquerda, também pediu votos para os candidatos do PCB e aliados. João do Vale e Miúcha vestiram a camisa de campanha do jovem advogado Sérgio Moreira e, para evitar qualquer tipo de ciúmes entre os outros candidatos, o fato foi registrado pelos comitês dos candidatos, mas o material só foi enviado à mídia depois do comício.

        Os jornais de campanha tanto de Nilson Miranda quanto de Sergio Moreira noticiaram o momento. Teo Vilela [1951] é um dos que aparece na foto, embora na época não exercesse cargo político. A sua estreia na política ocorre nas eleições de 1986, quando é eleito senador, sendo posteriormente reeleito para três mandatos consecutivos, em 1986-1994, 1994-2002 e 2002-2006. Em 2006 foi eleito governador de Alagoas.

        Os candidatos da oposição foram derrotados numa das mais vergonhosas eleições da história de Alagoas. A derrota se deu em decorrência da fraude eleitoral e da violência política institucionalizada. Foram eleitos Divaldo Suruagy governador de Alagoas e Guilherme Palmeira senador.

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