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São Paulo

terça-feira, janeiro 25th, 2011

São Paulo é uma das cidades de que mais gosto. Sinto-me bem quando por lá volto e me sentia melhor ainda durante os anos em que morei em Sampa. Nunca dei atenção e jamais fiquei maldizendo a vida na metrópole, por ser agitada, movimentada.

A cidade se transformou ao longo do século XX, deixando de ser uma cidadela e entrou para o rol das metrópoles. As vantagens e desvantagens podem ser contabilizadas. Alguns saudosistas lembram do passado calmo, tranquilo e seguro. Outros xingam, esbravejam contra os dias em que vivemos: barulho, insegurança, desemprego, tudo é motivo para se falar (mal) do gigantismo de São Paulo.

Eu, sinceramente, me amparo na beleza poética de Sampa, um dos hinos não oficiais de São Paulo, composto por Caetano Veloso:

“[...[Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva [...]”

Não me zangava, de um modo geral; algumas vezes, sim, pois não sou de ferro, ao ficar preso durante horas no trânsito cada vez mais infernal. Ou durante as constantes enchentes que mudam o humor da população e destroem vidas e esperanças. Procurei e ainda procuro − quando estou na cidade − relevar os dissabores, ou, melhor dizendo: o caos urbano a que o paulistano vem sendo submetido.

As mazelas, procuro tirar por menos. O que me atraía e continua a atrair, a me seduzir em São Paulo, é o multiculturalismo. Mesmo depois de tanto tempo, continuo admirando a tolerância que há entre as muitas nacionalidades e etnias que convivem pacificamente na cidade.

Os nordestinos – meus conterrâneos − que vieram trabalhar na construção civil como operário, engenheiro, motorista, porteiro de edifício, professor, militar etc. ajudaram anonimamente na construção da maior cidade do país e numa das maiores metrópoles do mundo.

Deixando muitos deles em condições adversas, correndo da fome e da seca no sertão, mesmo assim chegaram à cidade com vontade de construir um mundo novo, uma civilização novíssima; trouxeram enfiado na matula os seus costumes, as tradições, culturas e a memória da sua terra, além da vontade indomável de trabalhar.

São Paulo me ganhou pela boca ou pelo estômago, como queiram. Os restaurantes, as cantinas, os bares, as docerias, as sorveterias e a leiteria americana, que já não existe mais. A diabetes me obrigou a mudar de vida e de hábitos alimentares, mas não me tirou o prazer de comer e viver.

A relação é enorme, alguns me ocorrem, e não fica bem deixá-los de lado. O Parreirinha, na General Jardim, foi ponto de encontro de Jamelão e de outros sambistas, inclusive de Paulinho da Viola. Na rua Aurora, 100, é servido o melhor chope da cidade, no Bar do Leo.

O filé do Moraes é inigualável, sendo sinônimo de boa refeição. A esquina da avenida Consolação com a rua Maceió é o endereço do Bar das Putas. Aí, cerveja, cachaça e costelas são servidas no capricho.

O Bom Retiro, bairro de poucas ruas, tradicional endereço da comunidade judaica em São Paulo, tem bons restaurantes. Dois me atraiam: O Acrópole, onde é servida a tradicional comida grega, e o Cecília, um restaurante especializado em comida judaica.

Em Moema, a tradicional choperia Joan Sehn se mantém frequentada pelos antigos e novos apreciadores de chope. O Bexiga abriga inúmeras cantinas, mas a Montechiaro é quem melhor serve o cabrito ítalo-paulistano. É a minha recomendação.

As livrarias, os museus, os shows, os teatros, os sebos, de tudo há na cidade. “Alguma coisa acontece no meu coração/ Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”: o verso leva ao Bar Brahma, onde tantas e quantas vezes atravessei as avenidas famosas para tomar chope e jogar conversa fora.

São Paulo é uma coroa de 457 anos. Se eu falar que está enxuta, estarei mentindo, pois tem chovido sem piedade, mas hoje em dia se pode dizer que é uma coroa sem garoa.

Salve São Paulo!

Augusta, Angélica e Consolação

Augusta, graças a deus,
Graças a deus,
Entre você e a angélica
Eu encontrei a consolação
Que veio olhar por mim
E me deu a mão.
Augusta, que saudade,
Você era vaidosa,
Que saudade,
E gastava o meu dinheiro,
Que saudade,
Com roupas importadas
E outras bobagens.
Angélica, que maldade,
Você sempre me deu bolo,
Que maldade,
E até andava com a roupa,
Que maldade,
Cheirando a consultório médico,
Angélica.
Augusta, graças a deus,
Entre você e a angélica
Eu encontrei a consolação
Que veio olhar por mim
E me deu a mão.
Quando eu vi
Que o largo dos aflitos
Não era bastante largo
Pra caber minha aflição,
Eu fui morar na estação da luz,
Porque estava tudo escuro
Dentro do meu coração.

Música e letra de Tom Zé
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Cantoria, casa de bamba

segunda-feira, abril 19th, 2010

O samba é a maior expressão da música brasileira. No entanto, os locais para ouvir e dançar são restritos em Maceió.  O Bar Cantoria tem sido, nos últimos cinco anos, o palco onde o samba desfila e os sambistas têm o abrigo necessário na cidade. Encravado entre casas e quintais, bambas catam e tocam samba em Mangabeiras. 

Nelson Sargento, compositor carioca diz que: “o samba agoniza, mas não morre”. Isto tem sido observado ao longo dos tempos: as modas aparecem do nada e abafam o samba momentaneamente. Mas, a exemplo da Fenix, o samba reaparece, emerge do mergulho imposto, volta garboso aos palcos, aos botequins, no carnaval.  É exaltado nas ruas, nas rodas de sambas, em casas pobres bambas mantém a tradição, renovando-o, sempre. 

 É nesta fase de afirmação que se encontra o samba em Maceió. A resistência é explícita. Diante da segregação das mídias, tem sido tocado e cantado durantes as tardes, noites e pelas madrugadas no Bar Cantoria.

 O bar sobrevive faz cinco anos, comemorados no último 25 de outubro. Música ao vivo tem em muitos lugares, nos quatro cantos da cidade e em quase todas as encruzilhadas, mas é raro um cantinho como o Cantoria.

        As mesas espalhadas pela rua formam um ambiente descontraído, cerveja gelada, tira-gosto. Aos poucos vão chegando boêmios, músicos dispostos a cantar, oferecendo canjas semanais. 

 Há entre os assíduos freqüentadores um que se destaca sem fazer força, é o infant terrible, Marcos Farias Costa, poeta, compositor e pesquisador de música popular.

 Marcos pode ser considerado – sem que tenha reivindicado – o compositor da casa. Suas músicas, gravadas por Ibs Maceió, são cantadas. Tudo transcorre num clima de camaradagem. Boêmios de várias gerações sentam lado a lado, alguns cantam, outros bebem, mas há um traço comum entre todos: o samba, a boa música.

 O poeta Fernando Fiúza, larga a lide acadêmica e vem sorver cerveja gelada ao som de cavaquinho e violão numa mesa que nos Clubes é denominada como: “da diretoria”, a que fica em frente aos músicos. 

A proprietária da Casa é a cantora Ismair Martins. Não é raro ouvi-la cantando entre o fechamento de uma conta e outra do freguês que se vai. Mas, quando o santo baixa, Ismair solta a voz e canta sambas que consagraram Clara Nunes. Nesse momento Iansã, rainha dos raios, das ventanias e do tempo que se fecha sem chover, em forma de tempestade, é a própria Santa Bárbara que baixa. Axé!

        O cantor e engenheiro Robson (Robinho) Melo é outra figura ligada ao samba que invariavelmente comparece ao Cantoria e solta a voz em canjas concorridas. O repertório escolhido tem músicas de Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Cartola, Noel Rosa, dos compositores alagoanos e as suas próprias composições, a motivação principal. 

 A voz abaritonada de Agildo Alves, coronel reformado da PM alagoana, é por todos admirada. O afinado cantor castrense traz no seu repertório preciosidades musicais de Augusto Calheiros, Francisco Alves, Ataulfo Alves e dos contemporâneos. Podemos afiançar que é a voz mais potente do pedaço. Discreto, mas presente nas rodas de bambas de Maceió, é um dos canjeiros do Cantoria.

 A presença da psicóloga Lurdes Tenório acalma o Cantoria com choros, frevos canções e sambas. A sua voz afinada e cadenciada encanta a todos, atrai os olhares e faz bem aos ouvidos dos freqüentadores. Outra cantora que levanta a galera é a professora Gabriela. Cantando músicas imortalizadas na voz de Elis Regina, o seu tipo físico lembra a saudosa cantora gaúcha.   

 E o que dizer de Tebas? Vetusto boêmio, do alto dos setenta e nove anos é o mais assíduo. A ginga de boêmio afeito a noite e ao samba é disparado o mais alegre e o mais elegante entre os homens.

Tebas, trás no bolso um ganzá, instrumento de sua predileção e a sua marca de boêmio das noites maceioenses. As duas mãos sempre estão ocupadas: em uma o instrumento e na outra o sagrado copo com uísque. Quando descansa, acende um cigarro numa animação quase juvenil. Este é o honorável Tebas.

 O samba é embalado por Clóvis (Zé Coió) no surdo; Josenildo (Manga de Eixo) no violão 7 cordas; Deda no  pandeiro; Wellington alterna no cavaquinho e também no  bandolim, é a sagração de um grande músico e o deleite dos fregueses é uma atração à parte; Castanha (ex-massagista do CSA) se destaca como malabarista ao tocar afoxé, dá canja todas as sexta-feira.

 O Cantoria é para curtir e amar nas luas minguantes, cheias, crescentes e novas. Como diz Martinho da Vila: “ o samba é o Pai da alegria.”

 Bar Cantoria

Onde fica: Rua Desembargador Osório Valente de Lima, 23

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