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Pelé setentão

segunda-feira, novembro 1st, 2010

O dia 25 de outubro de 1970 transformou-se para os alagoanos numa data importante, pois foi inaugurado o Estádio Rei Pelé, o Trapichão. A Seleção Alagoana de futebol enfrentou o Santos Futebol Clube, o melhor time do século. O jogo inaugural terminou com a vitória esmagadora do Santos de Pelé, por 5×0, sobre a Seleção Alagoana.

O Estádio estava lotado, foram mais de 40 mil espectadores que pagaram – criança entrava de graça, por isso afirmo que havia mais espectadores. Um desses expectadores mirins era um menino de nove anos, que havia chegado de Anadia, com a família, para estudar em Maceió, em 1969. Esta criança era eu.

A minha mãe permitiu que eu fosse sob os cuidados de um vizinho, adulto, e de outros amigos. Saímos de casa logo após o almoço. Tínhamos de chegar cedo para pegar um lugar onde de pudéssemos ver o jogo bem. Ficamos na arquibancada central – depois transformada em território do CSA, que tem no CRB o maior adversário. Enfrentamos filas enormes, conseguimos entrar, sentar e ficar de frente para o sol escaldante.

A alegria de criança nunca é esquecida, e a minha, em especial, jamais será. Nem com Alzheimer esquecerei aquele jogo e as jogadas de Pelé.  Enquanto esteve em campo, deixou embevecido mais de 40 mil súditos.

O Estádio Rei Pelé durante alguns anos figurou como um dos mais modernos estádios de futebol do Brasil. Outros craques estiveram jogando por aqui. Vi muitos grandes jogadores, como Paulo César Caju, Ademir da Guia, Rivelino, Zico, Dirceu Lopes, Piazza, Roberto Menezes, Nei Conceição, Pedro Rocha, Silva, Soareste, Reinaldo, Joãozinho Paulista, Djair, Espinosa… É infinita a relação de bons jogadores que vi jogando no Trapichão.

Mas nada foi tão marcante quanto o jogo Santos x Seleção Alagoana.

Muitos anos depois, já adulto e pai, anos 1990, numa noite de boemia em São Paulo, saindo do Bar Biroska, na Avenida Pedroso de Moraes, em Pinheiros, em companhia do amigo Gilson Souza Leão, demos de cara com o rei do futebol. Ele estava muito bem acompanhado com duas lindas loiras.  Ninguém encostava, os seguranças não permitiam. Mesmo assim tentei um autógrafo, não foi possível. Levei um drible, claro.

Em junho de 2010, Alagoas recebeu por algumas horas o rei do futebol. Pelé foi convidado pelo governador Teotônio Vilela Filho para a reinauguração do Estádio Rei Pelé. Os dois principais clubes de Alagoas, CSA e CRB, fizeram a festa em campo. No entanto, foi Pelé quem atraiu as atenções do público, dos políticos, dos atletas e ex-atletas. Esteve presente na solenidade o ex-ponta direita Douglas, autor do primeiro gol no Trapichão. Douglas também foi homenageado na calçada da fama, deixando junto com Pelé as marcas dos seus pés para sempre.

Em meio a uma multidão de jornalistas, políticos, crianças, filhos dos presentes, estava eu e minha filha Isabela, tietando o Rei Pelé. O empurra-empurra foi grande, mas conseguimos chegar perto do Rei. O nosso objetivo era tirar uma fotografia ao lado de Pelé.

Conseguimos! Confesso que contamos com a ajuda dos seguranças do governador e com a solicitude de Pelé, que atendeu a todos indistintamente, tanto se deixando fotografar como autografando camisas, bolas, livros, pedaços de papel, em qualquer objeto que lhe fosse chegando às mãos.

Essa figura mítica que é Pelé completou, no dia 24 de outubro, 70 anos de glória e amor ao esporte. Continua dando exemplos de decência e cidadania por onde tem passado no planeta Terra.

Pelé é brasileiro, nosso irmão, o cidadão mais querido do nosso planeta. Isto não é pouco: é o atleta do século.

Vida longa ao Rei do futebol!

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O Mestre Roberto Menezes

sábado, abril 24th, 2010

O futebol atrai multidões pelo mundo afora, transformando os seus praticantes em ídolos e arrebatando corações em todo o planeta Terra. Esse esporte, nascido na Inglaterra, catalisou a paixão e a alma do povo brasileiro, passando a ser considerado um símbolo da nossa nacionalidade. O Brasil tornou-se a grande potência do esporte no decorrer do século XX. Conquistou 5 campeonatos mundiais e atualmente é um dos grandes exportadores de atletas profissionais para todos os continentes. Através do futebol, o Brasil conquistou o Japão, com Zico, e até mesmo a superpotência norte-americana rendeu-se ao encanto de Pelé, o mais espetacular atleta de todos os tempos. Eles foram os responsáveis, os desbravadores, uma espécie de bandeirantes contemporâneos e civilizados. A alegria e o prazer da prática do futebol são também transferidos para os torcedores e espectadores. O futebol coloca o mundo em tomo da bola, reverenciando-a. Graças ao mundo globalizado, a magia do futebol percorre os mais longínquos cantos do planeta terra. Nas Alagoas, à beira-mar, o CRB revelou para o futebol um garoto loiro, mais parecendo um alemão, contrastando com os negros que em geral são os donos absolutos da prática do futebol. Na Pajuçara, Roberto Menezes nasceu para o esporte tomando-se, talvez, o principal ídolo da historia do CRB, pelo menos na minha época de torcedor regatiano. É a minha visão de torcedor e, portanto, merece ponderação. Pioneiro, conciliava a sua vida de jogador de futebol com sua outra atividade, que desempenhava com o mesmo afinco: o curso de engenharia civil na Ufal. Foram inúteis as propostas que recebeu para continuar jogando, mesmo depois de formado. Interrompendo a carreira que iniciara, preferiu construir o seu futuro distante dos gramados, da bola e da torcida, deixando precocemente órfãos os torcedores e os admiradores do seu belo futebol: no CRB e, fugazmente, no CSA, clube em que jogou apenas por um ano. Definir um jogador como craque é algo que pode ser apenas paixão, nada mais. É comum entre os torcedores acontecer esse tipo de definição: “Fulano é um craque de bola”. No caso do Roberto Menezes essa definição foi mais fundamentada. Algumas características definem um craque: a regularidade com que atua em campo, a elegância com que passa a bola para os companheiros, e a principal delas: o craque se diferencia do restante dos jogadores em campo por antever as jogadas, por enxergar os espaços vazios à frente, colocando-se ou mesmo passando a bola aos pés ou na cabeça dos companheiros. Parece simples, mas é o grande diferencial entre os profissionais do futebol. Há, claro, os jogadores que são verdadeiros showmen em campo, pelas cambalhotas, pela forma de interagir com a torcida, mas não são efetivamente craques. Por mais que se queira explicar o craque, corno diz Tostão: “craque não tem explicação, ele é”. Por mais que os técnicos, hoje, saídos das academias, das escolas, saibam que futebol é o esporte das multidões, pelo menos no Brasil, devem se guiar pela máxima do Nelson Rodrigues, que fala de craques: “O tempo é uma convenção que não existe, nem para o craque nem para as mulheres bonitas”. O futebol é um balé praticado, no Brasil, por pobres e negros, na sua maioria, e portanto, tornou-se um ramo artístico. Seja no balé ou numa orquestra, você era o líder, Roberto, o maestro. A difusão dessa atividade artística ocorre através de milhões de críticos apaixonados que à beira do campo berram, choram, xingam a mãe do juiz, do bandeirinha, do ídolo, do cartola, mas, à semelhança de um raio, rapidamente reconciliam-se com todos no momento supremo do gol. Sem o aparato tecnológico que hoje há à disposição dos praticantes do esporte − na década de 70 (a TV Gazeta é inaugurada em 75) não havia televisão em Alagoas –, Roberto Menezes conseguiu projetar-se como um ídolo, ultrapassando a fase anterior ao vídeoteipe. Logo, a memória do torcedor e a mídia escrita registraram o dia a dia da sua prodigiosa carreira de craque e mestre do futebol. O povo foi o melhor cronista do seu tempo de atleta, e através da memória popular o seu nome continuará rompendo o tempo como um virtuoso do esporte bretão. Publicado no O Jornal, domingo, 11 de abril de 2004.

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Eu o vi jogar

quarta-feira, abril 21st, 2010

Cláudio Canuto*

 Lembro-me, como uma das mais arrebatadoras das minhas lembranças infantis, a elegância majestosa do seu futebol. O prazer voluntarioso e apaixonado com que a bola deixava-se levar, submetida a seus pés, à sua volúpia, a seus caprichos de jogador refinado, elegante e objetivo.

As nossas ruas confluíam, apontando para a Praça Sinimbu, onde fomos criados quase maloqueiros, jogando pelada em um campo vasto, pois a Praia da Avenida era nossa, e Roberto Menezes, futuro engenheiro e já ídolo de futebol, mostrava-nos gratuitamente o engenho de sua arte, para nós mais que complicada, insondável. Hoje eu sei o porquê: as bolas do mundo inteiro tinham uma grande paixão por ele, que as tratava com respeito e indiferença. Na verdade, submetia-as ao seu talento desinteressado e sem limites. No fundo, ele sabia. E é desta convicção que vinha a sua tranqüilidade quase tímida, o sorriso de quem perdoava a traquinagem que iríamos cometer, os abusos de jogadores limitados que viam no nosso objeto de lazer apenas couro e ar, que não sentíamos o seu pulsar, a sua alma feminina.

Objetivo, como disse, o seu futebol era matemático; os seus dribles, curtos, e longos os seus lançamentos. Desarmava com facilidade e cometia poucas faltas, como cavalheiro que era. Não lembro se foi expulso algum dia. E se o foi, culpo o juiz ou o adversário. Ou ambos. Defensor, quarto-zaqueiro ou volante, tinha noção clara que o futebol ideal era fazer muitos gols e não levar nenhum. Daí, a sua objetividade. Normalmente falava pouco e desconheço se algum dia foi capitão. Se não o foi, deveria ter sido, pois se impunha em campo, mesmo em silêncio, que era a sua atitude habitual.

Para mim, o seu jogo antológico foi contra o Cruzeiro de Minas, de Dirceu Lopes, Tostão e, sobretudo neste momento, de Piazza. Ambos Roberto Menezes e Piazza, disputavam a Bola de Prata do Campeonato Brasileiro, cuja preferência era determinada pelos votos de torcedores do Brasil inteiro. Roberto liderava com uma pequena margem de diferença. O troféu estava guardado lá em casa, aos cuidados do meu irmão, Márcio.

Jamais esquecerei o duelo, jamais esquecerei a elegância da disputa. Jamais esquecerei que o troféu foi levado lá de casa como quem cometiam um furto, como quem levavam um bem precioso cujo dono morava na rua ao lado, a cem metros de onde ele estava:” Deixe-o aqui, senhor. Eu mesmo o levarei. O dono mora ali e está em casa”.

Nós, seus amigos mais próximos, sabíamos, desde um tempo insuportavelmente indesejado, que o “galego” já tinha encontro marcado com o mundo desconhecido e que, em sua espera, sofria padecimentos terríveis.

Deixo-me arrastar pelos sentimentos e obscureço, talvez, o compromisso da objetividade que um dos mandamentos jornalísticos impõe. Mas eu o vi jogar e sei que não estou só, sei que outros torcedores anônimos, amantes do futebol sem os artifícios de uma retórica vazia expressa por fanáticos atuais, mas elevado à categoria de arte – a sua verdadeira morada -, encontrou em Roberto Menezes um dos seus ícones mais expressivos e respeitáveis. E estes, como eu, velam para que ele descanse eternamente  em paz.

* É azulino.

Colaborador do Blog

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