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Um poeta em movimento

segunda-feira, março 28th, 2011

José Paulo da Silva Ferreira, poeta, ex-funcionário público, nasceu em Pão de Açúcar (AL), no dia 29 de junho de 1962, filho de Otacílio Ferreira e Ubaldina Bezerra da Silva. Estudou sempre em escolas públicas em sua cidade natal e foi lá que iniciou as suas atividades como poeta e publicista, escrevendo poemas e também contribuindo na imprensa sindical com textos políticos, sendo o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Pão de Açúcar o seu bunker.
Os jornais mimeografados eram produzidos e distribuídos para os estudantes no Colégio São Vicente. No final da década de 1970, tem início a reorganização da União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas (UESA), em Maceió, mas logo o trabalho foi ampliado para algumas cidades do interior onde havia contatos e estudantes com disposição para participar da luta estudantil. Foi o seu caso.
Como já havia um desejo, mais que um desejo, um trabalho de divulgação poética e político na cidade, principalmente entre os estudantes secundaristas, logo esse contato se materializou por intermédio dos estudantes de Pão de Açúcar que já moravam em Maceió e tinham participação no movimento estudantil. Não demorou muito tempo para que viesse morar em Maceió, numa das tantas residências alugadas por estudantes de Pão de Açúcar.
Descortina-se um novo horizonte na vida do poeta. Participa ativamente do movimento estudantil. Novos contatos são feitos, quando então passa a escrever em jornais de estudantes, tanto secundaristas como universitários, e se transforma num colaborador permanente dessas publicações alternativas.
O movimento estudantil cresce e assume papel cada vez de maior destaque, gerando um ambiente cultural novo para a Maceió da década de 1980 e para Alagoas.
O trabalho intelectual, antes publicado em mimeógrafo, toma um novo rumo, passa a ser editado em off set, uma nova tecnologia. Agora, já não são mais os livros artesanais, mas publicações modernas e em série.
A vida de estudante ficou para trás. Uma nova perspectiva é traçada. Era chegada a vez da poesia em sua plenitude: saraus em bares, encontros estudantis, participação em festivais de música. Em decorrência do seu engajamento é convidado para o seu primeiro trabalho formal, como servidor público, na Fundação Teatro Deodoro (Funted).
As enormes tarefas que se apresentam, como reorganizar e repensar uma instituição quase centenária como o Teatro Deodoro, foram um dos desafios naquele momento da vida cultural alagoana, mas não era evidentemente um trabalho individual em que um jovem poeta e outros tantos artistas e profissionais das artes cênicas se apresentaram como gestores públicos da área cultural, nem o momento concebia o mundo a partir da ótica de militante político, pois mantinha então vínculos com o Partido Comunista do Brasil (PC do B).
O jornal Boca de Estudante, órgão oficial do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), certamente foi o jornal que mais publicou poemas de Zé Paulo (como ficou conhecido e como assinava, também), mas foi na antologia Oficina de Poesia Opus-5, editada pelo DCE−UFAL, em 1986, que se revelou com maior destaque, ao lado de vários outros poetas, todos envolvidos com o movimento de renovação cultural em Alagoas e que tinham − pelo menos naquele momento histórico, a década de 1980 − o movimento estudantil como propulsor de ações artístico-culturais diferenciadas, recebendo influências do PC do B.
O Oficina de Poesia Opus-5 conta com poemas e textos de Cláudio Manoel, Deyves, Edvaldo Damião, Jorge Barbosa, José Duarte, Zé Paulo e Sidney Wanderley, numa edição com 76 páginas, pela Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal).
Os seus poemas vão sendo publicados sempre em antologias ou ainda nos jornais do DCE e dos Centros Acadêmicos. Em 1987, a Secretaria de Cultura de Alagoas, pela sua editora, a Ediculte, lança a Coletânea Caeté do Poema Alagoano, com a colaboração de 43 poetas, entre eles, Zé Paulo.
A Fundação Cultural Cidade de Maceió (FCCM) seleciona centenas de poemas de dezenas de poetas alagoanos ou que em Alagoas vivem, e publica a Antologia dos Poetas Alagoanos. Mais uma vez poemas da autoria de Zé Paulo são publicados. Mas um fato persiste: o poeta não tem um livro autoral que reúna os seus poemas. Permanece em movimento pela cidade de Maceió, recitando nos bares, nos logradouros públicos, nos salões, nas manifestações estudantis e políticas.
O poeta, certo dia, encontra uma musa e se muda de mala e bagagem, em 1988, para Curitiba (PR), onde permanece até 1991. Continua publicando os seus trabalhos em obras coletivas; uma dessas foi o programa da coreografia Brasil, um país de cores, do Ballet Morozowicz. Expõe ainda no Sesc e no espaço Cultural da Caixa Econômica Federal (CEF), tendo participação ativa na Feira do Poeta.
Hoje o poeta José Paulo vive em Pão de Açúcar, à beira do rio São Francisco, olhando todos os dias o curso do rio, conversando com a sua gente, sertaneja como ele, fonte de sua inspiração e razão da sua existência.

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O Partidão

segunda-feira, fevereiro 21st, 2011

Eles eram poucos.

E nem puderam cantar muito alto a Internacional.

Naquela casa de Niterói em 1922.

Mas cantaram e fundaram o partido.

Eles eram apenas nove, o jornalista Astrojildo, o contador Cordeiro, o gráfico Pimenta, o sapateiro José Elias, o vassoureiro Luís Peres, os alfaiates Cendon e Barbosa, o ferroviário Hermógenes.

E ainda o barbeiro Nequete, que citava Lênin a três por dois.

Em todo o país eles eram mais de setenta.

Sabiam pouco de marxismo, mas tinham sede de justiça e estavam dispostos a lutar por ela.

Faz sessenta anos que isso aconteceu, o PCB não se tornou o maior partido do Ocidente, nem mesmo do Brasil.

Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis tem de falar dele.

Ou estará mentindo.

Ferreira Gullar

O mergulho na militância política foi para mim uma alternativa real em contraponto à vida fácil, da boemia, por um lado, e de emprego garantido como funcionário público, sem que houvesse a necessidade de prestar concurso, por outro. A generosa oferta foi por mim recusada; preferi caminhar em sentido contrário.

O entendimento que adotei conscientemente indicou um rumo diferente das orientações familiares. Num primeiro momento causou um choque, no mínimo um espanto, mas como tinha iniciado no final da década de 1970 os contatos com a militância de esquerda emergente no movimento estudantil, a partir de 1979, descortinou-se a oportunidade de entrar para o PCB em Alagoas. O fato de fazer parte do pequeno núcleo reorganizador do Partidão fez com que eu amadurecesse rápido em todos os sentidos.

Passei a dividir responsabilidades com outros companheiros, alguns bem mais velhos, outros nem tanto, mas a vontade de organizar o Partido ocupava todo o meu tempo, apesar da minha insegurança, fruto essencialmente da pouca idade e da grande responsabilidade que me impus em trabalhar diuturnamente na reconstrução de uma organização política que andava totalmente desarticulada no estado, o que me deixava tenso.

Os embates internos deram outra dimensão aos primeiros anos de militância partidária. Os castelos erguidos por mim foram caindo, e outras realidades se sobrepuseram. Fui me dando conta de que aqueles homens eram comuns e passíveis de erros e de acertos, com virtudes, vícios e vicissitudes também. Nada que fosse de um outro mundo; tudo era normal e, para tanto, a superação dos entraves organizacionais só foi possível com a entrada de novos militantes para, como se diz habitualmente, oxigenar o ambiente.

A vontade de criar uma nova estrutura partidária provocou inevitavelmente atritos, e a relação de amizade e camaradagem em muitos instantes foi rompida. A possibilidade de alterar a “hegemonia” interna passou a ser um objetivo a ser perseguido por mim e pelos companheiros. Tudo era doloroso. Estavam envolvidas relações afetivas e emocionais que acabavam por ter um peso significativo na estruturação e condução do trabalho de (re)organização do PCB.

Os contatos desse núcleo reorganizador com a direção nacional aos poucos foram ampliando a figura do “assistente da direção”. Antes, em 1980, duas visitas, a do jornalista Gildo Marçal Brandão e a do médico e sindicalista Agrimeron Cavalcanti da Costa a Alagoas, abriram veredas que pareciam largos caminhos em direção ao centro do Poder.

A presença do velho dirigente comunista Nilson Miranda também contribuiu para energizar a jovem militância. As vindas a Alagoas do historiador Dirceu Lindoso, que vivia no Rio de Janeiro desde 1965, foi importante e transmitiu confiança ao trabalho de uma novíssima geração de dirigentes e militantes comunistas.

Os novos foram sendo recrutados, e eram essencialmente homens; poucas mulheres fizeram parte desse núcleo. Duas delas que se destacaram no trabalho foram Réa Silvia Pedrosa e Cristina Amélia Pereira. A primeira, alagoana de Anadia, e a segunda, portuguesa de Évora. O trabalho duro de viajar, reunir-se pelos bairros de Maceió e em cidades do interior, a advogada Réa Silvia fez com uma dedicação quase sacerdotal.

As ligações com o passado continuavam a ser mantidas através das figuras de Antonio Omena [ex-motorista], Mario Correia [ex-portuário], Rubens Colaço [ex-borracheiro], José Graciano dos Santos [ex-operário] e Mozart Verçosa Damasceno [comercianate]. Desses, o que mais me impressionou e continua até hoje a me chamar a atenção foi o velho operário têxtil José Graciano. Analfabeto, pobre, família numerosa, mas de uma dedicação invejável ao Partido. Íntegro. Jamais ouvi reclamações do velho Graça. Para mim foi o maior exemplo de homem que conheci. A forma que o criou se quebrou, como se diz na gíria interiorana.

O caso específico da Cristina Amélia exigiu nos primeiros anos cautela. Por ser de nacionalidade portuguesa, havia impeditivos na lei dos estrangeiros, e a militância política era um deles. Mas nem por isso Cristina deixou de trabalhar; trabalhou duro na retaguarda, quase clandestina. Organizada, disciplinadíssima, trazia o mais importante: a experiência de ter sido militante da juventude comunista do Partido Comunista Português.

Os desafios eram maiores que as nossas idades e experiências na arte da organização partidária. Este imprensado que vivíamos: de um lado o gigantismo do PCdoB e dos seus aliados; do outro, o conservadorismo das forças políticas, enfileiradas no PMDB, sem deixar de considerar que se tratava dos que combateram a ditadura em maior ou menor grau.

A participação nas eleições com candidatos próprios foi a prova de que tínhamos de participar desse mundo ainda desconhecido. Uma espécie de zona cinzenta. Escolher candidatos nem sempre é uma coisa fácil; o processo eleitoral é sedutor e envolvente, não é difícil identificarmos os candidatos ou os que estão em sua volta envolvidos com irregularidades, com o ilegal. A “conquista do voto” invariavelmente é como se fosse um imã, um vale-tudo. O ilegal transita da compra propriamente dita do voto ao tráfico de influência e à distribuição de benesses – na maioria das vezes públicas: são favores, empregos etc.

Transitar nesse ambiente foi um rito de passagem para o amadurecimento que chegou em meio às lutas, com derrotas e vitórias.

Viagem a Moscou

Surgiu a possibilidade de ser enviado a Moscou, onde participaria de um curso na Escola Internacional de Quadros do Partido Comunista da União Soviética. Essa proposta foi inicialmente aventada pelo assistente político da direção nacional, Francisco Inácio de Almeida, ainda no início da década de 1980.

Fiquei com essa ideia em minha cabeça, achei-a interessante e, para ser honesto, passei alguns anos sonhando com a possibilidade. Mas, por outro lado, uma conversa muito franca com Nilson Miranda me deixou com a pulga atrás da orelha. O experiente comunista me disse: “Só vá para URSS quando terminar o curso universitário”. O argumento do Nilson era correto e abria a minha cabeça para não voltar do curso e me tornar um funcionário político do Partido.

Esse argumento, acabei aceitando-o, e realmente em 1984, quando estava no final do curso de História e havia me preparado para viajar, discuti com o assistente político da direção nacional a melhor maneira de realizar este projeto. Fiz parte de uma turma de quinze pessoas de vários estados. Antes de embarcar fui a Recife me encontrar com Natanael Sarmento, então dirigente do PCB em Pernambuco, com quem obtive informações que foram de grande valia.

A minha ida para Moscou era uma espécie de abertura de uma nova geração de comunistas que seriam formados na antiga URSS. Durante muitos anos vários militantes e dirigentes de Alagoas foram enviados para o Leste europeu. Haviam ido: Dirceu Lindoso, Nilson Miranda, Wladimir e Anivaldo Miranda, Paulo Elisiário, Rubens Colaço.

Natan era meu velho conhecido e parceiro dos carnavais em Olinda; aliás, era em sua casa onde eu me hospedava durante os festejos carnavalescos. Para lá vinham companheiros conhecidos e também outros convidados e convidadas que não sabiam sequer quem era o dono da residência, mas que rapidamente se tornavam íntimos ou intimas, quase amigos de infância, e com liberdade suficiente para convidar outras pessoas, como namorado(a), ou simplesmente se encostar para curtir o porre.

A militância política no velho PCB me ensinou como se fosse uma universidade − mais que qualquer universidade, para ser sincero. A minha formação como cidadão, devo ao Partido. Faço uma ressalva: é que no PCB encontrei e convivi com homens e mulheres dignos, na grande maioria, mas também conheci canalhas e gente indigna com barbicha, barba ou sem pelos no rosto.

Sumariamente e sem qualquer ressentimento, cheguei à conclusão de que a atividade política é insalubre e periculosa muitas vezes. A opinião pública vem dando as costas para os que exercem essa atividade, isso não é novidade para ninguém. A desconfiança que se tem dos políticos e da política, convenhamos, é justificável, pois esta se tornou infelizmente um caso de polícia.

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