Posts para a tag ‘Marcos de Farias Costa’

O enfant terrible

quinta-feira, setembro 9th, 2010

A década de 1980 do século XX no Brasil foi considerada pelos economistas como uma década perdida. O mesmo não se pode dizer de Alagoas quando o assunto é produção cultural. Houve a aparição de um grupo de jovens poetas e escritores estreando e assumindo na cena cultural alagoana um papel de contestação da ordem estabelecida.  

A liderança de grupos muitas vezes é exercida por escolhas, em geral através de votação; no caso, a geração de poetas e escritores que se apresentou ao público nos anos 80 fugiu à regra. A liderança exercida por Marcos de Farias Costa ocorreu naturalmente, sem nomeação, de forma consensual. Havia entre eles uma concordância no pensamento e em algumas das ações práticas. 

A insubmissão aos cânones estabelecidos era o combustível que movia a todos, pelo menos nos primeiros momentos, mas a contestação na forma e também no conteúdo do que se produziu, na época foi ressaltada por grandes poetas e escritores da literatura nacional; a prova disso são as inúmeras correspondências trocadas com os poetas alagoanos.

Ao avalizar os textos desta geração, estimulando-os ou criticando-os, vários intelectuais de peso no cenário nacional serviram de estímulo e também, em certa medida, conferiram o reconhecimento para jovens que produziam poesia, apesar das adversidades expressas na desconfiança de intelectuais conservadores locais.

Essa nova geração se agrupava num estilo anárquico e, talvez por esse motivo, tenha sido tão malvista pelos cânones que entre nós reinavam − alguns vivendo de um passado sem muitas glórias, mas estabelecidos em pontos estratégicos nas instituições de cultura e manejando poderes que se espalhavam em muitas áreas do aparelho estatal.   

A rebeldia juvenil dos poetas era expressa pela imprensa escrita, quando conseguiam.Mantiveram-se sempre diante dos olhos atentos e vetustos daqueles intelectuais de província que também mantinham influência – um quase controle − nos cadernos de cultura dos jornais locais. O cerco havia sido formado, às vezes sem a devida percepção por parte dos rebeldes. Como rompê-lo?

Essa pergunta demorou a ser respondida com acerto e serenidade. E não se pode dizer com certeza se houve resposta. Um outro tipo possível de resposta foi dado e não demorou muito para chegar em verso e prosa.    

A figura do poeta Jorge Cooper serviu de inspiração para essa nova geração de poetas, seus admiradores, com quem semanalmente se reuniam em torno de uma mesa para comer, discutir literatura e bebericar.

A diferença de idade entre Cooper e os demais era abissal, mas isso jamais os distanciou; ao contrário, aproximava-os cada vez mais, pois os jovens tinham em Cooper um mestre e um cúmplice.     

A liderança dessa geração foi exercida por dois lideres que, repito, nunca receberam votos ou tiveram algum mandato formal para representá-los. O líder orgânico foi Marcos de Farias Costa, e o espiritual, o velho poeta Jorge Cooper, que “atuava” na retaguarda.  

A influência − há muito reconhecida − não significou necessariamente apoio às ações práticas dos seus seguidores. O estilo de vida pessoal e literário de Cooper foi, creio, muito impactante na formação daqueles jovens poetas.

A concepção de mundo do velho poeta de origem inglesa era o que os atraia, além, claro, da sua produção poética, então quase totalmente inédita. O estilo de viver quase enclausurado o diferenciava dos seus contemporâneos. O fato de existir um poeta tão vigoroso, alagoano, que havia morado em vários estados e por tanto tempo passou a ser uma espécie de talismã, sobretudo sendo um homem de esquerda.

Até aquele momento − a década de 1980 − Jorge Cooper era o que o poeta paulistano José Paulo Paes disse a seu respeito: “O mesmo poeta que ao longo da sua vida não se empenhou em impor sua presença no palco do merchandising literário porque desdenhava ser ator de si mesmo, começa agora, com a maior discrição, a tornar-se um esquecido incomodamente inesquecível.” Ou o que dele disse a filóloga italiana Luciana Stegagno Picchio: “Um cacto solitário da poesia alagoana.”

O grupo liderado por Marcos de Farias Costa era constituído por Sidney Wanderley, Marcondes Costa, Diógenes Tenório Junior, Elício Murta, Luis Costa Pereira Junior, Susana Souto, Luzia Helena Wittmann, Norton Sarmento Filho. Como todos os grupos ou gerações, não firmaram compromissos nem juras de união eterna. A vida e as discordâncias os separaram. E cada um correu atrás dos seus sonhos e foi ganhar a vida como podia.

A verve afiada do enfant terrible Marcos de Farias Costa é um matraquear contínuo de uma metralhadora que girava em torno da renovação literária, nem sempre conseguindo acertar o alvo. Não é possível se conceber mudanças sem que haja dor, ruptura, lágrimas até. Esse caminho Marcos de Farias percorreu sobre brasas e álcool.

Tudo aconteceu, é justo que se diga, com acentuada dose de impetuosidade, ao verbo transmitida. Passados os anos, hoje com os cabelos dando sinais de que estão discretamente ficando brancos, é possível analisar aquele período de embates lítero-culturais com serenidade. Para tanto não significa negar os fatos, mas podem-se rever posições sem mudar de lado.

A geração de 1980 deixou como saldo dois grandes poetas e esgrimistas: Marcos de Farias Costa e Sidney Wanderley. Se me fosse dada a oportunidade de realizar um balanço, diria que o saldo foi extremamente positivo. Valeu, e muito, a pena ter brigado.

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Clube do Samba

segunda-feira, setembro 6th, 2010

O outrora aristocrático Jaraguá Tênis Club é um clube que se tem destacado − faz muito tempo − na formação de tenistas. Esporte identificado com a elite em qualquer canto que se encontrem adeptos. O clube tem sua sede social no mais boêmio dos bairros de Maceió, Jaraguá.

O bairro foi revitalizado e passou por transformações quase impensáveis diante do descaso a que foi submetido durante décadas. O casario em grande parte ainda permanece com as características de quando foi construído. Hoje, além da Associação Comercial, que passou por uma completa restauração, muitos prédios foram recuperados e tiveram outras destinações: faculdades, escritórios, sede de associações de classe, com as Federações da Agricultura e a Federação dos Trabalhadores – Fetag, bares, boates, galerias, agências bancárias, correios e o Museu da Imagem e do Som – Misa.

O Jaraguá foi durante muitos anos um bairro onde não se dormia; os prostíbulos da cidade se concentravam nas ruas principais, secundárias e nos becos. Os marinheiros, portuários e quantos desejassem curtir as noitadas nas farras e orgias tinham em Jaraguá o ambiente ideal.

A movimentação dos freqüentadores e moradores, entre eles as prostitutas, durou até o final da década de 1960, quando a Secretaria de Segurança Pública ordenou a mudança das boates, bares e prostíbulos da região portuária para uma área da cidade completamente desabitada, o Canaã.

O Jaraguá Tênis Club, que era vizinho dos cabarés, resistiu e presenciou o declínio do bairro. Quando Jaraguá passou a ser restaurado, era tarde: o declínio dos clubes na cidade já era uma evidência. Os seus dias de glória são coisa do passado e fazem parte da história da cidade. O clube hoje vive da tradição e da escolinha de tênis.

Os cantores Wilma Araújo e Igbonan Rocha criaram o Clube do Samba, o palco e o salão do Jaraguá Tênis Club. Essa iniciativa de cantar samba, de atrair admiradores do ritmo e oferecer a oportunidade para centenas de casais dançarem é, em tempo de pagodeiros e sertanejos bregas, louvável.

E no Clube do Samba não importa saber se o samba nasceu na Bahia ou no Rio de Janeiro; lá, o que importa é que as mulheres tenham molejo na cintura e os homens, samba nos pés. Ao criar o espaço lúdico batizado de Clube do Samba, a dupla de sambistas oferece ao público uma alternativa nova, para dançar e agregar ainda mais os sambistas de Maceió.

As gerações mais novas não vivenciaram as noitadas de samba na quadra da Escola de Samba Unidos do Poço. Os moradores do Poço, Jaraguá e de outros bairros frequentavam a quadra da Unidos do Poço, sambavam e muitos também desfilavam no carnaval pela Escola. O Clube do Samba não foi criado para substituir uma Escola de Samba, mas para alegrar a vida de muitos amantes do samba e garantir algum dinheiro para os cantores e os músicos.

As vozes de Wilma e Igbonan cantam o que há de melhor no samba; o repertório inclui os sambas de compositores da velha guarda, os fundadores do samba do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e de outras partes. Mas seria muito bom a dupla incluir no repertório sambas feito por compositores alagoanos.

A produção dos compositores Ricardo Mota, Juvenal Lopes, Marcos de Farias Costa, Chico Elpídio, Ibys Maceió, Robson Amorim, Fernando Marcelo, entre outros, é significativa e está disponível, gravada em CDs.

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