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A beleza feminina desfila na sorveteria Bali

domingo, janeiro 2nd, 2011

Faz alguns anos que eu escolhi a sorveteria Bali como o meu escritório, e em suas cadeiras e mesas tenho passado as tardes, na maioria das vezes. É para mim o melhor lugar que encontrei na cidade de Maceió. A sorveteria fica na praia de Pajuçara, de onde se pode contemplar a beleza do mar esverdeado e sentir a brisa que sopra do oceano para a terra.

Sentado, tomando sorvete, café e jogando conversa fora − essa tem sido a minha gostosa rotina nos últimos treze anos em Maceió. Uma ressalva: quando saio do trabalho, claro. Os amigos que passam, sentam e conversam; fala-se de coisas interessantes da vida de cada um e da vida alheia, lógico.

Entre os meus muitos e queridos amigos há um com quem religiosamente sento para conversar e tomar sorvete: é o escritor e cronista Carlito Lima. O mais entusiasta entre os amigos pelas coisas de Alagoas, pelo mar, pelas comidas, pelos bens imateriais e, mais que qualquer um de nós, um admirador da beleza feminina.

No dia 23 de dezembro, antevéspera de Natal, telefonei para ele, como faço diariamente, e perguntei: − Capita, vamos à Bali, olhar as mulheres bonitas?

Ouvi a resposta pronta: − Vamos, meu irmãozinho.

Tomamos sorvetes de sapoti, mangaba e pitanga, pedimos depois café com leite e arrematamos com pão de queijo. Passamos uma boa parte da nossa tarde e início da noite refletindo sobre uma situação que já tínhamos observado, mas nunca havíamos nos debruçado sobre o tema, seriamente.

Talvez por estarmos na antevéspera do Natal e nos acharmos mais atentos para o movimento da sorveteria, o entra-e-sai de crianças, jovens, mulheres e casais. Em menos de vinte e cinco minutos, quatro homens − um italiano, um alemão, um francês e um português − acompanhados de lindas mulheres brasileiras e negras.

Esse fato realmente chamou a nossa atenção; talvez haja acontecido outros encontros, mas num espaço de tempo maior e não tínhamos notado como hoje.

A satisfação e o encantamento deles − dos gringos − pelas mulheres era visível, indisfarçável. Não havia possibilidade de fingimento. Mas não foram apenas esses quatro casais que estivemos, eu e Carlito, a observar extasiados como se fôssemos fiéis defensores da mulher brasileira, e da alagoana em especial, uma espécie de defensores tardios de uma exclusividade imaginária.

Sem que combinássemos, cada um de nós ergueu muros intransponíveis para que os estrangeiros, mesmo os portugueses, fossem impedidos de escalar, ou seja, namorar as “nossas ‘mulheres; no meu caso, particularmente, as mulheres negras, e muito menos ainda namorar em nossa presença. Pairou um sentimento de ciúme extremo.

Esse delírio ou crise de ciúmes tardio pode ser imputado aos cafés. As nossas imaginações, sonhos; posso falar sem pudor para os internautas: os nossos ciúmes chegaram ao ápice durante a tarde.

Silenciosamente passamos a tarde da antevéspera namorando aquelas belíssimas mulheres negras, e nenhuma delas nos dirigiu o olhar, nem por compaixão; balbuciávamos palavras de afeto, até juras de amor eterno; prometemos em voz baixíssima e nem assim elas percebiam a nossa presença. Estavam cegas para nós dois, e mesmo sentados em posição estratégica na sorveteria, de nada valeu.

Ensaiamos um concurso particular e estipulamos notas por atributos anatômicos. Os quesitos obrigatórios, como bumbum, seios e coxas, foram votados na maioria dos casos com notas máximas: dez, com louvor e distinção.

A noite foi caindo, os casais felizes com suas negras saradas e ditosas foram saindo em direção as suas alcovas, imagino, e nós, membros de um júri fictício, pagamos a conta e fomos cada um para a sua casa, assistir ao Jornal Nacional e à novela das oito.

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Amigo Majella (por Carlito Lima)

quinta-feira, outubro 28th, 2010

É quase meia-noite, 3 de outubro, resolvi lhe escrever, narrar os acontecimentos desse belo dia de eleição, significativo para a democracia. Pela manhã telefonei para sua filha, Isabella; ela deu-me boas notícias: breve você sai da UTI, um alívio. Seu infarto foi uma notícia apreensiva para os amigos, ainda bem que a equipe do Dr. Wanderley, Dr. Gilvan, resolveu seu problema. Cuide bem desse coração, tem um monte de mulheres bonitas para lhe dar trabalho. Ele deixou seus amigos preocupados.

Majella, você é uma figura especial nesta terra caeté. Saiu de Anadia jovem, em busca de ideais nas esquerdas da vida, lutou; batalhou pela redemocratização do Brasil e tem uma boa parcela nessa luta. Homem culto, eclético, você tem uma peculiaridade importante: detesta a hipocrisia. Podem dizer, sou suspeito para falar, mas amigo é para essas coisas: ver o lado bom; seus defeitos, deixo-os para os inimigos, aqueles mal- amados que destilam veneno, inveja.

A vida é bela, está esperando-o aqui fora. Contaram-me que três competentes enfermeiras fizeram raspagem antes dos procedimentos médicos; você se empolgou, se deliciou com seis mãos femininas alisando, raspando os pelos pubianos. O bom humor prevaleceu nesse momento difícil. Esse pequeno detalhe é sintomático nos grandes homens: encarar a morte com naturalidade e com coragem. Ainda bem que não chegou sua vez, pois temos ainda muitos papos divertidos na sorveteria Bali, olhando as belezas da Pajuçara. Você é um apreciador de mulheres, portanto, um apreciador da vida. Tenho certeza de sua breve recuperação. Mas vamos aos acontecimentos de hoje, motivo dessa carta à quase meia-noite.

Resolvi só votar pela tarde; na manhã fui ao acarajé da Irmã, praia da Jatiúca. Peguei mesa e cadeira, e saboreando o acarajé dei uma olhada em torno da praia. A meu lado, sozinha, embaixo de uma sombrinha, uma bela morena, biquíni azul-claro, tomava cerveja em lata. Em dia de eleição a lei seca não vale na praia; ainda bem que existem essas pequenas violações às pequenas leis. Não foi para me enxerir, puxar assunto, juro, a morena estava com uma filha de seis a sete anos dentro d’água. Adverti a moça, a maré enchendo, as ondas tornando-se bravas, era bom ficar de olhos abertos para a criança dentro do mar. Ela me agradeceu, levantou-se, trouxe a menina para mais perto, sentou-se novamente, tomando a cerveja na mão. Disse não ser sua filha, mas filha do homem com quem vivia; não parou mais de falar, contou a vida em três latinhas de cerveja. Por gentileza, dei atenção. Não faz mal ser gentil na praia quente, ao meio-dia.

Do outro lado, três senhores gordos discutiam sobre candidatos; o mais exaltado apelava pelo voto em branco, não havia mais esperança para o Brasil. Outro gordo interferiu; chamando-o de derrotado, citou políticos merecedores de votos, trabalhadores, que ele votaria no fulano e na sicrana. Discussão prolongada, todos falavam, ninguém ouvia; como futebol e religião.

Apareceram duas morenas, em minha frente estenderam suas tolhas. Bem devagar, num ritual sincronizado, as deusas tiraram short e blusa como se fosse um strip-tease particular. Eu acompanhei todos os detalhes daqueles movimentos corporais, lembrei-me dos versos de uma ciranda, “… Eu disse tem morena, mulata, dessa que a morte mata e depois chora com penaâ€. Ajeitaram o biquíni em cima, embaixo, deitaram-se, deixando o sol acariciar a pele morena da cor de mel de engenho. Lembrei-me de você, Majella, aí na UTI e eu, privilegiado, olhando as Vênus calipígias, morenas tropicanas. Logo chegaram dois atletas, sarados, sentaram-se a passar óleo nas costas das moças: eram os donos do pedaço.

Meia-noite, as eleições estão decididas, apuradas, contadas no computador, rápido; outros países não têm nossa tecnologia, o Brasil está na ponta. Há bem pouco tempo se passava um mês para finalizar uma apuração. Amigo Majella, por telefone eu não lhe passaria o resultado com medo de outro infarto. As pesquisas furaram! Lula havia preparado uma festa de arromba para a comemoração da vitória da Dilma no 1° turno, mas a Marina botou água no chope, aliás, no uísque, adiando a festa. Resta não morrer na praia.

Alguns “taturanas†foram eleitos, outros não. Um dia o povo vai acertar; não acertou ainda porque não chegou o dia. Injustiça sempre haverá, faz parte da democracia. Não conheço outro regime melhor. Um abraço, Majella. Restabeleça-se, pois os amigos exigem o retorno de sua alegria e de sua sabedoria. Você é um historiador importante para escrever a história política das Alagoas. Até mais ver!!!

Carlito Lima é escritor e membro da Academia Alagoana de Letras

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