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O Golpe Militar, 47 anos depois

domingo, abril 10th, 2011

Emilia Bezerra

O historiador Geraldo de Majella, 50 anos, em 1964 tinha apenas três anos de vida. Nascido em Anadia, distante 90 km de Maceió, a cidade discretamente “contribuiu†com cinco presos políticos, nos primeiros dias de abril de 64.golpe sim revolução não. Desde criança conviveu com ex-presos: eram pessoas comuns, do convívio familiar e que nunca lhe chamaram a atenção, pelo menos como os militares golpistas acreditavam ou fingiam acreditar que se tratar de gente perigosa.  O interesse pelo golpe militar de 1964 e seus desdobramentos tem início antes mesmo de quando decidiu, em 1981, fazer vestibular para o curso de história na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Maceió.

Bem-humorado, fala dos ex-presos, seus conterrâneos: “um advogado no exercício do mandato de deputado estadual, um motorista de caminhão, um ferroviário, um trabalhador rural e um açougueiro que exercia o mandato de vereador. Mas de uma hora para outra foram transformados em agentes de Moscou e de Havana em Anadia, uma piada quando observamos com a distância de quase meio séculoâ€.

Desenvolveu um trabalho meticuloso e constante à procura de documentos – nas suas mais variadas formas: fotografias, recortes de jornais, documentos pessoais de militantes políticos e ou sindicais, gravações de depoimentos.

Passados tantos anos do início da pesquisa, “etapa que ainda não foi concluída, e não sabe se algum dia será concluída, visto que os estudos históricos são permanentes, não há prazo definido para acabarâ€, diz o sorridente Majella.

Rubens Colaço: Paixão e vida – A trajetória de um líder sindical [Edições Bagaço, 2010, 252 páginas] é o primeiro volume da série de depoimentos. O segundo volume: Mozart Damasceno, o bom burguês, já esta na editora, com lançamento previsto para o mês de junho.

O historiador, demonstrando uma intimidade invejável com o tema – o golpe militar e a história política de Alagoas −, prepara o terceiro volume: Nilson Miranda, uma cabeça a prêmio, que será lançado em março de 2012.

“O golpe militar de 1964 em Alagoas é pouco estudado ou, para ser cauteloso, pouco se publicou sobre esse evento tão importante na história republicana nacional e sobre suas consequências no estadoâ€.

Os motivos apontados pelo historiador Geraldo de Majella são claros e diversos. Na sua ótica, “os historiadores que escreviam até 1964 e depois do golpe estiveram de um modo geral ligados às instituições estatais ou estavam de acordo com os militares. Passado quase meio século do evento, novos historiadores inauguraram novas linhas de pesquisas; os trabalhadores passaram a ser sujeitos da nossa história, a alagoana, e os movimentos sociais também começaram a ser pesquisados. Com isso, “descobertas†importantes foram reveladas. Trata-se de uma novíssima perspectivaâ€, sentencia Majella.

Como foi organizado o golpe militar em Alagoas? Quais forças políticas e econômicas estiveram diretamente envolvidas?

O golpe militar que depôs o presidente constitucionalmente eleito João [Jango] Goulart foi organizado longe daqui de Alagoas e até mesmo longe do Brasil. Tudo se iniciou e tomou forma a partir de Washington. Foi lá que o embaixador Lincoln Gordon, reunido com o presidente John Kennedy, decidiu que iriam bloquear o governo democrático e popular do presidente João Goulart. O jornalista Élio Gaspari, no livro A Ditadura Envergonhada, transcreve parte da reunião do embaixador americano no Brasil [Lincoln Gordon] com o presidente Kennedy, na qual a intervenção militar é posta sobre a mesa da Casa Branca como uma possibilidade real, fato que os documentos depois comprovaram, passando a ser uma decisão do governo americano. Não só para o Brasil, mas para vários países da América Central, Caribe e América do Sul.

Isso é visto por alguns como uma criação, uma invenção.

Para alguns desinformados, eu creio que o golpe e todas as articulações conspirativas internacionais e nacionais, podem ser ainda hoje, pois se recusam a reconhecer a verdade dos fatos históricos. Isso não pode ser visto, nunca, como uma criação espetacular de historiadores de esquerda.

O senhor acha provável que isso tenha ocorrido?

Uma criação por parte dos historiadores? Nunca. Veja bem. O mundo, desde o final da Segunda Guerra Mundial [1939-1945], passou a viver uma nova fase, a da Guerra Fria. As duas superpotências mundiais, os Estados Unidos e a então União Soviética, disputavam em todos os campos, desde a corrida armamentista, onde as duas super- potências brigavam pelo desenvolvimento de armas atômicas, e pela corrida ao espaço. Os russos haviam colocado em órbita o primeiro satélite, o Sputnik. Essa disputa militar, política e ideológica se desdobrava, chegando ao campo de batalha clássico: apoio logístico aos movimentos guerrilheiros africanos, que vinham lutando pela independência nacional. Foi o caso do Congo, com Patrice Lumumba. Por sua vez, os EUA procuravam financiar organizações mercenárias ou não, mas que derrotassem os aliados ou os possíveis aliados de Moscou. Esse teatro macabro de fato foi encenado inúmeras vezes.

E o Brasil, como ficou diante dessa conjuntura?

Os EUA passaram a trabalhar mais próximo das forças armadas brasileiras, dos civis udenistas, principalmente penetrando fortemente no meio empresarial e fazendo política, tendo como base o Congresso Nacional. O governo norte-americano, através de suas agências, inclusive a Agência de Inteligência, a CIA, ampliou as suas ações de cooptação de membros do Congresso Nacional, deputados e senadores, financiando campanhas eleitorais em Alagoas, em Pernambuco, no Rio de Janeiro, em São Paulo, enfim, por todo o país. Nada disso é invenção ou criação; são os documentos produzidos pelos americanos e por brasileiros que denunciam. Cooptaram lideranças dos movimentos sociais, camponeses em Pernambuco, por exemplo. Também financiaram lideranças dos movimentos organizados na área militar; o cabo Anselmo é o caso mais visível, mas houve outros.

Em Alagoas, os EUA estiveram presentes, ou foi apenas em Pernambuco?

Alagoas passou a ser uma cunha entre Sergipe e Pernambuco. Em Sergipe o governador Seixas Dórea, era aliado do presidente João Goulart; Miguel Arraes de Alencar, governador de Pernambuco, era o mais importante aliado do presidente da República no Nordeste. Alagoas, governada por Luiz Cavalcante, passou a ser o campo avançado de apoio, fora do território pernambucano, dos conspiradores, inclusive dos norte-americanos. É bom lembrar que a Vila Kennedy, conjunto residencial, construído no Vergel do Lago com dinheiro da Aliança para o Progresso, foi inaugurado no dia 31 de março, e quem esteve em nome do embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, foi o diplomata Jack Kubish, coordenador da Aliança para o Progresso.

O que o senhor sabe desse diplomata?

Esse diplomata teve participação em vários movimentos conspirativos e golpistas nas Américas. Conspirou no Brasil, pois sabemos de suas atividades em Alagoas, sendo inclusive hóspede do Dr. Ib Gatto Falcão, ele e a esposa. Em 1973, conspirou abertamente contra o presidente Salvador Allende, conforme podemos ler nos documentos que foram dados a conhecimento público pelo Departamento de Estado dos EUA.

A CIA teve seus agentes visitando Alagoas no período pré-64?

Olha, a CIA financiou um exército de mercenários. Essa operação custou 100 milhões de cruzeiros, e o coordenador dessas ações era o secretário de Segurança Pública de Alagoas, coronel João Mendes de Mendonça. Foram armados 10.000 homens, treinados para a sabotagem e a luta de guerrilhas. O governador Luiz Cavalcante apoiava esse empreendimento, que contou com know-how da CIA. Os documentos que comprovam essa revelação foram publicados pelo eminente pesquisador Luiz Alberto Moniz Bandeira, no seu livro A Presença dos Estados Unidos no Brasil. Os golpistas daqui eram meros instrumentos da política norte-americana no Brasil e nas Américas.

Além da CIA, quem mais atuou em Alagoas?

O Instituto Brasileiro de ação Democrática (IBAD), essa organização formada como mais um braço da conspiração no país, em Alagoas, foi conduzida por: Ib Gatto Falcão, Everaldo Macedo de Oliveira, Hélio Ramalho Ferreira e Japson Macedo de Almeida, conforme ofício datado de 15 de agosto de 1962, publicado no livro 1964: A Conquista do Estado, de René Armand Dreifuss. Essas articulações não aconteceram durante os últimos dias antes do golpe, mas vinham sendo gestadas há alguns anos no país e principalmente a partir de Washington. Os estudos relativos ao golpe militar em Alagoas ainda estão por ser feitos. Muitos personagens vão ter seus atos revelados, por- que a história tarda, mas não falha. Isso não tem nada com a Bíblia, mas com as possibilidades alcançadas pelas pesquisas históricas.

Quais as consequências do golpe em Alagoas e no Brasil?

Foram catastróficas. Milhares de cidadãos brasileiros foram presos; outros tantos, torturados ou mortos; centenas de desaparecidos políticos; parlamentares e ministros do Supremo Tribunal Federal, cassados e aposentados compulsoriamente. Uma desgraça! O povo brasileiro passou a viver durante 21 anos sob o signo da opressão; não havia liberdade, o bem maior dos seres humanos, depois da vida. Em Alagoas, as principais lideranças foram podadas, foram obrigadas a abandonar qualquer veleidade política. Grandes lideranças do movimento sindical foram cassadas, impedidas de atuar politicamente. Abriu-se uma enorme avenida para a deduragem e a mediocridade. Prosperaram muitos políticos subservientes aos militares. Gerações de novos quadros foram formadas para dirigir o Estado, e muitos deles se postaram ao lado do que havia de pior naqueles tempos sombrios em que o país vivia a terrível ditadura militar.

E de que maneira sobreviveu a oposição ao regime militar?

As oposições, melhor situando a questão. Os oposicionistas que detinham mandato parlamentar tiveram os seus mandatos parlamentares e os direitos políticos cassados por dez anos. Essa oposição era formada de personalidades dos vários campos da política alagoana. Os mais importantes, como Abrahão Fidélis de Moura, que resistiu desde as primeiras horas, logo teve o mandato cassado. O deputado Rubens Canuto, uma dessas lideranças que vinham se firmando, faleceu alguns anos depois. Moacir Lopes de Andrade, eleito nas eleições de 1966, foi cassado; era um jovem destacado, naquela época. O advogado Mendes de Barros e o professor Aurélio Viana, bravamente enfrentaram os dois aliados dos militares em Alagoas, Arnon de Mello e Luiz Cavalcante, na disputa para o Senado em 1970. Em 1974, o advogado José Costa foi candidato a deputado federal pelo MDB e ganhou espetacularmente as eleições, assim como o jornalista Mendonça Neto. Ambos cumpriram a importante missão de denunciar as violências da ditadura militar em Alagoas e nacionalmente. Esses dois parlamentares devem sempre ser lembrados pela coragem cívica de terem enfrentado os ditadores locais e nacionais com altivez.

O MDB foi o partido político a que os oposicionistas se filiavam e resistiam à ditadura militar?

Era. E foi dentro do MDB que os militantes de esquerda e os democratas de várias tendências se organizavam, resistindo à ditadura militar. Claro que havia as organizações de esquerda que atuavam na clandestinidade, o PCBR, o PCdoB, o PCB. Esses partidos, com maior ou menor atividade, atuaram principalmente no movimento estudantil. Tiveram importantes atuações. Mas foi a oposição [legal] que mais mobilizou e chegou a eleger vários deputados, como José Costa [federal], Mendonça Neto [estadual], Renan Calheiros [estadual]. Aliás, diga-se com justiça que o mandato de deputado estadual exercido pelo Renan Calheiros foi muito importante, corajoso e muito contribuiu com as lutas antiditatoriais. Bem como a candidatura de José Moura Rocha para o Senado em 1978. Essas sequências de ações políticas ajudaram a enterrar a ditadura em Alagoas. Na década de 1980 tivemos vários mandatos parlamentares comprometidos com a luta pela liberdade: Selma Bandeira, Ronaldo Lessa, Mendonça Neto, Eduardo Bomfim, Moacir Andrade, Alcides Falcão, todos na Assembleia Legislativa. Na Câmara de Vereadores foram eleitos: Freitas Neto, Edberto Ticianeli, Kátia Born, Jarede Viana, Fernando Costa, Guilherme Falcão; esses eram os vereadores mais afinados com as propostas das esquerdas. O movimento estudantil foi a principal fonte de formação de quadros e quem efetivamente dirigiu as ações de massas contra a ditadura em Alagoas.

Qual o papel do senador Teotônio Vilela na luta pelas liberdades democráticas?

O senador Teotônio Vilela é um dos políticos mais importantes que Alagoas já teve na sua fase republicana. Toda personalidade tem seus caminhos e descaminhos. Teotônio Vilela apoiou o golpe militar, em companhia dos seus aliados da época; não poderia ser diferente. Toda a UDN, partido a que Teotônio pertencia, esteve envolvida com as conspirações golpistas. Mas também temos de reconhecer que ele foi o primeiro político em Alagoas e um dos primeiros políticos vinculados à Arena a denunciar os abusos do regime militar. As consequências das suas atitudes políticas causaram mal-estar e chegaram ao ponto da ruptura com o governo. Filiou-se ao PMDB, foi o relator do Projeto de Anistia e cumpriu um dos mais belos e significativos papéis que um político brasileiro poderia cumprir naquele momento histórico. Liderou a campanha pela anistia, visitando todos os presídios onde estavam encarcerados os presos políticos. Essa é a mais bela e digna autocrítica que um homem público de caráter poderia realizar. Por isso Teotônio Vilela se transformou no Menestrel das Alagoas e numa grande figura da política nacional.

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Aos 50 anos, o balanço – I [Deixa a vida me levar, vida, leva eu!]

segunda-feira, janeiro 10th, 2011

Quando eu nasci, em 2 de janeiro de 1961, a cidade de Anadia (Alagoas) não dispunha de maternidade e nem sequer médico havia na cidade. O serviço público de saúde era precário, existia apenas um pequeno posto de Puericultura. As gestantes de risco não tinham alternativa a não ser recorrer aos serviços voluntários das parteiras.

A gestação da minha mãe não estava incluída nas de alto risco, mas num parto normal para o qual a Nina Chagas já estava de sobreaviso. “Mãe†Nina, como passei a chamá-la desde muito cedo, fez algumas centenas de partos na cidade e na zona rural.

Católica fervorosa, depois que nasci, rezou, me limpou e foi logo dizendo para os meus pais que eu seria protegido por Senhora Santana. A baixinha, carinhosa, de voz mansa, experiente nessa atividade tão nobre, todas as vezes que se encontrava comigo – desde criança e depois já adulto – me benzia com ramos de arruda ou fazia o sinal da cruz com o polegar direito. E dizia: “Senhora Santana é quem lhe protege, Geraldoâ€.

O casal, meus pais, havia passado por um momento de profundo pesar com a morte prematura do meu primeiro irmão, que se chamou, por alguns poucos dias, Geraldo de Majella.

O parto foi complicado e por pouco minha mãe não morreu; ele foi extraído a fórceps numa maternidade em Maceió. Da segunda gravidez de minha mãe nasceu a minha irmã Rosa Maria, e eu ao nascer acabei herdando o mesmo nome, pois meu avô Salvador Elísio Marques, que era devoto de São Geraldo, pediu aos meus pais que voltassem a colocar o nome do santo no próximo filho homem. Sobrou para mim o nome.

Anadia é uma cidade centenária, construída pelos portugueses próximo à margem direita do rio São Miguel. Os colonizadores escolheram o bonito e amplo vale que, quando visto do alto – da escadaria da igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade – se tem a visão geral no horizonte da serra da Morena e do São Miguel.

O São Miguel nasce nas terras altas e frias de Mar Vermelho; as águas correm em direção à foz, no Oceano Atlântico, na encantadora Barra de São Miguel, riscando ao meio o vale, fertilizando as terras nas vazantes, pastagens que os holandeses em 1643 disseram ser os mais belos pastos de todo o Brasil, evidentemente do que se conhecia no período colonial.

O rio São Miguel para mim sempre foi um encantamento, e em suas águas calmas no verão e revoltas no inverno, os meninos diariamente saíam em bando, num desafio infanto-juvenil, para mergulhar em todas as direções.

Saltar das árvores mais altas, as ingazeiras preferencialmente. Seria impossível recordar quantas vezes me senti um escafandro mergulhando sem qualquer aparelho, entre as suas pedras, numa profundeza que muitos adultos não se arriscavam; mas menino é assim, indomável, desconsidera o perigo. Para mim e para a maioria dos amigos, nada nos continha.

Saltos ornamentais, ninguém na cidade tinha a menor ideia do que fosse, mas eram dados durante os períodos de enchente, quando o rio transbordava inundando a parte baixa da cidade, a rua do alagadiço ou o sertãozinho.

Meninos e adultos, postados em fila da ponte do Urubu, sobre o São Miguel, saltávamos como se ali fosse uma plataforma, e nós os competidores, acrobatas.

As idas diárias ao rio era quase uma religião. No período de estiagem tomávamos banhos, observávamos o trabalho duro das lavadeiras, com trouxas imensas de roupas sendo lavadas, estendidas sobre o capim ou nas cercas de arames farpado, sob o sol escaldante para quarar.

A nossa diversão se dava em meio ao trabalho das mães, das filhas lavadeiras de ganho. Quando adolescente, tendo superado a ingenuidade dos tempos de criança, nossas presenças vespertinas na beira do rio tinham outros interesses não confessáveis: pegar lances picantes das lavadeiras; nos banhos nos finais de tarde, não era raro presenciar algumas delas nuas ou seminuas.

O rio fez parte das nossas vidas. O tempo passou e o rio também passou; já não é o mesmo rio, e as suas águas já não correm com a mesma beleza que na época de criança e adolescente.

A força das águas, por todos perigosamente desafiada. Minha mãe, nervosa, figurativamente andando de um lado para outro com o coração saído pela boca, numa das mãos ou passando de uma para outra mão, uma tabica de cipó-fogo que invariavelmente seria empregada como castigo do filho, que costumeiramente desobedecia as suas ordens e punha a vida em risco, alegremente.

As surras se tornaram um espetáculo. Foram tantas surras, incontáveis, todas motivadas pelas reincidências. O rio tinha um imã que atraia a mim e aos outros moleques, parentes, vizinhos, colegas de escola e também os adultos, que sem minha mãe saber era quem nos protegia e algumas vezes nos salvava dos apuros náuticos.

Mas não eram apenas os banhos o que me levava ao rio São Miguel; outras tantas vezes fui em companhia de José Marques, meu tio-avô, pescar de rede. A nossa praia era o rio. Os pescadores, como em todos os lugares, são excelentes contadores de estórias, e o velho tio para mim era o maior.

Os primos, filhos do tio, também adoravam ouvir as estórias, muitas criadas na hora com uma engenhosidade que até hoje, passados muitos anos, continuo a me lembrar delas e percebo como essa fase da vida me marcou.

Anadia tem para mim um significado quase mítico, uma cidade onde tudo ou quase tudo aconteceu, menos os cem anos de solidão, sem querer traçar qualquer paralelo com a Macondo, cidade mítica de Gabriel García Márquez.

A vida corria solta, livre; eram pouquíssimos os automóveis que trafegavam pelas ruas estreitas, não chegavam a incomodar, muito menos traziam perigo. Sentávamos nas calçadas e contávamos estórias, cada um inventava a sua. O leito das ruas servia de campos improvisados e jogávamos futebol, ximbra, pulávamos garrafão e rouba-bandeira.

Os sonhos corriam soltos de cabeça em cabeça e depois de externados em público os seus detentores tinham a obrigação “moral†de defendê-los no melhor estilo. O que sonhei nunca consegui realizar. Sonhava ser piloto de avião. O desejo de ser livre, de voar, me seduzia tremendamente. Ainda hoje adoro a aviação.

Havia um exemplo familiar para me ancorar, um primo que regulava a idade de meu pai, era oficial da aeronáutica. Era o único da cidade. Talvez por isso fosse por mim tão admirado, filho de uma tia-avó de meu pai, bem postos economicamente, dizia-se ser a família com a maior e melhor propriedade rural do município.

Na impossibilidade de ser piloto de avião, me contentaria em ser caminhoneiro como outros primos da família da minha mãe. Mas também queria ser músico sanfoneiro. Instrumento tão popular, eu me espelhava no mais famoso da região, Antonio do Baião, que se tornou um músico oficial da cidade e nas festas mais importantes era contratado para tocar e cantar. Chegou a gravar um compacto simples. As rádios de Maceió tocaram as suas músicas e, o mais significativo, havia acompanhado o rei do Baião, Luiz Gonzaga, num dos seus shows pelo interior de Alagoas, suprema glória.

A boemia era outra coisa que me atraia, e assim a cada instante mudava de profissão, coisa de criança.

A que mais tempo permaneceu foi a de dançarino de cabaré. Adolescente, fui assíduo frequentador do Pernambuco Novo, rua onde se localizava o cabaré em Anadia. Não só lá, em outros cidades vizinhas, inclusive Arapiraca, que tinha um nome curioso: cabaré do Jesus, alusão clara ao proprietário.

Os dançarinos: Vicente Freire, caminhoneiro de profissão e boêmio como vocação, era um exímio dançarino e disputava nos salões com o primo Luiz Fidelis quem melhor dançava, quem inovava nos passos com movimentos sincronizados.

Todas essas disputas eram embaladas com cervejas e cachaças. O cabaré era o espaço mais utilizado na cidade, já que não havia bailes com frequência. Mas dançar foi uma coisa que nunca aprendi, pelo menos como um dia sonhara num sonho juvenil, e muito menos me tornei dançarino de cabaré, apesar de tê-lo frequentado durante anos.

A transgressão, para mim, acredito tenha sido inata As ordens na infância, adolescência e juventude nunca foram bem-vindas e muito menos aceitas com passividade. Um exemplo: décadas depois vim a compreender quão autoritário é o sistema de ensino. Os castigos físicos eram uma regra, e todas as vezes que sofri algum castigo me rebelei. Sem exceção.

A escola, logo a comparei a uma prisão, e desde muito cedo me postei contra todo tipo de aprisionamento. Recusei-me a aprender as lições regulares ministradas pelas professoras, inclusive minha mãe, que aplicava a pedagogia da palmatória intensiva.

O que mais me atraia eram desenhos, jogos e leituras não obrigatórias. O meu caminho natural não era a sala de aula, mas a sala de castigo tão temida. Esse local detestado ficava próximo à diretoria da escola, junto à pequena e desarrumada biblioteca.

A liberdade de escolher os livros para ler me transportava para outro mundo, o das fantasias extraídas das leituras, a magia do lugar que, diga-se com sinceridade, não era amplo, ventilado ou bem cuidado mas era onde me tranqüilizava, ou melhor, onde eu era “domado†e contido.

A cidade tinha uma biblioteca pública, mas não dispunha de bibliotecário; quem cuidava dela com zelo e carinho era Zeca Olimpio. Aquele senhor, mais velho que meu pai, me cativava, e posso confessar que abriu um novo horizonte para mim: o da leitura e o do gosto pelos livros.

Havia naquela época o sistema de empréstimos de livros, mas antes o Zeca Olimpio indicava o livro apropriado de acordo com a idade e a série, além de uma pequena resenha sobre o autor ou texto. Assim ficava mais agradável ler e vinculava o jovem leitor ao orientador.

A vida foi passando surras fui tomando e caminhos alternativos foram sendo abertos − alguns por meu pai, já que minha mãe, professora das primeiras séries, o que hoje se denomina ensino fundamental, jamais compreendeu que havia outros métodos de ensinamento mais eficazes.

Aulas particulares foram uma das alternativas. Nas aulas de matemática, por exemplo, me saí bem; nada excepcional para mim, a não ser a juventude e a beleza da professora Socorro Peroba: ela, com paciência, me conduziu para o mundo lúdico do desenho e das leituras. O conteúdo diferia do que era dado na escola regular. As escolas que frequentei foram apenas para obter o certificado oficial e passar de ano. Isso, na primeira fase dos estudos no antigo curso ginasial e cientifico.

Depois continuei com o mesmo sofrimento. Tanto isso é verdadeiro que a minha conduta nunca foi das melhores pelas escolas por que passei. E até hoje não sinto nenhum remorso em não saber quantas ilhas há nas Filipinas ou qual a maior ilha fluvial do mundo. Ou coisa do gênero.

Mas sei da importância de Graciliano Ramos para a literatura e para a vida. Isso me basta. Quem me fez gostar dele primeiro foi o Zeca Olimpio. E quantos se lembram daquele velhinho simpático e gentil?

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