Posts para a tag ‘Diário de Alagoas’

Jorge Oliveira, repórter e cineasta

sexta-feira, julho 16th, 2010

Jorge Oliveira é jornalista profissional há 46 anos; nasceu em 1948 no bairro do Prado, na cidade de Maceió. Iniciou a carreira como repórter em Alagoas, passou pelas principais redações dos jornais impressos e rádio: Diário de Alagoas, Gazeta de Alagoas e Jornal de Alagoas e Rádio Difusora. Na década de 1970, muda-se para o Rio de Janeiro, onde vai trabalhar nas redações do Correio da Manhã, O Globo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, Última Hora, Tribuna da Imprensa, Jornal de Brasília, Rádio Nacional, Radio JB e Radio MEC.

O espírito irrequieto − uma das suas características − e a disposição incansável de repórter, frequentou quase todas as editorias. Em 1973, com pouco mais de três anos no Rio de Janeiro, ganhou o prêmio DER de reportagem − o primeiro da carreira −, quando trabalhava no jornal O Globo. 

O prêmio Esso é o mais cobiçado dos prêmios pelos jornalistas; Jorge ganhou dois. O primeiro em 1980, com uma série de reportagens sobre energia nuclear, pelo Jornal de Brasília. Em 1981 ganhou novamente o prêmio Esso, desta vez em equipe e pelo Jornal do Brasil.

Em 1978 foi enviado pela Editora Três a Alagoas para fazer uma reportagem sobre o “Sindicato do Crimeâ€, organização criminosa com longa atuação no Estado. Nesta oportunidade, foi preso por policiais civis e levado para uma Delegacia de Polícia, onde foi barbaramente torturado.

Quando foi solto, recebeu a solidariedade de amigos jornalistas, apesar de continuar recebendo ameaças dos policiais. Sua família também foi ameaçada, numa clara indicação de descontrole do aparelho de segurança.

O Coojornal, jornal mensal editado em Porto Alegre pela Cooperativa dos jornalistas do Rio Grande do Sul, publicou a reportagem; o Jornal de Alagoas e o semanário Desafio republicaram a matéria. Nessa época andava em curso uma intensa atividade criminosa com origem na cúpula da Secretaria de Segurança Pública.

O governador de então, Divaldo Suruagy [1975-1978], diante da repercussão negativa do fato criminoso ocorrido contra o jornalista alagoano, convidou formalmente o torturado para um almoço em palácio. No dia agendado para o almoço, ocorreu o inesperado: o governador havia concedido uma audiência à cúpula do “Sindicato do Crime,†que às portas fechadas discutia amistosamente, e ao final os “dirigentes do Sindicato do Crime†são recepcionados pelo Chefe do Executivo. Num clima descontraído o jornalista é formalmente apresentado aos “capos†alagoanos. 

A “audiência de desagravo†foi a fonte inspiradora para Jorge Oliveira descrever o “casual encontro†entre o jornalista, o “Sindicato do Crime†e o governador de Alagoas. O texto é uma peça histórica que, passados tantos anos, continua atual, com pequenas modificações. O que não se alterou foi a presença de criminosos investidos de mandatos parlamentares transitando pelos corredores palacianos nas Alagoas do século XXI.

O governador Divaldo Suruagy, após o almoço, despede-se dos “coronéisâ€, conduz o jornalista até o seu gabinete e sentencia:

 − Veja só, como podemos acabar com o Sindicato do Crime? Acabamos de almoçar com ele.

Retrucou o jornalista:

− Mas, Governador, não existe uma maneira de sanar esse problema, uma velha mancha em Alagoas?

Arremata o Governador:

 − É muito difícil. O Sindicato é composto de chefes políticos influentes em regiões importantes do Estado, com os quais precisamos nos relacionar para fazer política.

As providencias que o governador disse a Jorge Oliveira que seriam tomadas foram duas: primeira, a punição para os policiais que o torturaram; segunda, a destruição do tanque em que o “afogaram.

O semanário Desafio, edição de 20 a 27 de março de 1978, constata que: “Até o momento em que se fechava esta edição, nenhuma providência havia sido tomadaâ€. Ou seja: a tortura continuou a ser praticada em Alagoas, e o tanque não foi destruído.           

O jornalismo é um tipo específico de vírus que contaminou Jorge Oliveira ainda muito jovem, pois até hoje, aos 62 anos de idade, mesmo sem estar trabalhando em redações, continua escrevendo semanalmente num semanário de Maceió. Respira jornalismo. Tem escrito alguns livros que são grandes e importantes reportagens, nos quais o tema é Alagoas.

As mudanças ocorridas na carreira e na vida do jornalista foram significativas e positivas. Primeiro, por ter casado com uma colega de profissão, a jornalista Ana Maria Rocha; segundo, porque o casal mudou o rumo de suas vidas mergulhando no mundo do marketing político., atividade em que têm alcançado sucesso − isso vem sendo feito há cerca de 20 anos. O terceiro salto na vida do casal foi em direção ao cinema.

Como diretor de cinema, é uma grata revelação – quem diz não sou eu, apenas −-, mas a critica nacional. Em 1985 recebeu Menção Honrosa pelo filme “O poeta e o Capitãoâ€, no 38º Festival de Cinema de Brasília. Esse filme trata da histórica passagem do poeta chileno Pablo Neruda por São Paulo em 1945, para participar de um comício realizado no estádio de futebol do Pacaembu, juntamente com Luiz Carlos Prestes, líder dos comunistas brasileiros.

Outros filmes foram produzidos e dirigidos por Jorge Oliveira, Ana Maria Rocha, sua assistente de direção, e mais recentemente pelo filho do casal, Pedro Zoca.  Os filmes “Mestre Graçaâ€, sobre o escritor Graciliano Ramos, e os documentários “A Esfinge – Floriano Peixotoâ€, “A Resistência de Marechal†e “Perdão, Mister Fiel†[2010], longa-metragem que conta a história do operário alagoano, militante do Partido Comunista Brasileiro – PCB, Manoel Fiel Filho, torturado até a morte nas dependências do DOI-CODI de São Paulo, em 1975.

“Perdão, Mister Fielâ€, recém-lançado, já ganhou oito prêmios em diversos festivais e em categorias diferentes no Brasil. É um filme que ainda vai rodar muito pelo Brasil e no exterior.

A experiência como repórter tem sido bem utilizada por Jorge Oliveira em várias áreas. O livro Eu não Matei Delmiro Gouveia é uma reportagem histórica, e mais uma vez o objeto de estudo é a História de Alagoas. Em Curral da Morte [2010], livro publicado pela editora Record, leem-se as palavras do jornalista Domingos Meireles: “Ao exumar fragmentos de episódios desconcertantes, deliberadamente confinados nos cantos escuros do passado pela historiografia oficial, Jorge Oliveira produz uma obra fascinante, que desvenda a aspereza dos conflitos sociais de uma região marcada pelo atraso e pela barbárieâ€.

No trabalho de marketing político, além das 16 campanhas eleitorais em que trabalhou, produziu o livro Campanha Política: como ganhar uma eleição – Regras e Dicas, obra que tem sido uma eficaz ferramenta de consulta dos iniciados e dos profissionais da área, mas principalmente dos candidatos.

Múltiplo, como em geral são os jornalistas, foi diretor do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), da Federação Nacional dos Jornalistas e da Cooperativa dos Jornalistas do Rio de Janeiro.

PDF Download    Enviar artigo em PDF   

Marcus Vinicius Maciel Mendonça

segunda-feira, maio 3rd, 2010

Marcus Vinicius Maciel Mendonça [1937-1976], jornalista, poeta, compositor e desenhista, nasceu em Pão de Açúcar, Alagoas, no dia 14 de fevereiro de 1937. Filho de Aldemar de Mendonça e Zelina Alves Maciel. Estudou inicialmente em Pão de Açúcar. Em 1949, transferiu-se para Maceió, onde continuou os estudos. O seu primeiro emprego foi no extinto Fomento Agrícola, órgão do Ministério da Agricultura, na função de desenhista, em 1955.

Mas foi como jornalista e músico que se tornou uma figura conhecida e querida dos boêmios e da intelectualidade alagoana a partir da segunda metade da década de cinquenta. Em 1959, entra para o Diário de Alagoas, órgão do grupo político do governador Sebastião Marinho Muniz Falcão.

        Foi com o pseudônimo de Ãcaro que ficou conhecido na imprensa de Alagoas, tanto no Diário de Alagoas como na Gazeta de Alagoas, para onde se transferiu em 1964, sempre encarregado pela edição do que na época se chamava de “Sociedadeâ€, e que depois passou a ser a coluna social.

        Já conhecido nas rodas sociais de Maceió, figura requisitada para os eventos sociais, festas, reuniões e bailes nos principais clubes da capital alagoana, Ãcaro era um dos mais importantes e assíduos frequentadores do Bar Jaqueira. Os seus amigos de boemia e música eram Aldemar Paiva, Nelsinho Almeida, Bercelino Maia, Reinaldo Costa, Juvenal Lopes, Setton Neto, entre outros.

        A sua permanência na imprensa diária durou cerca de quinze anos [1955-1970]. Foi em 1970, ano em o Brasil conquistou o tricampeonato mundial de futebol, que deixou de trabalhar como jornalista profissional e retornou à antiga função de funcionário público federal como desenhista do Ministério da Agricultura.

        O radialista, compositor, humorista e escritor alagoano Aldemar Paiva, um dos seus melhores amigos, escreveu a respeito, ao saber que Marcus Vinicius havia morrido de câncer na noite do dia 7 de maio de 1976:

         “Ãcaro, ele se assinava assim, o meu amigo Marcus Vinicius Maciel Mendonça, 39 anos, jornalista, seresteiro das Alagoas.

Meu amigo de Maceió morrendo às 23 horas do dia 7, seu corpo sendo levado para o Parque das Flores. Um lugar lindo, que andei visitando outro dia, em Maceió. Lugar bom para se ficar enterrado. Comércio de flores… Ouvindo orações… Tranquilo, belo, sossegado. Ali está Ãcaro, o meu amigo.

Ãcaro pegava o violão com o mesmo desembaraço com que usava a máquina de escrever e compunha. Ele não queria ser um profissional. Era o seresteiro anônimo.â€

         A nota triste foi Marcus Vinicius não ter conseguido deixar registrado em forma de disco a sua voz. Pesou talvez para Marcus e para muitos outros as dificuldades financeiras e práticas em gravar um long-play (LP). Resta-nos a memória dos que conviveram e ouviram a voz desse importante intérprete alagoano.        

 

Fontes: Pão de Açúcar – Cem anos de poesia – Coletânea. Etevaldo Amorim [organizador], Ecos Gráfica e Editora, Maceió, 1999, p. 65/66.           

Foto 1: Estão na foto, da esquerda para a direita: José inacio Acioli, Juca Pedrosa(
> de óculos) e Eduardo Correia

Foto 2: O cantor Ivon Cury ( de gravata borboleta), Maria Cândida, Marcus Vinicius, Luiz de Barros.

Marcus Vinicius

(*) Marcos de Farias Costa

Na minha imodesta opinião, Marcus Vinicius (Pão de Açúcar/AL, 14/2/1937-Maceió, 7/5/1976) foi o maior cantor alagoano de todos os tempos. Justificarei, ao rolar das linhas, a empolgada afirmativa. Não escrevi “seresteiro†porque ele não foi somente um cantor de serestas. Marcus Vinicius era um intrépido intérprete de sambas e de outros gêneros, na sua voz grave e sonora, de timbre aveludado, com entonação de barítono e leve impostação lírica.

Na época em que frequentava o Bar da Jaqueira ninguém interpretava igual a ele o praticamente correto Samba da bênção (Vinicius de Morais/Baden Powell, lançamento em 1966) ou a plangente Modinha (Sérgio Bittencourt, lançada em 1968), ou mesmo a clássica canção Chão de estrelas, do genial Orestes Barbosa (em parceria com Sílvio Caldas e lançada em 1937). O seu repertório era extenso e intenso, desde ralentados sambas-canções até lépidas e velozes marchinhas carnavalescas e outros gêneros, passando pelo fox, a valsa, o bolero (Ansiedade, do alagoano Antonio Paurílio, que só ele cantou a primeira parte e que não foi gravada “completa†por Alcides Gerardi, em 1952), o tango e outras variedades de canções.

 Uma noite eu saía de um barzinho situado na Praça do Pirulito e passei no mercado público para comprar cigarros. Aproveitei e pedi uma saideira no balcão, e depois uma cerveja pra lavar a “prensaâ€, quando ouvi uma voz afinadíssima crescendo na noite. Apurei os ouvidos e percebi que alguém cantava o samba Chuvas de verão, de Fernando Lobo (lançado em 1949, na voz de Francisco Alves e regravado por Caetano Veloso, quase duas décadas depois). Apurando a visão, reconheci o cantor que vinha a pé, acompanhando-se ao violão e fazendo uma solitária serenata noturna em via pública. Era o Marcus Vinicius e vinha de grossa farra lá do Bar de “Seu†Didi. Para os mais jovens eu informo que o “Seu†Didi era o proprietário do frequentadíssimo Bar da Jaqueira, espécie de bunker lírico-musical dos anos 60, para os estudantes que entediados e revoltosos com a ditadura militar dos anos de chumbo, buscavam boa música e papos amenos e menos politizados.

Dizem que Nélson Gonçalves ao ser entrevistado e inquirido se haveria algum cantor no Brasil cuja voz se equiparasse com a sua, de supetão o cantor gaúcho gago disparou: “Marcus Vinicius, lá de Maceióâ€. Não sei se é verdade ou lenda, mas isso foi muito comentado em Maceió, em meados da década de 60, e entre a lenda e o fato eu fico com a lenda.

Certa manhã eu bebericava com o compositor Juvenal Lopes — no Bar do Chope, por volta de 1986 — quando um grupo de estudantes veio nos perguntar quais os dois maiores cantores alagoanos de todos os tempos. Nem titubeei: Augusto Calheiros e Marcos Vinicius. Juvenal, ao lado, sorriu, concordando.

Infelizmente Marcus Vinicius não deixou sua voz documentada em disco; só em precários registros em gravadores de rolo: uma dessas gravações eu ainda possuo, ele cantando e sendo acompanhado pelo pianista Nelson Almeida. Estas fitas antigas devem estar em extinção, e as que restam se encontram nos arquivos implacáveis dos colecionadores ou pesquisadores de música popular. Se Alagoas fosse um estado que valorizasse e preservasse os seus artistas, teríamos convertido para CD a única e última possibilidade sonora de resgate vocal deste extraordinário cantor, com arranjos modernos e participação dos artistas da terra. Mas isso seria sonhar acordado e com o ovo no uropígio da galinha.

Quando hospitalizado e com a saúde ameaçada, o boêmio e cantor Marcus Vinicius recebia os amigos da melhor maneira possível: além do bom papo habitual que era a sua marca registrada, ligava o passa-disco e ficavam horas escutando os clássicos da MPB, os seus ídolos Chico Alves, Sílvio Caldas, Orlando Silva e outros cartazes de sua preferência, buscando sofrear os que, emocionados, ameaçavam cair no choro. Os que o acompanharam no momento do último mistério afirmam que ele morreu cantando, como o poeta e visionário inglês William Blake.

Conheci Marcus Vinicius pessoalmente e uma vez apresentei-lhe um projeto de espetáculo musical no Teatro Deodoro (um dos milhares que morreram na gaveta do esquecimento), onde ele interpretaria o repertório dos grandes compositores do passado, como João da Baiana, Pixinguinha, Caninha, Donga, Sinhô, Brancura, Bide, Nilton Bastos e Ismael Silva, entre outros craques. Aí ele comentou, lúcido e entusiasmado: “Estes são os pioneiros!â€. E seguimos pro bar do Eliel, situado na Rua Cincinato Pinto, para afogar as mágoas com mais uma meiota de cachaça. Mas sem esquecermos a chalaça.

E volto a repetir em minha festa imodesta que Marcus Vinicius foi o maior e melhor cantor alagoano de todos os tempos. Com a diferença que cantava grosso e não usava tatuagem nem brincos. Até amanhã − se Deus quiser.

(*) Colaborador do blog e testemunha ocular e contemporâneo dos fatos aqui relatados.

PDF Download    Enviar artigo em PDF