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O menestrel Aldemar Paiva

quarta-feira, junho 23rd, 2010

 Aldemar Buarque de Paiva, filho de Mário Fortunato de Paiva e Maria Luiza Buarque de Holanda Paiva, nasceu em 20 de julho de 1925, na Rua do Macena, no Centro de Maceió, capital do Estado de Alagoas. Esta rua é um dos cenários do romance Angústia, escrito por Graciliano Ramos. Ao completar 23 anos, participou da inauguração da Rádio Difusora de Alagoas – ZY0-4.

A voz de Aldemar foi a primeira que se propagou − através das ondas do rádio − ao transmitir a solenidade de inauguração, no dia 16 de setembro de 1948, da primeira rádio de Alagoas. Este fato já o colocou na história da radiofonia brasileira.

Mário Marroquim era o diretor-geral da emissora, e Aldemar Paiva exerceu as funções de diretor artístico e de programação. O seu talento logo foi percebido pelos colegas e mais ainda pelos ouvintes da emissora pioneira de Alagoas.

A sua permanência no rádio alagoano foi curta: teve duração de apenas dois anos. Em 1951 foi trabalhar no Rádio Clube de Pernambuco – PRA-8 e no dia 20 de dezembro de 1952 começou um dos mais duradouros programas de rádio do Brasil, o Pernambuco, Você é Meu. Depois de dezesseis anos trabalhando no Rádio Clube, foi transferido, em 1968, para a Rádio Jornal do Comércio. Lá, continuou com o programa Pernambuco, Você é Meu até outubro de 1977.

Pernambuco, Você é Meu ficou no ar em duas estações de rádio durante 25 anos. Nesse período foi um dos mais importantes programas do rádio daquele estado. A música de qualidade foi sempre o que o norteou.

Aldemar Paiva fez parcerias com os músicos Rossini Ferreira, Inaldo Vilarim, Beto do Bandolim, José Meneses, Zé Gonzaga, Juraci Alves e o maestro Nelson Ferreira. A dupla Aldemar e Nelson Ferreira, seu parceiro mais constante, compôs: Bloco do Ataulfo, Saudade, Ninguém segura este Recife, Pernambuco, você é meu e Tem jeito, sanfona.  

Lourenço Capiba, outro ícone da música brasileira, foi outra amizade da vida inteira; nem por isso se tornaram parceiros de muitas músicas. Os dois até fizeram algumas músicas em parceria, que ainda não foram gravadas. Estão guardadas no arquivo de Aldemar.  

Não há precisão – pelo menos eu não tenho −, nesses 62 anos de vida artística, quanto ao número exato de músicas que Aldemar Paiva gravou ou outros cantores gravaram: de sua autoria ou em parcerias. A sua memória só alcança até o momento 62 composições gravadas.

Em seu escritório de trabalho estão nas gavetas cerca de dez músicas à espera de cantores, ou que ele ainda não apresentou aos seus amigos − entre estes, o mais importante cantor de frevo, Claudionor Germano, para que sejam gravadas.   

Esse homem multimídia tem sido reconhecido pelo valor como compositor, humorista, radialista, escritor, cordelista, em Recife e em outras cidades do Brasil. Foi agraciado com o título de cidadão pernambucano, mas nunca deixou de cantar a sua terra natal, Alagoas.

A Difusora foi inaugurada e Maceió ganhou uma bonita música, um hino. Verdadeiramente, a música Pajuçara de Aldemar Paiva deveria se tornar o hino oficial de Maceió. A primeira vez em que essa música foi executada foi no dia 16 de setembro de 1948, na inauguração da rádio. Muitos anos depois a cantora alagoana Leureny gravou e assim a imortalizou num long play.

Desde esse momento Pajuçara entrou no coração dos alagoanos de Maceió e também no coração dos que para cá chegaram ou ainda estão chegando para viver junto ao mar e à sombra dos coqueirais.

A música Pajuçara tem para Maceió a mesma importância que Copacabana, música de João de Barros, tem para a cidade do Rio de Janeiro. O amor devotado à sua terra é uma marca na sua obra de compositor, humorista, radialista, escritor. Em vários momentos da sua vida cantou Maceió e suas belezas naturais.

Aldemar é o nosso menestrel.

 Pajuçara

 Eu que conheço meu Brasil

Sei muito bem

Das lindas praias, coqueirais, que ele tem

Por isso afirmo nestes versos que compus

Em Pajuçara há mais encanto, há mais luz

Pajuçara, onde o mar beija as areias

Com mais alma e mais amor

Pajuçara, lindo berço de sereias

Que nos deu o criador

Pajuçara que refletes num sorriso

O teu coqueiral em flor

Tens uma beleza rara

Pajuçara.

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José Inácio Acioli: ourives, relojoeiro e boêmio

sexta-feira, abril 30th, 2010

Foi registrado no cartório como José Inácio Acioli, mas toda a cidade e até as pedras das ruas, os paralelepípedos, o conheciam pelo segundo nome: Zé da Quininha (na foto com Juca Pedrosa e Eduardo Correia). Aprendeu dois ofícios, o de ourives e o de relojoeiro. Trabalhou durante muitos anos. Não posso afirmar que tenha se dedicado integralmente, mas por bons anos foi das duas profissões que se manteve.

Quininha era, em geral, bem-humorado. O bom humor e a alegria contagiavam o ambiente onde estava. O pendor pela boemia era maior do que qualquer outra atividade, inclusive as de ourives e relojoeiro.

O silêncio que o trabalho de relojoeiro requer, a precisão na montagem e remontagem de engrenagens de relógios era, pois, incompatível com o seu temperamento. A solidão do trabalho causava-lhe certo desconforto.

Os dois ofícios, aprendeu quando jovem na condição de ajudante de outros profissionais na cidade de Anadia. Era num tempo em que não havia cursos profissionalizantes e a escola pública era restrita.

Autodidata em tudo na vida, também aprendeu a tocar violão e a cantar. Os seus mestres foram os boêmios que conheceu, e de muitos deles tornou-se amigo e, excepcionalmente, rival de alguns poucos. O motivo não foi a música, mas as mulheres. Não frequentou escolas, seguiu intuitivamente os ensinamentos dos sambistas Noel Rosa e Vadico, que dizem: “batuque é um privilegio/ninguém aprende samba no colégio [...]â€

Exerceu cargos públicos. Foi eleito vereador algumas vezes, duas pelo menos. A atividade parlamentar não o atraía nem era encarada como uma labuta que lhe causasse constrangimento em faltar a uma sessão da egrégia Câmara Municipal de vereadores, quando o motivo da ausência fosse plenamente justificável: está se iniciando uma farra ou nela está há tempos embalado com o seu inseparável violão.

Esse tipo de sacrifício os seus eleitores não lhe pedissem tamanha renúncia. O mesmo acontecia se clientes fossem procurá-lo para trabalhar em meio à sagrada boemia. A resposta estava pronta: “Deixe na relojoaria e depois vá buscarâ€.

No entanto, chegou um tempo em que os ofícios de ourives e relojoeiro foram totalmente abandonados, pois recebera uma oferta irrecusável: um emprego como funcionário público. Agora, sim, teria todo o tempo possível e não haveria incompatibilidade de tempo entre a boemia e o trabalho. Passou a ter um salário pequeno, mas certo ao final do mês. Desta forma gastou os últimos anos de sua longa vida.

O repertório por ele definido era quase imutável. Não adiantava solicitar músicas novas, que estivessem, por exemplo, sendo tocadas nas rádios. Esse tipo de coisa deixava-o injuriado. Fazia que não ouvia. Caso o pedido se repetisse, dizia simplesmente que não sabia.

A marchinha “Lancha Nova†de João de Barros, o Braguinha, e Antonio Almeida foi lançada na década de trinta, ganhou os salões durante os carnavais. Mas, desde muito jovem, Zé da Quininha incorporou-a ao seu repertorio até o final da sua vida.

Os amigos de copo e de cruz, os boêmios de Anadia, subiram as duas ladeiras íngremes levando-o para o cemitério, entoando “Lancha Nova†e outras canções de que tanto gostava e cantava nas mesas, salas e no cabaré. Aliás, era no Pernambuco Novo onde melhor cantava, com mais desenvoltura.

“Ô, ô, ô, ô,
Lancha nova no cais apitou
E a danada da saudade
No meu peito já chegou
Adeus, oh! linda morena
Não chores mais, por favor
Partindo, eu morro de pena
Ficando, eu morro de amor.â€

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