O mar da Barra de São Miguel é do Gildo Marçal Brandão
Ontem (domingo, 7/8), no final da tarde, o mar azul da Barra de São Miguel recebeu as cinzas do jornalista e professor alagoano Gildo Marçal Brandão [19 -2010], falecido no dia 15 de fevereiro de 2010, em São Paulo.
Atendendo a um dos seus desejos, foi cremado, e na tarde de ontem as cinzas foram lançadas ao mar. Mas antes pediu a sua companheira Simone Coelho que as jogasse num local especifico, onde sempre tomava banho, quando vinha durante as férias anuais ou em passagem por Alagoas. Estiveram presentes os seus familiares: pais, tia, irmãos, filhos, sobrinhos, neto, a mulher e amigos, que fizeram a entrega das cinzas ao mar, numa tarde ensolarada.
Saà da Barra de São Miguel com a certeza a de que todas as vezes que voltar à quele ponto da praia vou me banhar na mais bela e ampla sepultura que um ser humano desejou e conquistou. E logo ele, Gildo, nascido no alto sertão em Mata Grande, que havia andado por muitos lugares no Brasil e em outros paÃses, optou pelo mar azul da Barra de São Miguel. De uma coisa não posso discordar: da sua escolha, pois o litoral da Barra de São Miguel é excepcionalmente belo. E o Gildo, cá pra nós, tinha muito bom gosto.
O cinéfilo das Alagoas
Elinaldo Soares Barros [1947], crÃtico de cinema, cinéfilo, jornalista e professor de educação artÃstica, nasceu em Maceió, dois dias antes do natal de 1947, no dia 23 de dezembro, filho do casal José Soares Filho e Elita Soares Barros. Estudou no Colégio Estadual e na Universidade Federal de Alagoas, onde iniciou as suas atividades polÃtico-culturais, sendo eleito segundo secretário do Centro Acadêmico do Instituto de Letras e Artes (ILA), na gestão de Élcio Verçosa, no biênio 1968/69.
Licenciado em Letras pela Ufal em 1970, trabalhou como professor do Colégio Guido de Fontgalland e a partir de 1974 no Curso de Educação ArtÃstica do Centro de Estudos Superiores de Maceió (Cesmac).
A segunda metade da década de 1960 foi o perÃodo em que a ditadura militar recrudesceu e a censura à s manifestações artÃsticas e polÃticas atingiu o seu ápice. Nesse momento difÃcil, um grupo de jovens cinéfilos organiza o Cinema de Artes em Maceió, tendo à frente Radjalma Cavalcanti, Gildo Marçal Brandão e Imanoel Caldas.
Todos esses jovens tinham em comum o gosto pelo cinema e pelas artes, alguns também pela polÃtica. Nem todos eram vinculados à polÃtica, mas ao movimento estudantil e suas vertentes.
Elinaldo, estudante de Letras e já cinéfilo, frequentava desde a infância os cinema de bairro, que existiam naquela época: o cine Lux, na Ponta Grossa, o Ideal, na Levada, e o Royal, no centro. Integrou essa turma de difusores da sétima arte em Maceió.
O jornalismo na década de 1960 em Alagoas ainda tinha um aspecto romântico e boêmio. Nem todas as seções do jornal eram profissionalizadas; o caderno de cultura era uma dessas áreas do jornalismo que necessitavam de colaboradores, e foi a partir da critica de cinema e até mesmo das crônicas esportivas que intelectuais e jovens universitários passaram a colaborar mais assiduamente.
Os primeiros trabalhos publicados de sua autoria foram crônicas esportivas no Diário de Alagoas. Com o fim desse jornal, passou a escrever criticas de cinema no Jornal de Alagoas, que na naquela época era o mais antigo jornal do Estado, órgão de comunicação impressa onde mais publicou, inclusive assinando uma coluna chamada “Cinemaâ€.
Colaborou ainda em outros jornais diários e semanais como: Gazeta de Alagoas, Tribuna de Alagoas, O Jornal e O Diário. Escreveu em 1985, para o jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Voz da Unidade, o artigo “Uma Visão Histórica do Cinema de Alagoasâ€. Ainda escreveu nos jornais e revistas que foram surgindo e logo em seguida despareciam, em alguns casos sendo obrigados a fechar por força da pressão econômica. Foi o caso da revista Última Palavra. Versátil, também colaborou com o jornal semanal da arquidiocese de Maceió, O Semeador.
A longeva atividade de critico de cinema, toda ela exercida como colaborador nos jornais e nas televisões de Alagoas, o coloca na condição do mais influente intelectual nessa área. Formou várias gerações de professores, jornalistas e de espectadores.
Foi comentarista de cinema na Tv Gazeta, afiliada da Rede Globo. Atualmente é comentarista da Tv Pajuçara, afiliada da Rede Record em Alagoas. Em companhia do médico e acadêmico Ismar Gatto e de Maria Flora de Melo Soares, sua esposa, produziu um programa que marcou época no rádio alagoano: “Difusão Culturalâ€, veiculado pela Radio Educativa FM.
Na década de 1970 o Diretório Central dos Estudantes da Ufal organizou alguns Festivais Estudantis de Música Popular. Imediatamente foi convocado pelas lideranças estudantis para colaborar.
Na condição de funcionário da Secretaria de Cultura participou da organização de outros eventos importantes, como o Festival de Fotografia, o Salão de Humor, o Festival de Verão de Marechal Deodoro e vários Seminários de Literatura. Ainda foi diretor, por dois anos, do Museu da Imagem e do Som (Misa).
O maior e mais significativo momento do cinema alagoano ocorreu entre 1975 e 1982, perÃodo em que foi criado o Festival do Cinema Brasileiro de Penedo (AL), um evento de excepcional importância para os cineastas locais e também para a produção nacional, com sede na cidade barroca ribeirinha de Alagoas. Os festivais atraÃram público, cineastas e produtores de várias partes do paÃs e passou a ser uma das referências do cinema nacional. Em todos os festivais de cinema trabalhou na organização, pois na época era funcionário do Departamento de Assuntos Culturais (DAC) da Secretaria de Educação do Estado de Alagoas.
É critico de cinema em Alagoas desde 1969. São 42 anos de atividades ininterruptas. Em 2010, foi relançado em segunda edição o livro Panorama do Cinema Alagoano, sob o patrocÃnio do Cesmac.
Obras de Elinaldo Barros: Panorama do Cinema Alagoano, apresentação de Jorge Barbosa, capa e montagem fotográfica de Esdras Gomes, Maceió, DAC/Senec/Sergasa, 1983; Cine Lux: Recordações de um Cinema de Bairro, Maceió, Edicult/Secult, 1987 (prêmio da AAL em 1988); Rogato: a Aventura do Sonho das Imagens em Alagoas, com uma Apresentação Quase Desnecessária, de José Maria Tenório Rocha, Maceió, Secult [1994]; O Povo Diante das Lentes, in Arte Popular de Alagoas, de Tânia Pedrosa, p. 105.
O Golpe Militar, 47 anos depois
Emilia Bezerra
O historiador Geraldo de Majella, 50 anos, em 1964 tinha apenas três anos de vida. Nascido em Anadia, distante 90 km de Maceió, a cidade discretamente “contribuiu†com cinco presos polÃticos, nos primeiros dias de abril de 64.golpe sim revolução não. Desde criança conviveu com ex-presos: eram pessoas comuns, do convÃvio familiar e que nunca lhe chamaram a atenção, pelo menos como os militares golpistas acreditavam ou fingiam acreditar que se tratar de gente perigosa.  O interesse pelo golpe militar de 1964 e seus desdobramentos tem inÃcio antes mesmo de quando decidiu, em 1981, fazer vestibular para o curso de história na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Maceió.
Bem-humorado, fala dos ex-presos, seus conterrâneos: “um advogado no exercÃcio do mandato de deputado estadual, um motorista de caminhão, um ferroviário, um trabalhador rural e um açougueiro que exercia o mandato de vereador. Mas de uma hora para outra foram transformados em agentes de Moscou e de Havana em Anadia, uma piada quando observamos com a distância de quase meio séculoâ€.
Desenvolveu um trabalho meticuloso e constante à procura de documentos – nas suas mais variadas formas: fotografias, recortes de jornais, documentos pessoais de militantes polÃticos e ou sindicais, gravações de depoimentos.
Passados tantos anos do inÃcio da pesquisa, “etapa que ainda não foi concluÃda, e não sabe se algum dia será concluÃda, visto que os estudos históricos são permanentes, não há prazo definido para acabarâ€, diz o sorridente Majella.
Rubens Colaço: Paixão e vida – A trajetória de um lÃder sindical [Edições Bagaço, 2010, 252 páginas] é o primeiro volume da série de depoimentos. O segundo volume: Mozart Damasceno, o bom burguês, já esta na editora, com lançamento previsto para o mês de junho.
O historiador, demonstrando uma intimidade invejável com o tema – o golpe militar e a história polÃtica de Alagoas −, prepara o terceiro volume: Nilson Miranda, uma cabeça a prêmio, que será lançado em março de 2012.
“O golpe militar de 1964 em Alagoas é pouco estudado ou, para ser cauteloso, pouco se publicou sobre esse evento tão importante na história republicana nacional e sobre suas consequências no estadoâ€.
Os motivos apontados pelo historiador Geraldo de Majella são claros e diversos. Na sua ótica, “os historiadores que escreviam até 1964 e depois do golpe estiveram de um modo geral ligados à s instituições estatais ou estavam de acordo com os militares. Passado quase meio século do evento, novos historiadores inauguraram novas linhas de pesquisas; os trabalhadores passaram a ser sujeitos da nossa história, a alagoana, e os movimentos sociais também começaram a ser pesquisados. Com isso, “descobertas†importantes foram reveladas. Trata-se de uma novÃssima perspectivaâ€, sentencia Majella.
Como foi organizado o golpe militar em Alagoas? Quais forças polÃticas e econômicas estiveram diretamente envolvidas?
O golpe militar que depôs o presidente constitucionalmente eleito João [Jango] Goulart foi organizado longe daqui de Alagoas e até mesmo longe do Brasil. Tudo se iniciou e tomou forma a partir de Washington. Foi lá que o embaixador Lincoln Gordon, reunido com o presidente John Kennedy, decidiu que iriam bloquear o governo democrático e popular do presidente João Goulart. O jornalista Élio Gaspari, no livro A Ditadura Envergonhada, transcreve parte da reunião do embaixador americano no Brasil [Lincoln Gordon] com o presidente Kennedy, na qual a intervenção militar é posta sobre a mesa da Casa Branca como uma possibilidade real, fato que os documentos depois comprovaram, passando a ser uma decisão do governo americano. Não só para o Brasil, mas para vários paÃses da América Central, Caribe e América do Sul.
Isso é visto por alguns como uma criação, uma invenção.
Para alguns desinformados, eu creio que o golpe e todas as articulações conspirativas internacionais e nacionais, podem ser ainda hoje, pois se recusam a reconhecer a verdade dos fatos históricos. Isso não pode ser visto, nunca, como uma criação espetacular de historiadores de esquerda.
O senhor acha provável que isso tenha ocorrido?
Uma criação por parte dos historiadores? Nunca. Veja bem. O mundo, desde o final da Segunda Guerra Mundial [1939-1945], passou a viver uma nova fase, a da Guerra Fria. As duas superpotências mundiais, os Estados Unidos e a então União Soviética, disputavam em todos os campos, desde a corrida armamentista, onde as duas super- potências brigavam pelo desenvolvimento de armas atômicas, e pela corrida ao espaço. Os russos haviam colocado em órbita o primeiro satélite, o Sputnik. Essa disputa militar, polÃtica e ideológica se desdobrava, chegando ao campo de batalha clássico: apoio logÃstico aos movimentos guerrilheiros africanos, que vinham lutando pela independência nacional. Foi o caso do Congo, com Patrice Lumumba. Por sua vez, os EUA procuravam financiar organizações mercenárias ou não, mas que derrotassem os aliados ou os possÃveis aliados de Moscou. Esse teatro macabro de fato foi encenado inúmeras vezes.
E o Brasil, como ficou diante dessa conjuntura?
Os EUA passaram a trabalhar mais próximo das forças armadas brasileiras, dos civis udenistas, principalmente penetrando fortemente no meio empresarial e fazendo polÃtica, tendo como base o Congresso Nacional. O governo norte-americano, através de suas agências, inclusive a Agência de Inteligência, a CIA, ampliou as suas ações de cooptação de membros do Congresso Nacional, deputados e senadores, financiando campanhas eleitorais em Alagoas, em Pernambuco, no Rio de Janeiro, em São Paulo, enfim, por todo o paÃs. Nada disso é invenção ou criação; são os documentos produzidos pelos americanos e por brasileiros que denunciam. Cooptaram lideranças dos movimentos sociais, camponeses em Pernambuco, por exemplo. Também financiaram lideranças dos movimentos organizados na área militar; o cabo Anselmo é o caso mais visÃvel, mas houve outros.
Em Alagoas, os EUA estiveram presentes, ou foi apenas em Pernambuco?
Alagoas passou a ser uma cunha entre Sergipe e Pernambuco. Em Sergipe o governador Seixas Dórea, era aliado do presidente João Goulart; Miguel Arraes de Alencar, governador de Pernambuco, era o mais importante aliado do presidente da República no Nordeste. Alagoas, governada por Luiz Cavalcante, passou a ser o campo avançado de apoio, fora do território pernambucano, dos conspiradores, inclusive dos norte-americanos. É bom lembrar que a Vila Kennedy, conjunto residencial, construÃdo no Vergel do Lago com dinheiro da Aliança para o Progresso, foi inaugurado no dia 31 de março, e quem esteve em nome do embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, foi o diplomata Jack Kubish, coordenador da Aliança para o Progresso.
O que o senhor sabe desse diplomata?
Esse diplomata teve participação em vários movimentos conspirativos e golpistas nas Américas. Conspirou no Brasil, pois sabemos de suas atividades em Alagoas, sendo inclusive hóspede do Dr. Ib Gatto Falcão, ele e a esposa. Em 1973, conspirou abertamente contra o presidente Salvador Allende, conforme podemos ler nos documentos que foram dados a conhecimento público pelo Departamento de Estado dos EUA.
A CIA teve seus agentes visitando Alagoas no perÃodo pré-64?
Olha, a CIA financiou um exército de mercenários. Essa operação custou 100 milhões de cruzeiros, e o coordenador dessas ações era o secretário de Segurança Pública de Alagoas, coronel João Mendes de Mendonça. Foram armados 10.000 homens, treinados para a sabotagem e a luta de guerrilhas. O governador Luiz Cavalcante apoiava esse empreendimento, que contou com know-how da CIA. Os documentos que comprovam essa revelação foram publicados pelo eminente pesquisador Luiz Alberto Moniz Bandeira, no seu livro A Presença dos Estados Unidos no Brasil. Os golpistas daqui eram meros instrumentos da polÃtica norte-americana no Brasil e nas Américas.
Além da CIA, quem mais atuou em Alagoas?
O Instituto Brasileiro de ação Democrática (IBAD), essa organização formada como mais um braço da conspiração no paÃs, em Alagoas, foi conduzida por: Ib Gatto Falcão, Everaldo Macedo de Oliveira, Hélio Ramalho Ferreira e Japson Macedo de Almeida, conforme ofÃcio datado de 15 de agosto de 1962, publicado no livro 1964: A Conquista do Estado, de René Armand Dreifuss. Essas articulações não aconteceram durante os últimos dias antes do golpe, mas vinham sendo gestadas há alguns anos no paÃs e principalmente a partir de Washington. Os estudos relativos ao golpe militar em Alagoas ainda estão por ser feitos. Muitos personagens vão ter seus atos revelados, por- que a história tarda, mas não falha. Isso não tem nada com a BÃblia, mas com as possibilidades alcançadas pelas pesquisas históricas.
Quais as consequências do golpe em Alagoas e no Brasil?
Foram catastróficas. Milhares de cidadãos brasileiros foram presos; outros tantos, torturados ou mortos; centenas de desaparecidos polÃticos; parlamentares e ministros do Supremo Tribunal Federal, cassados e aposentados compulsoriamente. Uma desgraça! O povo brasileiro passou a viver durante 21 anos sob o signo da opressão; não havia liberdade, o bem maior dos seres humanos, depois da vida. Em Alagoas, as principais lideranças foram podadas, foram obrigadas a abandonar qualquer veleidade polÃtica. Grandes lideranças do movimento sindical foram cassadas, impedidas de atuar politicamente. Abriu-se uma enorme avenida para a deduragem e a mediocridade. Prosperaram muitos polÃticos subservientes aos militares. Gerações de novos quadros foram formadas para dirigir o Estado, e muitos deles se postaram ao lado do que havia de pior naqueles tempos sombrios em que o paÃs vivia a terrÃvel ditadura militar.
E de que maneira sobreviveu a oposição ao regime militar?
As oposições, melhor situando a questão. Os oposicionistas que detinham mandato parlamentar tiveram os seus mandatos parlamentares e os direitos polÃticos cassados por dez anos. Essa oposição era formada de personalidades dos vários campos da polÃtica alagoana. Os mais importantes, como Abrahão Fidélis de Moura, que resistiu desde as primeiras horas, logo teve o mandato cassado. O deputado Rubens Canuto, uma dessas lideranças que vinham se firmando, faleceu alguns anos depois. Moacir Lopes de Andrade, eleito nas eleições de 1966, foi cassado; era um jovem destacado, naquela época. O advogado Mendes de Barros e o professor Aurélio Viana, bravamente enfrentaram os dois aliados dos militares em Alagoas, Arnon de Mello e Luiz Cavalcante, na disputa para o Senado em 1970. Em 1974, o advogado José Costa foi candidato a deputado federal pelo MDB e ganhou espetacularmente as eleições, assim como o jornalista Mendonça Neto. Ambos cumpriram a importante missão de denunciar as violências da ditadura militar em Alagoas e nacionalmente. Esses dois parlamentares devem sempre ser lembrados pela coragem cÃvica de terem enfrentado os ditadores locais e nacionais com altivez.
O MDB foi o partido polÃtico a que os oposicionistas se filiavam e resistiam à ditadura militar?
Era. E foi dentro do MDB que os militantes de esquerda e os democratas de várias tendências se organizavam, resistindo à ditadura militar. Claro que havia as organizações de esquerda que atuavam na clandestinidade, o PCBR, o PCdoB, o PCB. Esses partidos, com maior ou menor atividade, atuaram principalmente no movimento estudantil. Tiveram importantes atuações. Mas foi a oposição [legal] que mais mobilizou e chegou a eleger vários deputados, como José Costa [federal], Mendonça Neto [estadual], Renan Calheiros [estadual]. Aliás, diga-se com justiça que o mandato de deputado estadual exercido pelo Renan Calheiros foi muito importante, corajoso e muito contribuiu com as lutas antiditatoriais. Bem como a candidatura de José Moura Rocha para o Senado em 1978. Essas sequências de ações polÃticas ajudaram a enterrar a ditadura em Alagoas. Na década de 1980 tivemos vários mandatos parlamentares comprometidos com a luta pela liberdade: Selma Bandeira, Ronaldo Lessa, Mendonça Neto, Eduardo Bomfim, Moacir Andrade, Alcides Falcão, todos na Assembleia Legislativa. Na Câmara de Vereadores foram eleitos: Freitas Neto, Edberto Ticianeli, Kátia Born, Jarede Viana, Fernando Costa, Guilherme Falcão; esses eram os vereadores mais afinados com as propostas das esquerdas. O movimento estudantil foi a principal fonte de formação de quadros e quem efetivamente dirigiu as ações de massas contra a ditadura em Alagoas.
Qual o papel do senador Teotônio Vilela na luta pelas liberdades democráticas?
O senador Teotônio Vilela é um dos polÃticos mais importantes que Alagoas já teve na sua fase republicana. Toda personalidade tem seus caminhos e descaminhos. Teotônio Vilela apoiou o golpe militar, em companhia dos seus aliados da época; não poderia ser diferente. Toda a UDN, partido a que Teotônio pertencia, esteve envolvida com as conspirações golpistas. Mas também temos de reconhecer que ele foi o primeiro polÃtico em Alagoas e um dos primeiros polÃticos vinculados à Arena a denunciar os abusos do regime militar. As consequências das suas atitudes polÃticas causaram mal-estar e chegaram ao ponto da ruptura com o governo. Filiou-se ao PMDB, foi o relator do Projeto de Anistia e cumpriu um dos mais belos e significativos papéis que um polÃtico brasileiro poderia cumprir naquele momento histórico. Liderou a campanha pela anistia, visitando todos os presÃdios onde estavam encarcerados os presos polÃticos. Essa é a mais bela e digna autocrÃtica que um homem público de caráter poderia realizar. Por isso Teotônio Vilela se transformou no Menestrel das Alagoas e numa grande figura da polÃtica nacional.
Um poeta em movimento
José Paulo da Silva Ferreira, poeta, ex-funcionário público, nasceu em Pão de Açúcar (AL), no dia 29 de junho de 1962, filho de OtacÃlio Ferreira e Ubaldina Bezerra da Silva. Estudou sempre em escolas públicas em sua cidade natal e foi lá que iniciou as suas atividades como poeta e publicista, escrevendo poemas e também contribuindo na imprensa sindical com textos polÃticos, sendo o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Pão de Açúcar o seu bunker.
Os jornais mimeografados eram produzidos e distribuÃdos para os estudantes no Colégio São Vicente. No final da década de 1970, tem inÃcio a reorganização da União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas (UESA), em Maceió, mas logo o trabalho foi ampliado para algumas cidades do interior onde havia contatos e estudantes com disposição para participar da luta estudantil. Foi o seu caso.
Como já havia um desejo, mais que um desejo, um trabalho de divulgação poética e polÃtico na cidade, principalmente entre os estudantes secundaristas, logo esse contato se materializou por intermédio dos estudantes de Pão de Açúcar que já moravam em Maceió e tinham participação no movimento estudantil. Não demorou muito tempo para que viesse morar em Maceió, numa das tantas residências alugadas por estudantes de Pão de Açúcar.
Descortina-se um novo horizonte na vida do poeta. Participa ativamente do movimento estudantil. Novos contatos são feitos, quando então passa a escrever em jornais de estudantes, tanto secundaristas como universitários, e se transforma num colaborador permanente dessas publicações alternativas.
O movimento estudantil cresce e assume papel cada vez de maior destaque, gerando um ambiente cultural novo para a Maceió da década de 1980 e para Alagoas.
O trabalho intelectual, antes publicado em mimeógrafo, toma um novo rumo, passa a ser editado em off set, uma nova tecnologia. Agora, já não são mais os livros artesanais, mas publicações modernas e em série.
A vida de estudante ficou para trás. Uma nova perspectiva é traçada. Era chegada a vez da poesia em sua plenitude: saraus em bares, encontros estudantis, participação em festivais de música. Em decorrência do seu engajamento é convidado para o seu primeiro trabalho formal, como servidor público, na Fundação Teatro Deodoro (Funted).
As enormes tarefas que se apresentam, como reorganizar e repensar uma instituição quase centenária como o Teatro Deodoro, foram um dos desafios naquele momento da vida cultural alagoana, mas não era evidentemente um trabalho individual em que um jovem poeta e outros tantos artistas e profissionais das artes cênicas se apresentaram como gestores públicos da área cultural, nem o momento concebia o mundo a partir da ótica de militante polÃtico, pois mantinha então vÃnculos com o Partido Comunista do Brasil (PC do B).
O jornal Boca de Estudante, órgão oficial do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), certamente foi o jornal que mais publicou poemas de Zé Paulo (como ficou conhecido e como assinava, também), mas foi na antologia Oficina de Poesia Opus-5, editada pelo DCE−UFAL, em 1986, que se revelou com maior destaque, ao lado de vários outros poetas, todos envolvidos com o movimento de renovação cultural em Alagoas e que tinham − pelo menos naquele momento histórico, a década de 1980 − o movimento estudantil como propulsor de ações artÃstico-culturais diferenciadas, recebendo influências do PC do B.
O Oficina de Poesia Opus-5 conta com poemas e textos de Cláudio Manoel, Deyves, Edvaldo Damião, Jorge Barbosa, José Duarte, Zé Paulo e Sidney Wanderley, numa edição com 76 páginas, pela Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal).
Os seus poemas vão sendo publicados sempre em antologias ou ainda nos jornais do DCE e dos Centros Acadêmicos. Em 1987, a Secretaria de Cultura de Alagoas, pela sua editora, a Ediculte, lança a Coletânea Caeté do Poema Alagoano, com a colaboração de 43 poetas, entre eles, Zé Paulo.
A Fundação Cultural Cidade de Maceió (FCCM) seleciona centenas de poemas de dezenas de poetas alagoanos ou que em Alagoas vivem, e publica a Antologia dos Poetas Alagoanos. Mais uma vez poemas da autoria de Zé Paulo são publicados. Mas um fato persiste: o poeta não tem um livro autoral que reúna os seus poemas. Permanece em movimento pela cidade de Maceió, recitando nos bares, nos logradouros públicos, nos salões, nas manifestações estudantis e polÃticas.
O poeta, certo dia, encontra uma musa e se muda de mala e bagagem, em 1988, para Curitiba (PR), onde permanece até 1991. Continua publicando os seus trabalhos em obras coletivas; uma dessas foi o programa da coreografia Brasil, um paÃs de cores, do Ballet Morozowicz. Expõe ainda no Sesc e no espaço Cultural da Caixa Econômica Federal (CEF), tendo participação ativa na Feira do Poeta.
Hoje o poeta José Paulo vive em Pão de Açúcar, à beira do rio São Francisco, olhando todos os dias o curso do rio, conversando com a sua gente, sertaneja como ele, fonte de sua inspiração e razão da sua existência.
Bloco Carnavalesco Filhinhos da Mamãe – 2011
Tema: “O Bloco Carnavalesco Filhinhos da Mamãe evoca o folião Luiz Falcão com o seu ‘Quarenta e Quatro Espada d’Ãgua’ -afamada Cavalaria Montada a Pé- e com a permissão do bloco d‘As Onze Mil Virgens’ dá a patente de Foliã da Cobra Fumante à Major Elza Cansanção, nos 50 anos da UFAL !
Concentração: Dia – 25/02
Hora: 20h30 – 24h.
Animação….Show de frevos pela cantora Vania Lopes
Participação Tradicional: Leureny Barbosa
Programa da Concentração
1º) Abertura oficial: 21h. às 21h25.
(Comissão Organizadora do Filhinhos da Mamãe – ATA e Museu Theo Brandão)
Homenagens ‘in memoriam’: Foliões Luis Falcão e a Major Elza Cansanção
CHUVA DE CONFETES Ã UFAL- 50 ANOS
Interlúdio: Show de frevos pela cantora Vânia Lopes
2º)Concurso de Fantasias “Prêmio Folião Pedro Tarzãâ€: 22h30
Mestre de Cerimônia.: Romeu Loureiro.
Interlúdio: Show de frevos pela cantora Vânia Lopes
3º)Apresentação do “Boi Dragão Lajense†– 23h15
4º)Apresentação do “Balé Folclórico de Alagoas†– 23h35
5º)Anúncio do tema do Carnaval “Filhinhos da Mamãe – 2012†– 23h40
Interlúdio: Show de frevos pela cantora Vânia Lopes
Apresentação: Orquestra Montepio de Penedo
Regência do Maestro SIDERLAN
6º)SaÃda do Cortejo do Bloco Carnavalesco Filhinhos da Mamãe – 24h
Apresentação: Orquestra Filarmônica Santa CecÃlia
Regência do Maestro: FLORIJAN CAHET.
Programa do Cortejo
1º) Foguetório: Av. da Paz.
2º) Percurso: Av. da Paz/Praça MarcÃlio
Dias/Rua Sá e Albuquerque
(Apoteose dos Filhinhos –
Associação Comercial)/Praça
Dois Leões/Adro da Igreja
de Nossa Senhora Mãe do
Povo.
3º) Louvação à Paz -Adro da Igreja N. S. Mãe do
Povo
O Partidão
E nem puderam cantar muito alto a Internacional.
Naquela casa de Niterói em 1922.
Mas cantaram e fundaram o partido.
Eles eram apenas nove, o jornalista Astrojildo, o contador Cordeiro, o gráfico Pimenta, o sapateiro José Elias, o vassoureiro LuÃs Peres, os alfaiates Cendon e Barbosa, o ferroviário Hermógenes.
E ainda o barbeiro Nequete, que citava Lênin a três por dois.
Em todo o paÃs eles eram mais de setenta.
Sabiam pouco de marxismo, mas tinham sede de justiça e estavam dispostos a lutar por ela.
Faz sessenta anos que isso aconteceu, o PCB não se tornou o maior partido do Ocidente, nem mesmo do Brasil.
Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis tem de falar dele.
Ou estará mentindo.
Ferreira Gullar
O mergulho na militância polÃtica foi para mim uma alternativa real em contraponto à vida fácil, da boemia, por um lado, e de emprego garantido como funcionário público, sem que houvesse a necessidade de prestar concurso, por outro. A generosa oferta foi por mim recusada; preferi caminhar em sentido contrário.
O entendimento que adotei conscientemente indicou um rumo diferente das orientações familiares. Num primeiro momento causou um choque, no mÃnimo um espanto, mas como tinha iniciado no final da década de 1970 os contatos com a militância de esquerda emergente no movimento estudantil, a partir de 1979, descortinou-se a oportunidade de entrar para o PCB em Alagoas. O fato de fazer parte do pequeno núcleo reorganizador do Partidão fez com que eu amadurecesse rápido em todos os sentidos.
Passei a dividir responsabilidades com outros companheiros, alguns bem mais velhos, outros nem tanto, mas a vontade de organizar o Partido ocupava todo o meu tempo, apesar da minha insegurança, fruto essencialmente da pouca idade e da grande responsabilidade que me impus em trabalhar diuturnamente na reconstrução de uma organização polÃtica que andava totalmente desarticulada no estado, o que me deixava tenso.
Os embates internos deram outra dimensão aos primeiros anos de militância partidária. Os castelos erguidos por mim foram caindo, e outras realidades se sobrepuseram. Fui me dando conta de que aqueles homens eram comuns e passÃveis de erros e de acertos, com virtudes, vÃcios e vicissitudes também. Nada que fosse de um outro mundo; tudo era normal e, para tanto, a superação dos entraves organizacionais só foi possÃvel com a entrada de novos militantes para, como se diz habitualmente, oxigenar o ambiente.
A vontade de criar uma nova estrutura partidária provocou inevitavelmente atritos, e a relação de amizade e camaradagem em muitos instantes foi rompida. A possibilidade de alterar a “hegemonia†interna passou a ser um objetivo a ser perseguido por mim e pelos companheiros. Tudo era doloroso. Estavam envolvidas relações afetivas e emocionais que acabavam por ter um peso significativo na estruturação e condução do trabalho de (re)organização do PCB.
Os contatos desse núcleo reorganizador com a direção nacional aos poucos foram ampliando a figura do “assistente da direçãoâ€. Antes, em 1980, duas visitas, a do jornalista Gildo Marçal Brandão e a do médico e sindicalista Agrimeron Cavalcanti da Costa a Alagoas, abriram veredas que pareciam largos caminhos em direção ao centro do Poder.
A presença do velho dirigente comunista Nilson Miranda também contribuiu para energizar a jovem militância. As vindas a Alagoas do historiador Dirceu Lindoso, que vivia no Rio de Janeiro desde 1965, foi importante e transmitiu confiança ao trabalho de uma novÃssima geração de dirigentes e militantes comunistas.
Os novos foram sendo recrutados, e eram essencialmente homens; poucas mulheres fizeram parte desse núcleo. Duas delas que se destacaram no trabalho foram Réa Silvia Pedrosa e Cristina Amélia Pereira. A primeira, alagoana de Anadia, e a segunda, portuguesa de Évora. O trabalho duro de viajar, reunir-se pelos bairros de Maceió e em cidades do interior, a advogada Réa Silvia fez com uma dedicação quase sacerdotal.
As ligações com o passado continuavam a ser mantidas através das figuras de Antonio Omena [ex-motorista], Mario Correia [ex-portuário], Rubens Colaço [ex-borracheiro], José Graciano dos Santos [ex-operário] e Mozart Verçosa Damasceno [comercianate]. Desses, o que mais me impressionou e continua até hoje a me chamar a atenção foi o velho operário têxtil José Graciano. Analfabeto, pobre, famÃlia numerosa, mas de uma dedicação invejável ao Partido. Ãntegro. Jamais ouvi reclamações do velho Graça. Para mim foi o maior exemplo de homem que conheci. A forma que o criou se quebrou, como se diz na gÃria interiorana.
O caso especÃfico da Cristina Amélia exigiu nos primeiros anos cautela. Por ser de nacionalidade portuguesa, havia impeditivos na lei dos estrangeiros, e a militância polÃtica era um deles. Mas nem por isso Cristina deixou de trabalhar; trabalhou duro na retaguarda, quase clandestina. Organizada, disciplinadÃssima, trazia o mais importante: a experiência de ter sido militante da juventude comunista do Partido Comunista Português.
Os desafios eram maiores que as nossas idades e experiências na arte da organização partidária. Este imprensado que vivÃamos: de um lado o gigantismo do PCdoB e dos seus aliados; do outro, o conservadorismo das forças polÃticas, enfileiradas no PMDB, sem deixar de considerar que se tratava dos que combateram a ditadura em maior ou menor grau.
A participação nas eleições com candidatos próprios foi a prova de que tÃnhamos de participar desse mundo ainda desconhecido. Uma espécie de zona cinzenta. Escolher candidatos nem sempre é uma coisa fácil; o processo eleitoral é sedutor e envolvente, não é difÃcil identificarmos os candidatos ou os que estão em sua volta envolvidos com irregularidades, com o ilegal. A “conquista do voto†invariavelmente é como se fosse um imã, um vale-tudo. O ilegal transita da compra propriamente dita do voto ao tráfico de influência e à distribuição de benesses – na maioria das vezes públicas: são favores, empregos etc.
Transitar nesse ambiente foi um rito de passagem para o amadurecimento que chegou em meio às lutas, com derrotas e vitórias.
Viagem a Moscou
Surgiu a possibilidade de ser enviado a Moscou, onde participaria de um curso na Escola Internacional de Quadros do Partido Comunista da União Soviética. Essa proposta foi inicialmente aventada pelo assistente polÃtico da direção nacional, Francisco Inácio de Almeida, ainda no inÃcio da década de 1980.
Fiquei com essa ideia em minha cabeça, achei-a interessante e, para ser honesto, passei alguns anos sonhando com a possibilidade. Mas, por outro lado, uma conversa muito franca com Nilson Miranda me deixou com a pulga atrás da orelha. O experiente comunista me disse: “Só vá para URSS quando terminar o curso universitárioâ€. O argumento do Nilson era correto e abria a minha cabeça para não voltar do curso e me tornar um funcionário polÃtico do Partido.
Esse argumento, acabei aceitando-o, e realmente em 1984, quando estava no final do curso de História e havia me preparado para viajar, discuti com o assistente polÃtico da direção nacional a melhor maneira de realizar este projeto. Fiz parte de uma turma de quinze pessoas de vários estados. Antes de embarcar fui a Recife me encontrar com Natanael Sarmento, então dirigente do PCB em Pernambuco, com quem obtive informações que foram de grande valia.
A minha ida para Moscou era uma espécie de abertura de uma nova geração de comunistas que seriam formados na antiga URSS. Durante muitos anos vários militantes e dirigentes de Alagoas foram enviados para o Leste europeu. Haviam ido: Dirceu Lindoso, Nilson Miranda, Wladimir e Anivaldo Miranda, Paulo Elisiário, Rubens Colaço.
Natan era meu velho conhecido e parceiro dos carnavais em Olinda; aliás, era em sua casa onde eu me hospedava durante os festejos carnavalescos. Para lá vinham companheiros conhecidos e também outros convidados e convidadas que não sabiam sequer quem era o dono da residência, mas que rapidamente se tornavam Ãntimos ou intimas, quase amigos de infância, e com liberdade suficiente para convidar outras pessoas, como namorado(a), ou simplesmente se encostar para curtir o porre.
A militância polÃtica no velho PCB me ensinou como se fosse uma universidade − mais que qualquer universidade, para ser sincero. A minha formação como cidadão, devo ao Partido. Faço uma ressalva: é que no PCB encontrei e convivi com homens e mulheres dignos, na grande maioria, mas também conheci canalhas e gente indigna com barbicha, barba ou sem pelos no rosto.
Sumariamente e sem qualquer ressentimento, cheguei à conclusão de que a atividade polÃtica é insalubre e periculosa muitas vezes. A opinião pública vem dando as costas para os que exercem essa atividade, isso não é novidade para ninguém. A desconfiança que se tem dos polÃticos e da polÃtica, convenhamos, é justificável, pois esta se tornou infelizmente um caso de polÃcia.
E o verão chegou
O verão é a estação em que o sol brilha intensamente e ninguém duvida que ele seja o astro-rei. O primeiro sinal do verão quem anuncia são as mulheres. As academias lotam, as fábricas lançam novas coleções, estampadas, floridas, sumárias, e as lojas expõem os produtos nas vitrines para atrair as clientes. Assim é anunciado o verão no Brasil.
A estação é percebida em cada metro quadrado das praias. É alegria em estado puro. Não é sentida por ninguém a falta do inverno, pois as chuvas e as baixas temperaturas deprimem, põem a todos enclausurados dentro de casa, comendo, bebendo, fumando ansiosamente e, mais grave, forçando a barra, chamando os amigos, parentes, colegas de trabalho para compartilhar o casulo, que se tornou a casa.
E quando se sai de casa é para ir a locais também fechados: restaurantes, bares, clubes sociais ou casas de festas. O sol vem acompanhado da alegria. As quatro estações no Nordeste do Brasil não são definidas claramente; apenas duas o são: o verão e o inverno. A primavera e o outono não são percebidos, sabe-se apenas que constam no calendário.
O dia amanhece cedo, anunciado pelos raios do sol, um espetáculo! Os notÃvagos, os que trabalham, os boêmios que viram a noite se encaminham para suas casas. Os que despertam logo se apressam para realizar a caminhada matinal à beira-mar, no bairro ou em outro lugar da cidade onde moram.
Mas é na praia que o verão se apresenta em corpo inteiro. As mulheres de todas as faixas etárias vêm à praia mostrar a beleza, o charme e a sensualidade que o verão permite e elas, e os olhos veem.
Os modelos, as cores, os corpos desnudos transformam as areias das praias em passarelas sem igual. O verão é esperado como se fosse um dos deuses do Olimpo com data marcada para chegar ao paraÃso terrestre que é o mar.
As deusas a caminhar ou jogando frescobol, vôlei, velejando, tomando sol, cerveja, água de coco ou simplesmente azarando a moçada. Só por isso vale a pena viver e enfrentar o sol, mesmo com o anúncio feito pelos cientistas de que a camada de ozônio foi devastada.
São Paulo
São Paulo é uma das cidades de que mais gosto. Sinto-me bem quando por lá volto e me sentia melhor ainda durante os anos em que morei em Sampa. Nunca dei atenção e jamais fiquei maldizendo a vida na metrópole, por ser agitada, movimentada.
A cidade se transformou ao longo do século XX, deixando de ser uma cidadela e entrou para o rol das metrópoles. As vantagens e desvantagens podem ser contabilizadas. Alguns saudosistas lembram do passado calmo, tranquilo e seguro. Outros xingam, esbravejam contra os dias em que vivemos: barulho, insegurança, desemprego, tudo é motivo para se falar (mal) do gigantismo de São Paulo.
Eu, sinceramente, me amparo na beleza poética de Sampa, um dos hinos não oficiais de São Paulo, composto por Caetano Veloso:
“[...[Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva [...]â€
Não me zangava, de um modo geral; algumas vezes, sim, pois não sou de ferro, ao ficar preso durante horas no trânsito cada vez mais infernal. Ou durante as constantes enchentes que mudam o humor da população e destroem vidas e esperanças. Procurei e ainda procuro − quando estou na cidade − relevar os dissabores, ou, melhor dizendo: o caos urbano a que o paulistano vem sendo submetido.
As mazelas, procuro tirar por menos. O que me atraÃa e continua a atrair, a me seduzir em São Paulo, é o multiculturalismo. Mesmo depois de tanto tempo, continuo admirando a tolerância que há entre as muitas nacionalidades e etnias que convivem pacificamente na cidade.
Os nordestinos – meus conterrâneos − que vieram trabalhar na construção civil como operário, engenheiro, motorista, porteiro de edifÃcio, professor, militar etc. ajudaram anonimamente na construção da maior cidade do paÃs e numa das maiores metrópoles do mundo.
Deixando muitos deles em condições adversas, correndo da fome e da seca no sertão, mesmo assim chegaram à cidade com vontade de construir um mundo novo, uma civilização novÃssima; trouxeram enfiado na matula os seus costumes, as tradições, culturas e a memória da sua terra, além da vontade indomável de trabalhar.
São Paulo me ganhou pela boca ou pelo estômago, como queiram. Os restaurantes, as cantinas, os bares, as docerias, as sorveterias e a leiteria americana, que já não existe mais. A diabetes me obrigou a mudar de vida e de hábitos alimentares, mas não me tirou o prazer de comer e viver.
A relação é enorme, alguns me ocorrem, e não fica bem deixá-los de lado. O Parreirinha, na General Jardim, foi ponto de encontro de Jamelão e de outros sambistas, inclusive de Paulinho da Viola. Na rua Aurora, 100, é servido o melhor chope da cidade, no Bar do Leo.
O filé do Moraes é inigualável, sendo sinônimo de boa refeição. A esquina da avenida Consolação com a rua Maceió é o endereço do Bar das Putas. AÃ, cerveja, cachaça e costelas são servidas no capricho.
O Bom Retiro, bairro de poucas ruas, tradicional endereço da comunidade judaica em São Paulo, tem bons restaurantes. Dois me atraiam: O Acrópole, onde é servida a tradicional comida grega, e o CecÃlia, um restaurante especializado em comida judaica.
Em Moema, a tradicional choperia Joan Sehn se mantém frequentada pelos antigos e novos apreciadores de chope. O Bexiga abriga inúmeras cantinas, mas a Montechiaro é quem melhor serve o cabrito Ãtalo-paulistano. É a minha recomendação.
As livrarias, os museus, os shows, os teatros, os sebos, de tudo há na cidade. “Alguma coisa acontece no meu coração/ Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São Joãoâ€: o verso leva ao Bar Brahma, onde tantas e quantas vezes atravessei as avenidas famosas para tomar chope e jogar conversa fora.
São Paulo é uma coroa de 457 anos. Se eu falar que está enxuta, estarei mentindo, pois tem chovido sem piedade, mas hoje em dia se pode dizer que é uma coroa sem garoa.
Salve São Paulo!
Augusta, Angélica e Consolação
Augusta, graças a deus,
Graças a deus,
Entre você e a angélica
Eu encontrei a consolação
Que veio olhar por mim
E me deu a mão.
Augusta, que saudade,
Você era vaidosa,
Que saudade,
E gastava o meu dinheiro,
Que saudade,
Com roupas importadas
E outras bobagens.
Angélica, que maldade,
Você sempre me deu bolo,
Que maldade,
E até andava com a roupa,
Que maldade,
Cheirando a consultório médico,
Angélica.
Augusta, graças a deus,
Entre você e a angélica
Eu encontrei a consolação
Que veio olhar por mim
E me deu a mão.
Quando eu vi
Que o largo dos aflitos
Não era bastante largo
Pra caber minha aflição,
Eu fui morar na estação da luz,
Porque estava tudo escuro
Dentro do meu coração.
Aos 50 anos, o balanço – I [Deixa a vida me levar, vida, leva eu!]
Quando eu nasci, em 2 de janeiro de 1961, a cidade de Anadia (Alagoas) não dispunha de maternidade e nem sequer médico havia na cidade. O serviço público de saúde era precário, existia apenas um pequeno posto de Puericultura. As gestantes de risco não tinham alternativa a não ser recorrer aos serviços voluntários das parteiras.
A gestação da minha mãe não estava incluÃda nas de alto risco, mas num parto normal para o qual a Nina Chagas já estava de sobreaviso. “Mãe†Nina, como passei a chamá-la desde muito cedo, fez algumas centenas de partos na cidade e na zona rural.
Católica fervorosa, depois que nasci, rezou, me limpou e foi logo dizendo para os meus pais que eu seria protegido por Senhora Santana. A baixinha, carinhosa, de voz mansa, experiente nessa atividade tão nobre, todas as vezes que se encontrava comigo – desde criança e depois já adulto – me benzia com ramos de arruda ou fazia o sinal da cruz com o polegar direito. E dizia: “Senhora Santana é quem lhe protege, Geraldoâ€.
O casal, meus pais, havia passado por um momento de profundo pesar com a morte prematura do meu primeiro irmão, que se chamou, por alguns poucos dias, Geraldo de Majella.
O parto foi complicado e por pouco minha mãe não morreu; ele foi extraÃdo a fórceps numa maternidade em Maceió. Da segunda gravidez de minha mãe nasceu a minha irmã Rosa Maria, e eu ao nascer acabei herdando o mesmo nome, pois meu avô Salvador ElÃsio Marques, que era devoto de São Geraldo, pediu aos meus pais que voltassem a colocar o nome do santo no próximo filho homem. Sobrou para mim o nome.
Anadia é uma cidade centenária, construÃda pelos portugueses próximo à margem direita do rio São Miguel. Os colonizadores escolheram o bonito e amplo vale que, quando visto do alto – da escadaria da igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade – se tem a visão geral no horizonte da serra da Morena e do São Miguel.
O São Miguel nasce nas terras altas e frias de Mar Vermelho; as águas correm em direção à foz, no Oceano Atlântico, na encantadora Barra de São Miguel, riscando ao meio o vale, fertilizando as terras nas vazantes, pastagens que os holandeses em 1643 disseram ser os mais belos pastos de todo o Brasil, evidentemente do que se conhecia no perÃodo colonial.
O rio São Miguel para mim sempre foi um encantamento, e em suas águas calmas no verão e revoltas no inverno, os meninos diariamente saÃam em bando, num desafio infanto-juvenil, para mergulhar em todas as direções.
Saltar das árvores mais altas, as ingazeiras preferencialmente. Seria impossÃvel recordar quantas vezes me senti um escafandro mergulhando sem qualquer aparelho, entre as suas pedras, numa profundeza que muitos adultos não se arriscavam; mas menino é assim, indomável, desconsidera o perigo. Para mim e para a maioria dos amigos, nada nos continha.
Saltos ornamentais, ninguém na cidade tinha a menor ideia do que fosse, mas eram dados durante os perÃodos de enchente, quando o rio transbordava inundando a parte baixa da cidade, a rua do alagadiço ou o sertãozinho.
Meninos e adultos, postados em fila da ponte do Urubu, sobre o São Miguel, saltávamos como se ali fosse uma plataforma, e nós os competidores, acrobatas.
As idas diárias ao rio era quase uma religião. No perÃodo de estiagem tomávamos banhos, observávamos o trabalho duro das lavadeiras, com trouxas imensas de roupas sendo lavadas, estendidas sobre o capim ou nas cercas de arames farpado, sob o sol escaldante para quarar.
A nossa diversão se dava em meio ao trabalho das mães, das filhas lavadeiras de ganho. Quando adolescente, tendo superado a ingenuidade dos tempos de criança, nossas presenças vespertinas na beira do rio tinham outros interesses não confessáveis: pegar lances picantes das lavadeiras; nos banhos nos finais de tarde, não era raro presenciar algumas delas nuas ou seminuas.
O rio fez parte das nossas vidas. O tempo passou e o rio também passou; já não é o mesmo rio, e as suas águas já não correm com a mesma beleza que na época de criança e adolescente.
A força das águas, por todos perigosamente desafiada. Minha mãe, nervosa, figurativamente andando de um lado para outro com o coração saÃdo pela boca, numa das mãos ou passando de uma para outra mão, uma tabica de cipó-fogo que invariavelmente seria empregada como castigo do filho, que costumeiramente desobedecia as suas ordens e punha a vida em risco, alegremente.
As surras se tornaram um espetáculo. Foram tantas surras, incontáveis, todas motivadas pelas reincidências. O rio tinha um imã que atraia a mim e aos outros moleques, parentes, vizinhos, colegas de escola e também os adultos, que sem minha mãe saber era quem nos protegia e algumas vezes nos salvava dos apuros náuticos.
Mas não eram apenas os banhos o que me levava ao rio São Miguel; outras tantas vezes fui em companhia de José Marques, meu tio-avô, pescar de rede. A nossa praia era o rio. Os pescadores, como em todos os lugares, são excelentes contadores de estórias, e o velho tio para mim era o maior.
Os primos, filhos do tio, também adoravam ouvir as estórias, muitas criadas na hora com uma engenhosidade que até hoje, passados muitos anos, continuo a me lembrar delas e percebo como essa fase da vida me marcou.
Anadia tem para mim um significado quase mÃtico, uma cidade onde tudo ou quase tudo aconteceu, menos os cem anos de solidão, sem querer traçar qualquer paralelo com a Macondo, cidade mÃtica de Gabriel GarcÃa Márquez.
A vida corria solta, livre; eram pouquÃssimos os automóveis que trafegavam pelas ruas estreitas, não chegavam a incomodar, muito menos traziam perigo. Sentávamos nas calçadas e contávamos estórias, cada um inventava a sua. O leito das ruas servia de campos improvisados e jogávamos futebol, ximbra, pulávamos garrafão e rouba-bandeira.
Os sonhos corriam soltos de cabeça em cabeça e depois de externados em público os seus detentores tinham a obrigação “moral†de defendê-los no melhor estilo. O que sonhei nunca consegui realizar. Sonhava ser piloto de avião. O desejo de ser livre, de voar, me seduzia tremendamente. Ainda hoje adoro a aviação.
Havia um exemplo familiar para me ancorar, um primo que regulava a idade de meu pai, era oficial da aeronáutica. Era o único da cidade. Talvez por isso fosse por mim tão admirado, filho de uma tia-avó de meu pai, bem postos economicamente, dizia-se ser a famÃlia com a maior e melhor propriedade rural do municÃpio.
Na impossibilidade de ser piloto de avião, me contentaria em ser caminhoneiro como outros primos da famÃlia da minha mãe. Mas também queria ser músico sanfoneiro. Instrumento tão popular, eu me espelhava no mais famoso da região, Antonio do Baião, que se tornou um músico oficial da cidade e nas festas mais importantes era contratado para tocar e cantar. Chegou a gravar um compacto simples. As rádios de Maceió tocaram as suas músicas e, o mais significativo, havia acompanhado o rei do Baião, Luiz Gonzaga, num dos seus shows pelo interior de Alagoas, suprema glória.
A boemia era outra coisa que me atraia, e assim a cada instante mudava de profissão, coisa de criança.
A que mais tempo permaneceu foi a de dançarino de cabaré. Adolescente, fui assÃduo frequentador do Pernambuco Novo, rua onde se localizava o cabaré em Anadia. Não só lá, em outros cidades vizinhas, inclusive Arapiraca, que tinha um nome curioso: cabaré do Jesus, alusão clara ao proprietário.
Os dançarinos: Vicente Freire, caminhoneiro de profissão e boêmio como vocação, era um exÃmio dançarino e disputava nos salões com o primo Luiz Fidelis quem melhor dançava, quem inovava nos passos com movimentos sincronizados.
Todas essas disputas eram embaladas com cervejas e cachaças. O cabaré era o espaço mais utilizado na cidade, já que não havia bailes com frequência. Mas dançar foi uma coisa que nunca aprendi, pelo menos como um dia sonhara num sonho juvenil, e muito menos me tornei dançarino de cabaré, apesar de tê-lo frequentado durante anos.
A transgressão, para mim, acredito tenha sido inata As ordens na infância, adolescência e juventude nunca foram bem-vindas e muito menos aceitas com passividade. Um exemplo: décadas depois vim a compreender quão autoritário é o sistema de ensino. Os castigos fÃsicos eram uma regra, e todas as vezes que sofri algum castigo me rebelei. Sem exceção.
A escola, logo a comparei a uma prisão, e desde muito cedo me postei contra todo tipo de aprisionamento. Recusei-me a aprender as lições regulares ministradas pelas professoras, inclusive minha mãe, que aplicava a pedagogia da palmatória intensiva.
O que mais me atraia eram desenhos, jogos e leituras não obrigatórias. O meu caminho natural não era a sala de aula, mas a sala de castigo tão temida. Esse local detestado ficava próximo à diretoria da escola, junto à pequena e desarrumada biblioteca.
A liberdade de escolher os livros para ler me transportava para outro mundo, o das fantasias extraÃdas das leituras, a magia do lugar que, diga-se com sinceridade, não era amplo, ventilado ou bem cuidado mas era onde me tranqüilizava, ou melhor, onde eu era “domado†e contido.
A cidade tinha uma biblioteca pública, mas não dispunha de bibliotecário; quem cuidava dela com zelo e carinho era Zeca Olimpio. Aquele senhor, mais velho que meu pai, me cativava, e posso confessar que abriu um novo horizonte para mim: o da leitura e o do gosto pelos livros.
Havia naquela época o sistema de empréstimos de livros, mas antes o Zeca Olimpio indicava o livro apropriado de acordo com a idade e a série, além de uma pequena resenha sobre o autor ou texto. Assim ficava mais agradável ler e vinculava o jovem leitor ao orientador.
A vida foi passando surras fui tomando e caminhos alternativos foram sendo abertos − alguns por meu pai, já que minha mãe, professora das primeiras séries, o que hoje se denomina ensino fundamental, jamais compreendeu que havia outros métodos de ensinamento mais eficazes.
Aulas particulares foram uma das alternativas. Nas aulas de matemática, por exemplo, me saà bem; nada excepcional para mim, a não ser a juventude e a beleza da professora Socorro Peroba: ela, com paciência, me conduziu para o mundo lúdico do desenho e das leituras. O conteúdo diferia do que era dado na escola regular. As escolas que frequentei foram apenas para obter o certificado oficial e passar de ano. Isso, na primeira fase dos estudos no antigo curso ginasial e cientifico.
Depois continuei com o mesmo sofrimento. Tanto isso é verdadeiro que a minha conduta nunca foi das melhores pelas escolas por que passei. E até hoje não sinto nenhum remorso em não saber quantas ilhas há nas Filipinas ou qual a maior ilha fluvial do mundo. Ou coisa do gênero.
Mas sei da importância de Graciliano Ramos para a literatura e para a vida. Isso me basta. Quem me fez gostar dele primeiro foi o Zeca Olimpio. E quantos se lembram daquele velhinho simpático e gentil?
A primeira vez de Lula em Alagoas
O presidente da república mais popular da história do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, nem sempre foi bem recebido por onde andou. A primeira vez que Lula esteve em Alagoas no dia 20 de setembro de 1978, na condição de presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
A vinda de Lula a Alagoas fez parte das comemorações do dia do radialista; sua presença teve o objetivo de aproximar mais os sindicatos de Alagoas e os de São Paulo, o dos metalúrgicos do ABC, em especial.
O convite foi feito pelo então presidente do Sindicato dos Radialistas de Alagoas, José Adelmo dos Santos. O sindicalista nordestino de Garanhuns (PE), o metalúrgico, formado pelo Senai como torneiro mecânico, fez uma conferência na Academia Alagoana de Letras, o mais importante auditório de Alagoas, naquela época.
O dirigente sindicalista Adelmo dos Santos sofreu pressões da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Alagoas, que publicou até mesmo uma nota oficial nos jornais de Maceió, recomendando aos sindicatos filiados à federação que não fossem à conferência do sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva.
O delegado do Trabalho em Alagoas, José de Barros Sarmento, também pressionou, porém, diante da firmeza do presidente do Sindicato dos Radialistas, que contava também com o apoio irrestrito do presidente do Sindicato dos Jornalistas, João Vicente Freitas Neto, teve de amargar uma derrota: saber que o auditório da Academia Alagoana de Letras (foto) lotou com sindicalistas, estudantes, intelectuais e opositores ao regime militar.
Lula declarou que:
“[...] é com muita satisfação que saà de São Paulo me propondo a cumprir o compromisso assumido por telefone com o Adelmo, para vir ao Estado de Alagoas. Não para fazer uma palestra, porque não teria condições de fazê-la. Não para fazer uma conferência. [...] Gostaria antes de começar a ter um papo com vocês fazer um pedido que , não é nenhuma novidade. Isso eu faço em qualquer lugar que eu vou. Se tiver aqui algum policial com interesse de anotar o que eu com dizer. Eu só peço para que seja o mais honesto possÃvel, que não escreva mentiras, porque já fui duas ou três vezes prejudicados por relatórios falsos. (Aplausos).â€
“[...] Eu acho que vivemos um momento histórico na vida do paÃs. Entendo eu que o Brasil, a curto prazo de tempo, será ocupado por pessoas que sintam coragem de olhar o povo brasileiro de cabeça erguida, não por falsos dirigentes sindicais, nem por falsas pessoas que só sabem espoliar o povo brasileiroâ€.





