Gostava na adolescência de guardar pensamentos, alguns com autores e outros anônimos. Alguns recordo nitidamente e, dentre eles, este que dizia: Muita gente deixaria de ser amiga se pudesse ler o pensamento do outro. A natureza humana é assim, havendo coisas e fatos inconfessáveis ao outro, como bem escreveu o famoso escritor alagoano, Ledo Ivo, que tive a oportunidade de conhecer e conversar, “Que dentro de cada um há um segredo, um mistério e uma diferençaâ€. Nunca li algo tão sábio!
Há pensamentos que, independente de nossa vontade, flui do “porão†da mente e surge via fala, ou ação, surpreendendo a consciência que vive junto ao Superego, restrito só à linguagem e em constante vigilância. Tentamos afastar essas idéias indesejáveis, por não nos fazer bem, ou por temermos suas conseqüências  e por serem, à s vezes, desleais, inconvenientes, geralmente com os mais próximos. O indiferente não faz parte deste cÃrculo.
A mente é mesmo um poço de mistério e alguns componentes deste, ao serem desvendados, revelam como, quando e porquê estavam guardados a “sete chavesâ€. Então, numa terapia, numa análise, numa excedida de bebida, numa conversa em que surge um ato falho (diz o que não queria dizer, trocam-se palavras o que caracteriza ato falho e outros) sendo revelado algo da profundeza da mente. Poderá ser bom ou não.Uma outra via estudada por Freud foram os sonhos, pois através dele se desvenda muitas de nossas atitudes, à s vezes repetitivas e que suas causas estavam lá no inconsciente incomodando, sem aparentemente se saber suas origens. Lá, naquela instância psÃquica, estão coisas boas e más, aprovadas ou não pela conduta adequada socialmente, sendo também uma fonte de criatividade, formação  de nossas fantasias e depositária de muitos dos desejos. O destino a ser dado à revelação vai depender do que se está vivenciando, de quem estar acompanhado e das circunstâncias ambientais. Ao nÃvel da consciência, a partir do que foi manifestado, vale transcrever o que Hermann Hesse diz: “Quanto mais elevada a nossa formação (e, portanto, a nossa consciência, o sentimento de nossa própria personalidade), tanto mais pronta e seguramente distinguimos o que nos é inadequado. Todavia, tanto mais prontamente também percebemos tudo que nos seja convenienteâ€. Conhecendo-nos um pouco, pode-se melhor ter compreensão da forma de ser do outro, até porque muita coisa que nele criticamos, temos muito daquela dentro de nós; o que na psicanálise chama-se de projeção, em que muito do que está em nós vemos no outro. É algo que lanço sobre o outro para disfarçar aquilo que eu mesmo posso não ser responsável, como a culpa, por exemplo. O culpado, geralmente culpa o outro e a si mesmo, também.
Em algumas ocasiões, a verdade que está em cada um poderá surgir e esta lucidez tem um preço: casamentos podem ser desfeitos, amizades podem ser rompidas, sociedades pode ser quebradas, amores podem originar em ódios e mais. O se dar conta de algo que não se desejava enxergar, embora a verdade estivesse lá, produz uma mudança e,como tal, desestrutura. Mais cômodo seria acreditar que a verdade não estaria lá, porém até que ponto valeria permanecer na enganação, no disfarce, adiando algo que está lá incomodando, latejando para aflorar? Apostar em suas crenças, seus valores, mesmo que a custo de sofrimentos, carências e privações, creio ser o caminho para se ter mais sossego no só depois.
Nas relações afetivas, de trabalho, parece que a lucidez aponta para a tolerância, paciência dentro do permitido, conhecimento das causas das incompatibilidades, das discordâncias, das antipatias e das diferenças. Entretanto, quando se constata que o outro nada acrescenta, que a energia está sendo sugada, que as atitudes incomodam, o melhor é deixar a relação na superfÃcie, apenas no trato social. A coerência entre os nossos sentimentos deve ser prioridade para o nosso bem estar.

