Desejei subir à Serra da Barriga
Dia 20 de novembro é o dia comemorativo da Consciência Negra, em todo o paÃs. A data é um marco, porque refere-se à morte de Zumbi, sÃmbolo da luta contra a escravidão, sendo ele um dos principais representantes da resistência negra, na época do Brasil colônia.
A data me fez voltar à minha infância e adolescência. Como desejei ter nascido menino para usufruir de alguns privilégios, sendo um deles o direito de subir à Serra da Barriga. Meu irmão se aventurou e foi, com a permissão de papai, e eu fiquei desolada, frustrada, porque não era passeio para menina. É bem verdade que isto aconteceu por volta de 1963. Meu irmão Edmundo e seus amigos voltaram exaustos, arranhados, já que entraram por mata, sem haver trilhas limpas que permitissem o fácil acesso. Depois entendi a negação do meu pai ao meu desejo.
Certa vez, passando uns dias de férias na fazenda Timbó, nos arredores de União dos Palmares, sentia-me embevecida com a visão próxima da Serra da Barriga. Só avistava a serra de longe, nas minhas viagens de trem, de Maceió para União e vice-versa. Admirar o contorno da Serra, imaginar o que lá se passou me deixava curiosa, pensando como teria sido a vida dos quilombolas e, particularmente, a de Zumbi, com seu amor, sua liderança, sua luta, seu carisma, sua sobrevivência e comando na distribuição de tarefas de um grande grupo que confiava nele e sabia da sua competência para administrar e defender o quilombo das investidas contÃnuas de grupos armados enviados governo pernambucano.
Li que o Quilombo dos Palmares chegou a reunir entre 20.000 a 30.000 negros. Como conseguiu ser um dos maiores quilombos? Quando Pernambuco foi invadido pelos holandeses, em 1630, muitos donos de engenhos foram obrigados a abandonarem suas terras e os negros, vindo da Ãfrica como escravos, fugiram para alguns locais onde se organizavam como quilombos. Nestes quilombos eles eram livres, podendo pescar, viver de acordo com a cultura africana, cultivar a terra e alguns buscavam alimentos em algumas fazendas, o que deixava seus senhores furiosos. Houve inúmeras tentativas para acabar com os quilombos, inclusive havia a vontade de recapturar os negros para voltar a ter mão de obra escrava.
E Zumbi? Tinha sido, desde os sete anos, criado por um padre, alfabetizado, aprendendo a religião católica. Ao completar 15 anos fugiu para o quilombo chamado Macaco. Aos 25 anos passou a ser o lÃder, inclusive com saber das várias técnicas de guerra.
Domingos Jorge Velho, no ano de 1694, ataca o Quilombo dos Palmares, conseguindo dizimá-lo totalmente. Zumbi, mesmo ferido, consegue fugir. Um ano depois é traÃdo por um companheiro, sendo capturado e é morto em 20 de novembro de 1695,aos 40 anos.
Sendo palmarina, tenho orgulho de ter nascido em uma terra histórica, palco de um uma comunidade que representou uma luta pela sobrevivência, combate à escravidão e amor à vida livre, direito natural de todo ser.
Feliz por quase tudo
Admiro os escritos de Martha Medeiros. Seu último livro tem vendido bastante, ou pelo tÃtulo, ou pela reconhecida competência da autora; comprei-o pelos dois motivos e intitula-se “Feliz por nadaâ€. Analisa, em uma das suas crônicas que originou o tÃtulo, as razões que levam uma pessoa a declarar estar feliz e diz †…que não é seguro se sentir feliz por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.†O ser feliz é algo desejado por qualquer ser humano normal. Creio que há sempre uma motivação para qualquer estado de espÃrito e as circunstâncias vão ditando as regras. Sou mais adepta por ser feliz por quase tudo.
Entendo o estar feliz ficando alegre. Por que nos alegramos? Podemos estar alegres por grandes ou pequenas coisas que provocam uma sensação de prazer. Um dia perguntarei as razões que levam as pessoas a declararem ou expressarem alegria e serfelicidade e sei que vou encontrar inúmeras justificativas. Escutei, certa vez, uma pesquisadora comentando que as respostas diferem para homens e mulheres.
Iniciei meu processo de identificar quais os fatos que lembro de ter me provocado alegria ou estar me sentindo bem e feliz. Minha memória apontou um bem-te-vi que vi preso em uma área com várias janelas de vidro. Quando encontrei-o estava agitado e se debatendo desvairadamente, com as asas abertas e o bico muito aberto. Ao mostrar uma saÃda, partiu ligeiro e foi estacionar em um fio que atravessa a rua e onde estava uma companheira, suponho que seja, que estava ali talvez atraÃda pelos sons emitidos pelo coitado. Partiram juntos para o ar e fiquei num estado de alegria, por uma coisa tão pequena, mas que no momento foi muito significativo e me encontrei em um estado de feleicidade. É este pouco que poderá ser quase tudo, no momento.
Alegre sinto quando alguém querido chega. Ou chega para ficar ou chega para passar poucos dias e é como escreveu Mendonça Júnior, em uma de suas belas poesias, ao falar da chegada e que ela provoca  sorrisos de festa em minha face…â€. Provoca também, na espera, uma ansiedade gostosa. Por poucos dias sinto a vida pulsar diferente, detenho-me na cor do mar, na brisa que sopra, nas lágrimas da chuva que lavam a rua na madrugada, nas jangadas que com suas velas brancas e abertas alinhavam as ondas, pura alegria do retorno, pela proximidade do seu porto, na Balança dos peixes e, assim, pelo pouco ou muito, a alegria surge, mas não por nada.
Sei que o otimismo exagerado é quase insanidade, diante de tantas adversidades, pois o exagero torna-se inconveniente e até perigoso.A vida é permeada por momentos de perda, de tristeza, de violência, de estresse, de insatisfação com o trabalho, com a profisão escolhida, com separações, traições, desencantos, enfim, são inúmeros fatos que podem tentar desequilibrar o ritmo der viver. Entretanto, o buscar equilÃbrio, descobrir formas de estar bem, mobilizar pensamentos que ajudam e contribuem para se ter saúde, boas amizades, um amor, boa disposição para enfrentar os desafios e custa quase nada acreditar que podemos cultivar a alegria e ser feliz por quase tudo.
Puro espÃrito aventureiro
Em um jantar, vindo de uma apresentação de tango no Teatro Deodoro , encontro uma amiga neurologista, Lúcia Wanderley, que me convida para uma viagem surpresa. Disse-lhe que toparia, só que foi há meses. Fui à agência de turismo, fiz o pagamento e já havia me esquecido da história.
Os avisos chegam de toda forma para o dia da viagem surpresa, local de saÃda dos ônibus, a numeração do meu e o horário que deveria estar no local do encontro na Pajuçara.
Quando falei para meus filhos sobre a viagem, pois fazia apenas uma semana que estava chegando de outra, os meninos estranharam e não acreditaram. Até eu fiquei me questionando sobre como seria, que roupas levaria e fiquei sabendo que esta é a décima que a Empresa faz.
Vi muito a curiosidade aguçada, recursos vários para o guia se manifestar, motorista do ônibus e nada de se saber o destino. O ônibus seguiu em direção sul e lá vêem as cogitações de quais hotéis em Sergipe e Bahia poderiam abrigar 500 hóspedes. No ano passado fiquei sabendo que a surpresa foi a Costa de SauÃpe e a Empresa não repete o passeio. O ônibus ao chegar em Aracaju pegou a Linha Verde e já foi um indÃcio de que a hospedagem poderia ser na Bahia.
A viagem segue animada com jogos, brincadeiras, lanches , vÃdeos e uma grande animação. Talvez eu tenha sido no ônibus “a marinheira de primeira viagem†deste tipo. Embora eu conhecesse algumas pessoas, pareceu-me que a grande maioria no ônibus era de uma só famÃlia ou amigos próximos. Senti-me, aos poucos, como parte deste grupo maior.
Chegamos no Grand Palladium Imbassai Resort. Um paraÃso baiano. Sebastião, o dono da empresa de turismo, aguardava e saudou seus clientes. A escolha não poderia ser melhor. Foi um final de semana prazeroso e muito bom. Tive oportunidade de encontrar muitas e muitas pessoas conhecidas. Louvo o empenho do proprietário e de sua Morgana. Sei que não é fácil promover um evento deste porte e tudo sair bem. Funciona tudo “all inclusive†e é muita responsabilidade deixar seus clientes satisfeitos.
Hoje entendo o carinho e a fidelidade que muitas amigas minhas, que são clientes desta empresa, demonstram e faz crescer a adesão às viagens que a empresa promove, uma vez que vi nesta e falam que em todas as viagens os donos estão presentes para dar apoio e todo suporte.
Questiono agora o que motiva 500 pessoas a partirem sem rumo, levando uma maletinha e sua carteira de identidade, para buscarem um final de semana diferente, em um destino desconhecido. Eu estava me sentindo particularmente aventureira, mas diante da quantidade de pessoas, percebi a amplidão do espÃrito de expor ao desconhecido. Como a maioria já é cliente e fez outras viagens neste estilo, confia no trabalho da empresa, não invalidando o gosto pela surpresa, com o destino ignorado, porém com a certeza de que iria viver, como eu, um final de semana festivo, descontraÃdo, num lugar lindo, parecendo que o paraÃso estava ali.
Ler faz caminhar
O ato de ler permite caminhar, fazer a mente viajar por lugares conhecidos e imagináveis, sentir emoções diferentes. A mãe lendo diante do filho verte lágrimas e sua criança a indaga porque chora. Ela lhe responde, porque quando a gente está lendo podemos chorar ou rir. O exemplo estava dado. Possivelmente o filho irá apreciar a leitura ao crescer. O estÃmulo deve começar muito cedo e o prazer pelas descobertas vai acontecendo ao longo da vida.
Penetrar em uma obra é vivenciá-la, sendo tudo de desejável para quem escreve. Quando alguém fala: “Você escreveu para mim†gera uma sensação gratificante. O seu pensamento foi interpretado, compactuado; este retorno é uma forma para se partir para outros escritos.
Falar em leitura vem à memória a obra que foi transformada em filme, “O Leitorâ€. Conta a história de um jovenzinho que se apaixona pela professora. O relacionamento entre ambos foi tão marcante que, pela vida a fora, moldou a vida amorosa do estudante adolescente. O tempo passa e eles se perdem no tempo. Rever a amada, ele já em idade amadurecida, foi quase chocante. Ela tinha caminhado fazendo polÃtica de contestação. Ao revê-la atualiza suas emoções e revive que com ela aprendeu a ser leitor de obras e do corpo humano, carregando afeto, paixão e sexo.
Escuto uma entrevista de Miguel Falabella. Diz ele que seu pai lhe dava livros em vez de brinquedos. Na infância sei que se aprende brincando e não vejo como livros e brinquedos necessitam se excluÃrem. IndiscutÃvel o prazer que a criança sente em brincar, mas há momentos que os contos permitem a imaginação dominar a mente. A realidade mistura-se com a fantasia e se brinca supondo que carros são verdadeiros, bonecas podem ser filhas etc.
Os livros vão estimulando a mente descobrir que, tal como os brinquedos, pode-se dar vida aos animais, prÃncipes, bruxas, a partir não de objetos concretos, mas de imagens que façam a criança enxergar, criar, além das gravuras ou de imagens virtuais.
Para a criança ainda vai permanecer por muito tempo o livro que possa ser pegado, manipulado inúmeras vezes.
Surpreendeu-me ter lido que muitos adolescentes tomaram gosto pela leitura a partir dos livros da série Harry Porter. Outro grande estÃmulo aconteceu com a série “Crepúsculoâ€, “Lua Nova†e outros do gênero, quando o tema gira sobre o amor de um jovem e belo vampiro por uma linda adolescente, do mesmo colégio. A identificação e a torcida para o amor prevalecer empolgaram os adolescentes.
Não importa o começo pelo prazer de ler, importa a descoberta do prazer. Há lugares e hora para tudo. Há quem prefira ler em silêncio, outros não se importam com o que está acontecendo ao redor, como em sala de aeroporto, por exemplo.
Converso com alguns jovens e me revelam que odiavam ler por conta de terem sido obrigados a ler os “Clássicosâ€, no colégio. A forma de imposição é que não funcionou. Comento que tem que começar com uma leitura agradável e, geralmente, é algo que os colegas comentam e gostam. Há que se descobrir quais os seus interesses e, a partir daÃ, entrar no mundo fabuloso dos conhecimentos e das viagens que a leitura proporciona.
De que lado estão os loucos?
Há vários estilos de loucura. Pode-se, comumente, falar que se ficou louco pela paixão, por pequenos e grandes poderes, pela bebida, pela droga, por abandono, por vaidade, por ignorância, pelo desconhecido, por medo, por ambição e outros modos infinitos de enlouquecer.
Estou de posse de “Os melhores contos de loucuraâ€, organizados por Flávio Moreira da Costa. Além de contos e testemunhos da loucura, vou descobrindo o fio que tece o comportamento humano com faces diversas que desviam do que se caracteriza como o normal, possibilitando um sofrimento mental, principalmente, e que aponta para a miséria social.
Escutei, inúmeras vezes, pessoas temerem ficar, um dia, loucas. Por quem alguém é tomado como louco(a)? Em “A Vênus de Illeâ€, Prosper Mérimée, descreve como foi que a noiva, em sua noite nupcial, vê (alucina) seu esposo ser morto ao ser abraçado pela estátua de Vênus, em seu próprio quarto. Repete vinte vezes a mesma história, segundo o procurador do rei. Assim, mesmo em sua fala coerente, a jovem é considerada pobre louca, já que descreve uma cena incapaz de um ser humano normal admitir como verdadeira. Diz que diante da cena ela perdeu a consciência, mas pouco antes deve ter perdido a razão.
Sabemos o quanto é frágil a linha que separa a loucura da sanidade. Na adolescência soube de quatro amigas que tiveram surtos de loucura. Duas só tiveram apenas um surto, embora tenham sido internadas em hospitais psiquiátricos. Uma chegou a casar, teve filhos e tinha surtos recorrentes; morreu ainda jovem. A outra também teve inúmeros internamentos e foi diagnosticada, na época, como tendo Psicose manÃaca depressiva. Não vai ter cura nunca, porém tem todo o apoio e controle, através de acompanhamento psiquiátrica e medicamentoso,a compreensão e assistência constante do esposo e, por sabedoria, o casal optou por não ter filhos. Estes casos me deixavam intrigada, já que eram garotas que faziam parte do meu convÃvio na escola, iam à s festinhas, namoravam e, de repente, rasgam as roupas, saem pelas ruas despidas, gritam, com comportamentos de quem fugia da realidade.
Vou ao Freud e fui reler a diferença entre neurose e psicose. Em 1924, ele retoma as instâncias psÃquicas do Ego(meu contato com o mundo exterior),o Superego (instância psÃquica em que aponta o certo e errado, fazendo censura) e o Id (inconsciente, sede dos impulsos instintivos, da criatividade, de onde emergem os sonhos etc.). Segundo Freud, “A neurose é o resultado de um conflito entre o ego e o idâ€. O ego recua para não aceitar um poderoso impulso instintual, que vem de dentro. Não é à toa que todos nós somos considerados neuróticos, por termos nossos conflitos, duvidar, reprimir. Ainda, segundo ele, o ego se defende mediante a repressão, de uma forma conciliatória e, então, é aà que os sintomas aparecem. Dizem que adoecemos no corpo, para não enlouquecer.
Vamos ao que Freud fala sobre a psicose, que é a loucura: “O mundo exterior não é percebido de modo algum, ou a percepção dele não possui qualquer efeito.â€
Sabemos que somos frutos da força do meio e do muito que trazemos da carga genética. Como o mundo externo nos influencia? Este mundo externo governa o ego (ligação com a realidade) de dois modos: “pelas percepções atuais e passadas, sempre renováveis e com um armazenamento das lembranças anteriores que vão compor meu mundo interno. †Na Psicose, o ego cria um novo mundo interno e externo e o surto vai ser resultante “de uma frustração muito séria de um desejo, por parte da realidade – frustração que parece intolerávelâ€. Já sobre à Esquizofrenia, há uma perda de toda participação do mundo externo.†São inúmeros lados da loucura e sorte de quem dela está afastada.
Para que serve?
O encarte EquilÃbrio da Folha de S. Paulo, publica um especial (27/09/2011) com posições e questionamentos sobre a Psicanálise. Faz um enquete com vários psicanalistas, tomando a pergunta básica como norte: â€Serve para quê?â€. Responde um deles, Contardo Calligaris: “Serve para diminuir ao mÃnimo possÃvel o sofrimento neurótico e o sofrimento banal, ou seja, reduzi-los ao que é totalmente inevitável, serve para tentar reorientar ou desorientar a vida da gente; desorientar é uma maneira de orientar! Enfim, serve para tornar a experiência cotidiana mais interessante. Pensando bem, quase tudo se inclui nessas três coisas.â€
Transcrevi a resposta completa, porque aprovei-a integralmente. Fiquei refletindo se a pergunta fosse feita a mim, o que diria? Acrescentaria que a Psicanálise serve para aliviar o fardo dos conflitos próprios nas pessoas neuróticas, que são as “normaisâ€, e proporcionar um mergulho nos sentimentos, utilizando a competência da escuta profissional, que permite a própria escuta de quem está em processo de acompanhamento para, pouco a pouco, conseguir discernimento para melhor administrar a vida, com menos carga de sofrimento e culpa. Uma paciente , após receber alta, depõe: “A análise desautorizou o meu sofrimento e me fez responsável pela minha vida, minha dor. Tirei a muleta.â€
Como precisei da Psicanálise! Estava destinada a ter contato com ela pouco depois de completar meus quinze anos. Acompanhava uma amiga à s sessões com o grande psiquiatra e psicanalista, pioneiro da técnica em Maceió, creio que no Nordeste, Dr.Sadi de Carvalho. Sabia, particularmente, dos conflitos emocionais que minha amiga vivia. Eu entrava com ela na sala e, naturalmente, ficava muda, só prestando atenção à s falas e fazendo as minhas reflexões. Hoje sei que a origem da minha paixão pela Psicanálise e os grandes benefÃcios que tive com ela, em anos de minha vida, estava na adolescência.
Passei anos em contato com a Sociologia em que os fatos são identificados, controlados, computados etc. Passar para o mundo subjetivo, falar dos meus dilemas, indecisões, afetos e desafetos, competições, contradições e outros não foi tarefa fácil para viver de perto as minhas formações psÃquicas e melhor administrá-las. Permitir a “desorientaçãoâ€, como diz Calligardi, implica em abrir mão de comportamentos estáveis, embora muitas vezes impróprios e inaceitáveis. O querer mudar é o primeiro passo, implicando os riscos de mudança, embora só ocorra se for realmente o desejo.
Não há idade para buscar a Psicanálise, porque o bem estar mental deve ser sempre buscado. Há psicanalistas que acreditam que a busca pela Psicanálise ocorre a partir de um grande sofrimento. Sente-se que as coisas precisariam serem mudadas e não se sabe como, ou como criar coragem, sente-se um desamparo, uma tristeza grande e o desejo vai tomando impulso e a busca pelo profissional acontece. Alguns resistem na procura, outros acreditam que em duas ou três sessões o problema é resolvido. Alguns desistem no caminho. É desafiante entrar e permanecer no processo e não é para todos, além de implicar tempo e dinheiro. Para muitos é mais rápido e fácil usar os fármacos. Esquecem que eles apenas ajudam, mas o sofrimento psÃquico possui causas mais profundas que, muitas vezes, só o medicamento não dá conta.
Atualmente a Psicanálise usa a técnica para resolver muitas das patologias da atualidade, como fobias, pânico, depressão e outras. Há patologias que é necessário o acompanhamento com o psiquiatra, bem como para alguma emergencial a Psicologia Cognitiva Comportamental está mostrando bons resultados. O importante é saber informações sobre a qualificação profissional para se buscar ajuda para conseguir uma vida mais saudável e equilibrada, que é o desejo de todo ser humano.
Personalidade integrada e os contos de fadas
Os contos infantis fazem a criança imaginar como realidade fatos fantásticos e isto se torna importante porque permite que vá elaborando valores, distinguindo certo e errado, o bem e mal, a luz e a sombra e aprende a sonhar. Há na infância uma fase propÃcia para se tornar fértil a imaginação. Será muito bom que os pais retornem ao quadro de ler histórias infantis para seus filhos, pois os benefÃcios serão visÃveis no futuro.
Jamais devem temer, como se propagou, que os contos de fadas podem ser estÃmulo para a mentira e afastamento da realidade. A linguagem tem muito de real para estimular a formação dos pensamentos da criança. É bem verdade que os contos possuem uma carga de dramaticidade, mas a vida cotidiana também o é. São descritos desencontros, tristeza, destruição, vitória do bem, punição da maldade, casamento, felicidade. Há bruxas, monstros, animais que falam, mágicas etc., mas tudo com um sentido voltado para um final que dá margem ao otimismo.
Dizem alguns psicólogos infantis que “a maior contribuição dos contos de fadas é em termos emocionais,propondo-se – e realizando concretamente-quatro tarefas: fantasia, escape, recuperação e consolo.†É mostrado à criança que há sempre saÃdas e os finais felizes possibilitam à criança enxergar a vida por um prisma positivo.
Bruno Bettelheim, elabora um texto –“Rainha abelhaâ€, que consta do livro “A Psicanálise dos contos de fadasâ€, apresentando como os aspectos da natureza podem ser opostos e complementares. A criança tem conhecimento que a abelha produz o mel, mas também sabe que ela pode picar, causar dor e dependendo do tipo de abelha, seu ataque junto à s outras pode até causar a morte. Sabe também que a abelha trabalha duro, colhendo o pólen para dar conta de sua missão que é positiva.
O conto a que o psicanalista se refere, conta como dois filhos de um rei partem em busca de aventura. Suas vidas são emocionantes e desregradas e não pensam em retornar ao reino. O terceiro filho, Simplório, vai em busca dos irmãos. Ao encontrá-los é zombado e se acham mais inteligentes e sabidos. Simplório é capaz de mobilizar seus recursos internos e ser sensato, respeitador das forças do meio ambiente.
Viajam os três irmãos pelo mundo. Ao encontrarem um formigueiro os dois irmãos intencionam a sua destruição, sendo impedido por Simplório. Mais adiante avistam uns patos no lago e já imaginam como seriam suas refeições com eles assados. Mais uma vez são impedidos. Prosseguem e encontram uma colméia e pensam em como destruÃ-la. Não é permitido, mais uma vez.
Seguindo encontram um castelo onde todos dormem, com exceção de um anãozinho. São bem recebidos, mas é proposta uma missão para possibilitar o desencanto. Os dois irmãos fracassam e são transformados em pedra. Simplório chora pensando que poderá não conseguir cumprir a tarefa. As formigas que foram, por ele, salvas o ajudam, buscando as pérolas perdidas na floresta; os patos buscam a chave onde encontram-se as três princesas adormecidas e a Rainha-abelha beija levemente os lábios da princesa que terá por destino casar com quem fizesse os moradores do palácio voltarem à vida.
O que está por trás do conto: os dois irmãos encarnam o inconsciente que busca só o prazer, não parecendo humanitários. As pessoas insensÃveis possuem o coração de pedra e eles foram transformados em pedras. Simplório, guiado pelo Superego, aquela instância psÃquica que aponta para o certo e o errado, no caso do conto, que não se deve matar os animais por capricho. Sozinho, Simplório, também pouco poderia fazer, daà contar com os recursos do reino animal, para executar as tarefas estabelecidas pelo único ser que ficou imune ao encanto de adormecer ou virar pedra.
Enfim, a personalidade bem estruturada, integrada, realiza milagres por juntar prazer e realidade, por acreditar em si, no bem, na capacidade que possui poderes e que ao acreditar consegue quebrar o encantamento, mesmo continuando a acreditar em sonhos que são possÃveis de serem realizados.
Destinos
Parcas eram três irmãs, Cloto, Ãtropos e Laquesis, que andavam juntas e se ocupavam em fiar e desfiar o destino dos mortais. Laquesis tinha a ocupação de marcar o número dos dias de vida que cabem a qualquer ser vivente. Ãtropos contribuÃa cortando o fio da vida humana, quando o momento é chegado.
O rei Enéas era casado com Altéia que teve um filho, Meleagro. Poucos dias após seu nascimento, a rainha recebeu a visita das três deusas que vieram avisar que seu filho teria o tempo de vida de uma madeira que estava na lareira. A mãe, inconformada e no desespero, desejando uma vida longa para aquele que nasceu, enfia a mão no fogo e retira a acha que foi apontada e a esconde. A criança , desconhecendo o destino traçado pelas deusas, vive uma infância feliz.
Certo dia, a deusa Diana, com raiva porque o rei Enéas não cumpriu uma promessa, solta um javali monstruoso que passou a atacar as florestas e os camponeses. O sossego do reino estava perdido e a morte se fazendo presente. O rei convoca os jovens e propõe que seja feita a caçada, ofertando prêmio para o valente que conseguisse matar o monstro. Seu filho havia se transformado em um belo e destemido rapaz. Busca seus companheiros e saem com a missão. No grupo havia uma linda jovem,Atalanta, filha de um rei da Alcádia, lugar vizinho. A jovem trajava-se como amazona, tendo um dos seios à mostra, como era costume da época e do lugar. Maleagro apaixonou-se à primeira vista e ela correspondeu. Enfrentando muitas dificuldades o grupo consegue abater o terrÃvel javali. Entusiasmado e querendo demonstrar sua apreciação pela amazona, arranca a pele e a cabeça do animal e como troféu dá de presente à sua amada.
Os tios do jovem prÃncipe, também fazendo parte do grupo vitorioso, ficam indignados com o ato do sobrinho. Eles tomam das mãos da jovem o troféu, justificando que jamais poderia ser dado a uma mulher, embora ela fizesse parte do grupo de caça. Meleagro fica encolerizado com a desfeita, toma a espada e assassina seus dois tios. A tragédia familiar teria inÃcio.
Retorna o grupo ao reino de forma gloriosa. Sua mãe ao ver o retorno do filho, são e salvo, ficou contente. Sente falta dos dois irmãos. Ao tomar conhecimento do ocorrido, chora e ,num impulso e ato impensado, pega a acha guardada e a lança ao fogo. Seu filho morre queimado nos braços da amada e sua mãe comete suicÃdio. O destino estava cumprido. O jovem só conseguiu uma maior sobrevida com o consentimento das deusas.
Segundo os antigos, “nascimento, casamento e mortalha no céu se talha.†Era a crença de que as fases mais importantes e definitivas da vida ficavam seladas pelo destino e não se poderia evitar. Até que ponto os destinos são traçados? Defende-se a liberdade de escolha, mas será que a opção não está definida? Sempre escutei que do destino ninguém foge e que não se morre de véspera.
Trazemos nossa carga genética e a força do meio a nos moldar, mas será que não há determinação por trás de tudo isto? Há quem creia em fatalidade, acaso, ou que estamos aqui para cumprir uma missão e, como tal, não importa o quanto de vida, traduzida em anos, vivemos.Para mim é ainda um mistério. Tudo pode ser.
Por mais reflexões que se faça, por mais que se tome decisões, algumas até levadas por impulso, parece que pela fragilidade que temos em relação ao nosso corpo,aos riscos do viver, nas proteções e tipos de orientações que damos aos que nos são queridos, parece que o lema deverá ser : Viva o dia-a-dia enquanto Laquesis estiver esquecida de nós para nos retirar de cena. Fica a escrita de Mario Quintana, em seu Diário Poético: “ Mover-se com toda a liberdade dentro dos próprios limites…é a lição que nos transmitem os peixes num aquário.â€
Desilusão
Há dias que a gente acorda e, do nada, uma letra de música parece grudar nos pensamentos, de forma que se fica, pelo dia afora, cantarolando. Assim aconteceu e fui regatar a letra da música de Marisa Monte: â€Solidão é livre/Que cobre tudo/Amargura em minha boca/Sorri seus dentes de chumbo. Solidão, palavra/Cravada no coração/ Resignado e mudo/No compasso da desilusão…â€.
Ninguém escapa de um dia se decepcionar com o outro, tendo sua expectativa ruÃda, atropelada, desabada, desgastada. As razões são inúmeras, desde a viuvez, desejo de morte, até decepção com amor, como fala a letra. A tristeza profunda, o recolhimento sobre si e a solidão podem ser passaporte para a depressão, como ponta-pé de uma representação de uma realidade que não se consegue elaborar, digerir. Passa-me a imagem de uma pessoa que toma um barco e fica à deriva, como se uma forte onda fizesse a condução para o nada e a pessoa sem coragem para pular, nadar, buscando a terra firme, ou se tenta sente a terra escorregadia e afunda. Faltam-lhe recursos para se pôr de pé, enfrentando todo tipo de onda, correntezas que quiseram lhe colocar distante dos fatos, dos outros.
A depressão leve e grave não ocorrem de supetão. De forma insidiosa vai penetrando nos pensamentos, nos sentimentos e aflora o querer se distanciar da realidade, como se nada mais importasse, anestesiando-se do que consegue enxergar, permitindo que vá sobrevivendo em sua solidão.
A saÃda medicamentosa tem que acontecer em paralelo com ajuda psicológica, sendo a abordagem cognitiva comportamental muito indicada por psiquiatras. Estes auxÃlios ajudarão a buscar força dentro de si, para lidar com visão do que a incomoda, com a representação da realidade que passou a ser intolerável, com a elaboração de seus pensamentos, com o lidar com sentimentos contraditórios, envolvendo culpa, desejo, ressentimento, decepção, ciúme, tristeza, desilusão por se decepcionar com a atitude do outro.
Jung já dizia que o mundo hoje é inimigo da liberdade, um inimigo da vida. Há uma prevalência ao princÃpio do prazer e a substituição do princÃpio da realidade, como propagava Freud. As frustrações são difÃceis de serem assimiladas. A vida saudável é construção, é aprendizado. Por vezes conseguimos sozinhos, em outras ocasiões há necessidade de ajuda para construir um caminho seguro para se viver com qualidade.
A letra da música de Marisa termina assim: “Apesar de tudo/ Existe uma fonte de água pura/ Quem beber daquela água/ Não terá mais amargura/ Oh!…â€. Há quase sempre uma fonte, uma saÃda.

A Saúde de quem cuida da saúde dos outros
Já se escreveu sobre a saúde dos médicos, inclusive sobre o estresse que atinge esta profissão. É bem verdade que há outras que também implicam tensões constantes, até por conta de garantias de sobrevivência em mercados de trabalho cada vez mais competitivos. Detenho-me sobre o profissional médico, por este estar constantemente lidando com dores, sofrimentos, ansiedades, perturbações, incompreensões e a luta pela vida, por esta se encontrar muito próxima da morte. Por mais que o médico seja treinado, tal qual o psicólogo, para se entorpecer diante do ser que está aos seus cuidados e que busca a saúde, vez por outra este profissional estará com sua sensibilidade mais aflorada e pode se perturbar, ficando mais vulnerável ao estresse, à angústia, à depressão, ao alcoolismo e ao seu adoecer.
É comum observar que o médico geralmente resiste em fazer prevenção, em buscar ajuda médica e/ou psicológica, até porque parece que, de forma inconsciente, tenha aprendido a demonstrar ser “forteâ€, imune à s dificuldades fÃsicas e psicológicas. O papel que está atrelado à sua profissão exige que, além de ter segurança em conhecimentos médicos, passe impressão de que está sempre sadio; a doença é algo que existe fora dele e nos outros.
Em alguma revista para médicos já li sobre dicas para eles aprenderem a ter controle sobre suas emoções e se estressarem menos. Será que é possÃvel, apenas seguindo as dicas? Nenhuma se referia ao velho Freud, com a sua grande descoberta – que resiste até hoje e permanecerá – de que não temos controle sobre a maioria de nossas ações. Foi a grande virada na Psicanálise demonstrar que agimos, comumente, por comandos inconscientes. Serão estas forças que, possivelmente, estão por trás dos estresses. Estes estresses não ocorrem subitamente. Há até os que são saudáveis(é outra história). A fisiologia demonstra como o corpo recebe sinais de que algo não vai bem e demonstra que alguma coisa tem que ser feita. É um pedido de socorro que o corpo emite. Às vezes, acostumados a não escutá-lo, deixam prosseguir até o alarme estourar. As consequências são desagradáveis e, o que é pior, como uma pedra que forma cÃrculos ao cair n’água, os reflexos dos cÃrculos que se formam, vão atingindo as pessoas mais próximas.
Talvez o estar atento ao que se passa consigo, a dosagem das atividades no seu trabalho, a busca de um lazer saudável, a prevenção com relação à saúde do corpo, o desejo de buscar ajuda médica, psicológica(escutando seus reais desejos), sem preconceitos e se despojando da imagem de ser sempre “forte†seja um caminho para o médico ter uma vida com menos estresse e mais saúde, para poder, com equilÃbrio, cuidar de si, já que é tão importante estar bem para cuidar da saúde dos outros.






