Nosso primeiro convidado a participar do blog é o Dr Adriano Namo Cury, é graduado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (1999) e doutorado (2008) pela mesma instituição. Atualmente é médico assistente do Serviço de Endocrinologia e Metabologia da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo/FCMSCSP. Tem Residência em Clínica Médica, Endocrinologia e título de especialista pela SBEM.
A atribuição da endocrinologista é analisar as disfunções hormonais do corpo e trata a maioria das doenças glandulares, entre as principais doenças encontramos a diabetes, o hipotireoidismo, entre outros.
Hipotireoidismo e Hipertireoidi
smo, o que devemos saber?
Existem diversas doenças da tireóide, mas em especial as conhecidas como a “tireóide” que engorda ou emagrece (algo de uso corrente, mas na verdade incorreto) correspondem aos extremos da falta ou excesso dos hormônios tireoidianos. O hipotireoidismo ocorre quando por qualquer motivo há redução da produção dos hormônios da tireóide (conhecidos como T3 e T4) e o hipertireoidismo quando ocorre o inverso e existe grande quantidade de hormônios da tireóide sendo produzidos ou ingeridos.
Normalmente no hipotireoidismo sentimos: cansaço e desanimo, inchaço, constipação, pele seca, depressão, queda de cabelo, intolerância ao frio. Já no hipertireoidismo o contrário: ansiedade, tremor, perda de peso, palpitação, pele quente, aumento do número de evacuações, intolerância ao calor. É importante lembrar que a principal causa de hipotireoidismo ou hipertireoidismo em adultos e crianças são as chamadas doenças auto-imunes da tireóide , quando o corpo produz um anticorpo contra algo que é seu ou próprio, podendo causar doenças variadas. A tireoidite de Hashimoto é a principal causa de hipotireoidismo e doença de Graves a principal causa de hipertireoidismo. Tanto na tireoidite de Hashimoto como na doença de Graves a tireóide pode crescer e aumentar de tamanho, que chamamos de bócio, mas não obrigatório ao diagnóstico; e algo que pode ocorrer na doença de Graves como alteração do olho, chamada de orbitopatia de Graves, presente em torno de 50% dos pacientes com doença de Graves.
As doenças da tireóide auto-imunes afetam entre 2 a 5% da população geral, e o diagnóstico é feito quando, além da suspeita clínica feita pelo médico, encontram-se os hormônios alterados como o T3 e T4, o TSH (hormônio que regula a produção da glândula e é produzido pela hipófise) além da presença dos auto anticorpos que podem causar destruição ou acelerar a produção de hormônios, que confirma a causa auto-imune do hipo ou hipertireoidismo.
As doenças auto-imunes da tireóide têm causa pouco esclarecida, e origem complexa pela interação entre fatores genéticos e ambientais como iodo da dieta, idade, tabagismo e uso de algumas medicações.
O tratamento do hipotireoidismo é simples, com o uso diário do próprio hormônio tireoidiano, chamado de levotiroxina, mas que deve ser indicado e monitorado pelo médico. No hipotireoidismo devemos ter um cuidado especial com a gravidez quando mudanças na dosagem são necessárias, e muitas vezes aumento da dose entre 25-50%. E nunca parar o uso do hormônio tireoidiano na gestação, quando já existia o diagnóstico; e se não existia, todo novo diagnóstico de hipotireoidismo feito na mulher grávida deve ser obrigatoriamente tratado. Já o hipertireoidismo o tratamento pode ser feito de três maneiras: (1) com medicações que reduzem o excesso de hormônio produzido pela tireóide ou (2) com uso de iodo radioativo ou mesmo com (3) cirurgia para casos selecionados (com nódulos suspeitos, por exemplo). O hipertireoidismo é outra condição cujo tratamento só deve ser iniciado após um diagnóstico preciso e indicado pelo médico.
É importante lembrar que existem outras causas de hipotireoidismo, como após a cirurgia para retirada da glândula ou mesmo uso de medicações com excesso de iodo (amiodarona) assim como outras causas de hipertireoidismo, pelo próprio uso inadvertido ou pouco controlado do hormônio da tireóide ou presença de nódulo ou nódulos tireoidianos que produzem grande quantidade de hormônios no decorrer da vida
Endocrinologia e Fonoaudiologia, onde se encontram?
Conforme foi apresentado pelo Dr. Adriano, a depender da alteração hormonal teremos diferentes modificações no corpo como reflexo deste distúrbio. Dentro das atribuições da fonoaudiologia relacionada a audição, motricidade orofacial, voz, fala e deglutição, estas mudanças hormonais podem também trazer prejuízos em algumas destas funções.
Audição: uma das principais manifestações é a tontura (conhecida como labirintite mas que a forma correta é a vestibulopatia), como também pode ocorrer o surgimento de zumbidos ou perdas auditivas tudo isto porque nosso ouvido possui uma parte química no seu funcionamento no qual apresentará reflexo das alterações hormonais do corpo. Desta forma, no surgimento destes sintomas se faz necessário o diagnóstico preciso das alterações para os devidos tratamentos, no caso de tonturas a reabilitação vestibular tem grandes resultados positivos, e a indicação de aparelhos auditivos podem auxiliar no mascaramento dos zumbidos assim como auxiliar nos casos de deficiência auditiva.
Motricidade orofacial: no caso de obesidade por distúrbios hormonais existe a possibilidade de alteração do tônus muscular da cavidade oral e a depender da postura de língua, lábios, e faringe pode apresentar alterações na precisão articulatória (fala), na correta realização da mastigação/deglutição e favorecer a presença do ronco/apnéia do sono. O ronco pode contribuir para acentuar as alterações hormonais pela destruição da arquitetura do sono que deveria ser restaurador com o equilíbrio dos hormônios diurnos e noturnos. O tratamento fonoaudiológico pode contribuir significativamente quando associado ao tratamento médico em todos os casos.
Voz: o edema e outras alterações provocadas no corpo devido às mudanças hormonais (hipotireoidismo ou hipertireoidismo) apresentam repercussão também nas pregas vocais com impacto na emissão da voz dos pacientes portadores de alterações endócrinas ou metabólicas. No entanto a fonoaudióloga Roberta Isolan da Santa Casa de São Paulo (2006) identificou em seu estudo ao avaliar o efeito da radiação do isótopo I 131 utilizado para o tratamento dos pacientes com hipertireoidismo por Doença de Basedow-Graves, em três momentos diferentes (pré e pós-dose) identificou que este não afeta a qualidade vocal, mobilidade e configuração das pregas vocais.
Outras patologias de tireóide podem necessitar de cirurgia, parcial ou total, como é o câncer benigno ou maligno. Devido à estreita relação entre o nervo vago e a glândula tireóide é possível encontrar alteração vocal por manipulação ou ressecção deste nervo vago responsável pelos movimentos das pregas vocais. Desta forma o paciente pode evoluir com ausência ou redução da mobilidade das pregas vocais com impacto negativo na voz (rouquidão, soprosidade, dificuldade de falar os agudos, cansaço ao falar, entre outros) e na deglutição (engasgos principalmente para líquidos). Estudo recente, como o realizado no Hospital AC Camargo em São Paulo pelo Departamento de Fonoaudiologia demonstrou que as alterações vocais e de deglutição pós-tireoidectomia podem ter outras causas decorrentes não apenas pela manipulação neural, mas como também, devido a manipulação dos músculos extrínsecos da laringe, pela aderência da musculatura na cartilagem e da cartilagem na pele o que impede a elevação e anteriorização laringea adequada – mecanismo importante tanto para a fonação quanto para a deglutição.
É muito interessante observar o entrelaçamento das especialidades, onde o que parecia não apresentar correlação pelas alterações hormonais, identificamos que esta repercurte diretamente nas atribuições da fonoaudiologia, independente da idade em que se manifesta no paciente. Por exemplo, uma criança que ronca e principalmente se apresenta apnéia do sono pode ter sua fase de crescimento extremamente prejudicada pois o hormônio responsável pelo crescimento só é liberado no sono profundo, e quem ronca deixa de ter essa fase. Se a causa do ronco for muscular exclusivamente e não ortodôntica ou otorrinolaringológica a fonoaudiologia tem muito a contribuir na qualidade do sono e na liberação do funcionamento normal do hormônio do crescimento consequentemente.
Sendo assim, fique atento as manifestações hormonais no seu corpo e também nas funções de audição, fonoarticulação e deglutição e também a presença do ronco. Divulguem para seus parentes e amigos a correlação existente entre as áreas de conhecimento aqui apresentadas hoje: a fonoaudiologia e a endocrinologia!


