O que Tadeu Schmidt não disse em seu “desabafo editorial” foi que Dunga vetou uma entrevista exclusiva que seria dada à Rede Globo, naquele mesmo domingo para o Fantástico, com tres jogadores da seleção.
No programa Fantástico do último domingo, o jornalista Tadeu Schmidt surpreendeu os expectadores ao iniciar sua apresentação do boletim sobre a Copa. Como se estivesse lendo um editorial o jornalista criticava, de forma contundente, o comportamento do técnico da nossa seleção nas entrevistas coletivas.Em certo momento Schmidt afirmou: “O técnico Dunga não apresenta nas entrevistas comportamento compatível de alguém tão vitorioso no esporte. Com frequência, usa frases grosseiras e irônicas”.
A matéria continuou com inserções da entrevista coletiva de Dunga, após a vitória sobre a seleção da Costa do Marfim, e destaca um momento em que o técnico da seleção teria deixado vazar no microfone supostos xingamentos ao repórter Alex Escobar , da Rede Globo.
Quem acompanha Dunga desde sua contratação para dirigir a seleção brasileira, sabe que o relacionamento dele com boa parte da imprensa esportiva não é dos melhores.Criticado, no início, por “jornalistas especializados” pela falta de experiência na função, o treinador enclausurou-se dentro de seus pensamentos e convicções, ignorando as críticas e os desgostosos de plantão.
Com total apoio do presidente da CBF, Dunga pode colocar em prática toda a planificação de trabalho que culminaria na disputa da Copa de 2010.Ao lado do “assessor” Jorginho, fez experimentos de planos táticos, convocou diversos atletas e deu uma nova “alma” à seleção, que havia saído derrotada e abatida da Copa de 2006.
Nos quase quatro anos no comando técnico da seleção ,Dunga colecionou importantes vitórias e alguns títulos, como Copa América e Copa das Confederações.Classificou o Brasil para a Copa de 2010 com tres rodadas de antecedência, fato inédito, desde que as eliminatórias sul americanas passaram a ser disputadas em grupo único.
Apesar do sucesso obtido como treinador, Dunga continuou sendo criticado e as vezes até hostilizado por alguns setores da imprensa, fazendo com que o mesmo se afastasse cada vez mais dos holofotes e entrevistas, e nestas, quando aconteciam ,por algum tipo de obrigatoriedade, como as coletivas após os jogos, Dunga mostrava-se nervoso e irritado e respondia quase todas as perguntas ironicamente.
A pressão da imprensa sobre o treinador culminou com a divulgação da lista dos jogadores que disputariam a Copa na África do Sul. A convocação de alguns e, principalmente, a não convocação de outros, motivou a nossa “imprensa especializada” em transformar, uma vez mais, o nosso vitorioso técnico em alvo de pesadas críticas.
Quando chegou na África do Sul, Dunga parece ter imposto a clausura, sua companheira desde que assumiu a seleção, aos jogadores.Promoveu dificuldades de acesso à concentração dos jogadores, treinos secretos e proibição de qualquer atleta dar entrevistas.
O atacante Robinho ,antes da estréia do Brasil na Copa, desobedeceu o “chefe” e concedeu entrevista para Rede Globo.O clima esquentou dentro da comissão técnica, mas Robinho se desculpou com o técnico e companheiros de equipe e o episódio não teria maiores repercussões, mas pode ter sido o início da motivação da Rede Globo de “pegar no pé” do treinador .
O que Tadeu Schmidt não disse em seu “desabafo editorial” foi que Dunga vetou uma entrevista exclusiva que seria dada à Rede Globo, naquele mesmo domingo para o Fantástico, com tres jogadores da seleção, inclusive Luis Fabiano, grande nome do jogo contra a Costa do Marfim.
A Globo teria negociado a entrevista diretamente com Ricardo Teixeira, presidente da CBF, mas o técnico da seleção mandou avisar a produção da emissora que ninguém daria entrevista exclusiva.
O incidente entre Dunga e Alex Escobar aconteceu no exato momento em que o repórter dava a notícia do veto da entrevista, por telefone, a Tadeu Schmidt. Dunga interrompeu a entrevista para perguntar a Escobar se havia algum problema. “Nem estou olhando para você, Dunga”respondeu Escobar.O técnico resmungou em voz baixa, mas o suficiente para ser captado pelo microfone: “Besta, burro, cagão!”
Independente da grosseria transmitida pelo técnico Dunga, ficam alguns questionamentos no ar:
-Até que ponto, a Rede Globo de Televisão, detentora dos direitos de transmissão dos jogos da Copa do Mundo para o Brasil, pode ter privilégios junto a entidade máxima do nosso futebol?
-Qual será sua parcela de responsabilidade caso o episódio gere uma crise dentro do ambiente da seleção, num momento em que a mesma se mostra apta para disputar e conquistar o título?
-Por que só agora a Rede Globo resolveu “pegar no pé” do nosso treinador?
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