A desconfiança dos autores na ética do espectador reflete diretamente no desenvolvimento das tramas nos folhetins
Ao palestrar recentemente no ciclo Encontros Estadão&Cultura ,que discutiu os 60 anos de TV no Brasil, e no último domingo, numa entrevista para o programa de Marília Gabriela no GNT, o autor de novelas Silvio de Abreu criticou a qualidade intelectual do telespectador brasileiro nos dias atuais. Ele ressaltou a piora na educação no país e lembrou que, na década de 1970, tinha telespectadores mais inteligentes.
- Hoje, você fica fazendo um monte de coisa e não se aprofunda em nada. Porque o público está assim, né? Então, quando você vai fazer uma coisa que exige certo raciocínio, precisa ter muito cuidado.
Como exemplo da preguiça do telespectador para acompanhar coisas mais complexas, o novelista citou a reação aos primeiros capítulos de sua atual novela, Passione.
- Quando fizemos as primeiras pesquisas de Passione, as pessoas diziam que nessa novela não aconteciam nada. Como não acontece nada, meu Deus do céu? Não é que não acontecia, é que elas não entendiam a história. Não conseguiam acompanhar. Por quê? Porque eram muitas informações ao mesmo tempo.
O autor contou que precisou dar as informações aos poucos e criar elementos mais populares, na tentativa de prender a atenção do telespectador.
- Novela tem de ser repetitiva. Novela não tem capacidade de enfiar uma ideia na cabeça da pessoa, como o filme e o teatro enfiam, porque não é vista com o mesmo respeito.
O novelista se mostrou descrente da ética do povo brasileiro. Ele diz que essa crise acaba refletida na sua trama.
- Em Passione, os mocinhos vão usar as mesmas armas dos bandidos. A Bete e o Totó vão falsificar documentos para enganar o Fred. O povo brasileiro é um povo que perdeu a ética. Hoje você faz porque vai conseguir isso ou aquilo então está certo. Não importa se vai infringir uma regra moral ou prejudicar alguém. A novela reflete isso.
Silvio de Abreu afirmou que não acredita que a novela será extinta no futuro. Para ele, o que mudará serão as mídias nas quais as histórias serão veiculadas.
O “desabafo” do autor pode até ter fundamento, mas parece ser muito mais fruto da pressão que o mesmo passa a sentir, ao ser obrigado a escrever um capítulo de novela(cerca de 38 páginas)por dia , e manter o interesse do público, intelectualizado ou não, na trama, resultando em audiência, que é o que realmente interessa à direção da emissora para qual trabalha.
Telenovela é um produto de consumo que cresceu e se consolidou no Brasil como o de maior preferência popular. E se tornou tão popular , justamente por ser de fácil entendimento e assimilação pela grande massa .
Janete Clair, lá pelos idos dos anos 70(o mesmo período que Silvio aponta ter o público mais inteligente),parece ter percebido isso antes dos outros autores, e já em 1972, com a primeira versão de “Selva de Pedra”, um folhetim com tramas “politicamente incorretas”, mas de apelos “dramaticamente populares”, consolidou-se como a “Primeira Dama” do horário nobre da TV brasileira.Selva de Pedra é, até hoje, a recordista de audiência, entre todas as novelas já produzidas pela Rede Globo.
O público, ético ou não, é quem ainda decide o que vai ser visto na telinha e, quase sempre, prefere ver o “politicamente incorreto” ,que parece contrariar a ética de Sílvio de Abreu e outros autores folhetinescos da nossa televisão.
*Com informações do Portal R7


