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Fim da versão impressa do Jornal do Brasil entristece mas não surpreende

terça-feira, julho 13th, 2010

Quem acompanha as “aventuras ” de Nelson Tanure em empresas de comunicação, não se surpreendeu com o fim da versão impressa do JB

A notícia sobre o fim da circulação impressa do Jornal do Brasil é uma desagradável surpresa e deixará órfãos profissionais e leitores, amantes do bom jornalismo,que já fizeram do JB, publicado desde 1891, ser, nos anos de ouro do jornalismo impresso, o maior jornal do Brasil.

Ironicamente, o JB sobreviverá, na versão em que vangloria-se ter sido pioneiro:a eletrônica. O JB Online foi o primeiro jornal diário do país a ser publicado na internet.E é nessa versão que o “dono da marcaâ€, empresário Nelson Tanure, promete manter o JB.

O que se espera é que a marca “JBâ€, de tanta credibilidade e prestígio num passado não tão longínquo, não desapareça de vez.Tal preocupação torna-se real, quando se faz uma rápida análise sobre a presença de Nelson Tanure em empresas de comunicação.

O baiano Nelson Tanure despontou no cenário nacional no governo de Fernando Collor, onde ganhou projeção e dinheiro . Amigo de Zélia Cardoso de Mello, ex-ministra de Economia, foi daquele governo que  saiu capitalizado para comprar o estaleiro Verolme e começar a criar um império empresarial, que chegou a reunir além do estaleiro, o grupo Docas, Jornal do Brasil,TV JB,Gazeta Mercantil,Intelig,Cia do Corpo,Editora Peixes, entre outras.

Tanure sempre foi polêmico no seu modo do gestão, se especializando em problemas trabalhistas, inadimplências planejadas, grandes demandas judiciais e outros métodos nada ortodoxos. O empresário também virou mestre em comprar empresas em decadência, para pegar somente a parte boa delas e deixar os passivos com os antigos controladores.

Utilizando-se deste método, Tanure “comprou†o Jornal do Brasil em 2001. Ele adquiriu na prática somente o título, deixando a parte ruim, como o passivo com fornecedores, governo e empregados para a empresa antiga, praticamente em insolvência. Comprou a marca, sem assumir o passivo.

Entre 2002 e 2003, o empresário teve os direitos de publicação da revista americana especializada em economia “Forbes†no Brasil. Em 2003, arrendou o diário econômico “Gazeta Mercantilâ€. Em grave crise e com dívida trabalhista superior a R$ 200 milhões, Tanure rescindiu o contrato de licenciamento do uso da marca e devolveu o jornal a seu antigo dono Luiz Fernando Levy.( Em junho de 2009, a “Gazeta†deixou de circular.)

Em 2007 adquiriu a Editora Peixes, que  publicava as revistas Gula, Viver Bem, Fluir, Speak Up e Próxima Viagem, entre outras. Hoje, a Peixes deixou de publicar vários títulos e passa por sérias dificuldades.

Ainda em 2007 criou a TV JB e arrendou horários na rede CNT para veiculação.Não conseguindo honrar o arrendamento, nem os salários da maioria dos funcionários contratados, Tanure foi obrigado a tirar e emissora do ar poucos meses depois.

Nenhuma destas empresas citadas acima foi recuperada por Nelson Tanure, pelo contrário,  tiveram as suas marcas usadas e descredibilizadas, seus conteúdos perderam  qualidade e credibilidade, não viram os acordos comerciais serem honrados, deixaram os seus funcionários nas mãos de predadores e credores a ver navios.

*Com informações de O Globo e Folha da Manhã

etcetal@tudoglobal.com.br

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Relembrando Zózimo Barrozo do Amaral

sexta-feira, novembro 13th, 2009

Passados 12 anos de sua morte, Zózimo Barrozo do Amaral ainda é lembrado e reverenciado como exemplo de profissionalismo e credibilidade na arte de “colunarâ€

No dia 18 de novembro de 1997 o jornalismo perdia um de seus mais notáveis expoentes:morria Zózimo Barrozo do Amaral.Griffe do colunismo social desde os anos 60, Zózimo transcendeu a arte de produzir colunas.Foi antes de tudo um inovador.Mudou a maneira de escrever, de diagramar, diversificou seu cardápio de informações , introduzindo esportes, beleza e saúde, entre outros assuntos, até então inéditos naquele formato de coluna.

De família rica(filho do banqueiro Boy Zózimo)herdou uma pequena fortuna ainda jovem.Abandona a faculdade de Direito e passa um tempo em Paris.De volta ao Rio de Janeiro,em 1963,arruma emprego no jornal O Globo, primeiro como correspondente esportivo, depois colaborando na coluna de Carlos Swann, tornando-se o titular da mesma em 1965.

Em fevereiro de 1969 resolve aceitar o convite do Jornal do Brasil(naquela época o maior jornal do Rio de Janeiro)para comandar uma coluna com o próprio nome.Diz a lenda que Roberto Marinho ao saber de sua saída chamou-o e vaticinou: “Meu filho você vai fazer a maior besteira de sua vida.Todo mundo sabe quem é Carlos Swann, mas ninguém sabe quem é Zózimoâ€. Cheio de certeza e irredutível na decisão que tomara ,Zózimo disparou: “Doutor Roberto o senhor só está reforçando meus argumentos, porque agora está na hora das pessoas saberem quem é Zózimo Barrozo do Amaralâ€

E logo todos ficariam sabendo.Já na sua estréia o JB estampava, em primeira página, o orgulho de ter em seu cast o jovem, porém já experiente,jornalista(naquela época com 27 anos de idade).Zózimo por sua vez previa novidades.Despia-se do rótulo de colunista social e prometia dinamismo e diversificação em seus textos.

A diversificação as vezes era tanta que gerava situações inesperadas.Ao noticiar um empurrão sofrido pelo então ministro do exército Lyra Tavares numa cerimônia militar,foi convidado a passar uns dias na prisão.Diz a lenda que ao chegar na cela começou a ser encarado sob olhos incrédulos de outros detentos que perguntaram: “Você não é o Zózimo, colunista do JB?†“Sou eu mesmo†respondeu.Depois de um rápido silêncio, uma gargalhada geral e a conclusão dos colegas: “Os militares endoidaram de vez.Estão prendendo até eles mesmosâ€.

Ninguém jamais ousou definir as “ideologias barrozianasâ€,mas a favor do regime ele nunca pareceu estar.Um de seus raros engajamentos políticos explícitos , lá pelos idos de 1984, foi manter sob fogo cruzado a candidatura ,armada no tapetão, de Paulo Maluf para presidente.

Seu estilo era inconfundível, mas o furo jornalístico foi uma de suas marcas principais naqueles tempos de JB.Noticiou em primeira mão,por exemplo,uma plástica que a Duquesa de Windsor faria com Ivo Pitanguy antes mesmo do próprio saber.

Criou jargões que marcaram época na memória de seus leitores.Foi autor do termo “esticadaâ€que era uma espécie de segundo tempo das noitadas.Depois de um jantar regado a uísque ou champagne, encerrava-se à noite nos bares com chopp ou cerveja, muitas vezes à espera do nascer do sol.Algumas de suas frases ficaram famosas:â€Brega é perguntar o que é chique.Chique é não responderâ€. “O problema de Brasília é o tráfego de influência, já no Rio de Janeiro o problema é a influência do tráficoâ€. “Quem não deve não tremeâ€.

Pouca gente sabe, mas Zózimo também brilhou na telinha. Produziu para sua empresa,Press Vídeo(onde nos conhecemos e trabalhamos juntos) e veiculou pela Rede Bandeirantes, interessantíssimas entrevistas, entre elas, uma feita em Paris sobre a Maison Moet& Chandon, mostrando todo o processo de produção dos melhores vinhos e champagnes franceses.

Em 1993 aceitou levar sua coluna para O Globo, segundo ele mesmo, por estar quebrado financeiramente e não poder resistir a excepcional proposta oferecida.

Sua seriedade profissional,e descontração social, o transformou numa griffe do jornalismo com credibilidade entre socialites,empresários, políticos e jornalistas.Dizia aos amigos mais íntimos que vivia como podia e, principalmente, como queria.Entre as muitas noitadas e as quase 200.000 colunas que escreveu, em 34 anos de carreira, começou a ter problemas com o fumo e o álcool ,mas seu bom humor de sempre deixava transparecer que tirava tudo “de letra.â€

Depois de várias internações, já livre da bebida e do cigarro,entre idas e vindas de Miami, uma forte dor de cabeça prenunciou uma metástase .Sem perder o humor, Zózimo se preocupou apenas em não preocupar os que o amavam.Num de seus últimos momentos de lucidez reservou todo seu talento à Dorita, sua segunda esposa e companheira inseparável naqueles sofridos dias.Registrou com competência e elegância seu último ato de amor: “Não sofra. Está ruim viver.Não me segure aqui.Boa viagemâ€.

Laconicamente, com todo o poder de síntese que sempre exerceu com maestria em suas colunas, Zózimo, aos 56 anos, partia naquele 18 de novembro de 1997.Temos saudades…

Ricardo Leal
etcetal@tudoglobal.com.br

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Eleições 1982-A falta de tecnologia derrota o "tecnológico" Sistema Globo

quinta-feira, novembro 5th, 2009

Numa época em que o Brasil se torna referência no mundo com seu moderníssimo método de votação eletrônica, que tem como consequência imediata a rapidíssima apuração e totalização dos votos, fico me perguntando até que ponto toda essa tecnologia seria útil nas eleições de 1982 no Rio de Janeiro.

Naquele ano o TRE resolveu informatizar a totalização. Os votos(em cédulas de papel)eram contados manualmente e enviados as zonas eleitorais .A empresa Proconsult ,contratada pelo TRE,ficaria responsável pela totalização “eletrônica†da apuração.

Antes de continuar a falar da apuração vale a pena introduzir um panorama sobre a importância dessa eleição.Seria a primeira após a reforma política que pôs fim ao bi-partidarismo e que , além dos novos partidos(naquele ano apenas cinco:PDS,PMDB,PDT,PTB e PT)contaria com alguns candidatos anistiados à partir de 1979.A figura central dessas eleições no Rio de Janeiro era Leonel Brizola. Com uma biografia política riquíssima até o golpe de 1964, o ex governador gaúcho era a grande novidade naquela eleição sendo, ao mesmo tempo, uma pedra no sapato dos militares ainda no poder,e um esteio de esperança de mudanças para a “intelectualidade†.

Brizola logo perceberia que sua tarefa em recuperar seu espaço no cenário político não seria fácil. Em 1980,com um empenho discreto porém decisivo do ministro-general Golbery do Couto e Silva, o PTB, partido que Brizola militou antes do golpe militar ,foi dado a Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio , frustrando o sonho de Brizola de recuperar a legenda.No mesmo ano ele funda o PDT e resolve ir a luta , tentando estruturar o partido,pelo menos,no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Na verdade em termos de estrutura, só os dois partidos resultantes dos antigos MDB(PMDB) e ARENA(PDS) tinham condições de disputar eleições majoritárias, pois herdaram os antigos diretórios já organizados .A campanha começa e as primeiras pesquisas colocam Brizola na quarta posição na disputa para governador do Rio de Janeiro, com 6% das intenções de voto.

Com uma incansável campanha nas ruas, uma militância forte junto aos grandes centros industrias periféricos e municípios com grande população, principalmente os da Baixada Fluminense, o candidato do PDT cresce junto ao eleitorado sob olhos incrédulos dos militares, da Rede Globo e parcelas da direita reacionária.

Nos debates, Brizola era avassalador: tinha†timing televisivoâ€, emoção nas palavras e experiência para atropelar os outros candidatos e deixá-los sem discurso.Foi o que fez,nos debates ,com Sandra Cavalcanti(PTB)e Miro Teixeira(PMDB) líderes nas pesquisas divulgadas no início da campanha.Nas pesquisas seguintes,divulgadas após os debates, Moreira Franco(PDS) subia para primeiro,Miro Teixeira(PMDB)caía para segundo e Leonel Brizola(PDT) alcançava um perigoso terceiro lugar pois especialistas em pesquisas já prenunciavam um inevitável crescimento do candidato pedetista até o dia das eleições.Estava na hora do “regime†bolar uma maneira de conter o ímpeto brizolista , nem que fosse “por debaixo dos panosâ€.Estava armado o “Circo Proconsultâ€.

A Proconsult(que tinha em seus quadros pessoas ligadas ao SNI)foi criada exclusivamente para servir ao TRE do Rio de Janeiro naquela eleição. Era subsidiária da Racimec(empresa que ganhou o monopólio das máquinas de loterias da Caixa Econômica Federal nos anos 70)que posteriormente viraria GTEC(empresa envolvida no escândalo Waldomiro Diniz).O Sistema Globo se baseou nos números da Proconsult para divulgar os resultados parciais apurados .Já o grupo JB utilizou os números da apuração manual registrados nos mapas das juntas de apuração.

O que se viu, já no primeiro dia de apuração, foi um intrigante desencontro de informações nos dois mais importantes jornais do Estado.Enquanto O Globo divulgava Moreira Franco na liderança projetando uma vitória do mesmo com uma diferença de 60.000 votos sobre Brizola, o Jornal do Brasil divulgava Brizola na frente com possibilidades de vencer o pleito com uma diferença de quase 200.000 votos.

Enfurecido,com as primeiras suspeitas de fraude , o candidato do PDT aciona seu staff de campanha para tentar evitar a consumação da farsa.Uma parte da maracutaia logo descoberta por Cesar Maia era a seguinte:em zonas onde o PDT era forte ,cédulas em branco eram preenchidas manualmente em favor do candidato do “regime†a fim de alterar os boletins de informação que alimentariam a totalização eletrônica.Mas o pior ainda estava para ser descoberto:os computadores da Proconsult estavam programados para que a cada quantidade efetiva de votos atingidos por Brizola, se abatesse automaticamente um percentual dos mesmos.Essa “programaçãoâ€ficou conhecida como Fator Delta.

Matérias publicadas no Jornal do Brasil sobre o Fator Delta e da diferença dos números apresentados pela Rádio JB dos próprios boletins das juntas apuradoras e os apurados pela Proconsult ganham destaque na mídia nacional(apesar da Rede Globo nada anunciar no primeiro momento)e aumentam a suspeita de fraude nas apurações do Estado.O responsável técnico da Proconsult,Arcádio Vieira, em diversas entrevistas tenta,em vão, explicar porque Leonel Brizola perdia tanto voto.Segundo Vieira o fato da eleição não ser só para governador, mas também para senador e deputado e por ser vinculada(todos os candidatos votados deveriam ser do mesmo partido)dificultava a validade do voto dos eleitores “descamisados†que em sua maioria seriam eleitores do PDT.

Curiosamente depois das fracassadas tentativas de explicação de Arcádio ,os números da apuração publicados em O Globo começaram a ficar parecidos com os do Jornal do Brasil e Brizola seria entrevistado no Jornal da Globo onde teria oportunidade de, finalmente, desabafar toda a sua angústia no veículo de seus algozes,mas surpreendentemente respondendo a Armando Nogueira, que(estranhamente humilde)dirigindo-se a ele como governador sugeriu que o mesmo fizesse uma menção de desagravo a Proconsult, Brizola relaxou:â€Em determinados momentos na vida é preciso esfriar a cabeça antes de tomar qualquer atitude.Confio na Justiça Eleitoral e tenho certeza que serei o próximo governador do Rio de Janeiroâ€.

Quase um mes depois do início das apurações, votos recontados(manualmente)o TRE divulgava o resultado oficial das eleições para o governo do Rio de Janeiro:Leonel Brizola 34,2% dos votos,Moreira Franco 30,6%,Miro Teixeira 21,5%,Sandra Cavalcanti 10,7% e Lysâneas Maciel 3,1%. A diferença entre os dois primeiros foi de aproximadamente 180.000 votos.

As projeções manuais do grupo JB haviam derrotado,com folga, as projeções tecnológicas do Sistema Globo.

Ricardo Leal
etcetal@tudoglobal.com.br

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