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Armando Nogueira e o poetinha do segundo andar

segunda-feira, março 29th, 2010

Armando Nogueira era o último dos mestres de uma escola  que mudou a cara do jornalismo na televisão.Sua morte deixa órfãos uma legião de jornalistas  e cronistas esportivos.

Conheci Armando Nogueira em 1995, quando trabalhava na Televisão Profissional, empresa que produzia para o canal SPORTV,da Globosat, o programa Esporte Real, comandado  por ele.

Naquela época “Mestreâ€Armando, como era chamado pelas pessoas mais próximas,já não era mais o todo poderoso diretor da Central Globo de Jornalismo,função que exerceu por quase 30 anos e o transformou numa espécie de ícone do jornalismo televisivo.

O que logo me agradou no “Mestre†foi saber que ele era,como eu, torcedor do Botafogo.Numa de nossas primeiras conversas , após perceber certo entusiasmo de minha parte ,fez questão de me contar alguns detalhes da vida de Heleno de Freitas, um dos maiores ídolos da história botafoguense.

O “Mestre†era vaidoso, gabava-se de sua memória e adorava conversar  sendo o centro das atenções, e coitado de quem ousasse contrariá-lo em público.Ironicamente o destino me forçou,sem o menor senso de ousadia,a correr tal  risco.

Numa de minhas paradas na redação do programa Esporte Real, me deparo com alguns livros do “Mestre†e  percebo que um deles foi impresso na Editora Mitavaí.Quase sem querer pergunto se ele sabia quem era Mitavaí.Virando-se de frente para mim, me encarando sério e, quebrando um repentino silêncio no ambiente, me responde em tom de desafio: “não sei não meu filho e o senhor por um acaso saberia?â€Meio sem graça, mas aceitando o desafio desandei a recitar:

“Mitavaí

Bom lavrador e vaqueiro

Deixa o sertão brasileiro

Vai combater

Macobeba maldito

Que devora o mato e o mito

Rádio Jornal e TV

Lança

E com certeiro bote

Fere o monstro no cangote

Prá valer

E ferido assim de morte

Bicho ruim não quer morrer

E o caboclo injuriado

Toma o caminho do mar

Jurando que um dia

Vai voltar

Tira daqui

Leva prá lá

O que hoje da prá rir

Amanhã da prá chorar

Maldito bicho

Se me ouviu

E não gostou do meu samba

Vai prá longe do Brasilâ€

O silêncio tornou-se impiedoso até ser quebrado por uma das produtoras do programa: “ Seu Armando o Ricardo é poeta, já escreveu dois livros …â€.E seguiu-se um diálogo mais ou menos assim:

“E foi você que escreveu esse poema , meu filho?â€

“ Não seu Armando, não fui eu e, para falar a verdade, isso não é um poema é a letra de um samba enredoâ€.

Samba enredo?Que samba enredo é esse meu filho?â€

“É o samba da Escola Unidos da Tijuca de 1981.â€

“Poxa, que memória meu filho! Além de saber o samba sabe também o ano e a escolaâ€.

Poucas semanas depois discutia-se, na mesma sala da redação do programa, quem era o goleiro do Flamengo num antológico  FLAXFLU de 1968, em que o tricolor venceu o rubro negro com um gol irregular, de mão, do ponta direita Wilton. A maioria dos presentes, inclusive o “Mestreâ€, insistiam que era Marcial e uma minoria, da qual eu fazia parte, achava que era Marco Aurélio.Novamente, num ímpeto incontrolável,voltei a recitar para os presentes:

“é o seguinte galera, naquela época o time do Flamengo jogava com Marco Aurélio,Jaime,Murilo,Paulo Henrique e Carlinhos,Ditão e Fefeu,Paulo Alves,Almir,Silva e Gilson Nunes e o Fluminense com Félix,Oliveira,Galhardo,Assis e Marco Antonio,Denílson e Lulinha,Wilton,Flavio,Samarone e Lula.”

Após um rápido silêncio um surpreso e boquiaberto “Mestre†decreta:“discussão encerrada,deve ser mesmo o Marco Aurélio, não tenho como duvidar  de uma memória que guarda tão bem escalações futebolísticas e sambas enredos….”

Depois desse dia sempre que surgia alguma dúvida nas pautas sobre escalações ou coisas do gênero “Mestre†Armando ordenava: “ vá perguntar àquele  poetinha do segundo andar 

etcetal@tudoglobal.com.br

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