Posts para a tag ‘Verger’

Dia da Consciência…negra ou afrodescendente?

sexta-feira, novembro 20th, 2009

Estamos comemorando uma data que veladamente, como costuma ser o racismo à brasileira, ainda sofre resistências de quem diz que o Brasil não é um país racista e que, por isso, faz-se desnecessária a demarcação dessa afirmação da negritude… O fato é que dizer-se negro no Brasil continua sendo difícil… A marca fenotípica bastante definida é a referência para essa autodeclaração… No geral, as pessoas se confessam ou são consideradas como “morenasâ€, “queimadinhasâ€, “escurinhas†e mais uma infinidade de nomes que, num texto clássico do Professor Munanga, são contados às dezenas. Confessar-se “negro†numa sociedade em que o termo aparece como sinônimo de “sujo, muito triste, aterrador, lúgubre, funesto, lutuoso, maldito, sinistro, perverso, nefasto†(conferir Aurélio), somente pode acontecer se quem o usa para se autorrefeir, o faz por razões político-ideológicas. Daí por que os Professores Zezito Araújo e Clébio Araújo, líderes destacados do movimento negro em Alagoas – o primeiro, da UFAL e o segundo, da UNEAL) – destacam que o termo “negro†para a designação do grupo representado por todos os afro-descendentes do Brasil deve ser considerado como uma categoria política. É que essa denominação, em vista do estigma que sofre numa sociedade que se deseja branca – desde o Século XIX, quando a antropologia ainda engatinhava no mundo e era utilizada aqui por figuras como Oliveira Viana e Nina Rodrigues – demarca com clareza aquilo que é característica da grande maioria da população nacional, por conta da salmoura cultural em que se encontram imersos procuram negar. Dizer-se afro-descendente parece ser já possível para muitos, já que o termo abranda, ou mesmo apaga o estigma. Já confessar-se “negro†é outra coisa, ainda que muitas marcas claramente presentes no fenótipo gritem que se tem sangue africano e, ainda mais, de povos sub-saharianos, cujas marcas corporais expressam uma caracterísitca de uma parcela da raça humana e que foi genericamente denominada pelos brancos europeus de negra… Sim, porque para cada povo que contribuiu para a nossa formação, a denominação podia ser genericamente Bantu, como os Kongo; Angola; Moçambique, Kabinda, ou de Nações Sudanesas com o seu linguajar de origem Yorubá, a “língua geral†dos escravos, em muitos Estados do Brasil… Negros eles eram para seus senhores e para os colonizadores que os submeteram à escravidão…

Dança Afro

POR ISSO, VIVA A AFIRMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA NEGRA!

Sobre as comemorações desta data em Alagoas, neste ano, preciso assinalar o que testemunhei em União dos Palmares, esta semana: refiro-me à II SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA, promovida pelo CAMPUS V da UNEAL, sob a liderança do Prof. JAIRO JOSÉ CAMPOS DA COSTA, seu diretor.

A programação teve início no dia 17, na sede do CAMPUS, às 13h, com uma OFICINA DE TEATRO AFRO-BRASILEIRO, orientada por José Cizino de Oliveira, acadêmico de Letras da UNEAL e outra OFICINA DE PENTEADOS AFROS, aos cuidados de Nany Moreno e Bel.

União

A abertura oficial da II SEMANA foi às 19h, com a presença da Magnífica Reitora da UNEAL, PROFESSORA LAUDIREGE FERNANDES LIMA, tendo sido realizada a MESA REDONDA: RELIGIOSIDADE AFRO-BRASILEIRA. Os participantes dessa mesa foram PAI CÉLIO RODRIGUES e o PROF. CLÉBIO CORREIA DE ARAÚJO – coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UNEAL. Os trabalhos da noite foram encerrados com a distribuição de um XEQUETÉ, feito pelo CENTRO ESPIRITUAL SÃO JERÔNIMO, de UNIÃO DOS PALMARES e a apresentação do AFOXÉ ODOYÃ, de Maceió.

No dia 18 de novembro, enquanto, pelo dia, prosseguiram as oficinas iniciadas na tarde anterior, realizou-se à noite, com casa cheia, a MESA-REDONDA: EDUCAÇÃO E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS, cujos debatedores foram a Professora IRANI DA SILVA NEVES, GERENTE DE EDUCAÇÃO ÉTNICO-RACIAL DA SEE-ALAGOAS, o Professor ZEZITO DE ARAÚJO, da UFAL e eu, que sou professor da UNEAL. Essa noite foi qualquer coisa, muito mais pelo que aconteceu em torno da mesa redonda do que propriamente pelo que nós, professores, dissemos nela. É que foi uma verdadeira aula-show: tudo teve início com o lançamento do livro MEMORIAL DOS PALMARES, do pesquisador carioca IVAN ALVES FILHO (ver capa a seguir), produto de anos de pesquisa árdua em arquivos portugueses e que amplia o tempo de duração de Palmares, analisando os mais de 120 anos de luta que durou o movimento como algo único na história das lutas sociais não apenas no Brasil.

Memorial2

Em seguida, veio a apresentação de expressões do MOVIMENTO HIP-HOP PALMARINO, sob a coordenação do Luisinho. Ele próprio apresentou RAPs de sua autoria, seguindo-se um show de dança de rua que não ficou a dever nada aos hip-hopeiros de outras plagas, tendo a atividade artística sido concluída com um grafitti feito no muro interno da UNEAL. Assim, quando nós, integrantes da mesa-redonda, falamos, a riqueza da diversidade cultural brasileira já tinha sido oferecida de bandeja, cabendo a nós, apenas, glosar sobre essa e outras formas de expressão da africanidade que embebe o nosso cotidiano e que somente entra nos nossos currículos, esporadicamente, e, quase sempre, como coisa exótica, feita “pelos outrosâ€, e não expressão do que somos.

De parabéns o Prof. JAIRO JOSÉ CAMPOS DA COSTA, Diretor do Campus da UNEAL em União, por mais essa invenção genial.

A programação bolada por ele prosseguiu ontem com a apresentação, à tarde, dos resultados das OFICINAS DE PENTEADOS E PERCUSSÃO e do ESPETÃCULO TEATRAL DIRIGIDO POR JOSÉ CIZINO DE OLIVEIRA, envolvendo os estudantes do CAMPUS V e, à noite, com a Mesa-Redonda DIVERSIDADE CULTURAL EM ALAGOAS, com a participação da Professora MARIA ESTER FERREIRA DA SILVA, da UFAL e o Professor EDSON JOSÉ DE GOUVEIA BEZERRA, do CAMPUS I da UNEAL, e a divulgação do resultado do concurso de escultura dos artesãos da COMUNIDADE REMANESCENTE DO QUILOMBO MUQUÉM, de UNIÃO DOS PALMARES-ALAGOAS.

Concluo essa postagem de hoje com um texto da militante negra da SEMED/MACEIÓ, que além de escrever magnificamente, fala de dentro de sua alma o que significa ser negro/a numa sociedade que tem medo de se olhar no espelho e enxergar sua própria face – que é africana. Fazendo preceder seus versos, a fala de dois grandes militantes da causa negra, vejamos o que nos diz a sensibilidade sempre aguçada Edna Lopes:

“Mais do que a rejeição da cor da pele de um povo, o racismo se constitui na negação da história e da civilização desse povo; a rejeição de seu ethos, de seu ser total. A diversidade, contudo, é a condição universal da existência humana, e a riqueza da experiência humana se funda em grande parte na interação, na intercomunicação e no intercâmbio entre culturas específicas. O objetivo verdadeiramente revolucionário não é erradicar as diferenças (…) [mas antes] evitar que elas sejam transformadas em pedras fundamentais da opressão, da desigualdade de oportunidades ou da estratificação social.â€

Abdias do Nascimento e Elisa Larkin Nascimento

IGUALDADE RACIAL

Autora: Edna Lopes

Tambores
agogôs
berimbaus
caxixis
evocam nossa ancestralidade.

Meninos
meninas
de todos os credos
de todas as idades
de todos os tons de pele
de todos os sotaques
dançam e afirmam nossa brasilidade,
homenageiam nossa herança cultural.

No jogo de
pernas
braços
mãos
olhares,
o corpo em ebulição.

Negros
brancos
índios
amarelos
mestiços
dançam,
riem,
felizes…

É o estado da Arte,
é a Espécie humana
exaltando a vida.

Nesse dia da CONSCIÊNCIA NEGRA, uma saudação a Oxalá, pai de todos e dono de mais esta sexta-feira:

Oxalá

“Êpa, Êpa Baba!!! â€

Finalmente, numa homenagem aos brancos mais negros da Bahia, um trecho de seu livro “ Lendas Africanas dos Orixás†– Pierre Fatumbi Verger &Caribé

“Um Babalawo me contou:

Antigamente, os orixás eram homens que se tornaram orixás por causa de seus poderes;

Homens que se tornaram orixás por causa de suas sabedorias;

Eles eram respeitados por causa de suas forças;

Eles eram venerados por causa de suas virtudes.

Nós adoramos suas memórias e os altos feitos que realizaram;

Foi assim que esses homens se tornaram orixás.

Os homens eram numerosos sobre a Terra, antigamente, como hoje,

Muitos deles não eram valentes, nem sábios,

A memória destes não se perpetuou,

Eles foram completamente esquecidos. Não se tornaram orixás.

Em cada vila o culto se estabeleceu sobre a lembrança de um ancestral de prestígio

E lendas foram transmitidas de geração em geração para render-lhes homenagem.”

Create PDF    Enviar artigo em PDF   

De Fatumbi ao povo africano…

sexta-feira, novembro 6th, 2009

Como se não bastasse a orgia de letras e sons, na IV Bienal, Maceió viu, ontem à noite, o lançamento de mais um calendário da autoria de Douglas Apratto e Carmem Lúcia Dantas. É o calendário promovido pela FAPEAL e ansiosamente por nós esperado, este ano dedicado a Pierre Verger.

Para ser exato, tenho de dizer que o calendário reproduz as fotos que Verger fez do do dia-a-dia do povo trabalhador de Alagoas (foto a seguir)

Verger

Nascido em Paris, em 1902, Pierre Verger chegou à Bahia em 1946, passando a viver em Salvador, onde dedicou sua vida, entre outras coisas, à complexa relação entre a Ãfrica e a Bahia.

Vergerpaisagem

Tornando-se soteropolitano pelo resto da vida, Verger foi etnólogo, sobretudo por meio das imagens, retratando costumes e principalmente as religiões Afro-brasileiras. Sem ter frequentado formalmente uma pós-graduação, recebeu da Sorbonne, pelos seus ensaios fotográficos, o título de Doutor em Etnologia, tendo sido admitido como Professor Adjunto da UFBA, sem que tenha feito qualquer carreira universitária formal.

Do Candomblé, o título atribuído a Verger foi também o máximo. Tornou-se Babalaô nas terras dos ancestrais africanos – sendo um negro branco (OU BRANCO NEGRO), como se autodenominava o Poetinha Vinicius, no “Samba da Bênçãoâ€, tendo na Ãfrica renascido com o nome de Fatumbi.

Parabéns a Douglas e Carmem Lúcia por nos presentear com o que foi, sempre, a grande preocupação de Verger: que a sua produção imagética chegasse ao alcance do maior número de pessoas possível. Saravá!

Hoje – dia 06 de novembro – na IV Bienal, no AUDITÓRIO, a partir das 10 horas, acontecerá o II Colóquio Internacional Brasil x Ãfricas: Artes, Culturas e Literaturas.

Países Presentes: Cabo Verde, Moçambique, Angola e Guiné Bissau

Muquém

E, continuando a temática afrobrasileira, na SALA JOSÉ MARQUES DE MELO, também o dia todo, acontecerá o Simpósio: “A Natureza Social da Linguagem: a Comunidade Quilombola Muquém (Alagoas) no Contexto da História Social do Português Brasileiro†(foto de quilombola acima).

PROGRAMAÇÃO:

9h30 às 12h30 – Conferência: “Projeto: para a História do Português Brasileiro†– Ataliba Teixeira de Castilho (USP/UNICAMP)

10h30 – Mesa 1: “O Projeto de Alagoas: o conhecimento linguístico e sociocultural da comunidade quilombola Muquém, União dos Palmares – Alagoas†– Coordenadora: Denilda Moura – Debatedores: Clara Suassuna, Jair G. de Farias e Telma Magalhães

14h – Mesa 2: “Influências linguísticas e sociais no Português Brasileiro†– Coordenador: Aldir S. de Paula – Debatedores: Maria Gabriela Costa, Clemilton L. Pinheiro, Paulo Valença e Solyany Salgado.

Na SALA DERMEVAL SAVIANI , ás 15h às 17h – Mesa-redonda sobre Jorge de Lima, com Lúcia Sá Rebello, José Niraldo de Farias e Simone Cavalcante.Jorge de Lima

Tratando, todos os eventos, das relações Ãfrica-Brasil, o ciclo fecha com esse genial alagoano – Jorge de Lima (ver caricatura ao lado) – que, embora sendo, às vezes, objeto de controvérsias, com sua “Nêga Fulôâ€, foi, em várias de suas obras, um excelente tradutor da alma africana presente no cotidiano de Alagoas.

Quero deixar aqui, de forma bem realçada, as presenças do povo da terra – Denilda Moura, Clara Suassuna, Aldir de Paula, Maria Gabriela Costa, Clemilton L. Pinheiro, Paulo Valença, Niraldo de Farias e Simone Cavalcante – que tem sido a garantia do sucesso desta IV Bienal, ainda que muitos, infelizmente pela cultura dominante, com a alma colonizada, somente venham dando atenção aos que vêm de fora.

Muito axé, companheiros e companheiras da UFAL, pois são vocês que, no dia a dia, formam essa gente e fazem dela cidadã do mundo, sem que perca suas raízes, pois, sem aderência à terra, somente sobrevivem as plantas plastificadas.

PDF Download    Enviar artigo em PDF