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Com Portugal na alma – Parte II

quinta-feira, fevereiro 4th, 2010

Por Ciça Azevedo

Para dar corpo ao que escrevi antes, no primeiro post, descrevo algumas das coisas que vivi e trouxe comigo de Portugal.

NunoPainéis


Museu de Arte Antiga

Imagens: Nuno Gonçalves (Painéis de São Vicente, acima);

Frei Carlos (Anunciação);

Cristóvão de Figueiredo e sua linda Descida da Cruz

e Gregório Lopes e o martírio de São Sebastião (abaixo).


Gregório

Mais imagens:

Francisco Vieira de Matos (Vieira Lusitano)

e Francisco Vieira, (o do Porto), com suas incríveis cenas mitológicas (Leda e o Cisne)

e também retratos

e Josefa D’Óbidos (abaixo)

com suas vivas naturezas mortas:

Josefa D´´Obidos

Estes todos só no museu de arte antiga em Lisboa, www.mnarteantiga-ipmuseus.pt, onde estive frente ao quadro que mais me impactou – Inferno, de autor desconhecido. Incrível também, contribuindo muito para minha imagiteca (funciono nesta onda, especialmente no consultório) foi a visita ao museu de Grão Vasco, www.ipmuseus.pt, na cidade de Viseu, com retábulos maravilhosos, pinturas repletas de detalhes religiosos, cujas imagens cravam em nossa alma produzindo um efeito profundo e propiciando sonhos arquetípicos de grande monta. Mas o que mais me impressionou mesmo foram as igrejas cravejadas de ouro e prata.

São FranciscoII

Esculpidas, talhadas, ornamentadas, onde muitas vezes entramos como cachorros perdidos, só porque a porta estava aberta e onde, pasma, me deparava com maravilhas que enchiam a alma de imagens de um outro mundo: altares com suas escadas de Jacó, com seus conjuntos escultóricos impressionantes (o martírio dos monges no Marrocos, na igreja de São Francisco no Porto e a representação impressionante da árvore de Jessé, nesse mesmo templo (ver imagem a seguir)

Jesse

A pequena, porém, exuberante igreja de Santa Clara no Porto, escondida em meio a prédios hoje ocupados por repartições públicas, a jóia que é a capela de São Miguel em Coimbra, com uma escada de Jacó de onze degraus – o mais rico e elaborado altar de todo Portugal. Todas as Sés e Misericórdias, sem exceção (nem conseguiria escolher uma), impressionantes pela idade (Braga), profundidade (Porto), majestade (Lisboa), obscuridade (Guarda) e, sobretudo, calma energia espiritual (todas).

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Os santuários também causaram seus efeitos, especialmente Bom Jesus de Braga (acima) e, claro, o de Nossa Senhora de Fátima, (abaixo) tão querida por nós.

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Ali se respira a fé, nós a sentimos entrar pelas narinas, pelos olhos e pelos poros. Mesmo às 6:00h da tarde de um dia frio e chuvoso de inverno, com a noite já quase instalada, a energia religiosa e dolorida é palpável. E, finalmente, sobre o tema igrejas devo assinalar a singularidade das igrejas ornadas de azulejos, por dentro e por fora, o que foi para mim uma surpresa, um deleite, como aconteceu ao me deparar com a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, no Porto, e na de Santa Maria, de Óbidos.

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Aqui, uma reflexão a respeito do ouro e da prata vindos do Brasil. Em algumas igrejas ouvi guias ou pessoas comuns fazerem referência ao ouro que enfeita as igrejas de Portugal, com um tom que me pareceu no mínimo intrigante. Com orgulho, como se fizessem um elogio, diziam para nós que estávamos estupefatos com a beleza: “É ouro que veio do Brasil!†Como se dissessem: “esta beleza só foi possível com a ajuda do ouro vindo do Brasil†ou então, como ouvi em Santa Clara no Porto (foto abaixo), da boca da senhora que cuidava da igreja, em tom de cumplicidade: “Isso tudo foi feito com o nosso ouro†(no sentido de meu e seu, e não de posse).

Santa Clara_Porto

A vida toda ouvi dizer em tom de desprezo que todo nosso ouro foi roubado pelos portugueses. Mas quem somos nós, hoje, senão o português de ontem, com uma misturinha (determinante, é verdade) aqui, outra ali? Não fossem os bravos descobridores portugueses quem seria o brasileiro hoje? Sinceramente, não sei. Só sei que tenho orgulho de ser descendente de português, e somente agora me dou conta do que isso significa… E mais: de quem seria o ouro de nosso solo se, depois que nos separamos, ele tivesse continuado a ser encontrado como o foi no período colonial? Provavelmente, não em nossas igrejas mas, nas mão de poucos. O ponto principal aqui me parece ser o seguinte: o que havia de melhor para fazer com o nosso ouro do que construir e ornamentar igrejas em homenagem a Deus? O português me parece estar absolutamente certo quando nos convida a nos orgulhar, com eles, da utilização do ouro do Brasil. Melhor lá do que na mão dos filhos dos donos do poder na colônia, dilapidado nos bares de Lisboa e, depois, um pouco antes do Eça, nos boudoires de Paris. A observação orgulhosa sobre o “nosso†ouro, longe de ser mais um exemplo da burrice lusitana, como quer o anedotário, é, na verdade, a expressão da lucidez e do bom senso que são a marca da alma portuguesa.

São Roque

Sobre o ouro, o mesmo Eça, ao referir-se ao Brasil do século XIX, usando o pseudônimo de Fradique, em uma carta a Eduardo Prado, diz: “Nos começos do século, há uns cinqüenta e cinco, sessenta anos, os brasileiros, livres dos seus dois males de mocidade, o ouro e o regime colonial, tiveram um momento único, de maravilhosa promessa. Povo curado, livre, forte, de novo em pleno viço, com tudo por criar no seu solo esplêndido, os brasileiros podiam, neste dia radiante, fundar a civilização especial que lhes apetecesse, com pleno desafogo com que um artista pode moldar o barro inerte que tem sobre a tripeça de trabalho, e fazer dele, à vontade, uma vasilha ou um Deus. Não desejo ser irrespeitoso, caro Prado; mas tenho a impressão que o Brasil se decidiu pela vasilha.â€

E, por último, mas, sem a menor conotação de hierarquia, a tremenda impressão que me causaram as passagens pelo rio Douro e a Serra da Marofa. Duas experiências, do ponto de vista da psique, abissais, ctônicas. Nas duas ocasiões, muitas vezes me senti como se tivesse adentrado um universo paralelo.

Lá mesmo em Portugal, anotei em meu diário as seguintes frases achadas em uma revista promocional: “Primeiro veio o rio. Abriu caminhos pelas serras, escavou um leito nos vales e moldou a paisagem. Depois veio o homem. Navegou o rio, partiu a pedra, fez o chão dar vida, deu outra forma às encostas. E a paisagem foi novamente moldadaâ€. Por tudo isto, o Douro é místico. Há paisagens que, pela sua força e imponência, nos deixam completamente enfeitiçados.

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Admirável, o Douro é impressionante, lindo e misterioso. É incrível que um elemento da natureza tão necessário e dadivoso cause tanta sensação de mistério, de beleza majestosa. Em algumas visões que tive dele, temi quase perder o ar. Suas margens cheias de vinhas, plantadas em terraços, criam uma paisagem ultramundana, inverossímil.

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Percorremos o legendário rio do Porto até Peso da Régua e Mesão Frio, mas, para mim, foi o suficiente para me encher de imagens e de sensorialidade para os próximos vinte anos. Durante o percurso, almoçávamos numa quinta (fotos ao lado e  acima) e dormíamos em outra (foto a seguir).


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Uma experiência inesquecível. Douro5

Nem vou me ater muito ao rio, pois ele foi, é e será sempre cantado em verso e prosa, de modo que falar dele é redundar.

O meu conselho é que lhe façam uma visita para ver o que é bom para a tosse.

Mas a minha experiência, esta é única, cheia de mistério e respeito.

James Hillmann disse que a alma habita os vales e que o espírito as montanhas, portanto (como dizem os portugueses) me parece importante falar do espírito que encontrei na Serra da Marofa.

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Paisagem de encostas graníticas, não raro cheia de dólmens à beira da Marofa3estrada, o mais famoso sendo o Anta de Pêra do Moço. A estrada linda vai serpenteando à beira vertiginosa de imensos rochedos ladeados por faias, carvalhos e vinhedos antigos. Paisagem inusitada para mim. À medida que se sobe, parecem montanhas de bolas, de imensos seixos colocados por um povo de gigantes, uns sobre os outros. Em outros momentos, dizia comigo mesma, parece que morri e não percebi.


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Uma mistura de medo e excitação foi criando um tal estado de espírito que, ao chegar na cidadela de Castelo Rodrigo (panorâmica acima) me sentia de coração na mão e olhos arregalados. Paramos o carro ainda embaixo e subimos a pé. A estas alturas, chovia muito e fomos adentrando as ruazinhas sem viv’alma. Apenas a fumaça que saía das chaminés me dava a certeza de que havia gente ali. De resto, silêncio. Ao chegar às ruínas do Castelo, encontramos um surpreendente caixote de vidro, deliciosamente aquecido para o frio que quase nos congelava, com uma menina sentada atrás de um computador de última geração. Com prazer e competência, ela nos deu uma aula a respeito do lugar, cuja vista é deslumbrante, em dias de tempo bom quase 50 km de alcance. São ruínas de um primitivo castelo que integrava a linha defensiva do território do Ribacôa, que foi disputado ao reino de León por D. Dinis em 1279 a 1325. Passou por inúmeros percalços, até que no séc. XIX perdeu sua função militar e no sec.XX foi qualificado como monumento Nacional.

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O caso é que toda aquela atmosfera irreal ficou tão impregnada na minha alma que tudo que eu quero é voltar num dia de sol.

Douro10

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Blogar de férias não é fácil!

terça-feira, janeiro 12th, 2010

Saí para o recesso de final de ano pensando que ia ser possível blogar regularmente, como costumo fazer… Ledo engano! Se esse período de festas é lotado do que fazer, imagine acompanhado de uma viagem cheia de metas e lugares para visitar… Depois de um dia na rua, ao se chegar em casa, tarde da noite, o corpo somente pede cama!

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E foi o que me aconteceu: desde que saí de viagem até hoje somente consegui um post, pelo que peço desculpas aos que visitam este blog. Estou voltando à regularidade e pretendo, nos próximos dias, comentar um pouco – na verdade, continuar comentando – o meu itinerário de férias, fazendo algumas considerações sobre uma das matrizes que nos deu origem como civilização – refiro-me a Portugal e Galícia – que visitei nas duas semanas nas quais caíram as festas de final de ano. (ver, na sequência, a Livraria Lello, no Porto, e a catedral de Santiago de Compostela, na Galícia – Espanha)

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Essa viagem teve dois focos centrais: o primeiro deles – sobre o qual já Pacheca3comecei a discorrer no post anterior que mandei da terrinha – foi uma revisita às origens históricas e culturais da sociedade que foi estruturada e que ainda predomina no Brasil; o segundo foco, articulado ao primeiro, foi de natureza gastronômica, com ênfase no vinho – no vale do Douro, sobretudo.

A propósito, veja, à esquerda, a Biblioteca Monumental do Convento de Mafra, que busca imitar, em tudo (Mosteiro e Biblioteca), o São Lourenço do Escurial) e, à direita, a adega da Quinta da Pacheca, no Vale do Douro.

Vai ser, portanto, sobre esses dois elementos centrais que vou discorrer nos próximos posts, derivando daí algumas questões de natureza cultural, procurando extravasar, principalmente, a boa surpresa que tive com Portugal, depois de 15 anos de tê-lo visitado com mais vagar, já que as minhas duas idas ao país, no intervalo entre 1994 e agora, foram muito rápidas e restritas a Lisboa e Coimbra.

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Retomaremos, pois, amanhã, a conversa sobre o berço da nação lusitana, o vínculo estreito do Estado português com a religião católica e sua hierarquia e arte de bem comer e beber, cujas marcas estão vivíssimas até hoje – tanto no acatamento fiel ao catolicismo e no seu oposto – a repulsa dos anticlericais à religião -, quanto na capacidade de fazer quitutes capazes de transformar uma refeição numa verdadeira celebração religiosa.

Volto, pois, à regularidade de antes, com meus votos de um companheirismo frutífero neste 2010 que apenas engatinha.

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