Por Ciça Azevedo
Para dar corpo ao que escrevi antes, no primeiro post, descrevo algumas das coisas que vivi e trouxe comigo de Portugal.


Imagens: Nuno Gonçalves (Painéis de São Vicente, acima);
Frei Carlos (Anunciação);
Cristóvão de Figueiredo e sua linda Descida da Cruz
e Gregório Lopes e o martÃrio de São Sebastião (abaixo).

Mais imagens:
Francisco Vieira de Matos (Vieira Lusitano)
e Francisco Vieira, (o do Porto), com suas incrÃveis cenas mitológicas (Leda e o Cisne)
e também retratos
e Josefa D’Óbidos (abaixo)
com suas vivas naturezas mortas:

Estes todos só no museu de arte antiga em Lisboa, www.mnarteantiga-ipmuseus.pt, onde estive frente ao quadro que mais me impactou – Inferno, de autor desconhecido. IncrÃvel também, contribuindo muito para minha imagiteca (funciono nesta onda, especialmente no consultório) foi a visita ao museu de Grão Vasco, www.ipmuseus.pt, na cidade de Viseu, com retábulos maravilhosos, pinturas repletas de detalhes religiosos, cujas imagens cravam em nossa alma produzindo um efeito profundo e propiciando sonhos arquetÃpicos de grande monta. Mas o que mais me impressionou mesmo foram as igrejas cravejadas de ouro e prata.

Esculpidas, talhadas, ornamentadas, onde muitas vezes entramos como cachorros perdidos, só porque a porta estava aberta e onde, pasma, me deparava com maravilhas que enchiam a alma de imagens de um outro mundo: altares com suas escadas de Jacó, com seus conjuntos escultóricos impressionantes (o martÃrio dos monges no Marrocos, na igreja de São Francisco no Porto e a representação impressionante da árvore de Jessé, nesse mesmo templo (ver imagem a seguir)

A pequena, porém, exuberante igreja de Santa Clara no Porto, escondida em meio a prédios hoje ocupados por repartições públicas, a jóia que é a capela de São Miguel em Coimbra, com uma escada de Jacó de onze degraus – o mais rico e elaborado altar de todo Portugal. Todas as Sés e Misericórdias, sem exceção (nem conseguiria escolher uma), impressionantes pela idade (Braga), profundidade (Porto), majestade (Lisboa), obscuridade (Guarda) e, sobretudo, calma energia espiritual (todas).
Os santuários também causaram seus efeitos, especialmente Bom Jesus de Braga (acima) e, claro, o de Nossa Senhora de Fátima, (abaixo) tão querida por nós.
Ali se respira a fé, nós a sentimos entrar pelas narinas, pelos olhos e pelos poros. Mesmo às 6:00h da tarde de um dia frio e chuvoso de inverno, com a noite já quase instalada, a energia religiosa e dolorida é palpável. E, finalmente, sobre o tema igrejas devo assinalar a singularidade das igrejas ornadas de azulejos, por dentro e por fora, o que foi para mim uma surpresa, um deleite, como aconteceu ao me deparar com a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, no Porto, e na de Santa Maria, de Óbidos.
Aqui, uma reflexão a respeito do ouro e da prata vindos do Brasil. Em algumas igrejas ouvi guias ou pessoas comuns fazerem referência ao ouro que enfeita as igrejas de Portugal, com um tom que me pareceu no mÃnimo intrigante. Com orgulho, como se fizessem um elogio, diziam para nós que estávamos estupefatos com a beleza: “É ouro que veio do Brasil!†Como se dissessem: “esta beleza só foi possÃvel com a ajuda do ouro vindo do Brasil†ou então, como ouvi em Santa Clara no Porto (foto abaixo), da boca da senhora que cuidava da igreja, em tom de cumplicidade: “Isso tudo foi feito com o nosso ouro†(no sentido de meu e seu, e não de posse).

A vida toda ouvi dizer em tom de desprezo que todo nosso ouro foi roubado pelos portugueses. Mas quem somos nós, hoje, senão o português de ontem, com uma misturinha (determinante, é verdade) aqui, outra ali? Não fossem os bravos descobridores portugueses quem seria o brasileiro hoje? Sinceramente, não sei. Só sei que tenho orgulho de ser descendente de português, e somente agora me dou conta do que isso significa… E mais: de quem seria o ouro de nosso solo se, depois que nos separamos, ele tivesse continuado a ser encontrado como o foi no perÃodo colonial? Provavelmente, não em nossas igrejas mas, nas mão de poucos. O ponto principal aqui me parece ser o seguinte: o que havia de melhor para fazer com o nosso ouro do que construir e ornamentar igrejas em homenagem a Deus? O português me parece estar absolutamente certo quando nos convida a nos orgulhar, com eles, da utilização do ouro do Brasil. Melhor lá do que na mão dos filhos dos donos do poder na colônia, dilapidado nos bares de Lisboa e, depois, um pouco antes do Eça, nos boudoires de Paris. A observação orgulhosa sobre o “nosso†ouro, longe de ser mais um exemplo da burrice lusitana, como quer o anedotário, é, na verdade, a expressão da lucidez e do bom senso que são a marca da alma portuguesa.

Sobre o ouro, o mesmo Eça, ao referir-se ao Brasil do século XIX, usando o pseudônimo de Fradique, em uma carta a Eduardo Prado, diz: “Nos começos do século, há uns cinqüenta e cinco, sessenta anos, os brasileiros, livres dos seus dois males de mocidade, o ouro e o regime colonial, tiveram um momento único, de maravilhosa promessa. Povo curado, livre, forte, de novo em pleno viço, com tudo por criar no seu solo esplêndido, os brasileiros podiam, neste dia radiante, fundar a civilização especial que lhes apetecesse, com pleno desafogo com que um artista pode moldar o barro inerte que tem sobre a tripeça de trabalho, e fazer dele, à vontade, uma vasilha ou um Deus. Não desejo ser irrespeitoso, caro Prado; mas tenho a impressão que o Brasil se decidiu pela vasilha.â€
E, por último, mas, sem a menor conotação de hierarquia, a tremenda impressão que me causaram as passagens pelo rio Douro e a Serra da Marofa. Duas experiências, do ponto de vista da psique, abissais, ctônicas. Nas duas ocasiões, muitas vezes me senti como se tivesse adentrado um universo paralelo.
Lá mesmo em Portugal, anotei em meu diário as seguintes frases achadas em uma revista promocional: “Primeiro veio o rio. Abriu caminhos pelas serras, escavou um leito nos vales e moldou a paisagem. Depois veio o homem. Navegou o rio, partiu a pedra, fez o chão dar vida, deu outra forma à s encostas. E a paisagem foi novamente moldadaâ€. Por tudo isto, o Douro é mÃstico. Há paisagens que, pela sua força e imponência, nos deixam completamente enfeitiçados.

Admirável, o Douro é impressionante, lindo e misterioso. É incrÃvel que um elemento da natureza tão necessário e dadivoso cause tanta sensação de mistério, de beleza majestosa. Em algumas visões que tive dele, temi quase perder o ar. Suas margens cheias de vinhas, plantadas em terraços, criam uma paisagem ultramundana, inverossÃmil.


Percorremos o legendário rio do Porto até Peso da Régua e Mesão Frio, mas, para mim, foi o suficiente para me encher de imagens e de sensorialidade para os próximos vinte anos. Durante o percurso, almoçávamos numa quinta (fotos ao lado e acima) e dormÃamos em outra (foto a seguir).

Uma experiência inesquecÃvel. 
Nem vou me ater muito ao rio, pois ele foi, é e será sempre cantado em verso e prosa, de modo que falar dele é redundar.
O meu conselho é que lhe façam uma visita para ver o que é bom para a tosse.
Mas a minha experiência, esta é única, cheia de mistério e respeito.
James Hillmann disse que a alma habita os vales e que o espÃrito as montanhas, portanto (como dizem os portugueses) me parece importante falar do espÃrito que encontrei na Serra da Marofa.

Paisagem de encostas granÃticas, não raro cheia de dólmens à beira da
estrada, o mais famoso sendo o Anta de Pêra do Moço. A estrada linda vai serpenteando à beira vertiginosa de imensos rochedos ladeados por faias, carvalhos e vinhedos antigos. Paisagem inusitada para mim. À medida que se sobe, parecem montanhas de bolas, de imensos seixos colocados por um povo de gigantes, uns sobre os outros. Em outros momentos, dizia comigo mesma, parece que morri e não percebi.
Uma mistura de medo e excitação foi criando um tal estado de espÃrito que, ao chegar na cidadela de Castelo Rodrigo (panorâmica acima) me sentia de coração na mão e olhos arregalados. Paramos o carro ainda embaixo e subimos a pé. A estas alturas, chovia muito e fomos adentrando as ruazinhas sem viv’alma. Apenas a fumaça que saÃa das chaminés me dava a certeza de que havia gente ali. De resto, silêncio. Ao chegar à s ruÃnas do Castelo, encontramos um surpreendente caixote de vidro, deliciosamente aquecido para o frio que quase nos congelava, com uma menina sentada atrás de um computador de última geração. Com prazer e competência, ela nos deu uma aula a respeito do lugar, cuja vista é deslumbrante, em dias de tempo bom quase 50 km de alcance. São ruÃnas de um primitivo castelo que integrava a linha defensiva do território do Ribacôa, que foi disputado ao reino de León por D. Dinis em 1279 a 1325. Passou por inúmeros percalços, até que no séc. XIX perdeu sua função militar e no sec.XX foi qualificado como monumento Nacional.
O caso é que toda aquela atmosfera irreal ficou tão impregnada na minha alma que tudo que eu quero é voltar num dia de sol.




comecei a discorrer no post anterior que mandei da terrinha – foi uma revisita às origens históricas e culturais da sociedade que foi estruturada e que ainda predomina no Brasil; o segundo foco, articulado ao primeiro, foi de natureza gastronômica, com ênfase no vinho – no vale do Douro, sobretudo.