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Como se não bastasse a perda de José Mindlin…

sábado, março 27th, 2010

Por informação da seccional alagoana da ANPUH NACIONAL, fiquei sabendo que acabamos de perder também o historiador István Jancsó, coordenador-geral do Projeto Brasiliana USP e braço direito do bibliófilo José Mindlin (1914- 2010).

Ele faleceu  na madrugada desta terça, 23 de março, aos 71 anos, em decorrência de uma complicação renal.

Jancsó havia sido internado poucos dias antes da morte de Mindlin, no último dia 28 de fevereiro. O corpo foi cremado nesta tarde no Crematório da Vila Alpina, em São Paulo.

Professor titular do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, Jancsó foi um dos grandes mentores da Brasiliana, responsável por levar o projeto – que inclui a construção de uma biblioteca no campus e a digitalização dos 40 mil volumes que integravam a coleção de Mindlin – até a universidade. Desde 2004, Jancsó desenvolvia sua pesquisa sobre a problemática das estruturas nacionais dentro do projeto A Formação do Estado e da Nação Brasileiros (1780-1850), com apoio da Fapesp.

O Ministério da Cultura divulgou nota na qual Juca Ferreira lamenta a morte do historiador, destacando seu trabalho de “tornar um acervo de excelência disponível para toda a população”. Juca ressaltou ainda o esforço de Istvan em estimular redes de pesquisa e a criação de um modelo brasileiro de compartilhamento de documento”, descrevendo-o como “um intelectual engajado na decifração de um país que para ele era um ‘enigma’ humano e histórico”.

Fonte: O Estadão

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Você já viu um caçador de livros?

quarta-feira, março 3rd, 2010

Tenho certeza de que você deve conhecer pessoas que são devoradoras de livros – verdadeiras “traças†-, como também deve ter visto ou ouvido falar de escritores, amantes, guardadores ou zeladores de livros. Pois, infelizmente, acaba de falecer um “caçador de livros rarosâ€, em risco de extinção, um cidadão no verdadeiro sentido da palavra – até porque sempre lutou pelos direitos e pela liberdade. No interesse da sociedade, ele caçava livros, além de amá-los, guardá-los e por eles zelar.

Refiro-me ao  megaempresário aposentado José Mindlin, que, acima de tudo, era, literalmente, um bibliófilo…

Mindlin morreu, no último domingo, dia 28 de fevereiro, aos 95 anos de vida bem vivida, após internação, por cerca de um mês, no hospital Albert Einstein.

 
 

Colecionador de livros desde a puberdade, Mindlin formou uma das mais importantes bibliotecas privadas do país, doada para a Universidade de São Paulo,  em 2006, e que,assim, foi colocada ao alcance do público, levando o nome de  Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. O nome foi uma homenagem da USP ao bibliófilo e a sua mulher, Guita Mindlin, que morreu no mesmo ano da doação.

Entre as raridades que foram doadas encontram-se, entre outras, o primeiro livro em que o Brasil foi mencionado numa coletânea de viagens de Fracanzano da Montalbodo, de 1507, que noticia a viagem de Cabral, além de obras de história, periódicos, trabalhos científicos e didáticos, álbuns ilustrados, gravuras e edições valiosas de grandes obras da literatura, muitas em primeiras impressões e volumes autografados pelos próprios autores.

Em busca de depoimentos sobre Mindlin, encontrei, a esmo, o de Fernanda Zaffari, em seu blog: segundo ela, “sempre é interessante se aproximar de personagens com vidas diferentes da nossa – mesmo que seja apenas por alguns instantes. Melhor ainda se este personagem é especial. Em 2004 tive a oportunidade de entrevistar José Mindlin. Fui em busca de uma conversa com o dono da biblioteca recheada de raridades. Saí da entrevista enfeitiçada. Falou-se de livros, mas falou-se mais ainda de vida, de amor, de cultura, de casamento, de objetivos de vida, enfim, uma conversa que guardo como um dos momentos mais marcantes da minha profissão.  Nunca esqueci. De volta a São Paulo, Mindlin se mostrou ainda mais encantador. Trocamos correspondência (sim, enviei uma carta). Mandei livros de autores gaúchos e ele me presenteou com um livro de dedicatória doce e uma cartinha que comprovava que a primeira impressão que tive dele é a que deveria ficar. Mindlin era especialâ€.

Se continuasse procurando outros testemunhos, teria textos iguais ou mais elogiosos deste homem extraordinário, cuja intimidade já conhecia por ouvir minha orientadora de mestrado, Maria Lúcia Montes, falar enlevada, muitas e muitas vezes, por conta da convivência com ele, sua mulher e sua filha. E olhe que Maria Lúcia, por conviver com o meio cultural paulista, conhece toda essa gente que coleciona obras de arte e é tida e havida como promotores da cultura, sendo assim uma testemunha qualificada para falar desse povo.

O fato é que, para além da tarefa de preservar os maiores relicários da cultura e da arte – refiro-me aos livros de papel, que são ainda as media mais confiáveis e perenes -, José Mindlin doou, ainda em vida, cerca de 17 mil títulos, ou 40 mil volumes da coleção de toda uma vida. Assim, diferentemente da maioria dos seus concidadãos ricos, ele colecionou em prol do interesse público. Somente quem já teve coleção é que sabe o que é doar um elemento sequer do que foi coligido…

Pois, por mais admirável que seja a existência deste mecenas entre os milionários brasileiros, o inacreditável é que ele somente teve o reconhecimento da Academia Brasileira de Letras, que deve ser a casa dos homens e mulheres dos livros, com mais de 90 anos de idade, visto que somente em 2006 é que ele foi eleito como um dos seus membros. Coisas dos “sodalícios†que vicejam, aqui e acolá, por todo esse imenso Brasil… Que viva sempre, o imortal José Mindlin, menos por ter sido dono da Metal Leve ou membro da ABL, e mais pelo que, de fato, fez pela arte e pela cultura nacionais!

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