Continuando a conversa sobre o fatalismo da alma lusitana, é importante considerar que a tragédia de Inês inspirou o mundo ocidental por séculos.
Na França, Henry de MONTHERLAND compôs a peça teatral La Reine Morte; na Espanha, Amor, Corona y Muerte foi o tÃtulo que Alejandro CASONA deu a sua peça inesiana.
“Mas foi na pátria do ocorrido, como não poderia deixar de ser, que as obras literárias acerca do tema proliferaram, promovendo-se enfoques que não podiam senão ecoar de forma profunda a alma lusitanaâ€. Segundo Saraiva, autor da citação anterior, “os primeiros textos de que se tem notÃcia a enfocar o drama do ‘Romeu e Julieta português’ (nas palavras de Alexandra MARTINS) são de Fernão LOPES (1380?-1460?), cronista que conduz a historiografia lusitana a novas perspectivas, ao filtrar as lendas dos fatos. (…) É precisamente a primeira, aquela que relata a história de Inês. Serviu-se, LOPES, de historiadores da época do acontecido e de documentos que ao tempo do historiador chegaram. Outros historiadores do Humanismo lusitano também se ocuparam da temática, como foi o caso de Rui de PINA (1440-1552) e Cristóvão Rodrigues ACENHEIRO (1474-1536?) “
Em termos propriamente literários temos os versos de Garcia de RESENDE, publicados  no Cancioneiro Geral (1516), obra coligida pelo mesmo autor, cujo fac simile da abertura encontra-se acima. Nas três estrofes a seguir, fala Inês, na primeira, já cumprido o seu destino; na segunda, um de seus algozes detém a voz, enquanto a derradeira é o desfecho do poema:

“Qual será o coração,
tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
ua tão grã crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que por ter muito fervente
lealdade, fé, amor,
ó prÃncipe, meu senhor,
me mataram cruamente.”
[...]
“â??Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos:
o prÃncipe casará,
filhos de bênção terá,
será fora de pecado.
Quâ??agora seja anojado,
amanhã lhâ??esquecerá!â??”
[...]
“Em todos os seus testemunhos
a declarou por mulher,
e por sâ??isto melhor crer,
fez dois ricos moimentos,
em quâ??ambos vereis jazer
rei, rainha, coroados,
mui juntos, não apartados,
no cruzeiro dâ??Alcobaça.
Quem puder fazer bem, faça,
pois por bem se dão tais grados.
Se Garcia de RESENDE promoveu a estréia de Inês no plano literário, é LuÃs de CAMÕES a grande referência da poesia lusitana, ao lado de Fernando PESSOA, que se responsabiliza por consagrar a temática.
)
Em Os LusÃadas, grande épico do povo português, o autor (gravura acima) inclui o episódio de Inês de Castro (que, longe de catalisar a ação, mostra-se complementar à história das conquistas lusitanas). Até aqui, as minhas referências são ainda de Bezerra.  Em seguida, trazendo à luz todo o trecho dos LusÃadas sobre a saga de Inês de Castro, que se encontra no Canto III, talvez alguns leitores façam aflorar as lembranças “dessa Inês tão lindaâ€:
120
“Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
121
“Do teu PrÃncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam:
De noite em doces sonhos, que mentiam,
De dia em pensamentos, que voavam.
E quanto enfim cuidava, e quanto via,
Eram tudo memórias de alegria.
122
“De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo, e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,
123
“Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co’o sangue só da morte indigna
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada?
124
“Traziam-na os horrÃficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade:
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela com tristes e piedosas vozes,
SaÃdas só da mágoa, e saudade
Do seu PrÃncipe, e filhos que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,
125
“Para o Céu cristalino alevantando
Com lágrimas os olhos piedosos,
Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos;
E depois nos meninos atentando,
Que tão queridos tinha, e tão mimosos,
Cuja orfandade como mãe temia,
Para o avô cruel assim dizia:
126
- “Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas têm o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento,
Como coa mãe de Nino já mostraram,
E colos irmãos que Roma edificaram;
127
- “Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.
128
- “E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vicia com clemência
A quem para perdê-la não fez erro.
Mas se to assim merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mÃsero desterro,
Na CÃtia fria, ou lá na LÃbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.
129
“Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei:
Ali com o amor intrÃnseco e vontade
Naquele por quem morro, criarei
Estas relÃquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.” -
130
— Morte de Inês de Castro
“Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo, e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais, e cavaleiros?
131
“Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co’o ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela os olhos com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha)
Na mÃsera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifÃcio se oferece:
132
“Tais contra Inês os brutos matadores
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que depois a fez Rainha;
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.
133
“Bem puderas, ó Sol, da vista destes
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia.
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetisses!
134
“Assim como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está morta a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva cor, coa doce vida.
135
“As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram;
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água, e o nome amores.
136
“Não correu muito tempo que a vingança
Não visse Pedro das mortais feridas,
Que, em tomando do Reino a governança,
A tomou dos fugidos homicidas.
Do outro Pedro cruÃssimo os alcança,
Que ambos, inimigos das humanas vidas,
O concerto fizeram, duro e injusto,
Que com Lépido e António fez Augusto.
 Inspiração dos poetas desde o Século XV, até o nosso Jorge de Lima teve Inês de Castro no maior de seus poemas.
 Mas. segundo Roberto Nunes Bittencourt (UFRJ),  “o canto IX de Invenção de Orfeu, que é a própria exaltação do fazer poético, “paradigmaticamente recriando e revitalizando o sintagma camoniano, a Inês de Jorge de Lima não é aquela “posta em sossegoâ€, mas a que não ficou “nunca em sossegoâ€.
Estavas, linda Inês, nunca em sossego
e por isso voltaste neste poema,
louca, virgem Inês, engano cego,
ó multÃpara Inês, sutil e extrema,
ilha e mareta funda, raso pego,
Inês desconstruÃda, mas eurema,
chamada Inês de muitos nomes, antes,
depois, como de agora, hoje distantes
 (…)
Porém penumbra vaga ou talvez acha
celeste consumindo-se, também
a própria conceição parindo baixa
a real prole; de súbito ninguém
nessas longÃnquas órbitas que enfaixa
com seus cabelos, ela-a-mais-de-cem,
a mais de mil, Inês amorfa e aresta,
Inês a só, mas logo a sempre festa.
Inês que fulge quando o dia brilha
ou se acinzenta quando o ocaso avança,
rainha negra, mãe e branca filha,
entre arcanjos do céu etérea dança,
e nos dias dos mundos andarilha,
andar incandescente que não cansa
poema aparentemente muitos poemas,
mas infância perene, tema em temas.
 Para Jorge de Lima – relendo e confirmando o que previu Garcia de Resende – a glória de Inês é tornar-se texto. O galardão do amor é morrer e, na morte, renascer em re-criação. É Orfeu, o poeta-homemcriador que transforma Inês nas mil faces, amorfas, atéreas, eternas†Até aqui as palavras de Bittencourt..
As 18 estrofes dos LusÃadas já seriam suficientes para consagrar Inês e seu amor de perdição. Mas, além da produção lusitana que vai muito além do que aqui referi, muito tem se escrito sobre Inês de Castro - e sobre Dom Pedro, seu amante, por tabela – ao longo dos séculos.
Victor Hugo, por exemplo, escreveu em 1820 “Inez de Castro”, melodrama em três atos com dois intermédios. Na Alemanha, foram escritos  ”Inez de Castro”, tragédia, de F. H. Thelo; “Inez de Castro”, tragédia, de Grottfried von Böhm e “Inez de Castro”, drama, de Joseph Lauff. Na Argentina,  “Corona de amor y muerteâ€, peça de teatro, de Alejandro Casona (1955) e “Una Tragedia Amorosa En El Portugal Medieval”, conto, de César Fuentes RodrÃguez (2000). No Brasil, “A rainha arcaica”, série de 14 sonetos, de Ivan Junqueira (1979), na Espanha,  “Doña Inés de Castro, Reina de Portugal†de Juan Mejia de la Cerda (1612), “Reynar despues de morir” de Luis Velez de Guevara (1652) e “Inés de Castro”, Novela, de MarÃa Pilar Queralt del Hierro (2003). Nos E.U.A., “A Queen After Death”, Romance, de William Harman Black (1933) e- Fragmentos de “Cantos” de Ezra Pound (séc. XX), na França, além do trabalho de Victor Hugo, “La reine du Portugal”, tragédia, de Fermin Didot; “Agnes de Castro†de M.lle de Brillac (1688), “Inez de Castro”, tragédia, de Antoine Houdar de Lamotte (1723), “Inez de Castro”, novela, da Condessa de Genlis; – “La reine morte”, drama, de Henri de Montherlant (1942) e- “La reine crucifiéeâ€, romance, de Gilbert Sinoué (2005); na Holanda, - “Inez de Castro”, tragédia, de Rhynius Feith, na Itália, “Ines de Castro”, tragédia, de Davide Bertolotti; – “Ines di Castro”, drama, de Luigi Baudozzi; no Reino Unido, “Inez, the bride of Portugal”, tragédia, de Neil Ross; – “Agnez de Castro”, tragédia, de Catherine Cockburn; – “Ines de Castro”, drama, de Mary Russel Milford; – “Agnes de Castro”, tragédia, de Lady Sound; – “Agnes de Castro”, tragédia, de Aphra Behn( 1688) Fontes: Vicente Cândido/ Maria Leonor Machado de Sousa / Blog “Inês e Pedro na Literatura Estrangeira“.





