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Quem é mais homenageado: aquela pessoa a quem se dedica uma comenda ou quem a recebe?

domingo, dezembro 13th, 2009

Nesta segunda feira será entregue, pela primeira vez, a COMENDA JAREDE VIANA, recém-instituída pela CÂMARA DE VEREADORES DE MACEIÓ. Não sei quem recebe a homenagem maior: se apenas os agraciados e as agraciadas ou se também e, sobretudo, a pessoa que empresta seu nome à comenda!

Jarede

Conheci Jarede bem antes de ingressarmos na velha Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras: ela e eu morávamos na Ponta da Terra e ela dava aulas particulares a um primo meu, filho de meus padrinhos. Estávamos ainda na década de 1960 e Jarede, ainda menina, normalista, trabalhava para ajudar no sustento da casa. Reencontramo-nos depois na Faculdade: ela fazendo Pedagogia e eu, Letras. Estávamos naquele período sombrio entre o golpe militar de 1964 e o golpe dentro do golpe, em meio ao Decreto 477, que punia severamente os estudantes e professores que discordavam do Governo e o famigera AI 5, que desmantelaria de vez o que ainda restava de salvaguarda do Estado de Direito. Envolvidos, eu e ela, com as lutas contra a ditadura, vimo-nos, eu na presidência do CA de Letras, e ela presidindo o CA de Pedagogia. Ali travamos nossas primeiras batalhas contra o Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que nos afrontava sob os auspícios da Patrulha Nacional Cristã. Foi ali a primeira grande prova de coragem de Jarede Viana: eu e ela, fazendo-nos de desentendidos, fomos prestar queixa no DOPSE dos fascistas do CCC que, tendo invadido o prédio da Faculdade – onde hoje funciona a FECOM (CESMAC) -, quebraram e picharam os protestos dos dois CAs, que funcionavam nas mesmas instalações, contra o desmantelamento do Congresso da UNE, em Ibiúna. Ali os milicos tinham prendido os companheiros congressistas, dentre os quais a companheira Selma Bandeira, que nos representava no Congresso, além de nos negarem o direito político de reunião e de opinião.

Tendo, com o AI5, de refluir no enfrentamento da Ditadura, Jarede, juntamente com Ivanilda e Alba, prosseguem na luta contra o regime de exceção, dando apoio aos companheiros e companheiras envolvidos com a guerrilha do Araguaia ou ainda foragidos dos tempos da UNE na clandestinidade. Desse momento também pude participar, sobretudo na retaguarda, já que nunca me filiei às agremiações políticas às quais pertenceriam.

Somente quem conviveu com Jarede, sabe o quanto ela era bronqueada com a injustiça e o cerceamento à liberdade: na Secretaria de Educação (Jovens e Adultos), no Colégio Moreira e Silva (como Supervisora), na ETFAL, no Conselho Estadual de Educação, nos partidos em que militou, no SINTEAL, sobretudo, Jarede era só contestação a qualquer tipo de afronta a direitos. Tendo tido a possibilidade de assumir definitivamente uma cadeira no antigo Departamento de Educação da UFAL, onde deu aulas por contrato temporário, teve seu tapete puxado por ser considerada subversiva nas aulas de Educação de Jovens e Adultos.

No trato com os desfavorecidos, tínhamos a impressão, as mais das vezes, que, em lugar de se situar numa luta histórica cuja iniquidade nascia das estruturas sócias perversas, Jarede assumia a briga de quem era usurpado em seus direitos como uma empreitada pessoal dela própria: quantas vezes Jarede foi para o enfrentamento sem medir consequências? É que ela era verdadeira demais em tudo o que fazia… E quando se tratava da preservação da liberdade, ela era uma campeã!

Vereadora por Maceió, lembro-me ainda hoje da campanha heróica para elegê-la, sem recursos. Saíamos, tarde da noite, eu, Ivanilda e meus filhos, ainda pequenos, pregando cartazes pela Pajuçara e Ponta da Terra. De dia, sempre que dava, na casa de amigos e conhecidos, fazíamos reuniões de adesão. Lembro-me de pessoas comuns como Natércia, abrindo sua casa para o papo com os vizinhos… Padre Adriano Langen, vigário de Jaraguá, democrata convicto, dava seu apoio integral, ainda que desconfiasse estar apoiando uma comunista… Na verdade, o comunismo de Jarede era fruto de seu amor pelos excluídos e oprimidos, pois, no íntimo, ela sempre foi crente e mostrou isso com toda clareza antes de morrer. “Jarede Viana, coragem de lutar, o povo não se engana, já sabe em quem votar†– essa foi a música de campanha composta e gravada por José Luiz Pompe, que, de tão fácil apelo, ainda hoje é cantarolada por meus filhos… Assim, com uma candidata tão verdadeira, fizemos Jarede uma vereadora que, juntamente com Ênio Lins e Edberto Ticianelli, fez história no legislativo de Maceió.

Ainda bem que, hoje, esse mesmo Legislativo não lhe falta, instituindo uma Comenda com seu nome e que nos dá a certeza – a nós que vamos recebê-la nesta segunda feira – de que é mais uma homenagem que se presta à Jarede neste primeiro ano de seu passamento, ao tempo em que nos cobre de glória pelo que essa fantástica mulher representou para as lutas democráticas e populares em Alagoas.

Ivanilda e Elcio Convite

Eu, Ivanilda, Albinha, Lenilda Lima, Cícera Justino e quem mais esteja sendo agraciado, nesta segunda feira, às 9 horas da Manhã, no auditório da FITS, com a COMENDA JAREDE VIANA, sentimo-nos privilegiados pelo que essa querida companheira representou em nossas vidas, seja como cidadãos comprometidos com a liberdade, seja como gente pura e simplesmente, uma vez que Jarede era sobretudo isso…

Da minha parte e de Ivanilda, minha companheira, obrigado à Vereadora Teresa Nelma, pela nossa indicação para a Comenda, mas, sobretudo, pela ideia de instituir uma Comenda com o nome da tão saudosa e valorosa Jarede Viana de Oliveira.

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Nesta Semana ela completaria 70 anos de vida!

quarta-feira, outubro 28th, 2009

Infelizmente estamos mais um ano sem JAREDE, mulher solidária e comprometida com as causas populares, sobretudo no campo da educação!

Se viva fosse, Jarede teria completado, no último dia 26, 70 anos de vida! Companheira nas lutas estudantis do tempo da Ditadura – ela presidindo o CA de Pedagogia e eu o de Letras, nos pesados anos de 1960 -, além da convergência de propósitos políticos, uniu-nos sempre uma grande amizade de mais de 40 anos… Por isso, sobre Jarede deixarei que fale uma ex-aluna minha e dela, publicando trechos de um e-mail que desta recebi:

Jarede Viana, Professora de vida!

Edna Lopes do Nascimento

Conheci Jarede quando entrei na Universidade. Em 1982, caloura, mas já militando no Movimento Estudantil desde o secundário, participava da restauração do Diretório Acadêmico de Pedagogia e, durante um evento de educação, ela fez uma intervenção. Impressionou-me sua contundência, seu jeito de falar direto e eloquente.
Encontramo-nos muitas vezes desde então. Sempre estava lutando por um ideal, uma causa. No sindicato, no movimento de mulheres, nos conselhos de educação, na vida política da cidade… enfim, guerreava em muitas frentes. Quando votei nela para vereadora, não me arrependi. Sempre deixou claro de que lado estava e sua firmeza e coerência sempre me ensinaram muito.
Lembro de um tempo em que, desiludida com a área, procurei fazer outras coisas e ela me disse:

“ – Menina, você tem o brilho no olho, a chama que a educação precisa. Não desperdice isso.â€

Um tempo depois voltei e nunca me esqueci de suas palavras no meu momento de crise. Lembro até do trecho de AGNUS DEI de João Bosco e Aldir Blanc que ela “recitouâ€:

“.. Ah, como é difícil tornar-se herói,

Só quem tentou sabe como dói…

Vencer satã só com orações…†e arrematou:

“ -É preciso continuar lutando!â€


Um bom par de anos depois, fui como convidada ao Conselho Estadual de Educação, representando a SEMED/Maceió, expor a proposta de avaliação da rede. Coube a Jarede, conselheira, representante dos educadores, apresentar- me ao Pleno e convidados. E ela relembrou passagens de minha trajetória de vida acadêmica e profissional com uma delicadeza e generosidade que me emocionou.
Em meados de 2007, estávamos juntas numa atividade do Conselho Municipal de Maceió, ela representando o Sindicato dos Trabalhadores da Educação, recuperando-se das químios que fazia para tratar um câncer e eu lhe passei um bilhetinho:

“SE NÃO MORRE AQUELE QUE ESCREVE UM LIVRO OU PLANTA UMA ÃRVORE, COM MAIS RAZÃO NÃO MORRE O EDUCADOR QUE SEMEIA A VIDA E ESCREVE NA ALMA†(BERTOLD BRECHT).

Me deu um abraço e um sorriso, pegou minha cola bastão e colou o bilhete na agenda. Não tenho certeza, mas acho que foi a última vez que nos vimos.

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Querida professora Jarede, (…) todas essas boas lembranças me vieram e aqui quero agradecer por tudo de bom e belo que plantou em minha alma de educadora. Nossa “trincheira” ficou mais pobre, mas seu exemplo de força e coragem no enfrentamento de tantas batalhas são e serão lições fundamentais para todos e todas que acreditam num mundo mais justo e solidário.
Siga em paz. Tenha certeza de que, enquanto houver educadores e educadoras com “o brilho no olho, com a chama que a educação precisaâ€, sua luta por uma EDUCAÇÃO PÚBLICA com QUALIDADE SOCIAL continuará bandeira em cada sala de aula, em cada atividade sindical, em cada Conselho de Educação.
Um abraço!E pra você que sempre citava os poetas, Milton Nascimento:

” Mas é preciso ter força,

É preciso ter raça,

É preciso ter gana sempre…â€
“Amigo é coisa para se guardar

Debaixo de sete chaves,

Dentro do coração!

Assim falava a canção que na América ouvi,

Mas quem cantava chorou

Ao ver o seu amigo partir…â€

E na lição de dois grandes brasileiros despeço-me:
“Eu sempre sonho que uma coisa gera,
Nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.†(Adélia Prado)

Jarede, querida, “As pessoas não morrem. Ficam encantadas.” (João Guimarães Rosa,)

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