Nesta segunda feira será entregue, pela primeira vez, a COMENDA JAREDE VIANA, recém-instituÃda pela CÂMARA DE VEREADORES DE MACEIÓ. Não sei quem recebe a homenagem maior: se apenas os agraciados e as agraciadas ou se também e, sobretudo, a pessoa que empresta seu nome à comenda!

Conheci Jarede bem antes de ingressarmos na velha Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras: ela e eu morávamos na Ponta da Terra e ela dava aulas particulares a um primo meu, filho de meus padrinhos. Estávamos ainda na década de 1960 e Jarede, ainda menina, normalista, trabalhava para ajudar no sustento da casa. Reencontramo-nos depois na Faculdade: ela fazendo Pedagogia e eu, Letras. Estávamos naquele perÃodo sombrio entre o golpe militar de 1964 e o golpe dentro do golpe, em meio ao Decreto 477, que punia severamente os estudantes e professores que discordavam do Governo e o famigera AI 5, que desmantelaria de vez o que ainda restava de salvaguarda do Estado de Direito. Envolvidos, eu e ela, com as lutas contra a ditadura, vimo-nos, eu na presidência do CA de Letras, e ela presidindo o CA de Pedagogia. Ali travamos nossas primeiras batalhas contra o Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que nos afrontava sob os auspÃcios da Patrulha Nacional Cristã. Foi ali a primeira grande prova de coragem de Jarede Viana: eu e ela, fazendo-nos de desentendidos, fomos prestar queixa no DOPSE dos fascistas do CCC que, tendo invadido o prédio da Faculdade – onde hoje funciona a FECOM (CESMAC) -, quebraram e picharam os protestos dos dois CAs, que funcionavam nas mesmas instalações, contra o desmantelamento do Congresso da UNE, em Ibiúna. Ali os milicos tinham prendido os companheiros congressistas, dentre os quais a companheira Selma Bandeira, que nos representava no Congresso, além de nos negarem o direito polÃtico de reunião e de opinião.
Tendo, com o AI5, de refluir no enfrentamento da Ditadura, Jarede, juntamente com Ivanilda e Alba, prosseguem na luta contra o regime de exceção, dando apoio aos companheiros e companheiras envolvidos com a guerrilha do Araguaia ou ainda foragidos dos tempos da UNE na clandestinidade. Desse momento também pude participar, sobretudo na retaguarda, já que nunca me filiei à s agremiações polÃticas à s quais pertenceriam.
Somente quem conviveu com Jarede, sabe o quanto ela era bronqueada com a injustiça e o cerceamento à liberdade: na Secretaria de Educação (Jovens e Adultos), no Colégio Moreira e Silva (como Supervisora), na ETFAL, no Conselho Estadual de Educação, nos partidos em que militou, no SINTEAL, sobretudo, Jarede era só contestação a qualquer tipo de afronta a direitos. Tendo tido a possibilidade de assumir definitivamente uma cadeira no antigo Departamento de Educação da UFAL, onde deu aulas por contrato temporário, teve seu tapete puxado por ser considerada subversiva nas aulas de Educação de Jovens e Adultos.
No trato com os desfavorecidos, tÃnhamos a impressão, as mais das vezes, que, em lugar de se situar numa luta histórica cuja iniquidade nascia das estruturas sócias perversas, Jarede assumia a briga de quem era usurpado em seus direitos como uma empreitada pessoal dela própria: quantas vezes Jarede foi para o enfrentamento sem medir consequências? É que ela era verdadeira demais em tudo o que fazia… E quando se tratava da preservação da liberdade, ela era uma campeã!
Vereadora por Maceió, lembro-me ainda hoje da campanha heróica para elegê-la, sem recursos. SaÃamos, tarde da noite, eu, Ivanilda e meus filhos, ainda pequenos, pregando cartazes pela Pajuçara e Ponta da Terra. De dia, sempre que dava, na casa de amigos e conhecidos, fazÃamos reuniões de adesão. Lembro-me de pessoas comuns como Natércia, abrindo sua casa para o papo com os vizinhos… Padre Adriano Langen, vigário de Jaraguá, democrata convicto, dava seu apoio integral, ainda que desconfiasse estar apoiando uma comunista… Na verdade, o comunismo de Jarede era fruto de seu amor pelos excluÃdos e oprimidos, pois, no Ãntimo, ela sempre foi crente e mostrou isso com toda clareza antes de morrer. “Jarede Viana, coragem de lutar, o povo não se engana, já sabe em quem votar†– essa foi a música de campanha composta e gravada por José Luiz Pompe, que, de tão fácil apelo, ainda hoje é cantarolada por meus filhos… Assim, com uma candidata tão verdadeira, fizemos Jarede uma vereadora que, juntamente com Ênio Lins e Edberto Ticianelli, fez história no legislativo de Maceió.
Ainda bem que, hoje, esse mesmo Legislativo não lhe falta, instituindo uma Comenda com seu nome e que nos dá a certeza – a nós que vamos recebê-la nesta segunda feira – de que é mais uma homenagem que se presta à Jarede neste primeiro ano de seu passamento, ao tempo em que nos cobre de glória pelo que essa fantástica mulher representou para as lutas democráticas e populares em Alagoas.

Eu, Ivanilda, Albinha, Lenilda Lima, CÃcera Justino e quem mais esteja sendo agraciado, nesta segunda feira, à s 9 horas da Manhã, no auditório da FITS, com a COMENDA JAREDE VIANA, sentimo-nos privilegiados pelo que essa querida companheira representou em nossas vidas, seja como cidadãos comprometidos com a liberdade, seja como gente pura e simplesmente, uma vez que Jarede era sobretudo isso…
Da minha parte e de Ivanilda, minha companheira, obrigado à Vereadora Teresa Nelma, pela nossa indicação para a Comenda, mas, sobretudo, pela ideia de instituir uma Comenda com o nome da tão saudosa e valorosa Jarede Viana de Oliveira.


