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Inês de Castro: a grande inspiração da alma lusitana

quarta-feira, janeiro 27th, 2010

Continuando a conversa sobre o fatalismo da alma lusitana, é importante considerar que a tragédia de Inês inspirou o mundo ocidental por séculos.

Na França, Henry de MONTHERLAND compôs a peça teatral La Reine Morte; na Espanha, Amor, Corona y Muerte foi o título que Alejandro CASONA deu a sua peça inesiana.

“Mas foi na pátria do ocorrido, como não poderia deixar de ser, que as obras literárias acerca do tema proliferaram, promovendo-se enfoques que não podiam senão ecoar de forma profunda a alma lusitanaâ€. Segundo Saraiva, autor da citação anterior, “os primeiros textos de que se tem notícia a enfocar o drama do ‘Romeu e Julieta português’ (nas palavras de Alexandra MARTINS) são de Fernão LOPES (1380?-1460?), cronista que conduz a historiografia lusitana a novas perspectivas, ao filtrar as lendas dos fatos. (…) É precisamente a primeira, aquela que relata a história de Inês. Serviu-se, LOPES, de historiadores da época do acontecido e de documentos que ao tempo do historiador chegaram. Outros historiadores do Humanismo lusitano também se ocuparam da temática, como foi o caso de Rui de PINA (1440-1552) e Cristóvão Rodrigues ACENHEIRO (1474-1536?) “

Cancioneiro geralEm termos propriamente literários temos os versos de Garcia de RESENDE, publicados  no Cancioneiro Geral (1516), obra coligida pelo mesmo autor, cujo fac simile da abertura encontra-se acima. Nas três estrofes a seguir, fala Inês, na primeira, já cumprido o seu destino; na segunda, um de seus algozes detém a voz, enquanto a derradeira é o desfecho do poema:

Inez 2
“Qual será o coração,
tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
ua tão grã crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que por ter muito fervente
lealdade, fé, amor,
ó príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente.”
[...]
“â??Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos:
o príncipe casará,
filhos de bênção terá,
será fora de pecado.
Quâ??agora seja anojado,
amanhã lhâ??esquecerá!â??”
[...]
“Em todos os seus testemunhos
a declarou por mulher,
e por sâ??isto melhor crer,
fez dois ricos moimentos,
em quâ??ambos vereis jazer
rei, rainha, coroados,
mui juntos, não apartados,
no cruzeiro dâ??Alcobaça.
Quem puder fazer bem, faça,
pois por bem se dão tais grados.

Se Garcia de RESENDE promoveu a estréia de Inês no plano literário, é Luís de CAMÕES a grande referência da poesia lusitana, ao lado de Fernando PESSOA, que se responsabiliza por consagrar a temática.

Camões)

Em Os Lusíadas, grande épico do povo português, o autor (gravura acima) inclui o episódio de Inês de Castro (que, longe de catalisar a ação, mostra-se complementar à história das conquistas lusitanas). Até aqui, as minhas referências são ainda de Bezerra.  Em seguida, trazendo à luz todo o trecho dos Lusíadas sobre a saga de Inês de Castro, que se encontra no Canto III, talvez alguns leitores façam aflorar as lembranças “dessa Inês tão lindaâ€:

120
“Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

121
“Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam:
De noite em doces sonhos, que mentiam,
De dia em pensamentos, que voavam.
E quanto enfim cuidava, e quanto via,
Eram tudo memórias de alegria.

122
“De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo, e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

123
“Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co’o sangue só da morte indigna
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada?

124
“Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade:
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa, e saudade
Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,

125
“Para o Céu cristalino alevantando
Com lágrimas os olhos piedosos,
Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos;
E depois nos meninos atentando,
Que tão queridos tinha, e tão mimosos,
Cuja orfandade como mãe temia,
Para o avô cruel assim dizia:

126
- “Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas têm o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento,
Como coa mãe de Nino já mostraram,
E colos irmãos que Roma edificaram;

127
- “Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

128
- “E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vicia com clemência
A quem para perdê-la não fez erro.
Mas se to assim merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria, ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.

129
“Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei:
Ali com o amor intrínseco e vontade
Naquele por quem morro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.” -

130
— Morte de Inês de Castro
“Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo, e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais, e cavaleiros?

131
“Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co’o ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela os olhos com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha)
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:

132
“Tais contra Inês os brutos matadores
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que depois a fez Rainha;
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

133
“Bem puderas, ó Sol, da vista destes
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia.
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetisses!

134
“Assim como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está morta a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva cor, coa doce vida.

135
“As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram;
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água, e o nome amores.

136
“Não correu muito tempo que a vingança
Não visse Pedro das mortais feridas,
Que, em tomando do Reino a governança,
A tomou dos fugidos homicidas.
Do outro Pedro cruíssimo os alcança,
Que ambos, inimigos das humanas vidas,
O concerto fizeram, duro e injusto,
Que com Lépido e António fez Augusto.

Jorge de Lima Inspiração dos poetas desde o Século XV, até o nosso Jorge de Lima teve Inês de Castro no maior de seus poemas.

 Mas. segundo Roberto Nunes Bittencourt (UFRJ),  “o canto IX de Invenção de Orfeu, que é a própria exaltação do fazer poético, “paradigmaticamente recriando e revitalizando o sintagma camoniano, a Inês de Jorge de Lima não é aquela “posta em sossegoâ€, mas a que não ficou “nunca em sossegoâ€.

Estavas, linda Inês, nunca em sossego

e por isso voltaste neste poema,

louca, virgem Inês, engano cego,

ó multípara Inês, sutil e extrema,

ilha e mareta funda, raso pego,

Inês desconstruída, mas eurema,

chamada Inês de muitos nomes, antes,

depois, como de agora, hoje distantes

 (…)

Porém penumbra vaga ou talvez acha

celeste consumindo-se, também

a própria conceição parindo baixa

a real prole; de súbito ninguém

nessas longínquas órbitas que enfaixa

com seus cabelos, ela-a-mais-de-cem,

a mais de mil, Inês amorfa e aresta,

Inês a só, mas logo a sempre festa.

Inês que fulge quando o dia brilha

ou se acinzenta quando o ocaso avança,

rainha negra, mãe e branca filha,

entre arcanjos do céu etérea dança,

e nos dias dos mundos andarilha,

andar incandescente que não cansa

poema aparentemente muitos poemas,

mas infância perene, tema em temas.

 Para Jorge de Lima – relendo e confirmando o que previu Garcia de Resende – a glória de Inês é tornar-se texto. O galardão do amor é morrer e, na morte, renascer em re-criação. É Orfeu, o poeta-homemcriador que transforma Inês nas mil faces, amorfas, atéreas, eternas†Até aqui as palavras de Bittencourt..

As 18 estrofes dos Lusíadas já seriam suficientes para consagrar Inês e seu amor de perdição. Mas, além da produção lusitana  que vai muito além do que aqui referi, muito tem se escrito sobre Inês de Castro - e sobre Dom Pedro, seu amante, por tabela – ao longo dos séculos.

Victor Hugo, por exemplo, escreveu em 1820 “Inez de Castro”, melodrama em três atos com dois intermédios. Na Alemanha, foram escritos  ”Inez de Castro”, tragédia, de F. H. Thelo;  “Inez de Castro”, tragédia, de Grottfried von Böhm e  “Inez de Castro”, drama, de Joseph Lauff. Na Argentina,  “Corona de amor y muerteâ€, peça de teatro, de Alejandro Casona (1955) e “Una Tragedia Amorosa En El Portugal Medieval”, conto, de César Fuentes Rodríguez (2000). No Brasil, “A rainha arcaica”, série de 14 sonetos, de Ivan Junqueira (1979), na Espanha,  “Doña Inés de Castro, Reina de Portugal†de Juan Mejia de la Cerda (1612), “Reynar despues de morir” de Luis Velez de Guevara (1652) e “Inés de Castro”, Novela, de María Pilar Queralt del Hierro (2003). Nos E.U.A., “A Queen After Death”, Romance, de William Harman Black (1933) e- Fragmentos de “Cantos” de Ezra Pound (séc. XX), na França, além do trabalho de Victor Hugo, “La reine du Portugal”, tragédia, de Fermin Didot; “Agnes de Castro†de M.lle de Brillac (1688), “Inez de Castro”, tragédia, de Antoine Houdar de Lamotte (1723),  “Inez de Castro”, novela, da Condessa de Genlis; – “La reine morte”, drama, de Henri de Montherlant (1942) e- “La reine crucifiéeâ€, romance, de Gilbert Sinoué (2005); na Holanda, - “Inez de Castro”, tragédia, de Rhynius Feith, na Itália, “Ines de Castro”, tragédia, de Davide Bertolotti; – “Ines di Castro”, drama, de Luigi Baudozzi; no Reino Unido, “Inez, the bride of Portugal”, tragédia, de Neil Ross; – “Agnez de Castro”, tragédia, de Catherine Cockburn; – “Ines de Castro”, drama, de Mary Russel Milford; – “Agnes de Castro”, tragédia, de Lady Sound; – “Agnes de Castro”, tragédia, de Aphra Behn( 1688) Fontes: Vicente Cândido/ Maria Leonor Machado de Sousa / Blog “Inês e Pedro na Literatura Estrangeira“.

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Os antigos costumavam dizer: “Agora é tarde, Inês é Morta!†Donde vem esse ditado e o que quer dizer?

sexta-feira, janeiro 22nd, 2010

O famoso fado “Coimbra†diz, em seus versos, que esta cidade ainda é capital do amor em Portugal e completa, mais adiante, que ali, “em lágrimas se fez a história desta Inês, tão linda…â€.  De que Inês está o fado a falar?

Diz minha nora que em Portugal tudo tem alma, até a decadência… E é verdade! Afinal, que povo tem um sentimento tão profundo e doído – saudade – que a ele deu um nome que não tem equivalente em qualquer outra língua do mundo?

Mas, voltando a nossa Inês, que torna Coimbra uma cidade cantada em prosa e verso nos quatro cantos do planeta, é preciso dizer que os grandes paradigmas do amor mais cabal – como Romeu e Julieta, Otelo e Desdêmona, Tristão e Isolda – são todos de natureza mítica, que constituem arquétipos do que termina existindo no mundo real, mas que jamais teve existência histórica, tal qual são contadas… Isso no mundo inteiro, menos em Portugal: a alma lusitana é tão trágica que, não apenas sua música nacional é o “fado†– que quer dizer destino -, mas a referência de amor que tem, é um fato histórico real.

Dona Inês

O arquétipo do amor português é a tragédia de Dona Inês de Castro (representação acima).

Segundo a grande intelectual alemã Carolina Michaëlis, que se fez portuguesa, “com respeito aos dramas de Inês, considero como tradição histórica não só o amor de perdição do herdeiro da coroa e o seu desenlace sangrento, mas também os seus reflexos de além-tumba”.  Sobre Inês de castro, deixemos que fale Antony C. Bezerra, um expert em história e literatura portuguesa, para quem, mesmo hoje em dia, poucos são os que nunca ouviram ou mesmo disseram essas palavras: “Agora é tarde, Inês é morta”. “No entanto, segundo ele, “poucos também são os que têm conhecimento da origem da frase. Quem é Inês? Como ou quando morreu? Se, em nosso país, dúvidas é o que há quanto às mencionadas questões, no além-mar, mais precisamente, em terras lusitanas, não será português aquele que não souber tratar-se, Inês, de uma dama galega – Inês de Castro. Tem-se conhecimento, igualmente, de que foi o amor que a conduziu ao fim, à morte. Fato histórico notório no plano de Portugal, foi recuperado várias vezes em produções artísticas, literárias ou não, no plano luso ou não. Antes de mais, é bom que se saiba que verdade histórica e mito tendem a se confundir no imaginário advindo do episódio que envolve Inês de Castro e seu amante, o futuro rei de Portugal, D. Pedro, filho de D. Afonso IV. É um dos não poucos momentos em que o mito (nas palavras de Fernando PESSOA, “o nada que é tudo”) assume ares de fato. Se se levar em conta que a raiz da História, em seus relatos inicialmente orais e depois escritos, reside nos mitos, parece mais natural que surpreendente a forma como é encarada a história de amor e morte de uma mulher que, por seus encantos, teve uma imerecida ruína (a seguir Inês e seus algozes).

Inez de Castro

Está-se em meados do século XIV, em Portugal, e D. Afonso IV, antepenúltimo rei da dinastia de Borgonha, é o soberano que comanda o país. O momento histórico não é despido de tensões. Sua própria ascensão ao trono é problemática. Sabedor de que seu pai, D. Dinis, tinha o propósito de alçar à condição de rei o filho bastardo Afonso Sanches, o infante desencadeia uma guerra civil que se estenderia de 1320 a 1324. Entre 1336 e 1338, já rei, D. Afonso IV tem de conviver com guerras entre as duas nações ibéricas. Logo depois, em 1340, em decorrência dos avanços marroquinos sobre a península, unem-se Portugal e Espanha para impedir uma das últimas investidas mouras sobre a região européia. A Batalha do Salado, desairosa para os sarracenos, marca a afirmação da posse luso-hispânica sobre o seu próprio território. Durante o período, surge um fato que, tendo um papel de segundo plano no que diz respeito a questões de natureza política, acaba por causar grande comoção nacional. De certa forma (e como observa Haquira OSAKABE), materializa um sentimento que, extensivamente, irá caracterizar o espírito lusitano: a saudade, aflorada pelo sacrifício de Inês de Castro [que] .em 1340, segue a Portugal no séquito de D. Constança Manoel, prometida do herdeiro do trono lusitano. O infante, sempre insatisfeito com as uniões matrimoniais que lhe eram impostas, dispensara a primeira noiva quando esta contava apenas 14 anos, de fraca que era. Do compromisso com Constança, entretanto, não houve como evadir-se. Casaram-se, mas desde cedo o nobre lusitano deixou-se levar pelos encantos de uma dama (sua prima em segundo grau) loira e de olhos verdes – precisamente, Inês de Castro. Refratário a uniões arranjadas, D. Pedro desejava mesmo compartilhar sua existência com Inês, situação, a princípio, impedida pela condição de ambos. Ainda casado, já Pedro travava relações amorosas com Inês (e, por isso, condenáveis). O infante, mais que insatisfeito com o casamento, abandonava a mulher à própria sorte (dias de caça, longe de casa, era o que havia), o que a ele valiam muitas críticas do rei, seu pai. Para contornar a constrangedora situação, acabou, Inês de Castro, por ser convidada para madrinha de Fernando, primogênito do casal Pedro e Constança e futuro comandante dos destinos portugueses. De nada adiantou. Como medida extrema, D. Afonso IV forçou Inês ao exílio, e esta veio a se alojar no castelo de Albuquerque, Espanha, próximo à raia alentejana. Eis que, em 1354*, morre Dona Constança ao dar à luz o terceiro filho. Abriu-se, então, o caminho para que os amantes passassem a viver um na companhia do outro. E foi, de fato, o que se sucedeu: D. Pedro mandou vir da Espanha a sua amada. Passaram a morar – ora juntos, ora separados – em Lourinhã e em Moledo. Tudo eram rosas, até que o rei e seus conselheiros – bem como considerável parcela dos vassalos – passaram a ver perigo nos laços amorosos entre o infante e a dama galega. A razão? Os dois irmãos da bela Inês – Ãlvaro Pires de Castro e Fernando de Castro -, cujos anseios pelo poder amedrontavam os portugueses, para os quais era incogitável retornar ao jugo castelhano. Foram responsáveis, inclusive, por D. Pedro se envolver em questões castelhanas, o que, segundo D. Afonso IV, poderia abalar a independência lusitana. O quadro português, já tenso, sofre um duro golpe com a proliferação da peste negra (em 1348 a 1349). D. Fernando, filho legítimo de Dona Constança e de D. Pedro, vê a sucessão ao trono ameaçada pelos bastardos de Inês. A insatisfação se espraia pelo reino. Culpados para um tal panorama deviam ser encontrados – e, de fato, encontrou-se: Inês de Castro. Incentivado por três de seus conselheiros – Pedro Coelho, Ãlvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco -, D. Afonso IV toma uma medida extrema: decide pela morte da amante do filho. Os primeiros dias do ano de 1355 são utilizados pelo rei e por seus conselheiros para discutir a melhor forma de pôr os seus macabros intentos em prática. No dia 7 de janeiro, partem, o rei e gente sua, em direção a Coimbra, com o fito de tirar a vida da que ameaçava a estabilidade do reino de Portugal. Em vão foram os apelos de Inês em benefício próprio e de seus três filhos (entre eles, aquele que seria o inaugurador da Casa de Avis, D. João I). Embora, conforme reza o mito, tenha o soberano vacilado, quanto a matar ou não Inês, foi degolada aquela que tão cara era ao infante D. Pedro. De imediato, o corpo da vítima foi trasladado para a igreja de Santa Clara.  A reação do novamente viúvo não poderia ser senão de revolta. Unido aos Castro e com um exército considerável, partiu com um desejo mortal de vingança sobre o império paterno, chegando mesmo a impor um cerco à cidade do Porto. Por intervenção da rainha Beatriz, mãe de Pedro, pai e filho acabaram por assinar a paz. Mas o infante ainda tinha ânsias de fazer com que se pagasse pelo mal cometido.

Quando, em 1357, morre D. Afonso IV, e D. Pedro I passa a comandar os destinos de Portugal, tem, como um de seus primeiros atos, demandar a extradição, para seu país, dos responsáveis pela morte da bela Inês. E assim foi. Devido a um tratado estabelecido com Pedro, o Cru, rei de Castela (onde estavam os algozes), dois dos assassinos – Pedro Coelho e Ãlvaro Gonçalves – vão enfrentar o seu fatum na terra natal. Não se sabe ao certo, mas, novamente segundo o mito, um deles teve o coração arrancado pela frente, e o outro, por trás. Longe de dúvidas mesmo está que o terceiro procurado, Diogo Lopes Pacheco, acabou por fugir para terras francesas.

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Depois desses fatos, os relatos que há em torno das atitudes de D. Pedro I tanto podem soar a verdade como a implausibilidade. Veras são a trasladação do corpo de Inês de Santa Clara a uma bela lápide construída no Mosteiro de Alcobaça (em 1361 – foto acima) e a declaração da morta como rainha (D. Pedro I revelara, em 1360, ter-se casado secretamente com ela).

Comprovadas ainda são a bela estátua sepulcral que se mandou erguer em homenagem à rainha, bem como as grandiosas exéquias promovidas pela ocasião do transporte do corpo.

No entanto, a lenda também se faz presente. Conta-se que Pedro teria promovido o beija-mão e o coroamento ao cadáver de Inês de Castro. Diz-se ainda que o soberano tivera o cuidado, ao dispor o seu túmulo e o de sua amada no referido mosteiro, de postar as lápides não lado a lado, mas pé com pé.

Inês3

Dom Pedro

Para quê? Quando tivessem, ambos, de se acordar no juízo final, poderiam um olhar nos olhos do outro (…)â€. Até aqui as palavras autorizadas de um estudioso da história e do mito. O fato é que, a par da base histórica da máxima expressão da forma portuguesa de amar, fica a marca da fatalidade na alma lusitana, já que, mesmo sendo rei, o amante Dom Pedro pouco pode fazer, já que Inês, depositária de seu amor, estava morta, restando ao soberano apenas prestar-lhe as honras de rainha e esperar pela ressurreição que, segundo a fé católica, todos teremos no final dos tempos.

Dessa história, porém, além das marcas profundas na alma portuguesa, fica o fato, afirmado pelo historiador José Hermano SARAIVA, de que “mais de 120 composições musicais foram elaboradas, somente na Itália, tendo por tema o caso de amor. Quanta a Portugal e o resto do mundo, conversaremos no próximo post. Por enquanto, a imagem, a seguir, de Inês feita rainha, em rótulo de cigarros portugueses, o que mostra a popularidade da história que acabamos de ver.

Inês

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De Coimbra conhecemos apenas a importância acadêmica, ou eu estou enganado?

domingo, janeiro 17th, 2010

Coimbra2

Pelo que sei dos livros de História do Brasil, as narrativas dos tempos coloniais falam-nos, apenas, de uma Coimbra jesuítica, voltada para a formação das elites portuguesas e dos filhos dos reinóis residentes nas Colônias. Juntamente com Évora, que virá com toda força depois da expulsão dos mouros e a consolidação do reino Português, Coimbra seria a Atenas lusitana e pronto, como diriam os nossos irmãos portugueses.

Acontece que, para a História dos nossos antepassados, Coimbra é mais do que sua universidade. Importante desde os primórdios do Condado Portucalense – na verdade, desde antes da invasão muçulmana -, a cidade, devido às necessidades da reconquista dos territórios das mãos dos mouros, tornou-se, ainda em 1129, o centro político e administrativo do condado. O conde D. Henrique e a rainha D. Teresa fizeram dela a sua residência, e seria nela que, provavelmente, iria nascer o primeiro rei de Portugal, Dom Afonso Henriques, que fez dela a capital do condado, substituindo Guimarães. É esta mudança, segundo muitos historiadores, que favorecerá a independência do novo país, nos campos econômico, político e social. Assim, no Século XII, Coimbra apresentava já uma estrutura urbana, dividida entre a cidade alta, designada por Alta ou Almedina, onde viviam os aristocratas, os clérigos e, mais tarde, os estudantes, e a Baixa, do comércio, do artesanato e dos bairros ribeirinhos. A Cidade foi, por mais de uma vez, sede do governo português e foi devido a isso que acabou ganhando a única universidade portuguesa, por séculos, de Lisboa.

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Embora seja a sede da mais antiga universidade de Portugal, Coimbra tem um comércio movimentado e a presença vibrante do Mondego, o “Rio dos Poetas” como os habitantes locais o chamam orgulhosamente.

Na verdade, a Universidade de Coimbra, criada em 1290, não nesta cidade, mas em Lisboa, não está entre as dez universidades mais antigas do mundo. Se considerarmos também as universidades árabes – que são frequentemente desprezadas como centros de cultura durante o tempo que corresponde à Alta Idade Média na Europa -, teremos, por ordem de antiguidade, a Universidade de Karueein (Fez/Marrocos), como a mais antiga, criada em 859 da Era Cristã. A esta, seguiram-se a Universidade de Al-Azhar (Cairo/Egito), 988, Bolonha (Bolonha/Itália), de 1088, Paris (Paris/França), de 1090, Oxford (Oxford/IOnglaterra), de  1096, Modena (Modena/Itália), de 1175, Cambridge (Cambridge/Inglaterra), criada em torno de  1209, Salamanca (Salamanca/Espanha), de  1218, Montpellier (Montpellir/França), de 1220, Padova (Pádua/Itália), de  1222, Napoles (Nápoles/Itália),  1224, Toulouse (Toulouse/França), fundada em 1229, Al Mustansirya (Bagdá/Iraque), de 1233, Siena (Sena/Itália), de 1240, Valladolid (Valladolid/Espanha), de 1241, Murcia (Múrcia/Espanha), de 1272, e, em seguida, Coimbra (Coimbra/Portugal), fundada em Lisboa em 1290 e transferida definitivamente para Coimbra somente em 1537, embora, por algumas vezes neste interregno, seguindo a corte, tenha funcionado nesta cidade.

A Universidade de Coimbra está, pois, no 17º lugar no cômputo geral – com as duas primeiras fora da Europa – e no 14º no cenário europeu, tendo surgido cerca de duzentos anos depois das quatro primeiras universidades do velho continente.

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Dizem alguns estudiosos do ensino superior que a Universidade de Coimbra surge quando a instituição universitária, que se originou de uma busca de liberdade de pensar dentro dos rígidos controles locais da Idade Média sobre as atividades que se desenvolviam em cada localidade, já estava se amoldando perfeitamente aos poderes que a mantinham. Com o tempo, inclusive, ela vai se instalar no Paço Real (1537), onde, segundo estudos, os romanos, em tempos remotos, teriam edificado o pretorium, o que já diz muito da importância estratégica e militar do local. Tendo sido estratégico durante a ocupação mourisca, foi com a conquista cristã que o lugar tornou-se o Paço Afonsino, que o Rei D. Manuel reformaria radicalmente, mandando também edificar a Capela de S. Miguel.

O edifício apenas passou a pertencer à Universidade em 1597, durante o domínio de Filipe II da Espanha sobre Portugal, após a morte de Dom Sebastião. É nesta época que nascem, ao lado do Paço, novas estruturas, dentre as quais a monumental Biblioteca da Universidade. Todo o conjunto foi reformado algumas vezes ao longo da sua história, sendo a atual biblioteca barroca do século XVIII, mandada construir por Dom João V.

As paredes da Biblioteca da Universidade de Coimbra (detalhe à esquerda)estão cobertas de estantes de dois andares, em madeira dourada e Coimbra3policromada e os tetos pintados, conferindo a todo o conjunto uma grande harmonia.

Contém cerca de 250 mil obras, de que se destacam exemplares de medicina, geografia, história, estudos humanísticos, ciências, filosofia e teologia, direito civil e canônico, essas duas áreas, aliás, as mais importantes por séculos. (ver, a seguir a Secular Faculdade de Direito).

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Coimbra é herdeira do Studium Generale (como eram chamados os lugares de formação intelectual autorizados pela Igreja Católica, a emitir documentos – jus docendi – atribuindo o direito de ensinar), solicitado ao Papa pelo Rei D. Dinis e por um conjunto de prelados portugueses em 1288. Conhecida como “a cidade dos estudantesâ€, sua Universidade tem aproximadamente 30 000 alunos, sendo cerca de 10% destes, oriundos de 70 nacionalidades diferentes, sendo assim a mais internacional das universidades portuguesas. Daí por que Coimbra somente é lembrada como cidade universitária.

Para fazer os estudos superiores, Coimbra foi, durante séculos, a morada de jovens de todos os cantos de Portugal, já que era a única universidade do país. Ainda hoje, apesar da existência de uma vasta rede de ensino superior por toda a nação portuguesa, Coimbra goza do prestígio herdado do passado.

Atingida seriamente pelas reformas educacionais feitas pelo Marquês de Pombal (segunda metade do Século XVIII), bem como pelas tropas francesas (início do Século XIX), Coimbra vai renascer na segunda metade do Século, recobrando a importância estratégica – naquela época de caráter militar – que teve na fundação da nação portuguesa. Sua importância, hoje, é intelectual, na construção da autosustentabilidade da nação no seio da comunidade europeia, já que os centros de produção de conhecimento são, nos dias atuais, indispensáveis.

Com a Universidade como referência inigualável ao longo de quase metade de sua existência, Coimbra deixa hoje de ser a formadora de bacharéis em direito para o mundo político, para se tornar referência de pesquisa em muitas áreas de ponta, inclusive no campo da saúde. Reduto das capas pretas centenárias de seus acadêmicos, a cidade junta modernidade e tradição, podendo ser, para nós, exemplo de superação do credencialismo que tem ali sua origem, para se tornar lugar de produção do saber, reconhecendo ser esta a função primordial da universidade contemporânea.

Boaventura

A referência intelectual da Coimbra dos dias de hoje

é Boaventura de Sousa Santos, sociólogo da contemporaneidade,

respeitado e estudado no mundo inteiro.

Coimbra traz, também, ao nosso imaginário, a trágica história de Inez de Castro,

sobre a qual deixarei que fale o imortal Camões no próximo post.

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