Primeiro, passo para você um link que conduz a uma entrevista recente do Carlos Guilherme Motta à Adriana Lopez, publicada em Valor Econômico – SP, 31/10/2008 – e que tem como tÃtulo “Presente nebulosoâ€.
http://www2.pv.org.br/noticia.kmf?noticia=7838100&canal=253
Se você leu a entrevista, atente para os comentários abaixo, feitos por meu filho, a propósito do que jamais se esperaria de um cientista social com a trajetória acadêmica do ex-professor da USP:
“Um bom exemplo de como a Academia pró-fernandista, especialmente alguns setores da USP e outras universidades paulistas, anda sem rumo ultimamente. Está na cara que esse, digamos, “paradigma” que consiste em buscar entender os novos fenômenos populares da América Latina, Lula principalmente, com os conceitos de populismo e caudilhismo operativos em relação à situação latino-americana e brasileira da primeira metade do século passado não tem sequer uma pista do que está acontecendo no momento e acaba reproduzindo o discurso atávico dos liberais brasileiros que fala de uma democracia perfeita – e sem povo. Figuras ilustres têm entrado nessa roubada, como Ruy Fausto, Gianoti entre outros, usando termos ambiguos e fazendo acusações vagas de “autoritarismo popular”, desinstitucionalização e por aà vai. Perderam completamente o rumo, enfim. Esse inacreditável discurso, infelizmente, é entusiasticamente reproduzido por muitos dos semi-letrados que escrevem as colunas dos nossos jornais, assim como aqueles que os lêemâ€.
É o meu garoto, dizendo o que subscrevo integralmente!
A segunda proposta, no campo da pedagogia polÃtica, é a seguinte: que tal ler Boaventura de Souza Santos e Antônio Candido sob a forma de manifesto?
É que foi divulgado no dia 22 de outubro passado, um manifesto de dezenas de intelectuais do Brasil e do mundo contra a CPI que pretende “investigar†o MST.
Essa, infelizmente, a grande imprensa “neutra e imparcial†não deu…

O lançamento do manifesto foi uma iniciativa dos próprios intelectuais, dentre os quais se podem destacar grandes pensadores internacionais, como Eduardo Galeano – Uruguai, István Mészáros – Inglaterra, Boaventura de Souza Santos – Portugal (foto à esquerda) e Michael Lowy – França, todos conhecidos de quem estuda a sério a educação e seus efeitos.
Dentre os signatários brasileiros, temos Antonio Candido (foto a seguir), Carlos Nelson Coutinho, Chico de Oliveira, Emir Sader, Gaudêncio Frigotto, José Paulo Netto, Leandro Konder, Luis Fernando VerÃssimo, Lucia Maria Wanderley Neves, Ricardo Antunes e Roberto Schwarz, apenas para citar os que transitam na área de polÃticas públicas e educação.

Veja alguns trechos do manifesto e faça seu julgamento dos fatos, mas, sobretudo, do silêncio dos grandes empresários da mÃdia nacional:
“As grandes redes de televisão repetiram à exaustão, há algumas semanas, imagens da ocupação realizada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em terras que seriam de propriedade do SucocÃtrico Cutrale, no interior de São Paulo. (ver foto baixo) A mÃdia foi taxativa em classificar a derrubada de alguns pés de laranja como ato de vandalismo.
Uma informação essencial, no entanto, foi omitida: a de que a titularidade das terras da empresa é contestada pelo Incra e pela Justiça. Trata-se de uma grande área chamada Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares. Desses 30 mil hectares, 10 mil são terras públicas reconhecidas oficialmente como devolutas e 15 mil são terras improdutivas. Ao mesmo tempo, não há nenhuma prova de que a suposta destruição de máquinas e equipamentos tenha sido obra dos sem-terra. (…)â€
Ainda, segundo o manifesto, ao viabilizar uma CPI contra o MST, “o foco do debate agrário é deslocado dos responsáveis pela desigualdade e concentração [das terras] para criminalizar os que lutam pelo direito do povo. A revisão dos Ãndices evidenciaria que, apesar de todo o avanço técnico, boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus donos alegam e estaria, assim, disponÃvel para a reforma agráriaâ€.
Desse modo, também segundo os intelectuais que redigiram e assinam o Manifesto, “o pesado operativo midiático-empresarial visa isolar e criminalizar o movimento social e enfraquecer suas bases de apoio. (…) A concentração fundiária no Brasil aumentou nos últimos dez anos, conforme o Censo Agrário do IBGE. A área ocupada pelos estabelecimentos rurais maiores do que mil hectares concentra mais de 43% do espaço total, enquanto as propriedades com menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7%. As pequenas propriedades estão definhando enquanto crescem as fronteiras agrÃcolas do agronegócio.
Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2009) os conflitos agrários do primeiro semestre deste ano seguem marcando uma situação de extrema violência contra os trabalhadores rurais. Entre janeiro e julho de 2009 foram registrados 366 conflitos, que afetaram diretamente 193.174 pessoas, ocorrendo um assassinato a cada 30 conflitos no 1º semestre de 2009. Ao todo, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicÃdio, 22 ameaças de morte e seis pessoas torturadas no primeiro semestre deste anoâ€.

O manifesto termina dizendo que “as ocupações objetivam pressionar os governos a realizar a reforma agrária. É preciso uma agricultura socialmente justa, ecológica, capaz de assegurar a soberania alimentar e baseada na livre cooperação de pequenos agricultores. Isso só será conquistado com movimentos sociais fortes, apoiados pela maioria da população brasileiraâ€, enquanto faz uma convocação a â€todos os movimentos e setores comprometidos com as lutas a se engajarem em um amplo movimento contra a criminalização das lutas sociais, realizando atos e manifestações polÃticas que demarquem o repúdio à criminalização do MST e de todas as lutas no Brasilâ€.
Da minha parte, eu, que também subscrevi o manifesto resumido acima, pergunto:
- Se até os Estados Unidos da América fizeram sua reforma agrária há mais de um século, por que no Brasil, quando se trata da posse e uso socialmente responsável desse meio de produção, ainda se está nos tempos de antes da Lei Ãurea, ainda no Século XIX? São os “temores pânicos†do tempo do cativeiro, de que tanto fala o Mestre Dirceu Lindoso.

