Por Ciça Azevedo
Especialmente acompanhada da adorável famÃlia Gusmão Verçosa, cujas principais caracterÃsticas me comovem sobremaneira: disponibilidade, generosidade, presença de alma e ausência de ego. Foi um enorme privilégio tê-los como companhia. Cobertos e recheados de cultura e erudição, foi uma delÃcia acompanhar os seus olhares para onde eles seguiam espontaneamente. Era só se deparar muitas vezes com um Ãnfimo detalhe e logo vinham as impressões, as explicações, a história, os longos excursus sobre os sÃmbolos (Portugal é cheio deles) que encontrávamos por onde passávamos, me proporcionando uma rara experiência educativa, para mim bem mais cara que as lições de simbologia que recebi na minha educação formal no curso de psicologia.
Venho tendo o privilégio de me acompanhar do Élcio amado em viagens; também já havia experimentado no ano passado a companhia do Elção, o dono desse blog pela França e Inglaterra. E desta vez pude desfrutar também da companhia da Ivanilda. Foi um bálsamo. Sua mistura de afeto, hiperbolia, generosidade e disponibilidade fez com que tivéssemos ótimos momentos de riso solto. Especialmente, ela sabe carregar um peso como ninguém. Dona Florzinha (como o Elcinho se refere a ela) é demais. Sempre com seus lanchinhos, sucos e água, balas e chicletes e também uma generosa bolsa de remedinhos.
Era incrÃvel ver o que saÃa de suas inúmeras bolsas e sacolas a nos matar a fome inesperada, a sede causada pelas comidas e doces ingeridos em excesso e para aplacar as dores por exagerar nas caminhadas subindo e descendo e também por ter comido e bebido demais.
Desde já, acho importante assumir a minha ignorância a respeito desse paÃs maravilhoso, sobre o qual até então eu só conhecia os mais tolos clichês. É por isso que, de alguma forma, eu intuÃa que a minha primeira viagem a Portugal tinha que ser como esta: na maturidade e, especialmente, acompanhada de gente bacana. Assim, lá fui eu. Sem expectativas. Mal sabendo o que estava por vir.

Portugal, como tem dito reiteradamente o Élcio em seus posts sobre a viagem, é de fato o berço de nossos antepassados e da mais doce melancolia. Aquela que existe por si só e não por nada. Portugal tem Alma. Alma velha e profunda. Alma impassÃvel à s mudanças dos tempos e revoluções da história, que por aqui não faltam. A alma de Portugal se basta a si mesma, o que parece incrÃvel de dizer a respeito de um povo tão aventureiro e viajador. Para um brasileiro é, de fato, uma aventura conhecer Portugal com a sua comida, seus vinhos, sua arquitetura, sua pintura, suas igrejas, sua música, suas quintas, estalagens, pousadas e hotéis de camas bem arrumadas, sua hospitalidade, seus doces, seus rios mÃsticos, seus palácios, castelos e mosteiros, sua lógica, estética e ética imperturbáveis – a alma portuguesa transborda e inunda a gente por meio de tudo isso.

Em Portugal, descobri que até a Decadência pode ser repleta de Alma. É tudo tão verdadeiro, parece que o paÃs se recusa obstinadamente a sucumbir ao plástico, ao sintético, ao industrializado, à praticidade que hoje parecemos tanto apreciar. Os lençóis, as toalhas, os cobertores, os embrulhos, os assentos e encostos das cadeiras e sofás, tudo em Portugal é de verdade, “desde 17….â€. Santa ignorância a minha. Eu nem sabia que o Renascimento português foi um dos mais belos do mundo.

Quem foi, sabe: o que é aquele Museu de Arte Antiga, na rua das Janelas Verdes? E os mosteiros dos Jerônimos, de Mafra, Alcobaça e Batalha? E as cidades ancestrais de Óbidos, Amarante, Guimarães, Tomar, Viseu, Braga e as incrÃveis Lisboa, Coimbra e Porto, cada uma com seu próprio espÃrito? E as pequenas aldeias, então, que visitávamos com a intenção de comer leitões, bacalhau, doces elaborados com exuberância de açúcar e ovos, e onde, após almoços transcendentais, ao fazer o obrigatório quilo, descobrÃamos, sempre, uma igreja ou capela, ricamente adornada de ouro/barroco/ouro, cada uma com seu santo/mártir/padroeiro e séculos de história a nos encantar?

O que dizer, agora, das cerâmicas, porcelanas, faianças, cada uma mais linda que a outra?
E os azulejos?…

O pequeno e pobre Portugal (segundo os parâmetros modernos) é tão grande e tão rico das coisas que importam, que seria necessário um livro, e não um post, para dar uma idéia do que acontece por lá.
Lá pelo terceiro dia de viagem, tomada por um estado de espÃrito que ia pouco a pouco alterando meu olhar para todas as coisas da Vida e da minha vida em especial, eu já não sabia se tudo aquilo que eu sentia vinha de dentro para fora (velhos arquétipos que emergiam dos meus antepassados), ou de fora para dentro, da inundação que a bela e triste alma portuguesa promove na pequena alma da gente. Simplesmente re-conhecia tudo. E em tudo era o povo português que eu reconhecia no que via e sentia. Um povo que se acostumou, aceitou, compreendeu a tristeza inerente em sua alma e disso tirou frutos de uma beleza única, singular. Não há amargura na profunda tristeza portuguesa, a tristeza portuguesa é doce como a sua infinidade de produções conventuais. Até a beligerância, a falta de paciência, tipicamente européia, é doce no português. Por vezes é, inclusive, engraçado vê-los bravos, irritados. Logo se percebe que não é preciso levar a sério ou tomar como algo pessoal. Eles são assim mesmo. São como são. Nós, brasileiros, sempre tão tensos e ansiosos para achar uma definição racional de nós mesmos, na nossa eterna e infrutÃfera busca de identidade, temos muito que aprender com os portugueses nisso aÃ. Eles podem não se considerar grande coisa – a autopiedade é um sentimento muito tipicamente português – mas eles sabem muito bem o que são. É preciso ir até lá e viver Portugal plenamente para saber avaliar a importância que isso tem.


