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Paraíso recuperado?

segunda-feira, março 29th, 2010

Do ponto de vista mercadológico, Maceió é apresentada como o paraíso das águas, epíteto que cabe bem para todo o litoral de Alagoas e, consequentemente, para Porto da Rua, distrito do município de São Miguel dos Milagres, no litoral norte.

Isso foi verdade por muitos anos, tanto do ponto de vista da prodigalidade divina com a natureza, quanto no que dizia respeito à paz para desfrutar do silêncio e da tranquilidade de um meio quase integralmente natural…

Frequentando Porto da Rua desde minha meninice, quando meu pai levava toda a imensa família para ali veranear – vivendo nós, permanentemente, em Porto Calvo -, depois de constituir família terminei adquirindo um terreno e construindo uma casa bem pertinho da praia, entre o cruzeiro e a Rua Bom Jesus – hoje chamada Rua Aderbal da Costa Raposo, em homenagem a seu Badu, grande político daquela região nos anos de 1950 e 1960.

O terreno adquirido em Porto da Rua, nos idos de 1975 – há 35 anos, portanto -, era, na verdade, uma casinha de taipa de uma senhora, que estava em ruínas, e que seu Benetido Marques, tio de Ivanilda e enfermeiro da SUDAM, que prestava seus valiosos serviços aos nativos da região – na verdade, que dedicou toda sua vida àquela gente, sem o devido reconhecimento dos poderosos – conseguiu-nos para compra. Foi ali que passamos, pela primeira vez, o carnaval, em 1977, com a casa ainda em construção…


Animado ao máximo, esse e os carnavais que se seguiram foram memoráveis: brincava-se até o limite da resistência, recebíamos, em nosso alpendre, as Caboclas – brinquedo carnavalesco da região, que era um misto de Baiana, Samba de Matuto e Reisado -, corríamos atrás dos blocos formados pelos nativos…, terminando o dia com o baile oficial que se realizava ao lado da casa de seu Badu, bem em frente ao Cruzeiro…


O barulho ensurdecedor dos bailes que iam do sábado à terça-feira gorda  incomodava muito o meu primo Vavá, casado com Delinha, filha de seu Badu, e seus hóspedes, mas tinha hora de começar e de terminar… Era uma folia que fazia parte das regras carnavalescas (claro que dentro dos parâmetros em que se pode aprisionar a bagunça inerente ao Cranaval).

Mesmo quando o Zé Cícero construiu o clube em frente a minha casa, a barulheira que infernizava as noites do Vavá e que passou a infernizar a mim, aos meus parentes e convidados, tinham ainda os limites que permitiam encontrar no carnaval de Porto da Rua diversão e felicidade… Mesmo o brutal assassinato do Buiuia, pescador do povoado, no carnaval de 1982, que perturbou a folia no ano do acontecido e nos carnavais seguintes, não conseguiu abolir a felicidade que era ir passar o carnaval em Porto da Rua!

Mas, eis que sorrateiramente, foram chegando os “trios-elétricos de babaca†– aquela invenção infernal que foi produzida pela junção entre o avanço da eletrônica e a estupidez dos novos ricos ou de uma certa chusma de marmanjos – graças a Deus, as mulheres, na sua busca por afirmação, ainda não descobriram essa insanidade – que, em bandos cada vez maiores, assumiram como projeto de vida poluir a paz dos justos. É verdade: inconscientes de que o equilíbrio ecológico implica também a não poluição do éter – afinal nossos ouvidos não são penicos – os portadores de algum prejuízo psíquico, sentem-se à vontade para jogar em nós, sem pedir licença, um lixo sonoro que chamam de música… Se fazem isso descaradamente em tempos comuns, imagine em tempos de carnaval… E Porto da Rua, nesse particular, virou paradigma: nos últimos dez anos; então, o Paraíso virou o reino de Lúcifer, a ponto de eu e Ivanilda termos abdicado da grande felicidade de passar Natal, Ano Novo e, sobretudo, o Carnaval em Porto da Rua! E isso não se deveu, hora nenhuma, a nossa aversão aos festejos de Momo: tanto que há três anos fugimos para Recife, cidade carnavalesca como nenhuma. É que gostamos de irmos atrás do Carnaval, e não de termos um certo tipo de Carnaval imposto a nós, a ponto de se instalar, sem trégua, no centro do quarto em que dormimos, de uma forma impossível de aceitar: é que esses poluidores da paz dos justos reivindicam o direito de produzirem seus ruídos em nome do direito público… “Afinalâ€, dizem eles, “a rua é pública!†Pobres almas: não são capazes de imaginar que, sendo a rua (e o ar) públicos, são meus, tanto quanto deles, sendo o seu uso algo condominial, que precisa do assentimento de todos!


Porto da Rua, como todos os espaços urbanos instalados na foz dos rios, pelos portugueses, nos tempos coloniais, como entrepostos para abastecer os engenhos estabelecidos nos vales úmidos dos rios de toda a região açucareira nordestina, foi se degradando por séculos: com as águas poluídas e os mangues e bancos de corais espoliados pela presença humana, seria necessário que também se poluísse o ar e se infernizasse a vida de quem procura um lugar para repousar do burburinho urbano?

Será que, além das condições precárias de acesso, por conta da má conservação das estradas, nem mesmo a construção de pousadas e o desenvolvimento de um turismo que busca o que ainda se preserva natural no ambiente físico, tenha que amargar a poluição sonora que empesta Porto da Rua, como as demais cidades do litoral norte?

Com certeza a resposta é NÃO!!! Somente que a solução não veio, como não virá dos gestores municipais: temos em Porto da Rua, da parte dos administradores municipais (como dos legisladores) uma compreensão de festa e evento que não se coaduna com a idéia de urbanidade, de convivência civilizada, muito menos de direitos públicos! E o Paraíso Perdido, como fica?!

Pelo que aconteceu nesse Carnaval, John Milton que me permita o plágio, penso que existe ainda concretamente a possibilidade de um Paraíso Recuperado: fugi para Recife, mas, pelo que me disseram Catarina, minha filha e outras pessoas do nosso núcleo familiar, o Juiz GUSTAVO SOUZA LIMA fez valer o interesse coletivo durante todo o Carnaval, e não somente em Porto da Rua. Fazendo uma dobradinha com a Promotora ILZA PAIVA, o Doutor Gustavo fez a polícia cumprir sua obrigação de velar pela paz pública: em lugar de uma regra infame, dita a mim e a quem se incomodava com a imposição dos barulhos impertinentes dos “trios elétricos de babacaâ€, que “os incomodados que se mudassemâ€, o juiz, como autêntico operador do direito coletivo, fez com que se mudassem os que incomodavam… Por isso tudo, dá para acreditar que a boa convivência urbana ainda é possível em Alagoas! Parabéns, Dr. GUSTAVO SOUZA LIMA! Torço para que o senhor chegue logo a desembargador! Mas, enquanto isso não acontece, que Deus o mantenha na comarca de Porto de Pedras até que se torne senso comum essa regra de que a paz é um direito de todos, inclusive dos turistas – em cuja categoria não me incluo, já que sou morador do lugar, o que, nem por isso, me tira do rol dos titulares do direito de desfrutar desse “PARADISE REGAINED†em que se tornou Porto da Rua! Creio que, inclusive, nessa Páscoa, já que, em anos passados, até a Sexta-Feira da Paixão foi profanada por bebedeiras e muito trio-elétrico!


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De 30 de outubro a 08 de novembro – quero ver você lá!

sexta-feira, outubro 23rd, 2009

LOGBIENAL

Nesse acontecimento inventado pela minha querida amiga LEDA e tocado com muito sucesso por outra pessoa a quem quero muito bem – refiro-me à SHEILA MALUF – ambas competentíssimas em tudo o que fazem, quero comentar, já antes do começo da BIENAL, dois livros que vão ser lançados ali e dos quais participei diretamente… Por enquanto, vamos ao primeiro…

Sobre este trabalho é importante dizer que faz um bom tempo que a maioria dos educadores brasileiros – diferentemente de muitos gestores das coisas públicas, inclusive da Educação – está convencida de que o acesso à educação letrada, com sucesso, encontra-se para além do simplesmente pedagógico. Claro que a nós, que somos profissionais do ensino, competem formação, desenvolvimento e responsabilidade profissionais, no mais alto grau e com a maior solidez possíveis. Isso é verdade, sobretudo, frente aos usuários da escola pública, já que esta é um dos principais instrumentos para sua mobilidade social. Daí porque este estudo da autoria de LAUDIREGE FERNANDES LIMA, professora e reitora da UNEAL, assume um vulto desmedido: afinal, sabendo os educadores – e, ainda mais, os gestores públicos – que vaga na escola e matrícula no início do ano não são garantia da tão propalada UNIVERSALIZAÇÃO DO ENSINO, cuidar das políticas que seguram a criança e o adolescente na escola é fundamental, se o negócio é contar vitória. E, nesse particular, que condição é tão primordial quanto a garantia de alimentação adequada, de preferência em casa, mas, quando não ali, pelo menos na escola?

É, pois, nesse sentido, que este trabalho se torna leitura obrigatória para profissionais que lidam com políticas públicas – não somente de educação: tendo superado o conceito de “merenda escolarâ€, ele exibe o faminto real, de carne e osso, que está em nossas escolas, além de indicar razões por que a política pública de alimentação escolar não consegue mudar. Temos, neste livro de uma ex-professora e ex-diretora de escolas básicas públicas, sem dúvida, um libelo contra a fome, digno da tradição dos estudos de Josué de Castro. Por isso, insisto, sua leitura é obrigatória, pois, frente aos discursos de tempos de campanha eleitoral, ele diz para a sociedade que chegar a um IDEB de primeiro mundo exige mais do que remédios simplesmente pedagógicos, ou mesmo de excelência de gestão no chão da escola… É ler para ver…

LaudiregeIMAGEM

Em torno da pesquisa que deu origem a esse livro teremos, durante a BIENAL, na SALA JOSÉ MARQUES DE MELO , no dia 7 de novembro, das 14h às 17h, a Mesa-redonda: “Alimentação e escolarização como direitos humanos fundamentais: uma discussão a partir da merenda escolarâ€.

DEBATEDORES: a autora do estudo, Laudirege Fernandes Lima e Maria de Fátima M. de Albuquerque, nutricionista, doutora em Antropologia e Pós-Doutora em Direitos Humanos. Eu estarei coordenando os trabalhos e dando meus pitacos, é claro!…

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