Quando eu era bem menino – no ano de 1949 – Alagoas experimentou uma enchente que causou grandes tragédias para a época: foi quando, até o Farol de Maceió, que ficava por trás da Catedral, veio abaixo, com toda a barreira que se estende daquele ponto até quase a antiga Rodoviária. Segundo Carlito Lima, a tragédia contabilizou mais de 50 mortos, como você poderá ver em pormenores em http://meninosdaavenida.blogspot.com/2009/05/as-aguas-de-1949-por-carlito-lima.html e de cujo blog retirei a foto que segue:
Se você não está conseguindo reconhecer a foto acima, eu lhe digo do que se trata: os trilhos retorcidos são do bonde e a ponte em ruÃnas é a do Salgadinho, arrastada pelo riacho do mesmo nome.
Lá para as bandas de Porto Calvo – onde eu vivia – os estragos dessa cheia de 1949 não foram tão grandes, até porque naquela época os centros urbanos do interior eram menores, havia casas pobres, mas, não as favelas de hoje e quase ninguém morava nas margens dos rios.
Afinal, Porto Calvo, então, resumia-se, praticamente, ao núcleo urbano que existia encarapitado no alto do morro, presidido pela igreja de Nossa Senhora da Apresentação.
Pois bem: aquela cheia, segundo praticamente todos os portocalvenses da época – inclusive correligionários do prefeito -,  teria rendido ao filho deste um avião. Era um teco-teco, é bem verdade, mas, inacessÃvel praticamente a todos os ricos, usineiros, inclusive. O avião em questão ficou conhecido, por muitos anos, como “o avião da cheia  Eu voei naquele avião – devia ter uns oito anos – cujo dono foi muito conhecido em Alagoas e acabou morrendo assassinado devido a sua truculência com os desafetos. Esse é o primeiro fato de que fui testemunha: se ele não é de todo verdadeiro, pelo menos é indicativo de que, por trás das catástrofes alagoanas costuma haver algo que cheira a podre…
•••••
Segunda historieta: entre o Natal e Ano Novo do ano que se foi estive em Portugal e tive o prazer de andar, pela segunda vez, por todo o trecho lusitano do vale do Douro.
Essa viagem entra aqui porque nos meses de dezembro e janeiro em Portugal chove sem parar. Neste final de ano de 2009 as ameaças de cheia povoavam a grande mÃdia: esperava-se alagamento, sobretudo, no Peso da Régua e nas cidades do Porto e Vila Nova de Gaia, que ficam na foz do dadivoso, mas também perigoso rio Douro. Pois bem: circulando pelas margens desse rio, escutei mais de um patrÃcio dizer em bom português: “Infelizmente, tenho de reconhecer que essa cheia do Douro é portuguesaâ€. E eu, estranhando a frase, perguntava se aquilo era mais um produto do pessimismo lusitano, ao que os meus interlocutores diziam, com outra pergunta: “O senhor, por acaso, está escutando estragos do Douro na Espanha, onde fica a maior parcela do curso do rio? Lá, eles já domaram o rio, enquanto nós o deixamos ao sabor dos caprichos da naturezaâ€. (Corte) – Passemos agora para a terceira sequência.
•••••
Não é de hoje que nos defrontamos com a fúria dos rios ParaÃba e Mundaú ou de seus aparentemente inofensivos afluentes. A destruição de São José da Lage, em 1969, ainda está clara em minha cabeça. Há cerca de dois meses encontrei com Joaquim Alves e recordamos ligeiramente a migração dele para Maceió por conta daquela catástrofe. Ele chegou um dia na minha sala de aula como flagelado: era um tempo em que não dava para dizer que a ocupação do solo ribeirinho era do modo como se faz hoje – o rio levou a Lage, com sua igreja Matriz e boa parte das casas das pessoas de melhor nÃvel econômico…
Pela Geografia, sabemos que os rios de Alagoas terminam, por si sós ou por meio de outros de que são tributários, correndo para o Oceano Atlântico por duas vertentes: a do São Francisco, cujos rios costumam ser temporários, e a vertente Oriental ou do Atlântico, que correm diretamente para o mar ou para as lagoas. Destes, fazem parte os rios que causaram as enchentes deste mês de junho. Eles são o terceiro (Mundaú) e o quarto (ParaÃba), contando de cima para baixo. Talvez o que a maioria não saiba é que, dos maiores rios dessa vertente – e de todo o Estado, na verdade – o Mundaú é o maior, com 190 Km, seguido do ParaÃba. Eles só perdem em extensão para o velho Chico.
Ambos – Mundaú e ParaÃba – nascem no Agreste Pernambucano e vêm descendo por seus leitos entre serras, com cachoeiras significativas, como a de Dois Irmãos – na divisa dos municÃpios de Viçosa e Cajueiro, cuja beleza podemos ver a seguir:
Já imaginaram a carreira e a força das águas deixadas à toa, quando os aguaceiros se precipitam nas épocas em que isso acontece quase que regularmente? Já pensaram se a chuva aumentar como esses rios tendem a se comportar? Agora, esses rios, que têm em suas imediações inúmeros açudes, são fiscalizados regularmente? Os próprios açudes são feitos com licenças ambientais e de engenharia adequadas? O que tem sido feito em relação às matas ciliares devastadas há décadas? E quanto ao assoreamento desses rios que,nos tempos de estiagem, deixam ver boa parte de seu leito?
Se considerarmos o tratamento que vem sendo dado ao açude de Palmeira dos Ãndios, que, segundo todo mundo, está prestes a ser arrombado pelas águas, veremos que não temos nenhuma polÃtica para os recursos hÃdricos – nem de controle das catástrofes, quanto mais de gestão das águas. Estamos como os portugueses do belÃssimo Vale do Douro: lamentando a cheia de ontem na vertente Oriental e a seca de quase sempre na vertente do São Francisco.
Isso que eu estou dizendo – mas a que a imprensa quase não se refere, até as crianças sabem a seu modo: sábias as palavras de um menino de cerca de oito anos, que ouvi numa matéria da TV: “a culpa dessa cheia não é de Deus, nãoâ€, disse ele; “é das águas mesmo!â€. O que parece uma tautologia é, na verdade, pura filosofia do senso comum.
•••••
Vou terminar esse post de hoje pagando uma dÃvida com um leitor meu - o Alessandro – que em seu comentário de 13.05.2010 alertou-me para um erro de imagem: eu tinha postado uma foto de outro estaleiro que não o de Suape. Como sempre fui professor de dar a mão à palmatória quando me engano e de buscar a resposta certa demandada por qualquer aluno, segue abaixo a foto verdadeira do navio “João Cândidoâ€. (Fonte: Carta Capital).
A figura do presidente Lula vai junto porque, afinal, diferentemente das velhas polÃticas de dotar o Nordeste de indústrias sempre complementares ao projeto de desenvolvimento do Sul e do Sudeste, ele é aquele quem, contra tantas vozes disfarçadas que o criticam, começa a realizar o projeto embutido na velha Sudene, ou seja, dotar nossa região de indústria de base e, assim, agregar ao que temos e elaboramos, o valor que antes ia para as outras regiões, quando não para o exterior.
•••••
Finalmente mesmo: mais um retorno aos meus leitores. Obrigado ao Ricardo Leal por observar que a foto é da seleção de 1958. É a de nossa primeira copa e o erro é, de fato, por todas as razões, imperdoável.





































 







