capa | geral | polícia | política | entretenimento | esportes | mundo | economia | concursos | tecnologia | contato | | | | rss
elciovercosa

- Enviar para um amigo

Você já viu um caçador de livros?

03/03/2010 - 21:51 -

Tenho certeza de que você deve conhecer pessoas que são devoradoras de livros – verdadeiras “traças” -, como também deve ter visto ou ouvido falar de escritores, amantes, guardadores ou zeladores de livros. Pois, infelizmente, acaba de falecer um “caçador de livros raros”, em risco de extinção, um cidadão no verdadeiro sentido da palavra – até porque sempre lutou pelos direitos e pela liberdade. No interesse da sociedade, ele caçava livros, além de amá-los, guardá-los e por eles zelar.

Refiro-me ao  megaempresário aposentado José Mindlin, que, acima de tudo, era, literalmente, um bibliófilo…

Mindlin morreu, no último domingo, dia 28 de fevereiro, aos 95 anos de vida bem vivida, após internação, por cerca de um mês, no hospital Albert Einstein.

 
 

Colecionador de livros desde a puberdade, Mindlin formou uma das mais importantes bibliotecas privadas do país, doada para a Universidade de São Paulo,  em 2006, e que,assim, foi colocada ao alcance do público, levando o nome de  Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. O nome foi uma homenagem da USP ao bibliófilo e a sua mulher, Guita Mindlin, que morreu no mesmo ano da doação.

Entre as raridades que foram doadas encontram-se, entre outras, o primeiro livro em que o Brasil foi mencionado numa coletânea de viagens de Fracanzano da Montalbodo, de 1507, que noticia a viagem de Cabral, além de obras de história, periódicos, trabalhos científicos e didáticos, álbuns ilustrados, gravuras e edições valiosas de grandes obras da literatura, muitas em primeiras impressões e volumes autografados pelos próprios autores.

Em busca de depoimentos sobre Mindlin, encontrei, a esmo, o de Fernanda Zaffari, em seu blog: segundo ela, “sempre é interessante se aproximar de personagens com vidas diferentes da nossa – mesmo que seja apenas por alguns instantes. Melhor ainda se este personagem é especial. Em 2004 tive a oportunidade de entrevistar José Mindlin. Fui em busca de uma conversa com o dono da biblioteca recheada de raridades. Saí da entrevista enfeitiçada. Falou-se de livros, mas falou-se mais ainda de vida, de amor, de cultura, de casamento, de objetivos de vida, enfim, uma conversa que guardo como um dos momentos mais marcantes da minha profissão.  Nunca esqueci. De volta a São Paulo, Mindlin se mostrou ainda mais encantador. Trocamos correspondência (sim, enviei uma carta). Mandei livros de autores gaúchos e ele me presenteou com um livro de dedicatória doce e uma cartinha que comprovava que a primeira impressão que tive dele é a que deveria ficar. Mindlin era especial”.

Se continuasse procurando outros testemunhos, teria textos iguais ou mais elogiosos deste homem extraordinário, cuja intimidade já conhecia por ouvir minha orientadora de mestrado, Maria Lúcia Montes, falar enlevada, muitas e muitas vezes, por conta da convivência com ele, sua mulher e sua filha. E olhe que Maria Lúcia, por conviver com o meio cultural paulista, conhece toda essa gente que coleciona obras de arte e é tida e havida como promotores da cultura, sendo assim uma testemunha qualificada para falar desse povo.

O fato é que, para além da tarefa de preservar os maiores relicários da cultura e da arte – refiro-me aos livros de papel, que são ainda as media mais confiáveis e perenes -, José Mindlin doou, ainda em vida, cerca de 17 mil títulos, ou 40 mil volumes da coleção de toda uma vida. Assim, diferentemente da maioria dos seus concidadãos ricos, ele colecionou em prol do interesse público. Somente quem já teve coleção é que sabe o que é doar um elemento sequer do que foi coligido…

Pois, por mais admirável que seja a existência deste mecenas entre os milionários brasileiros, o inacreditável é que ele somente teve o reconhecimento da Academia Brasileira de Letras, que deve ser a casa dos homens e mulheres dos livros, com mais de 90 anos de idade, visto que somente em 2006 é que ele foi eleito como um dos seus membros. Coisas dos “sodalícios” que vicejam, aqui e acolá, por todo esse imenso Brasil… Que viva sempre, o imortal José Mindlin, menos por ter sido dono da Metal Leve ou membro da ABL, e mais pelo que, de fato, fez pela arte e pela cultura nacionais!

PDF Download    Enviar artigo em PDF para

5 Comentários para “Você já viu um caçador de livros?”

  1. Maria das Graças Marinho de Almeida

    Ah! Elcio
    Segunda-feira passada assisti à reprise de uma entrevista com esse grande brasileiro no programa Roda-Viva. Ele contou, com ricos e interessantes detalhes, uma das caçadas que empreendeu em busca de uma obra rara. Ele não media distâncias geográficas e nem relutava em investir grandes quantias quando se tratava de adquirir uma obra que o interessava. Além, disso, foi um homem comprometido com os ideais democráticos. Conforme relatou na entrevista, quando foi Secretário da Cultura de São Paulo, levou Vladimir Herzog para trabalhar na TV Cultura, em plena ditadura. José Mindlin deixa realmente um grande patrimônio para a humanidade. Que a USP cuide desse acervo com a responsabilidade de quem cuida de verdadeiras relíquias e que o seu exemplo seja seguido por outros empresários!

  2. Pollyana

    Pessoas como ele deveriam ganhar prêmios! Fico muito orgulhosa! Quero ser assim qdo eu crescer.

  3. Cláudia Muniz do Amaral

    Élcio, com todo respeito, você arrasou na foto, tá lindo!!!
    Quanto ao José Mindlin devo dizer que fiquei impressionada com a reportagem, com a cultura dele, com a dedicação a leitura e com o tamanho da biblioteca. Gostaria muito que esta doação tivesse sido feita ao Estado de Alagoas e ficasse aberta ao público, cotidianamente, só assim conseguiríamos mudar o nosso Estado.
    Cláudia Muniz do Amaral

  4. Maria Inez Matoso Silveira

    Olá, Élcio

    Diante dessa maravilha que é a biblioteca de José Mindlin, com obras raras e que foi acolhida pela USP, e também a nova biblioteca que foi criada em São Paulo, no local onde foi a Prisão do Carandiru, a gente fica pensando na Biblioteca Pública de Maceió que nunca mereceu um tratamento sério, uma expansão, um cuidado, uma divulgação de obras importantes do seu acervo. Bibliotecas escolares, nem pensar! É lamentável o descaso que se tem em Alagoas pelas questões culturais. Maceió não tem uma livraria decente. Também os leitores estão diminuindo. As bancas de revistas mais antigas estão registrando uma queda considerável nas vendas de jornais. Há pouco li uma reportagem na Gazeta sobre isso. As bancas estão vendendo sorvete e bugigangas pra sobreviver. Ilude-se quem pensa que as pessoas estão lendo mais na tela. Pelo menos entre o mais jovens, o negócio é “clicar” e não busar textos interessantes pra ler. Além disso, há a ditadura da imagem. De fato, a televisão tira muito das pessoas a oportunidade de ler.
    Mas, vamos deixar esse muro de lamentações pra lá … Da minha parte, continuarei sempre incentivando as pessoas a ler, a criar minimanente aquilo que Roland Barthes chamou de “prazer do texto”. Inventei uma tal de Seleta em Prosa e Verso que utilizo nas minhas turmas de Pedagogia e parece que a ideia deu certo. É uma coletânea de quase 100 exemplares de gêneros textuais escritos diversificados, lierários e não-literários, lúdicos, jornalísticos e de vulgarização científica. Pelo menos já ouvi algumas alunas dizerem que chegaram a ficaram com lágrimas nos olhos ao ler o conto Negrinha de Monteiro Lobato, e também acharam graça em alguns “causos”.
    Ainda bem, né!

    Grande abraço,
    INEZ.

Trackbacks

  1. Tweets that mention Elcio Verçosa » Você já viu um caçador de livros? -- Topsy.com

Comente Agora

Código de segurança: