Em Alagoas não tivemos a candidatura de alguém aparentado com o Tiririca, mas nem por essa razão as eleições proporcionais deixaram de ter forte sabor de retrocesso político. Principalmente na Assembléia Legislativa, para onde retornaram ou enviaram seus filhos ou familiares próximos, todos ou quase todos os deputados envolvidos, omissos ou coniventes com os escândalos que abalaram o legislativo alagoano e que até agora permanecem completamente impunes. Ah! E nessas eleições premiados por uma boa quantia de votos de duvidosa procedência.
Na raiz do retrocesso, como já foi pontuado, não tivemos como característica emblemática, como no caso de São Paulo, um palhaço profissional capaz de transformar o processo eletivo em picadeiro de circo e se tornar o maior puxador de votos do Brasil. Aqui, em Alagoas, a coisa foi mais bruta. Ao invés do circo, o abuso direto do poder econômico e uma descarada manipulação da opinião pública, que resultou, inclusive, na derrota eleitoral de Heloísa Helena, até então uma incontestável campeã de votos livres.
Heloísa e outros candidatos que fizeram da honestidade a marca principal de suas trajetórias na vida pública, foram vítimas, dentre outros fatores, de um discurso medonhamente rasteiro e absolutamente mentiroso, que nivela por baixo a campanha eleitoral. Esse discurso pode ser resumido na ladainha enfadonha do “trazê ricurso”, uma retórica grosseira, mas eleitoralmente eficiente em sociedades politicamente atrasadas e com populações dramaticamente carentes.
De repente, muitos candidatos se converteram em padrinhos e madrinhas de aeroportos, centros de convenções, estradas, pontes, conjuntos habitacionais e uma miríade de obras pagas com dinheiro público resultante dos impostos recolhidos pelos alagoanos e alagoanas que realmente trabalham. Dinheiro que sai de Alagoas para Brasília e que retorna porque pertence ao povo alagoano de fato e de direito, ainda que atravessadores oficiais insistam em assumir a sua paternidade.
Na realidade, porém, não passa de benemerência com chapéu alheio essa idéia massificada pelo fisiologismo que atribui a deputados federais e senadores a falsa condição de benfeitores, quando em verdade são meros delegatários dos contribuintes, eleitos para desempenhar, dentre muitas outras mais relevantes, a função rotineira de acompanhar e, quando necessário, garantir as transferências orçamentárias a que Alagoas tem direito.
O discurso do “trazê ricurso” é, portanto, uma fraude ideológica que trabalha a infantilização do eleitorado e o abastardamento das campanhas eleitorais, transformadas em marketing político de péssimo gosto, inibidor do verdadeiro debate dos problemas que afligem a população e das questões estratégicas para o futuro da sociedade. Associada à compra de votos, essa fraude se converte em verdadeira tragédia institucional, fazendo com que, a cada eleição, caia, ainda mais, a já péssima qualidade de nossa representação parlamentar.
Ao invés de parlamentares com ética, competência, formação política adequada e representatividade para debater os grandes problemas do país e do Estado de Alagoas, sobretudo no contexto dos grandes desafios do século que se inicia, teremos, mais uma vez, salvaguardadas as exceções, muitos despachantes de luxo, que se lixam para os temas decisivos da nacionalidade e se dedicam exclusivamente ao jogo mesquinho do fisiologismo.
Aliás, um fisiologismo que se torna cada vez mais incompatível com a dinâmica de um país tão grande e tão complexo como o nosso, incompatibilidade que somente se resolverá se a cidadania for capaz de impor ao Congresso Nacional, a partir do clamor das ruas, a inadiável reforma política, eleitoral e democrática que o Brasil tanto precisa.

