Reproduzo neste blog o discurso que pronunciei durante a solenidade de entrega do título de Doutor Honoris Causa, da Universidade Federal de Alagoas, ao grande cientista social alagoano Dirceu Lindoso, no último dia 25 de março, no Espaço Cultural da Ufal. Na sequência, divulgarei as demais falas proferidas nesta justa homenagem que a academia alagoana fez a esse que é, sem dúvida, hoje, o maior intelectual vivo das Alagoas! Quem quiser maiores detalhes da homenagem, deve acessar o site da Ufal: www.ufal.gov.br
DIRCEU LINDOSO
(Discurso pronunciado por Anivaldo Miranda durante a solenidade de entrega do título de Doutor Honoris Causa da Ufal, no Espaço Cultural, Praça Visconde de Sinimbu em Maceió, AL, no dia 26 de março de 2011)
Sem dúvida estamos todos vivenciando hoje um dia muito especial. O dia em que o povo de Alagoas começa a saldar uma grande dívida de gratidão. E o que é mais importante: é que começa a saldar essa dívida pela maneira mais apropriada e através do conduto mais legítimo para fazê-lo.
Refiro-me, como todos bem sabem, à nossa dívida comum para com o cientista social Dirceu Lindoso, que hoje recebe das mãos da Magnifíca Reitora Ana Dayse o merecido título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Alagoas, a instituição mais qualificada e mais apropriada para fazer o reconhecimento público da inquestionável importância e do grande valor científico da obra de Dirceu.
Ressalte-se, porém, que a Universidade Federal de Alagoas não se limitou hoje apenas ao reconhecimento da obra de Dirceu. Foi mais além e, por isso, torna-se porta-voz privilegiada do povo alagoano, quando, além do cientista, homenageia também o homem, o profissional, o militante político e o grande cidadão alagoano que é Dirceu Lindoso.
É em função dessa homenagem ao cidadão político Dirceu Lindoso que estou aqui, atendendo a honroso convite dos organizadores desta solenidade, para falar um pouco da trajetória política de Dirceu com quem compartilhei muitos anos de militância clandestina no antigo Partido Comunista Brasileiro, o PCB, e da resistência ao regime militar.
Muitos não sabem mas, para além e até antes de sua longa e produtiva vida de estudioso, Dirceu conseguiu ser aquilo que o italiano Antonio Gramsci caracterizaria como um intelectual orgânico, ou seja, aquele que não apenas produz teorias e reflexões sobre a realidade social, mas também participa ativamente do processo de materialização e comprovação dessas teorias com olhos voltados para a transformação da sociedade.
Em outras palavras, com isso quero lembrar que Dirceu foi buscar inspiração e material para sua criatividade científica, em boa parte na
militância política que teve como membro do Comitê Estadual do PCB, no final da década de 1950 e início da década de 1960, em Alagoas, quando o partido estava sob a direção de Jaime Miranda.
Aliás, esse foi talvez o período de maior ebulição política em Alagoas durante todo o transcorrer do século XX. Essa ebulição política encontra sua explicação no fato de ter sido a primeira vez na história de Alagoas em que as chamadas classes representativas do mundo do trabalho intervieram com um consistente projeto de mudanças econômicas e sociais na arena política alagoana.
Fruto de intelectuais engajados como Dirceu, os movimentos sindical, estudantil, dos trabalhadores rurais, as associações representativas dos profissionais liberais e formadores de opinião constituíram o maior movimento de massas em favor de mudanças democráticas e de rupturas sociais que Alagoas jamais conheceu.
O golpe de Estado representou um profundo corte nesse rico e inigualável processo. E Dirceu, como tantos outros líderes daquele movimento, pagaria caro, muito caro, por sua ousadia socialista.
Preso em 1 de abril de 1964 pela polícia política de Alagoas, Dirceu fez parte da legião de centenas e centenas de pessoas, homens e
mulheres, que foram encarceradas pelos agentes do regime militar e fez parte, também, da última leva de presos políticos a serem libertados 9 meses depois.
Exilado no Rio de Janeiro, Dirceu manteve-se clandestinamente como membro do Comitê Central do PCB até os anos da anistia política, combinando essa condição de resistente político, cheia de riscos e enormes tensões
pessoais, com suas atividades profissionais de professor que foi da Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro, e colaborador do Museu Nacional e do Museu Imperial de Petropólis.
É aqui que ressalta ainda mais o valor desse grande e corajoso intelectual, porque apesar do grande preço pessoal que pagou como cidadão e democrata pelo fato de lutar contra a Ditadura, ainda assim teve força incomum para escrever a sua maravilhosa obra. Sinceramente, não é positivamente fácil ter determinação e autocontrole para produzir intelectualmente no contexto das perseguições, riscos, intimidações e perigos que cercavam aqueles e aquelas que ousassem criticar e fazer oposição ao regime militar fascista que se implantou no Brasil.
O melhor de tudo é que essa circunstância dolorosa do exílio, do isolamento forçado, da desestabilização da vida pessoal, das perseguições políticas, não contaminaram a obra nem a pessoa de Dirceu com amarguras e rancores.
Tampouco contaminaram a obra de Dirceu suas convicções ideológicas. Militante comunista e discípulo de Marx, podemos dizer que Dirceu nunca foi, como de resto o próprio Marx também nunca o foi, um marxista doutrinário.
Do marxismo Dirceu valeu-se do método e da genialidade das análises histórico-concretas de Marx sem prescindir, todavia, das contribuições e ensinamentos de todos os demais gênios das ciências sociais para interpretar, sem qualquer mecanicismo, a história do povo de Alagoas. História que ele viu e reviu desde o olhar das chamadas classes subalternas, desde o olhar dos escravos, dos negros, dos índios, dos trabalhadores, dos homens e mulheres do campo, das classes médias, da grande maioria formadora do universo do trabalho.
Filho de Maragogi, voz tardia mas nem porisso absolutamente legítima dos grandes cenários históricos do Quilombo dos Palmares, da Revolta dos Cabanos, das Invasões Holandesas, da resistência anti-Colonial, da saga representada pelos trabalhadores da cana-de-açúcar e sua inimaginável opressão, da riqueza e exuberância da civilização da Mata Atlântica e do verdor dos nossos mares, Dirceu deu a Alagoas uma extraordinária contribuição para o resgate de sua memória.
E no contexto desse resgate, ajudou-nos de uma forma absolutamente rara, ou seja, ajudou-nos e vai continuar nos ajudando a conhecer e melhor formar nossa identidade como civilização brasileira, nordestina e alagoana, bem como ajudou-nos e vai continuar nos ajudando e fornecendo notáveis instrumentos para aumentar nossa autoconsciência como povo e sociedade.
O Partido Popular Socialista, sucedâneo do antigo PCB, através do seu Diretório Nacional e do seu presidente nacional, Roberto Freire, pediu-me para transmitir a toda a comunidade de estudantes, professores, funcionários e técnicos da UFAL as mais calorosas congratulações por este ato de justiça e de reconhecimento acadêmico a este grande amigo, grande mestre e grande alagoano que é Dirceu Accioly Lindoso. Muito Obrigado.



