Posts para a tag ‘religião’

Não existe fundamentalismo ateu

segunda-feira, dezembro 12th, 2011

Reproduzo a resposta de Daniel Sottomaior, presidente da Associação Brasileira dos Ateus e Agnósticos, ao artigo de integrante da Opus Dei que critica o “fundamentalismo ateu†brasileiro.

daniel sottomaior.jpg

Legenda: Sottomaior, presidente da Atea

O fundamentalismo de cada dia

Segundo Ives Gandra, em recente artigo nesta Folha (“Fundamentalismo ateu”, 24/11), existe uma coisa chamada “fundamentalismo ateu”, que empreende “guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã”. Nada disso é verdade, mas fazer os religiosos se sentirem atacados por ateus é uma estratégia eficaz para advogados da cúria romana. Com o medo, impede-se que indivíduos possam se aproximar das linhas do livre-pensamento.

É bom saber que os religiosos reconhecem o dano causado pelo fundamentalismo, mas resta deixar bem claro que essa conta não pode ser debitada também ao ateísmo.

Os próprios simpatizantes dos fundamentos do cristianismo, que pregam aderência estrita a eles, criaram a palavra “fundamentalista”. Com o tempo, ela se tornou palavrão universal. O que ninguém parece ter notado é que, se esses fundamentos fossem tão bons como querem nos fazer crer, então o fundamentalismo deveria ser ótimo!

Reconhecer o fundamentalismo como uma praga é dizer implicitamente que a religião só se torna aceitável quando não é levada lá muito a sério, ideia com que enfaticamente concordam centenas de milhões de “católicos não praticantes” e religiosos que preferem se distanciar de todo tipo de igrejas e dogmas.

Já o ateísmo é somente a ausência de crença em todos os deuses, e não tem qualquer doutrina. Por isso, fundamentalismo ateu é um oximoro: uma ficção ilógica como “círculo quadrado”.

Gandra defende uma encíclica papal dizendo que “quem não é católico não deveria se preocupar com ela”. No entanto, quando ateus fazem pronunciamentos públicos preocupa-se tanto que chama isso de “ataque orquestrado aos valores das grandes religiões”.

Parece que só é ataque orquestrado se for contra a religião. Contra o ateísmo, “não se preocupem”.

Aparentemente, para ele os ateus não têm os mesmos direitos que religiosos na exposição de ideias.

A religião nunca conviveu bem com a crítica mesmo. Já era hora de aprender. Se há ateus que fazem guerra contra cristãos, eu não conheço nenhum. Nossa guerra é contra ideias, não contra pessoas.

Os ateus é que são vistos como intrinsecamente maus e diuturnamente discriminados pelos religiosos, não o contrário. Existem processos movidos pelo Ministério Público e até condenação judicial por causa disso.

O jurista canta loas ao “respeito às crenças e aos valores de todos os segmentos da sociedade”, mas aqui também pratica o oposto do que prega: ele está ao lado da maioria que defende com entusiasmo que o Estado seja utilizado como instrumento de sua própria religião.

Para entender como se sente um ateu no Brasil, basta imaginar um país que dá imunidade tributária e dinheiro a rodo a organizações ateias, mas nenhum às religiosas; que obriga oferecimento de estudos de ateísmo em escolas públicas, onde nada se fala de religião.

Um país que assina tratados de colaboração com países cuja única atividade é a promoção do ateísmo; cujos eleitores barram candidatos religiosos; que ostenta proeminentes símbolos da descrença em tribunais e Legislativos (onde se começam sessões com leitura de Nietzsche) e cuja moeda diz “deus não existe”.

E depois os fundamentalistas que fazem ataque orquestrado somos nós.

 

PDF Printer    Enviar artigo em PDF   

Marighella e a religião

segunda-feira, dezembro 5th, 2011

Dia 5 de dezembro marca o centenário de nascimento de Carlos Marighella, assassinado durante o regime militar. Importante dirigente do Partido Comunista, ele foi deputado constituinte em 1946. Na sessão do dia 4 de julho daquele ano, quando estava em discussão a liberdade de culto no país, o parlamentar baiano fez um longo pronunciamento, publicado depois pela revista Problemas com o título “A Religião, o Estado, a Famíliaâ€. Em modesta homenagem a esse herói brasileiro, que dedicou a vida à causa do socialismo e do progresso, reproduzo trechos do discurso:

Hoje, coube-me a honra de debater, em nome da minha bancada, o ponto a que acabo de referir-me — a separação da Igreja do Estado.

Assim como nem sempre existiu união da Igreja com o Estado, nem a sua separação, é necessário acentuar que o Estado também nem sempre existiu. É que o Estado não é senão a resultante dos antagonismos de classes; e, mais, é a instituição que visa refrear esses mesmos antagonismos. Como instrumento de domínio de classes, tem ele de valer-se de todos os meios para impor a vontade das classes dominantes sobre as dominadas.

Marighella.JPG Marighella.JPG
20K

Carteira de filiação de Marighella no Partido Comunista

Imposto, polícia, cadeia, tribunal, são como que os quatro pontos cardeais do Estado, instrumento de dominação de classes. E não deixa, também, de valer-se de um outro meio, exatamente a religião.

Lenin afirmava — e tenho de citar Lenin porque estou fazendo a demonstração de uma tese materialista-dialética: “A religião é um aspecto da opressão espiritual que pesa sempre e por toda a parte sobre as massas populares submetidas pelo trabalho perpétuo em proveito de outrem, pela miséria e a solidão. A fé em uma vida melhor, no além, nasce, inevitavelmente, da impotência das classes exploradas contra os exploradores tanto quanto a crença nas divindades, nos diabos, nos milagres etc. . . nasce da impotência do selvagem em luta contra a natureza”.

Quer dizer: a religião adormece, a religião faz que os explorados não se possam erguer contra os seus exploradores, a não ser quando se tornam cientes da própria exploração e adquirem a consciência da classe. Mas, assim como a religião era utilizada pelo Estado, a Igreja o foi. O mesmo aconteceu com o Cristianismo. Entretanto, como a tese que procuro demonstrar é de que o Estado nem sempre se tem mantido ligado à Igreja e à religião, faz-se mister, no estudo do início do Cristianismo, observar que este representou uma religião de deserdados, de escravos e, por isso mesmo, se opôs ao Estado durante muito tempo.

Era de Kautsky, ao tempo em que era marxista, a seguinte interpretação: “A igreja cristã tem sido uma organização de domínio, ora no interesse de seus próprios dignitários, ora no interesse dos dignitários de outra organização, o Estado, onde este conseguiu obter o controle da igreja. Quem batesse estes poderes teria também que bater a Igreja. A luta pela Igreja, bem como a luta contra a Igreja, tem sido, por conseguinte, uma causa de partido, à qual se acham ligados os mais importantes interesses econômicos”.

Nós, comunistas, sabemos respeitar as religiões; somos pela liberdade completa de consciência e não desejamos, de forma alguma, que essa liberdade seja utilizada pelos dominadores, pelos fascistas, pelos reacionários, pelos senhores feudais para acorrentar o nosso povo, miseravelmente, como o têm feito.

Não combatemos religiões, porque não seria útil, proveitoso, nem mesmo científico, visto como a religião só desaparecerá quando desaparecerem os antagonismos de classe. É necessário compreender que, hoje, todo o povo sofre sem que seus dominadores se lembrem de procurar ver se os que estão sendo explorados são católicos, positivistas, teosofistas, ateus, ou pertencem a qualquer outro credo religioso. O patrão, capitalista explorador, não paga melhor salário a seus operários, porque se trata de um católico se a religião desse patrão antiprogressista é a católica. O sistema de exploração é o mesmo. A única divisão que se pode fazer no seio da sociedade é realmente entre os explorados e os exploradores.

Daí, Senhores Constituintes, a posição do Partido Comunista em querer lutar, com todas as forças da Democracia, como Partido democrata que é, para garantir, no Brasil, a liberdade de consciência, respeitando-se todos os credos, fazendo que se não estabeleça privilégio de um credo sobre os demais, ou não se recorra a essa situação, no sentido de impedir a liberdade democrática e acorrentar mais ainda a nossa gente.

Assim, Sr. Presidente, dentro de nossa tese materialista dialética, interpretamos a separação entre a Igreja e o Estado não considerando de maneira alguma entre eles união eterna, mas vendo tudo em movimento e ligando sempre esses fenômenos às condições materiais de vida, às relações de produção, porque religião não é coisa que tenha proporcionado a existência do homem e, sim, porque a vida deste é que faz a religião. Quanto ao Estado, como nem sempre existiu, também não poderia ser dado aqui como coisa estática que tivesse sua existência sempre ligada à Igreja ou à religião.

Se marchamos para a democracia, se estamos sinceramente devotados a respeitar a opinião de nosso povo e acatar a realidade, é preciso considerar que a liquidação do monopólio da terra é o primeiro passo para chegarmos à democracia a que aspiramos. Mas também não existirá democracia, em hipótese nenhuma, sem a liberdade de culto, sem o casamento civil — casamento civil sem nenhuma intromissão da religião, — sem o ensino leigo e sem o divórcio.

PDF    Enviar artigo em PDF   

O que mais quer a igreja católica?

segunda-feira, outubro 10th, 2011

Reproduzo, por instigante, artigo do jornalista, mestre em Comunicação pela UnB, autor de A arte de pensar e fazer rádios comunitárias, Dioclécio Luz:

A igreja católica não quer abrir mão do espaço que conseguiu na Empresa Brasil de Comunicação (EBC). No início de 2011, depois de prorrogar por um ano seu posicionamento, o Conselho da EBC decidiu que os programas religiosos – cultos e missas – deveriam sair da grade de programação da TV Brasil. Para chegar a isso, a EBC colocou o tema em consulta pública. Por fim, decidiu que os programas das igrejas tinham um prazo para sair do ar – setembro de 2011 – e seriam substituídos por programas educativos que tratassem do fenômeno religioso. É o lógico, é o correto, é o decente.

Mas, quando estava prestes a cair o prazo para a igreja abandonar o lugar que não lhe pertence, ela apelou para o “tapetãoâ€, a Justiça. E achou um juiz que manteve os privilégios.

Não me espanta que a igreja católica tenha feito isso. Acharia estranho se ela – democraticamente – acatasse a decisão. Por quê? Porque estamos tratando de uma religião acostumada a mandar, dar ordens, determinar como o mundo girar e, naturalmente, ter poder acima de todos os outros poderes. A igreja se acha o deus que ela inventou. E para deixar bem claro quem manda, coloca o crucifixo (seu símbolo) no plenário da Câmara dos Deputados, no Senado, no Supremo Tribunal Federal, nas várias Assembleias Legislativas. Inaugurada em 2010, a Câmara Distrital do Distrito Federal ostenta no plenário um grande crucifixo. Sobre a mesa, aberta, a Bíblia alerta sobre quem manda ali. O cristianismo – católico ou evangélico – não abre mão do poder.

A igreja católica entrou na justiça contra a EBC porque ela sempre mandou neste país – em todos os poderes – e não admite deixar esse poder. É claro que, do ponto de vista da moral, não há sustentação para ela permanecer ocupando esse espaço público. Mas desde quando a igreja tem pudores com relação à usurpação de espaços públicos?

A Constituição proíbe, mas…

Vide o que ocorre em todas as cidades do Brasil. A igreja sempre pegou os melhores terrenos para construir seus templos, suas catedrais, suas casas paroquiais etc. Isso não é coisa do passado. O caso de Brasília é emblemático. Ao buscar um terreno para instalar a Universidade de Brasília, Darcy Ribeiro descobriu que a melhor área já tinha dono: a igreja católica. Em seu livro Confissões, ele relata como teve que ir ao Vaticano para negociar com o papa o terreno.

Como a igreja conseguiu um terreno numa cidade que mal tinha sido inaugurada? Ela comprou esse terreno? Claro que não. Do mesmo modo, não veio um centavo do Banco do Vaticano para comprar o terreno e construir a catedral de Brasília, na Esplanada dos Ministérios. É a única religião instalada na Esplanada dos Ministérios. Como ela conseguiu pegar esse terreno público em área nobre, destinada somente aos ministérios? Ora, porque sempre foi poder.

Hoje, quando a catedral precisa de reforma ou de ampliação de suas instalações, são empregados recursos públicos. Para construção do batistério, por exemplo, ela recebeu R$ 1 milhão. Na verdade, essa coisa de receber dinheiro público para reconstrução de igrejas “seria†ilegal, mas como elas (essas igrejas velhas) recebem a tipificação de “patrimônio históricoâ€, sempre têm dinheiro público para sua reconstrução. Isso está em lei. Ou melhor, no acordo assinado pelo governo brasileiro com a Santa Sé – a gente reconstrói as igrejas deles. A Constituição proíbe, mas como se trata da igreja católica… Ou a sociedade aceitaria o investimento de recursos públicos num templo da Igreja Universal?

Revelações do passado

Esse tipo de coisa acontece em todo Brasil. No Rio de Janeiro, por exemplo, as pessoas acham normal ter uma imensa imagem católica (o Cristo) num espaço público, construído com recursos públicos, mas sob o comando da igreja. Ela fatura para “administrar†essa imagem. Em determinadas regiões, como no Nordeste, a força da igreja é tal que metade dos terrenos de alguns municípios lhe pertence. Sem contar o seu esforço de continuar dominando o povo pobre com milagres e mistificações. O melhor exemplo, no caso, é Juazeiro do Norte (CE), onde se estimula o sofrimento como forma de moeda de troca do deus criado pela igreja católica e se reconstrói a imagem de Padre Cícero, como santo, e agora – acredite-se – até como “ecologistaâ€.

Igreja_-_TV.jpg

Acontece que, ao entrar com a ação na Justiça contra a EBC, a igreja católica não percebeu que o mundo mudou. Acostumada a mandar e a não receber críticas, agora ela está recebendo um monte delas. Pior, seu passado está sendo revelado. Pior ainda, revelou novamente sua ambição por mais poder e riqueza.

Consta que a ação pela manutenção dos programas foi apresentada pela arquidiocese do Rio de Janeiro na 15ª Vara de Brasília. Na ação, a igreja diz que houve “discriminação religiosaâ€. Se fosse sincera deveria dizer: “Olha, estamos acostumados a mandar no Brasil, por que vocês não obedecem?†Ou então: “Queremos manter esse espaço porque sempre ocupamos espaços públicos e ninguém nunca reclamouâ€.

Ações como essa da igreja têm a ver com a sua decadência. O número de católicos caiu quase 20% nos últimos 10 anos; falta quem queira ser padre. Tudo isso tem a ver com a sua imagem (manchada com as acusações de pedofilia acobertadas pelo papa); a falibilidade da retórica cristã sustentada por dogmas e imposições (que não convencem ninguém); revelações do seu passado de (muita) lama e sangue, incluindo matança de não-cristãos, de mulheres (somente por serem mulheres) e até relações com Hitler e Mussolini.

Não é preciso ser ateu

A doutrina ou moral católica é uma questão central nesse debate. Porque, afinal, o que a igreja quer é o direito de usar um espaço público – rádio e TV – para difundir que a mulher não vale nada; que homossexualidade é doença; que a camisinha não deve ser usada “porque não garante sexo seguroâ€; que o homem veio da mulher; que o sofrimento é bom; que somos todos pecadores; que o casamento deve ser eterno. O mais espetacular é que quem prega tudo isso são pessoas a quem foi proibido namorar, transar, casar, ter filhos, formar família. Bem, caiu a ficha: muita gente descobriu o óbvio: essa pessoa não tem condições de dar conselhos sobre família, filhos, sexo, moral.

Vejamos a questão política. Inventou-se na América Latina a tal Teologia da Libertação. A doutrina não mudou uma linha, apenas incorporou o pobre em seus discursos. Entenda-se o processo: ela não abandonou sua relação com o poder, com os ricos; somente acrescentou os pobres. Fez-se uma releitura dos ensinamentos bíblicos e se descobriu que Jesus era esquerdista e revolucionário. Surge a igreja progressista. Como se por acaso essa doutrina e essa hierarquia tivessem algo de socialista ou democrático.

No bojo disso tudo, para suprir a carência de religião do revolucionário de esquerda, dá-se um nó no marxismo e inventa-se o marxista cristão, o marxista transgênico. Desse modo todos ficam felizes: não é preciso ser ateu para ser marxista; o cristianismo aceita. No túmulo, Marx se revolve com esta invenção moderna da igreja. Patologia tupiniquim. Freud já explicou essa carência que faz com que o militante não consiga viver sem pedir a benção aos padres.

Morte anunciada

A igreja tem poder sobre os espaços públicos, mas também atua na educação (é dona das escolas mais ricas) e, principalmente, na comunicação. Embora se apresente como aliada do movimento pelo direito à comunicação (tem gente que acredita nisso), a igreja católica (progressista? direitista?) é “dona†de 46 emissoras de televisão, tem 863 retransmissoras e nove grupos filiados. Essa igreja católica dos padres de direita e dos “progressistas†possui 133 emissoras de rádio. Alguns programas ela consegue retransmitir por mais de mil emissoras. (Fonte: www.donosdamidia.com.br).

Por que essa igreja não se satisfaz com o que tem? Rica em finanças, dona de escolas, terras, emissoras de rádio e TV, ela ainda quer mais. Qual o limite para a ambição da igreja católica? A resposta é: a igreja tem um projeto de poder eterno e para conseguir isso ela precisa sempre e sempre juntar mais e mais poder. Este seu projeto não aceitaria jamais abrir mão de um espaço na TV e no rádio, mesmo que seja moralmente indefensável. Mesmo sabendo que se encontra em processo de extinção – ou talvez por isso mesmo. É o seu jeito de evitar a morte anunciada.

***

Publicado originalmente em 04/10/2011 na edição 662 do Observatório de Imprensa.

Instiguemos também no twitter: @Carlopo

 

Create PDF    Enviar artigo em PDF   

Ateus e agnósticos podem desacreditar ou duvidar de Deus?

segunda-feira, julho 11th, 2011

A pergunta foi feita e respondida por Mariana Ushli Poloni, no seu blog Le Pitanga, o texto abaixo, que reproduzo pela exposição simples, coerente e, a meu ver, correta na sua conclusão.

ateuhitler.bmp

Eis uma grande questão a ser levantada. Muito mais do que uma questão de cor, de classe social, raça, a religião (ou falta dela) mexe com nossa fé. Você não pode impor fé ou crença à alguém. Ninguém pode obrigar outra pessoa a Acreditar, pode-se obrigá-la a dizer que acredita, agir como se acreditasse, mas o seu fundo espiritual nesse aspecto continuaria vazio.

Agnósticos e ateus têm o direito de acreditar, desacreditar ou duvidar da existência de Deus?

Eu honestamente nunca pensei sobre isso e não me recordo de conhecer algum Ateu ou Agnóstico.

Olhando por uma visão não preconceituosa e de respeito a qualquer ser humano, a resposta é simples: sim. Porém, na história do mundo a Igreja perseguiu e matou milhares de pessoas em nome de um Deus que muitos não compartilhavam a mesma fé.

Ateus e agnósticos passaram suas vidas escondidos e calados. Os poucos que tiveram coragem de expressar seus pensamentos e ideias não estão mais vivos.

A influência da Igreja Católica atualmente está longe de ser desprezível, pois um sexto da população mundial é católica.

Há quem diga que os tempos mudaram e que atualmente “não crer†não é mais uma questão levada a ferro e fogo (vida ou morte) pela Igreja. De fato, a Igreja perdeu muito do seu poder. Na antiguidade a Igreja já foi o poder maior dentro da política de uma sociedade e era ela quem ditava regras e julgava o certo e errado. Atualmente a Igreja em (quase) nada interfere na forma de governar um país.

Recentemente ateus e agnósticos decidiram não se calar mais perante as descriminações. Através da ATEA, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, retomaram seu poder de fala e suas reinvidicações por respeito.

Em setembro de 2010 a ATEA protocolou uma ação contra o José Luiz Datena. Em um de seus programas na Bandeirantes, no mês de agosto, Datena relata a ação de bandidos que entram num sítio, roubam e ainda estupram uma mulher. Em seu relato ele afirma que esses bandidos “não possuem Deus no coraçãoâ€.  Logicamente que membros da ATEA se enquadram nessa frase e nem por isso são criminosos sem escrúpulos. Datena ainda comenta no ar, afirmando “que se lasque quem não acredita em Deus… quem não acredita em Deus geralmente não tem limites…â€

A ATEA esta veiculando uma campanha patrocinada por ateus em ônibus de Porto Alegre e Salvador, com cartazes que nos fazem pelo menos pensar.

A ideia da campanha é clara e não tem como objetivo ganhar seguidores e sim encontrar o seu espaço dentro de uma sociedade majoritariamente católica e nesse aspecto preconceituosa. “Ter um lugar à sociedade significa também que nossos pontos de vista têm o mesmo direito de exposição que todos os demais, atentando sempre para críticas em tom civilizado dirigidas às idéias, e não a pessoas.â€

Nesse post falo da Igreja Católica, pois essa é minha religião. Eu sou Católica e fui educada a vida inteira em um colégio religioso. Acredito em Deus e em Jesus Cristo, assim como questiono alguns pontos e condeno alguns comportamentos da Igreja. E isso não me faz melhor ou pior que ninguém.

Porém a minha crítica aqui vale para todas as religiões, lembrando que um dos maiores massacres na moral dos EUA, a queda do WTC, foi assinado por muçulmanos.

Admiro a iniciativa da ATEA e como eles compartilho a ideia de que CARÃTER esta desvinculado de religião. Não precisamos de um Deus pra nos dizer o que é moral, o que é certo.  É necessário respeitar a opinião, cultura e religião de cada um.

Num planeta globalizado, mas com tantas diferenças de raças, povos, culturas, formas de governar e viver, é imprescindível o conceito de moralidade para mantermos o equilíbrio da sociedade, respeitando o espaço e a individualidade de cada um. Se cada povo precisa de um Deus pra encontrar a moralidade, que assim seja. E se existe pessoas que a encontram de forma totalmente desvinculada a Deuses e religiões, que assim seja também.

O que é inconcebível é não só ser dependente de um Deus ou doutrina para alcançar a civilidade, como usá-los para transgredir os direitos do outro, matando, aprisionando e discriminando.

Em minha opinião um dos cartazes mais emblemáticos da campanha da ATEA carrega a seguinte frase: “Somos todos ateus com os deuses dos outros”.

Então porque condenar aqueles que não acreditam em Deus algum, ou que duvidem da existência e de uma força maior?

PDF    Enviar artigo em PDF