Posts para a tag ‘PCdoB’

O anticomunismo grosseiro de Eugênio Bucci

domingo, outubro 30th, 2011

Eugênio Bucci, professor de comunicação que influencia as novas gerações de jornalistas com seus livros e aulas, vendeu sua força de trabalho para um panfleto anticomunista publicado pelas Organizações Globo, a edição do semanário Época que teve por capa “PCdoBolsoâ€, onde estava estampada uma adulteração da logomarca do PCdoB. Os editores determinaram ao professor (de pronta obediência) que escrevesse “Por que roubam os comunistas?â€.

ccc.jpg

O título já nos classifica, a mim, a vocês, camaradas, como ladrões, e o autor, talvez com conhecimento de causa (no artigo, ele insinua já ter compartilhado esperanças de uma sociedade melhor, ou seja, não capitalista), propõe-se explicar porque roubamos.

Primeiro, faz digressões para mostrar intimidade da produção cultural, em especial cinematográfica e livresca. Tenta valorizar-se enquanto testemunha não só pessoal, mas intelectual – afinal, é professor universitário, autor de livros adotados em escolas e até participou do Governo Lula, como diretor da Rádio Nacional (onde conheceu o governo por dentro. Como dizia o humorista Leon Eliachar a respeito das mulheres que terminavam o relacionamento com ele, Bucci está “cuspindo no prato que o comeuâ€).

Segundo o artigo na Época, quando Che morreu (em 1967, Bucci tinha 9 aninhos, mas acusa), “os ladrões proliferaram nas fileiras de esquerda. Rechonchudos e felizes. Não roubaram apenas automóveis, mas utopias. Transformaram sonhos dos camaradas em butim. Estão por aí, de terno, gravata e dinheiro vivo dentro de casa. Nisso se resume o grande dilema existencial e político das organizações de esquerdaâ€. Vale lembrar: nesse período, alguns “rechonchudos e felizesâ€, no Brasil, perseguidos nas cidades, estavam se deslocando para o Sul do Pará, onde aconteceu anos depois a Guerrilha do Araguaia, onde menos de uma centena de “ladrões de utopia†enfrentaram milhares de militares em defesa da democracia e do povo. Mas isso são fatos que prejudicariam as acusações de Bucci.

Segue o formador de profissionais de comunicação: “Passemos ao Brasil de 2011. Passemos para hoje. Estamos aí atordoados com mais um escândalo, outra vez embaralhando ONGs, mas agora com militantes e ex-militantes do PCdoB e autoridades do Ministério dos Esportes. Passarão meses, talvez anos, até que saibamos quem de fato tem culpa no cartório, se é que o tabelião e os cartorários não estavam no esquema. Desde já, porém, sabemos que há milhões e milhões de reais em irregularidades, tudo em nome de dar assistência a crianças carentes que não recebiam assistência nenhumaâ€.

Uau! O escriba se protegeu! Não a ponto de investigar que o ministério não é “dos Esportesâ€, mas “do Esporteâ€, mas a afeição à exatidão anularia todo o seu bolodório. Nunca saberemos o que de fato aconteceu, já que até “o tabelião e os cartorários†estavam no esquema que ele não conseguiu comprovar, mas que a família Marinho e os outros donos da mídia monopolista que emprega gente como Bucci dizem ser verdade, e ponto final. O mentor de hordas de jornalistas descomprometidos com a apuração dos fatos já se traiu, em outros momentos, defendendo uma “objetividade†alheia aos fatos, e que este seu texto mostra ser uma farsa, como as muitas da ideologia burguesa, desde que se tornou reacionária. Escreveu ele, em “A missão de servir ao cidadão e vigiar o poder†(25/9/2007) que “os veículos jornalísticos, na busca de aperfeiçoar os parâmetros de sua governança, vêm desenvolvendo métodos que garantem independência de gestão editorial em relação não apenas às intervenções dos anunciantes, mas também às interferências – demandas extra-jornalísticas – dos acionistas†(não tem como nomear quaisquer desses veículos).

Continua: “Apartidário, equilibrado – e livre. Se quer ser fiel à sua responsabilidade social, o jornalista não deve permitir que agendas, causas ou doutrinas totalizantes de uma parte da sociedade – venham elas de ONGs, de igrejas, de governos, grandes corporações, de partidos, de onde vierem – contaminem seu trabalho. É mais adequado que ele procure desvincular-se material e formalmente desses pólos de poder e de influência, sem que isso signifique desmerecer a legitimidade que eles têmâ€.

O jornalista é, portanto, um ser humano sem causa, sem doutrina, sem governo, sem patrão, sem partido, sem religião, sem ONG. Apesar de um mal tamanho, Bucci ainda deu uma entrevista, no dia seguinte, afirmando: “A comunicação pública só irá vingar entre nós se for independente, tanto dos governos quanto dos mercados, se for gerida com austeridade, se for uma escola para novas linguagens, se encontrar sua especificidade insubstituível. Isso é possível, mas ainda falta muito chãoâ€. Bem, falta chão, mas garante seu sustento, quando vende sua força de trabalho para a mídia monopolista e se torna teórico da ideologia capitalista, anticomunista, portanto.

Em sua diatibre contra nós, Bucci ainda diz que, mais do que ladrões de dinheiro, somos também de utopias. Estamos “por aí, de terno, gravata e dinheiro vivo dentro de casaâ€. Não vou aprofundar a “acusação†de que usar terno, gravata ou ter dinheiro vivo em casa é crime – até os Marinhos, Cívitas, Frias e Mesquitas, proprietários da mídia monopolista brasileira, devem ter sentido algum desconforto quando leram isso. Vamos analisar a questão da utopia.

Utopia se refere a um projeto de sociedade, justa, mas ainda inexistente. Neste sentido, os comunistas, materialistas dialéticos, superaram a visão sonhadora do projeto, e o trouxeram para o factível, mas levando em conta as circunstâncias em que as pessoas de fato vivem, para mudar a realidade circundante. Assenhoreados de tal visão, os comunistas atuaram no Ministério do Esporte, primeiro no Governo Lula, depois no Governo Dilma.

Uma Pasta que se voltava em especial para o esporte profissional e para a demanda dos desportistas de várias modalidades, passou a adotar, sob a gestão comunista, uma orientação de inclusão social, que tantos resultados positivos tem trazido para o país e seu povo.

Tratando o tema jornalisticamente, ouçamos pessoas que labutam na área. Não é um escriba de aluguel, mas a ex-jogadora de voleibol Ana Mozer quem, voluntariamente, testemunhou no Twitter: “Minha experiência com políticas públicas de esporte começou em 2000 e segue até hoje. (…) Nesses anos, vi o país avançar, participei de vários fóruns, encontros, conferências. O Brasil do esporte ampliou, aumentou a visibilidade. Se debateu mais, aumentaram as fontes de financiamento para ações de esporte. Concentrou no rendimento, mas também criou outras frentes. Ainda há muito a avançar, mas reconheço o trabalho de Orlando Silva e equipe. Que o próximo siga avançando”.

Não posso deixar de testemunhar a alegria e orgulho que me proporcionaram a atitude do Orlando Silva, dirigente do PcdoB e ex-ministro do Esporte, que fez juz à tradição que vem de Dimitrov, na época do domínio nazifascista na Europa, de que “a defesa acusa†e partiu para cima de seus detratores durante o episódio que o levou a pedir demissão do Ministério. E também da garra revolucionária dos camaradas, amigos do Partido e democratas que, nas redes sociais e por todos os meios defenderam a causa revolucionária nesta que foi, ao que tudo indica, a maior operação de “cerco e aniquilamento†dos comunistas desde o ataque final da ditadura militar à gloriosa Guerrilha do Araguaia.

Henfil, o genial humorista, irmão do Herbert de Souza, criou nos tempos da ditadura militar um “cemitério dos mortos-vivosâ€, onde enterrava pessoas que, mesmo talentosas, acabavam prestando serviço aos algozes. Vez por outra, ressuscitava algumas, como Clarice Lispector e Elis Regina, porque elas – e não ele – haviam mudado de comportamento. Que Eugênio Bucci saia da vala comum. Pode ser bom para o país e os oprimidos, em que pese o que signifique para o seu “dinheiro vivo dentro de casaâ€, que poderá ser diminuído.

Lutemos pela verdade classista, também no Twitter: @Carlopo.

PDF Download    Enviar artigo em PDF   

A crise na visão de Delfim Netto e do PCdoB

segunda-feira, setembro 26th, 2011

Na semana que passou, Antonio Delfim Netto publicou o artigo Garantia legal, abordando a atual crise capitalista. Dias antes, Renato Rabelo fez uma intervenção sobre o mesmo assunto. As visões de mundo opostas dos dois analistas ficaram bastante evidenciadas.

Delfim escreveu que o capitalismo “é sujeito a crises porque: 1º) O próprio comportamento do homem oscila entre o entusiasmo e a depressão e 2º) As ‘respostas’ do sistema produtivo (variações da oferta) aos estímulos da demanda são, simultaneamente, condicionadas pelas incertezas do futuro opaco e pela natureza do avanço da tecnologiaâ€.

O presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Renato Rabelo, fez um informe ao Comitê Central, que o incorporou ao documento do encontro, afirmando: “Esta crise acelera o já constatado declínio progressivo e relativo da hegemonia do imperialismo estadunidense, enquanto cresce o papel da República Popular da China – país socialista – pela pujança da sua economia (o 2º. maior PIB do mundo: 5 trilhões e 700 bilhões de dólares, acima do Japão) e sua ascendente influência geopolíticaâ€. E, mais adiante: “Para compreender o essencial desta grande crise lançamos mão também de outras categorias: a luta de classes na fase atual da vida do capitalismo, e do conceito de que a economia é, em verdade, Economia Política. Os ultraliberais responsáveis pela crise continuam à frente do comando político de grandes potências. O neoliberalismo, embora desmoralizado pelo fracasso, recrudesceu no centro capitalistaâ€.

Duas abordagens sobre a mesma crise, duas visões distintas, de classe, do momento econômico. Delfim é um economista conceituado, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento (todos os cargos, durante a ditadura militar), professor emérito da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e professor titular de análise macroeconômica. No entanto, vê como primeiro fator de uma crise capitalista a oscilação humana “entre o entusiasmo e a depressãoâ€. E, no segundo fator, adjetiva o futuro (“opacoâ€, na sua opinião) e fica preso ao “deus mercado†(relação entre oferta e demanda) e ao avanço tecnológico. Nada de contradição entre modo e relação de produção. Nada de antagonismo entre a produção social e a apropriação privada. Nenhuma possibilidade de o avanço tecnológico converter-se em elevação do padrão de vida da comunidade e redução da jornada de trabalho. Embora filho de trabalhadores e apesar de ter começado sua vida profissional como contínuo (hoje chamado Office-boy) numa fábrica de sabonetes, ele se impregnou da ideologia burguesa e com ela faz suas análises. Como escreveu Marx no terceiro volume d´O Capital, “a economia vulgar se limita a interpretar, a sistematizar e a pregar doutrinariamente as ideias dos agentes do capital, prisioneiros das relações de produção burguesaâ€.

Diferente é a postura dos que se colocam sob a visão do mundo dos proletários, que, ao analisar o capitalismo, o fazem tendo por perspectiva, não o “futuro opacoâ€, mas a luta por uma nova sociedade que o substitua, como fez o presidente do PCdoB. Trata-se de uma indicação dada por Lênin, o líder da revolução socialista na Rússia de 1917, que, em Materialismo e empiriocriticismo, referiu-se aos economistas e pensadores burgueses como “caixeiros viajantes†dos capitalistas e disse ser tarefa dos marxistas “saber assimilar e reelaborar as aquisições destes ‘caixeiros’ (por exemplo, não dareis um passo no domínio do estudo dos novos fenômenos econômicos sem utilizar os trabalhos destes caixeiros) e saber cortar-lhes a tendência reacionária, saber aplicar a nossa própria linha e combater toda a linha das forças e classes que nos são hostisâ€.

Daí os comunistas acompanharem as análises dos economistas que são ideólogos e, até, sicofantas do capital, como os classificou Marx no primeiro volume d´O Capital, mas não verem na crise do sistema um problema de humor ou temperamento, e sim uma questão da essência deste tipo de sociedade dividida em classes exploradas e exploradoras. Como afirmou Renato Rabelo, insere-se “na concepção marxista acerca das crises do capitalismo, para nossa compreensão da situação atual, que as crises fazem parte dos ciclos do capital e, independentemente de suas intensidades, o capitalismo não se destrói por si mesmo. Se não for confrontado por alternativas distintas — que inaugurem um novo ciclo político e econômico, que levem a rupturas do sistema — ele encontra sempre saídas, embora provocando maiores desastres econômicos, sociais e políticos, para prosseguir com seu processo de expansão. A profundidade da crise é o fator objetivo, imprescindível à mudança radical, revolucionária. Mas se o fator subjetivo mudancista ou revolucionário, que é decisivo, não atua no sentido de nova condução, de novo ciclo, não haverá mudança nem revoluçãoâ€.

A crise está aí. Decisivo, no entanto, o fator subjetivo, a luta dos trabalhadores no campo econômico, político e ideológico. Luta que ganha maior potência se unida e organizada.

Lutemos também no twitter: @Carlopo

 

PDF    Enviar artigo em PDF