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O 11 de Setembro e o animal imundo

segunda-feira, setembro 12th, 2011

Reproduzo abaixo, artigo publicado há 10 anos pelo escritor português José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. No momento em que se rememoram os atentados terroristas nos Estados Unidos, é bom relembrar também uma abordagem da época. Uma análise que não serve para justificar os crimes do governo norte-americano no Afeganistão, no Iraque e, agora, na Líbia.

Sobreviventes dos ataques às Torres Gêmeas

O Fator Deus

Algures na Ãndia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá “ver†cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.

Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro.

Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras.

Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo.

Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Ãndia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez “aqui estou†quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “fator Deusâ€, esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o “fator Deus†o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra…) a bênção divina. E foi o “fator Deus†em que o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o “fator Deusâ€, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença…) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “fator Deusâ€. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.

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Livro didático: sobrou para o Stálin!

sexta-feira, junho 3rd, 2011

No dia 31 de maio, o ministro da Educação, Fernando Haddad, esteve na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado para falar sobre o material didático adotado pelo seu Ministério. Em especial, livros de história que enalteceriam a administração petista e criticariam a gestão tucana na Presidência da República, e o livro que ensina: “Mas eu posso falar ‘os livro?’. Claro que pode.â€

Após a argumentação inicial do ministro, que acusou os que criticaram o livro de Português de não o terem lido, o senador Alvaro Dias (PSDB-PR), referiu-se “a uma corrente do Partido Comunista Russo que, quando Stalin chegou ao poder, tentou introduzir uma nova língua do partido. Stalin não permitiu. Essa língua sepultaria a norma cultaâ€.
Para rebater o tucano, o ministro petista se valeu da velha cantilena de comparar Stalin com Hitler: “O senador Alvaro Dias fez uma referência ao Stalin que achei muito interessante, porque há uma diferença entre Hitler e Stalin que precisa ser devidamente registrada. Ambos fuzilavam seus inimigos, mas o Stalin lia os seus livros antes de fuzilá-los. Essa é a grande diferençaâ€.
Haddad, que se vangloriou de não criticar “um autor sem cobrir sua obraâ€, fazendo questão de frisar que defendeu tese de doutorado na Universidade de São Paulo, acabou não informando onde aprendeu que a “grande diferença†entre Hitler e Stalin é que o dirigente da URSS lia aos obras dos autores que fuzilava. Mas quem quiser se aprofundar a respeito das inúmeras diferenças – de classe, senhor ministro, de classe – entre o dirigente nazista e o dirigente comunista poderá consultar, dentre outros, “Stalin, história crítica de uma lenda negraâ€, de Domenico Losurdo (Editora Revan). Aliás, sobre o assunto educação, registra o livro:
“Aqueles que, com o delinear-se da crise da Grande Aliança, tinham começado a comparar a União Soviética de Stalin e a Alemanha de Hitler, foram duramente rebatidos por Thomas Mann. O que caracterizara o III Reich fora a ‘megalomania racial’ da pretensa ‘raça de senhores’, que pusera em ação uma ‘política diabólica de despovoamento’, e antes ainda de extirpação da cultura, nos territórios sempre de novo conquistados. Hitler se ativera à máxima de Nietzsche:’Se quiser escravos, é tolice educá-los como senhores’. Diretamente oposta era a orientação do ‘socialismo russo’, que, difundindo maciçamente instrução e cultura, demonstrara não querer ‘escravos’, mas ‘homens pensantes’ e, portanto, a serem postos no ‘caminho da liberdade’. Então se tornava inaceitável a comparação entre os dois regimes. Melhor dizendo, aqueles que argumentavam assim podiam ser suspeitos de cumplicidade com o fascismo, o qual declaravam querer condenar.”
Durante a audiência do ministro, o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) distribuiu aos presentes um livro sobre o poeta cearense Patativa do Assaré. Demonstrou que, língua padrão à parte, o português popular também produz arte de qualidade, e esta arte deve ter guarida também nos bancos escolares.
Por atinente, reproduzo artigo da professora e jornalista Dad Squarisi sobre episódios de revisão histórica e de trato da língua nas escolas:
Nós dá um jeitinho
A maior tragédia do Brasil? É o jeitinho. Sem regras claras, fica-se numa zona pantanosa. O sim não significa sim. O não tampouco quer dizer não. Tudo depende. Depende do crachá, do QI (quem indica), da conta bancária, da rede de amigos. Às vezes, do tempo. Outras vezes, do humor. Daí termos mais de 50 formas de responder à pergunta “como vai?” É um tal de vou indo, navegando, levando, como Deus quer, como o vento sopra, empurrando com a barriga. Etc. Etc. Etc. O jeitinho faz milagres.
Apaga fatos históricos. Graças a ele, o impeachment do Collor virou detalhe, indigno de figurar na história do Senado. Depois da grita — dos caras-pintadas aos historiadores —, o mais importante acontecimento da democracia contemporânea desta alegre Pindorama reconquistou a relevância. Ganhou espaço no túnel do tempo da Câmara Alta.
O jeitinho confunde ciências e muda conceitos. Erro não é mais erro. É preconceito linguístico. Escrever “os livro” ou “nós pega o peixe” figura em livro didático com o mesmo status de “os livros” e “nós pegamos o peixe”. Apesar dos esperneios de pais, estudantes, professores, empresários, políticos & gente como a gente, o ministro da Educação bate pé. Jura que os indignados estão indignados porque não leram o livro.
Há os que leram e os que não leram a obra. Uns e outros sabem que o buraco é mais embaixo. O ser bonzinho esconde baita discriminação. Acredita que o aluno da escola pública nunca vai chegar lá. Se aprender ou deixar de aprender a gramática normativa, não faz diferença. Ele não passará das tamancas. Não é por acaso que impera nas instituições públicas o jogo do faz de conta. O professor finge que ensina. O aluno finge que aprende. O Estado se finge de cego.
O teatro não se restringe ao português. Abrange matemática, história, geografia, ciências. Mas é mais notável na língua pátria. Sem a habilidade da leitura, o estudante não entende enunciados. Prejudica-se em todas as disciplinas. Sem a habilidade da escrita, não pode exprimir-se. Se sabe a resposta da questão, não consegue escrevê-la. Assim, cada macaco mantém-se no seu galho. Em resumo: o ensinar que “nós pega” está correto foi a gota d´água. Os que leram e os que não leram o livro sofrem na carne, no coração e no bolso o resultado do preconceito.
Nós seguimos no twitter: @Carlopo

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