No último mês, a mÃdia monopolista fez grande agitação tentando transformar em movimento de massas a luta contra a corrupção. Acionou repórteres, açulou ONGs, abriu espaço para parlamentares que se identificassem ou vissem proveito no tema. Nos artigos publicados, números inflados, porém sem imagens que os comprovassem. Nas argumentações, moralismo estéril e antipartidarismo militante. Os efeitos não foram os esperados, mas mexeu com o imaginário, em especial, da pequena burguesia.
Os espaços abertos pela mÃdia ao tema já começavam na própria convocação dos atos: no Rio de Janeiro, emissoras de radiodifusão e jornais impressos repercutiam uma manifestação “convocada†pela internet (na verdade, estava, dessa forma, sendo convocada por todos os meios de comunicação) que alcançaria 35 mil participantes. Alguns artistas se encantaram, mas ficaram desapontados ao chegar ao local: os cálculos mais otimistas resultaram em 3.500 pessoas, entre os habituais da praça onde aconteceu o ato e grevistas que lá realizavam seus protestos, nada relacionados com o tema. Mesmo assim, não foram mostradas fotos da “multidãoâ€, e sim alguns populares segurando cartazes contra a corrupção, contra o PT (“Abaixo a clePTocraciaâ€) e um “Pra frente, Brasil†– um dos lemas da ditadura militar instaurada em 1964.
No 7 de Setembro, em BrasÃlia, os manifestantes se misturaram com as dezenas de milhares de pessoas que foram ver a parada oficial diante da presidenta Dilma. A imprensa quis incluir todos no ato contra a corrupção, e acabou noticiando algo pouco convincente: a se crer no repórter, a manifestação começou tÃmida na Catedral de BrasÃlia, mas foi crescendo até atingir 25 mil pessoas! Sucesso tamanho, só os trios elétricos – e em Salvador! Também em BrasÃlia, apesar de movimento ser “apartidárioâ€, teve manifestante usando máscara com a cara do Zé Dirceu, dirigente petista odiado por parte da mÃdia monopolista e por integrantes dos partidos de oposição.
Optou-se, então, pela manifestação sem povo: um pastor que dirige uma ONG carioca, com grande cobertura da mÃdia, espetou 594 vassouras verde-amarelas numa praia no Rio e depois na Esplanada dos Ministérios. O número se refere à quantidade de parlamentares do Congresso Nacional. Garantida a cobertura jornalÃstica, o pastor foi recebido por alguns congressistas. Pretendia entregar uma vassoura para cada deputado e senador, mas a intenção foi frustrada: ao ver tantas vassouras novas à disposição, populares que nelas têm um instrumento de uso e não de polÃtica trataram logo de “expropriá-lasâ€, digamos assim. Diante do inusitado da situação, o tal pastor distribuiu aos passantes as poucas que lhes sobraram para a sua “limpeza éticaâ€.
Legenda: Manifestação “popular†sem povo
Novos atos estão sendo chamados para 12 de outubro. Uma convocação, na internet, diz: “Essas marchas são do povo e para o povo. Portanto, não queremos a presença de partidos polÃticos, sindicatos ou qualquer movimento ligado à polÃtica”. Ou seja, nada de gente politizada e organizada.
Há quem seja, se não mobilizado, ao menos seduzido por esse tipo de atividade. Há quem veja, com mais propriedade, nesse tipo de campanha um modo de a oposição elitista ganhar adeptos contra os aspectos mais populares e avançados do governo federal. No conto “O empréstimoâ€, Machado de Assis nos atentava: “Como deveis saber, há em todas as coisas um sentido filosóficoâ€.
É justa a indignação com a corrupção. É necessária a luta contra esse mal arraigado na sociedade dividida em classes. Vivemos no capitalismo e, sem o conhecimento das suas leis econômicas, não podemos alcançar eficazmente o propósito de transformar a realidade e colocar tais leis a serviço do homem, buscando dar fim à corrupção, por exemplo. Sem conhecer as possibilidades objetivas e subjetivas, nenhuma pessoa pode projetar um comportamento ético eficaz, que a realize e explicite como ser humano. Para combater efetivamente a corrupção, é necessário conhecer os movimentos causais e as leis da realidade que serão colocadas em operação.
O caminho provado para alcançar mudanças seguras na sociedade é o polÃtico. Neste estágio da história, a atuação partidária – em um partido de vanguarda, que se guie utilizando os métodos da ciência social mais avançada, o marxismo, para iluminar sua prática – é fundamental para o êxito da luta que almeja, ao fim e ao cabo, a tomada do poder polÃtico. Portanto, o benefÃcio da dúvida pode até levar a considerar-se ingênuo um movimento contra a corrupção que vete a participação dos partidos, das entidades sindicais e demais movimentos sociais avançados. Mas esse benefÃcio à dúvida tem que ser, realmente, incomensurável, ultrapassando até mesmo qualquer ingenuidade…
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