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Uma vassourada na ingenuidade

quarta-feira, outubro 5th, 2011

No último mês, a mídia monopolista fez grande agitação tentando transformar em movimento de massas a luta contra a corrupção. Acionou repórteres, açulou ONGs, abriu espaço para parlamentares que se identificassem ou vissem proveito no tema. Nos artigos publicados, números inflados, porém sem imagens que os comprovassem. Nas argumentações, moralismo estéril e antipartidarismo militante. Os efeitos não foram os esperados, mas mexeu com o imaginário, em especial, da pequena burguesia.

Os espaços abertos pela mídia ao tema já começavam na própria convocação dos atos: no Rio de Janeiro, emissoras de radiodifusão e jornais impressos repercutiam uma manifestação “convocada†pela internet (na verdade, estava, dessa forma, sendo convocada por todos os meios de comunicação) que alcançaria 35 mil participantes. Alguns artistas se encantaram, mas ficaram desapontados ao chegar ao local: os cálculos mais otimistas resultaram em 3.500 pessoas, entre os habituais da praça onde aconteceu o ato e grevistas que lá realizavam seus protestos, nada relacionados com o tema. Mesmo assim, não foram mostradas fotos da “multidãoâ€, e sim alguns populares segurando cartazes contra a corrupção, contra o PT (“Abaixo a clePTocraciaâ€) e um “Pra frente, Brasil†– um dos lemas da ditadura militar instaurada em 1964.

No 7 de Setembro, em Brasília, os manifestantes se misturaram com as dezenas de milhares de pessoas que foram ver a parada oficial diante da presidenta Dilma. A imprensa quis incluir todos no ato contra a corrupção, e acabou noticiando algo pouco convincente: a se crer no repórter, a manifestação começou tímida na Catedral de Brasília, mas foi crescendo até atingir 25 mil pessoas! Sucesso tamanho, só os trios elétricos – e em Salvador! Também em Brasília, apesar de movimento ser “apartidárioâ€, teve manifestante usando máscara com a cara do Zé Dirceu, dirigente petista odiado por parte da mídia monopolista e por integrantes dos partidos de oposição.

Optou-se, então, pela manifestação sem povo: um pastor que dirige uma ONG carioca, com grande cobertura da mídia, espetou 594 vassouras verde-amarelas numa praia no Rio e depois na Esplanada dos Ministérios. O número se refere à quantidade de parlamentares do Congresso Nacional. Garantida a cobertura jornalística, o pastor foi recebido por alguns congressistas. Pretendia entregar uma vassoura para cada deputado e senador, mas a intenção foi frustrada: ao ver tantas vassouras novas à disposição, populares que nelas têm um instrumento de uso e não de política trataram logo de “expropriá-lasâ€, digamos assim. Diante do inusitado da situação, o tal pastor distribuiu aos passantes as poucas que lhes sobraram para a sua “limpeza éticaâ€.

Legenda: Manifestação “popular†sem povo

Novos atos estão sendo chamados para 12 de outubro. Uma convocação, na internet, diz: “Essas marchas são do povo e para o povo. Portanto, não queremos a presença de partidos políticos, sindicatos ou qualquer movimento ligado à política”. Ou seja, nada de gente politizada e organizada.

Há quem seja, se não mobilizado, ao menos seduzido por esse tipo de atividade. Há quem veja, com mais propriedade, nesse tipo de campanha um modo de a oposição elitista ganhar adeptos contra os aspectos mais populares e avançados do governo federal. No conto “O empréstimoâ€, Machado de Assis nos atentava: “Como deveis saber, há em todas as coisas um sentido filosóficoâ€.

É justa a indignação com a corrupção. É necessária a luta contra esse mal arraigado na sociedade dividida em classes. Vivemos no capitalismo e, sem o conhecimento das suas leis econômicas, não podemos alcançar eficazmente o propósito de transformar a realidade e colocar tais leis a serviço do homem, buscando dar fim à corrupção, por exemplo. Sem conhecer as possibilidades objetivas e subjetivas, nenhuma pessoa pode projetar um comportamento ético eficaz, que a realize e explicite como ser humano. Para combater efetivamente a corrupção, é necessário conhecer os movimentos causais e as leis da realidade que serão colocadas em operação.

O caminho provado para alcançar mudanças seguras na sociedade é o político. Neste estágio da história, a atuação partidária – em um partido de vanguarda, que se guie utilizando os métodos da ciência social mais avançada, o marxismo, para iluminar sua prática – é fundamental para o êxito da luta que almeja, ao fim e ao cabo, a tomada do poder político. Portanto, o benefício da dúvida pode até levar a considerar-se ingênuo um movimento contra a corrupção que vete a participação dos partidos, das entidades sindicais e demais movimentos sociais avançados. Mas esse benefício à dúvida tem que ser, realmente, incomensurável, ultrapassando até mesmo qualquer ingenuidade…

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Legenda: The book is on the table, obra de Guto Lacaz

sexta-feira, maio 27th, 2011

Nem tudo que é novo é revolucionário, nem toda regra é reacionária

A opinião que expressei sobre a cartilha “Por uma vida melhorâ€, de Heloísa Ramos, animou várias leitoras pacientes e leitores severos a se manifestarem. Fizeram comentários com respeito e graça. Agradeço aos que gostaram, quero explanar melhor minhas opiniões aos que discordaram – não com a pretensão de mudar-lhes as convicções, mas de evitar possíveis mal-entendidos.

A escola é, ou deveria ser, lugar de formação do cidadão, de transmissão de conhecimentos, de contato com a ciência, de apreciação do belo. Paulo Freire dizia que “o ser cidadão é o ser político, capaz de questionar, criticar, reivindicar, participar, ser militante e engajado, contribuindo para a transformação de uma ordem social injusta e excludente.â€
No caso da aprendizagem da língua, a escola deve ampliar o universo linguístico do aluno, auxiliá-lo a adquirir um bom vocabulário e a combinar adequadamente as palavras. Saber expressar os próprios pensamentos e opiniões é fundamental para o exercício da cidadania e, também, para a ascensão social. Em “Vidas Secasâ€, Graciliano Ramos registra o sofrimento de Fabiano por não dominar as palavras.
Muitos dos nossos melhores jornalistas não tiveram curso superior, mas exploravam os recursos da língua, seja para expressar o vocabulário popular, seja para fazer-se entender por leitores da mais variada formação escolar. Autores como Guimarães Rosa e Mário de Andrade registraram em suas obras o falar popular, mas nem por isso prescindiram das regras gramaticais.
A fala e a escrita são modalidades diferentes da língua, mas pertencem ao mesmo sistema. E a língua padrão – a que deve ser ensinada na escola – favorece que um interlocutor distante no tempo e no espaço compreenda a mensagem escrita. Há a fala mais descontraída, numa conversa de botequim ou em casa; mas há também a mais planejada, numa apresentação ou entrevista para emprego. Na escola, e na vida, é preciso o conhecimento de ambas. Se ao professor cabe respeitar as diferenças de linguagem, cabe-lhe também ensinar a escrever e falar bem, com correção e elegância. Para isso, capítulos da gramática, como concordância, regência, formação de plural, normas da acentuação, conjugação verbal etc. não são um engessamento, mas uma ferramenta.
Estudante, tenha a idade que tiver, deve ter abertos para si novos horizontes na prática da escrita e da oralidade. Quando ler o Cebolinha tlocando letlas, saberá que a grafia adotada por Maurício de Souza é para registrar o problema de fala do garoto, e não que essas grafia e pronúncia são as corretas. Dominar o idioma exige empenho, estudo, trabalho – não é um ato espontâneo. Requer memória e raciocínio. “Todo o começo é difícil — isto vale em qualquer ciênciaâ€, indicou Marx, que escrevia em alemão, grego, inglês, francês e russo, respeitando as regras de cada idioma.
O livro de Heloísa Ramos é didático, e não de linguista ou para linguistas. Ninguém fala em preconceito verbal quando os professores de inglês ensinam “The book is on the tableâ€, mas haveria justa reclamação se ensinassem “The books is on the tables†(Os livros está nas mesas). E não é considerado discriminação se o mestre emendar os alunos que disserem “We is the Worldâ€, afirmando que “o certo é We are the World†(Nós somos o mundo).
Como escreveu em carta aberta ao ministro da Educação um professor de Brasília, língua não se constrói por decreto, mas se organiza a partir de um. Há de se ter uma organização e, mais ainda, há de se propagar, por todo o país, o modo CORRETO de se escrever, para que TODOS os brasileiros tenham chance de construir uma carreira como advogado, até chegar ao ponto máximo dela – ministro do Supremo Tribunal Federal.
Machado de Assis, que não tinha diploma, mas tinha sabedoria e conhecimento e era cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, ensinou-nos: “A influência popular tem um limite; e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razãoâ€. Vale para 1872, quando foi escrito, e vale também para hoje, adicionando, ao escritor, o comunicador e o professor.
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã,
versou Carlos Drummond de Andrade, mestre da língua que sabia como, inclusive, ferir dogmas gramaticais, quando tinha (e não “haviaâ€) uma pedra no caminho.

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